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- Lenta-te e caminha: o poder que recria o coração
(Quinta-feira, XIII Semana do Tempo Comum) A cura do paralítico em Capernaum, por volta de 1350, artista desconhecido Leituras da Missa: Am 7, 10-17 ; Salmo 18b/19 ; Mt 9, 1-8 No caminhamento da nossa fé, chegamos frequentemente diante de Deus com as nossas urgências visíveis, apresentamos-Lhe os nossos sofrimentos materiais, os nossos corpos cansados, os nossos projetos quebrantados. Somos frequentemente como os amigos desse paralítico no Evangelho de Mateus: queremos uma solução imediata para aquilo que nos impede de caminhar. E, no entanto, a liturgia desta quinta-feira da 13ª semana do Tempo Comum convida-nos a operar um deslocamento interior radical. Para compreender plenamente o que Jesus realiza em Cafarnaum, precisamos fazer memória do domingo anterior, onde o Cristo nos chamava a segui-Lo sem reserva, a deixar as nossas seguranças e os nossos apegos. Seguir a Cristo exige ser livre, flexível, vivo. Mas como caminhar no seguimento de Jesus, como ser digno d’Ele quando se está paralisado por dentro? É para esta cura fundamental que o Senhor nos convoca hoje. 1. A liberdade do profeta diante do conforto do santuário A primeira leitura de hoje mostra-nos uma outra forma de rigidez e de paralisia, a das estruturas religiosas desconectadas da vida divina. Amós encontra-se diante de Amasias, o sacerdote de Betel. Amasias gere a religião como uma carreira e uma ferramenta política. Para o sacerdote Amasias, a palavra de Deus deve ser rentável e confortável, eis por que diz ao profeta Amós: «Vai-te daqui, foge para a terra de Judá; é lá que poderás ganhar a tua vida fazendo o teu ofício de profeta.» Além de ser contra o conteúdo da pregação de Amos, aqui vemos que o sacerdote Amasias vê o profetismo como um ofício, um ganha-pão. Mas a palavra de Deus não se comercializa e não se domestica. A resposta de Amós é admirável, cheia de liberdade e de humildade: «Eu não era profeta nem filho de profeta; eu era pastor e cultivava sicômoros. Mas o Senhor me tirou…» Amós não tem interesse pessoal a defender, não tem status a proteger; ele foi abordado, apreendido por uma Presença: é a sua docilidade ao Senhor que o torna capaz de se manter de pé diante dos poderosos. Para usar a linguagem do episódio do Evangelho de hoje, podemos dizer que a paralisia de Amasias é a sua instalação, o seu apego no conforto religioso da coorte de Israel, enquanto a liberdade de Amós é a do homem de pé, cuja vida está escorada na verdade da Palavra. São João da Cruz lembra-nos frequentemente que, para possuir o Tudo, é preciso aceitar não querer ser nada por si mesmo. Amós encarna essa pobreza que conhecemos como “evangélica”, que se torna potência espiritual. 2. O diagnóstico do Cristo: ir à raiz do mal Façamos agora a ligação com o Evangelho. Jesus está de volta à sua cidade, isto é, Cafarnaum, e trazem-lhe um paralítico numa maca. O texto nota um detalhe crucial: «Vendo a fé deles, Jesus disse ao paralítico: Coragem, meu filho, os teus pecados estão perdoados.» Coloquemo-nos bem na pele deste paralítico e dos seus amigos que fizeram um grande esforço para chegar até Jesus: esta frase de Jesus ao paralítico é um choque! Um choque porque este homem precisa recuperar o uso das suas pernas, e Jesus fala-lhe do perdão dos pecados… Mas, então, por que esse descompasso “aparente”? É que Jesus não cura na superfície, ele vai imediatamente à raiz do nosso bloqueio mais íntimo. O Cristo sabe que a pior das paralisias não é a do corpo, mas a da alma. Com efeito, o pecado, na sua essência profunda, é uma ruptura de relação com Deus e, por consequência, com o próximo. O pecado é o fechamento em si mesmo, a desconfiança em relação a Deus, a incapacidade de amar e de se deixar amar. O pecado fixa-nos, torna-nos imóveis, prisioneiros das nossas culpabilidades e dos nossos fracassos. Jesus, ao dizer-lhe «os teus pecados estão perdoados», opera uma recriação. Ele não faz uma simples anistia jurídica, ele devolve a vida! É belo como Jesus se dirige ao paralítico: «Coragem, meu filho…», restaurando assim a sua identidade de filho de Deus. O perdão é o primeiro passo do homem de pé: sem esta cura do coração, caminhar fisicamente só serviria para errar sem rumo. 3. O poder de reconciliar e o escândalo da graça Esta palavra de libertação desperta imediatamente a resistência dos escribas. «Este homem blasfema», dizem eles. Para eles, Deus é distante, encerrado em categorias teológicas estritas. Não podem compreender, não podem suportar que a misericórdia divina se manifeste de maneira tão direta, tão humana através de Jesus. Jesus lê nos seus pensamentos e faz a pergunta central: «O que é mais fácil? Dizer: Os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te e caminha?» Do ponto de vista humano, dizer que os pecados estão perdoados é mais fácil, porque isso não se vê. Mas, para manifestar que a Sua Palavra tem uma eficácia real, divina, Jesus realiza o milagre visível. «Levanta-te, pega a tua maca e vai para a tua casa.» Este milagre é o sinal exterior de uma realidade invisível bem mais imensa. Com efeito, a verdadeira novidade cristã é este poder de reconciliação dado aos homens. A multidão não se engana, ficaram «possuídos de temor e glorificaram a Deus por ter dado tal poder aos homens.» Este poder continua a desenvolver-se hoje na Igreja, nomeadamente através do sacramento da reconciliação; é aí que o Cristo continua a dizer-nos individualmente: «Coragem, levanta-te.» Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia deste dia coloca-nos diante das nossas próprias macas. Qual é a paralisia que me impede hoje de avançar, de amar, de seguir o Cristo com a liberdade de Amós? Será um velho rancor? Uma culpabilidade que não consigo abandonar? Uma instalação confortável, mas estéril como a de Amasias? A Palavra de Deus convida-nos hoje à audácia: somos chamados a aceitar que Jesus pouse o seu olhar sobre aquilo que está ferido em nós, aquilo que frequentemente escondemos, porque muito frequentemente trata-se de um caso, uma situação onde precisamos ser perdoados… A aplicação concreta para o nosso dia, então, é dupla: Primeiro, cessar de ocultar as nossas paralisias interiores sob externalidades, sob a estética de uma falsa saúde espiritual: vir ao Cristo com a nossa verdade, a nossa pobreza, conscientes do pecado que nos paralisia. Em seguida, ou por consequência, confiar na potência do perdão: se carregamos um fardo, o sacramento da confissão é o lugar por excelência onde o Cristo nos coloca novamente de pé. Hoje, não fiquemos deitados nas nossas macas do hábito ou do desânimo. O Senhor repete-nos: «Coragem, levanta-te e caminha.» Oração Senhor Jesus, apresento-me diante de Ti hoje com as minhas pobrezas e as minhas imobilidades secretas. Tu conheces as zonas do meu coração que estão paralisadas pelo medo, pelo dúvida ou pelo pecado. Peço-Te a graça de não me esconder atrás de falsas seguranças. Dá-me a fé desses homens que carregaram o paralítico até Ti. Vem dizer-me ao ouvido do coração esta palavra que ressuscita: «Coragem, meu filho.» Purifica o meu olhar pelos Teus julgamentos que são retos e que alegram o coração. Devolve-me a liberdade do profeta Amós para que eu possa caminhar no Teu seguimento, leve, curado, e testemunhar a Tua misericórdia junto dos meus irmãos. Amém.
- O preço da liberdade e o recurso da cura
(Quarta-feira, 13a Semana do Tempo Comum) A cura do demoníaco - Sébastien Bourdon, entre 1653 e 1657 Leituras da Missa: Am 5, 14-15.21-24 ; Salmo 49/50 ; Mt 8, 28-34 A vida cristã sofre frequentemente de uma terrível ambiguidade: desejamos a salvação, mas tememos a mudança que ela impõe. O domingo anterior lembrava-nos a exigência radical de Cristo, que nos convidava a perder a nossa vida para a encontrar, a tomar a nossa cruz sem olhar para trás. Hoje, nesta quarta-feira da décima terceira semana, a liturgia mergulha-nos no vivo deste combate interior. Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia uma fé de fachada que se contenta com ritos exteriores sem conversão do coração, enquanto o Evangelho de hoje, segundo São Mateus, mostra-nos como a presença de Cristo pode paradoxalmente assustar aqueles que preferem preservar os seus interesses materiais em vez de ver vidas humanas reconstruídas. Entremos juntos nesta travessia em direção à outra margem, lá onde os nossos demônios interiores e as nossas recusas de curar são colocados em luz. 1. O culto sem o coração: a clameur de Amós O profeta Amós dirige-se a um povo que pensa estar em regra com Deus porque as suas liturgias são faustosas: os cantos ecoam, os sacrifícios acumulam-se, as assembleias estão cheias. E, no entanto, o veredicto divino é de uma intensidade, de uma força inédita: «…eu detesto, eu desprezo as vossas festas». Deus não se deixa comprar por rituais que servem de para-vento para a injustiça quotidiana. Estamos diante do perigo de se aproveitar da religião para criar um sistema de segurança psicológica onde se oferecem coisas a Deus para evitar dar-Lhe a nossa própria vida. O último versículo deste texto mostra uma particularidade interessante a nível exegético; de fato, o versículo diz: «Mas que o direito jorrasse como uma fonte, e a justiça como um torrente que nunca seca!» Em hebraico, dois conceitos fundamentais do Antigo Testamento são aqui associados em paralelismo: O Direito (מִשְׁפָּט = Mishpat): É a justiça concreta, o fato de dar a cada um o que lhe é devido, nomeadamente aos mais pobres, às viúvas e aos órfãos. A Justiça (צְדָקָה = Tzedakah): É um termo ainda mais profundo. Não se trata de uma justiça legal ou punitiva, mas de uma justiça relacional. É a fidelidade à Aliança, o fato de estar ajustado ao coração de Deus. Quando Amós utiliza a imagem do «torrente que nunca seca», faz um contraste impressionante com os ribeiros (oueds) do deserto da Judeia. Estes ribeiros enchem-se de uma água violenta durante a estação das chuvas, mas secam completamente no resto do ano. Portanto, o profeta aqui censura o povo por ter uma fé «ribeiro»: uma fervura espetacular durante as festas religiosas (v. 21-23), mas uma seca total no resto do tempo na vida quotidiana. Voltando a nós, é preciso saber que a vida espiritual não é uma água estagnada feita de devoções rotineiras, mas um rio dinâmico que transforma as nossas relações humanas. Amós lembra-nos que o Senhor não procura as nossas performances religiosas, mas a verdade da nossa existência. Quando o culto está desconectado da caridade e do direito, torna-se um barulho insuportável aos ouvidos de Deus. Esse é o fundamento mesmo da nossa caminhada: antes de avançar para o altar, devemos aceitar que a Palavra coloque a nu as nossas hipocrisias e as nossas falsas piedades. 2. A prisão dos túmulos e o medo do tormento No Evangelho, temos Jesus que, passando para a outra margem, no território pagão dos gadarenos, deixa o conforto das multidões familiares para enfrentar a miséria humana naquilo que ela tem de mais radical. «…dois possessos saíram de entre os túmulos ao seu encontro…». Estes homens habitam o lugar da morte e «eram tão agressivos que ninguém podia passar por aquele caminho», eles bloqueiam o caminho. Aqui se constata que o demônio isola sempre, ele torna o homem incapaz de relação, violento para consigo mesmo e para com os outros, confinado nas suas próprias sepulturas afetivas ou espirituais. A reação dos demônios diante de Jesus é reveladora: «Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo fixado?» Esse é o grande engano do espírito do mal: ele tenta fazer-nos acreditar que a presença de Deus é um tormento, uma ameaça para a nossa liberdade. Quantas vezes pensamos, nós também, que se deixarmos o Cristo entrar plenamente nas nossas vidas, Ele vai privar-nos da nossa felicidade? Temos medo da Vontade de Deus… Preferimos às vezes domesticar as nossas neuroses, as nossas dependências e as nossas escuridões, permanecendo dóceis, habituando-nos àquilo que nos destrói, em vez de arriscar a novidade de uma cura. Frequentemente, o Cristo incomoda o status quo das nossas misérias bem instaladas. 3. Os porcos e os homens: a escolha das nossas prioridades O desfecho do exorcismo ilumina a profundidade do drama. Os demônios pedem para ser enviados para uma grande manada de porcos, animais impuros segundo a lei judaica, símbolos dos apegos terrenos e da busca exclusiva do alimento material. Assim que a palavra soberana de Jesus ecoa – uma única palavra: «Ide» –, toda a manada se precipita no mar. A destruição dos porcos mostra a natureza intrinsecamente destruidora do mal: ele não gera senão a morte e o caos. É então que se produz o verdadeiro drama deste Evangelho: os guardas alertam a cidade e toda a população sai ao encontro de Jesus. Esperar-se-ia uma explosão de alegria, uma ação de graças por estes dois concidadãos finalmente libertados, sentados, vestidos e devolvidos à sua dignidade de homens. Em vez disso, «as pessoas suplicaram-lhe que partisse do seu território.» Por quê? Porque a cura teve um custo. A libertação destes dois homens provocou a perda econômica da manada. Para esta cidade, o valor de uma vida humana é inferior à rentabilidade econômica. Eles preferem dois possessos furiosos nos cemitérios e uma economia florescente, em vez de um Salvador gratuito que mexe com o seu conforto material. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta página do Evangelho é um espelho estendido à nossa vida quotidiana. Ela pergunta-nos de que lado nos situamos quando o Cristo vem mexer com a nossa existência. A Liturgia de hoje convida-nos a olhar para os nossos túmulos interiores: quais são os espaços da minha vida onde me comportamento como estes possessos, bloqueando o caminho, recusando a relação, encerrando-me em velhos rancores ou hábitos destrutivos? Aceitemos desde hoje deixar o Cristo visitar estas zonas de sombra sem ter medo da sua luz. Os textos de hoje convidam-nos também a avaliar o custo da nossa liberdade: estou pronto a perder as minhas «manadas de porcos» – isto é, os meus pequenos lucros pessoais, os meus confortos egoístas, as minhas seguranças materiais – para que a justiça e a cura de Deus se desenvolvam em mim e ao meu redor? Não expulsemos o Senhor do nosso território interior quando Ele nos pede para tomar escolhas corajosas: prefiramos sempre o homem às estruturas e a vida espiritual às aparências. Oração Senhor Jesus, Tu que não hesitaste em atravessar o mar para ir buscar dois homens perdidos no meio dos túmulos, vem hoje visitar as margens do meu coração. Tu conheces os meus fechamentos, as minhas violências interiores e todas essas cumplicidades que mantenho com o que me separa de Ti e dos outros. Às vezes, tenho medo da Tua presença, temo que venhas perturbar os meus pobres equilíbrios e os meus pequenos confortos quotidianos. Perdoa-me por todas as vezes em que, como os habitantes desta cidade, Te pedi para Te fores embora porque a Tua palavra exigia de mim um desapego que eu não estava pronto a viver. Não quero mais apresentar-Te a agitação, o som dos meus cânticos ou das orações de fachada enquanto a minha vida recusa converter-se. Dai-me a coragem de consentir no despojamento necessário para acolher a Tua verdadeira liberdade. Que o Teu torrente de justiça purifique as minhas intenções. Toma tudo o que, em mim, se agarra às seguranças deste mundo, e concede-me a graça de preferir a alegria da Tua cura à segurança das minhas prisões. Permanece no meu território, Senhor, e faz de mim uma testemunha viva da Tua potência que ergue e que liberta. Amém.
- O sono de Deus e o despertar da nossa fé
(Terça-feira, 13a Semana do Tempo Comum) O Cristo na tempestade sobre o mar da Galileia, por Rembrandt em 1633 Leituras da Missa: Am 3, 1-8 ; 4, 11-12 ; Salmo 5 ; Mt 8, 23-27 A vida espiritual assemelha-se frequentemente a uma travessia marítima que pensávamos ser pacífica pelo simples pretexto de termos embarcado com Jesus, mas o Evangelho de hoje vem quebrar essa ilusão confortável. Seguir a Cristo não nos poupa das tempestades e, às vezes, parece até conduzir-nos diretamente a elas. No domingo passado, o Senhor advertia-nos com força: aquele que não toma a sua cruz não é digno de dele. E corremos o risco de ficar numa exigência teórica, quase abstrata; mas hoje, passamos da teologia para a provação existencial. De fato, na primeira leitura, Amós lembra-nos que Deus fala através das crises da história, e o Evangelho mergulha-nos no concreto de uma barca que se enche de água. É aqui, quando a madeira estala, que compreendemos o que significa concretamente perder a sua vida para a salvar. 1. O rugido dos acontecimentos e o apelo de Amós O profeta Amós começa com uma palavra paradoxal que mexe com a nossa visão de uma religião fofinha, confortável. Na sua profecia, Deus lembra a sua aliança, mas essa proximidade não se traduz num privilégio de impunidade; muito pelo contrário. Pensamos frequentemente – de maneira muito infantil – que se rezarmos e seguirmos o Senhor, a nossa vida deve ser um longo rio tranquilo, tudo correrá bem… mas, de fato, esse é o erro de um cristianismo contratual: eu te dou a minha piedade, tu me dás a segurança. Amós utiliza imagens de causa e efeito de uma lógica implacável: «Ruge o leão na floresta sem ter uma presa? (…) Cai a armadilha no solo sem nada ter apanhado?» Através destas metáforas, o profeta quer fazer-nos compreender que as crises da história e das nossas vidas pessoais não são acidentes absurdos, elas são sinais, alertas! Quando o nosso conforto é abalado, é Deus que nos desperta do nosso torpor. Com efeito, Deus nunca procuraria destruir-nos; mas porque Ele é um Pai, porque nos ama, Ele fará o que for preciso para quebrar as nossas falsas seguranças. Em seguida, a conclusão do texto de Amós de hoje é um clamor de urgência: «…eis como te vou tratar, Israel! …prepara-te para te encontrares com o teu Deus». Portanto, a tempestade não é uma punição, ela é o lugar de um encontro despojado de qualquer artifício. 2. O Cristo dorme: a provação do silêncio divino Entremos agora na barca com os discípulos. O texto nota um detalhe crucial: «os seus discípulos seguiram-no.» Eles estão na obediência, fizeram a escolha radical pedida no domingo passado. E, no entanto, a tempestade eclode: «E eis que o mar se tornou tão agitado que a barca ficava coberta pelas ondas.» É a experiência da submersão existencial, esse momento preciso em que os nossos problemas, as nossas doenças, as nossas rupturas ou as nossas dúvidas se tornam maiores do que a nossa capacidade de os enfrentar… nós afundamos. E no meio de todos esses problemas, o que faz Jesus? Ele dorme. Este sono de Cristo é uma das páginas mais provocantes do Evangelho, pois toca na nossa ferida mais viva: o sentimento da ausência ou da indiferença de Deus diante do nosso sofrimento. Por que dorme Ele? Porque está em perfeita comunhão com o Pai, numa confiança absoluta que não teme o caos. E a boa nova é que o sono de Jesus não é indiferença, mas um convite a entrar na sua própria paz. Mas para os discípulos – e frequentemente para nós também –, esse silêncio é insuportável. Mas, se refletirmos bem, podemos constatar que o problema dos discípulos é que eles medem a situação pelo tamanho das suas ondas e não pelo tamanho da presença daquele que está com eles. De fato, o seu clamor, «Senhor, salva-nos! Estamos perdidos», é uma mistura de oração autêntica e de pânico total: eles creem na Sua potência, mas duvidam da Sua solicitude. 3. Do medo ao temor sagrado: o milagre da confiança A reação de Jesus é surpreendente, porque antes mesmo de acalmar os elementos, dirige-se aos seus discípulos: «Por que tendes medo, homens de pouca fé?» O diagnóstico do Senhor é direto: o contrário da fé não é a descrença intelectual, é o medo que paralisa e que isola. Ter pouca fé é pensar que a nossa destruição é mais provável do que a salvação de Deus; é olhar para a tempestade esquecendo quem está na barca. E, se quisermos, ressoa aqui o eco do domingo anterior: para encontrar a sua vida, é preciso aceitar perdê-la, isto é, colocá-la nas mãos de outra pessoa, aceitar não controlar mais tudo. «Então Jesus, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria.» A exegese deste passo mostra-nos que Jesus utiliza os mesmos termos que nos exorcismos, Ele reprime o caos original, as forças de divisão e de morte que tentam engolir o homem. A estupefação que domina as testemunhas muda de natureza: «Os homens ficaram admirados e diziam: “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?”» Eles passam de um medo de pânico para um temor religioso, uma admiração sagrada. A tempestade cumpriu a sua missão educativa: permitiu aos discípulos passar de um Jesus mestre espiritual para um Jesus Senhor, mestre de tudo. Descobriram que a sua presença no silêncio é mais sólida do que a fúria do mundo. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia coloca-nos novamente diante da realidade da nossa própria barca existencial. Se queremos que esta meditação dê fruto desde hoje, devemos trabalhar pelo menos em duas atitudes: Identificar a nossa tempestade atual: Qual é a área da minha vida (profissional, familiar, interior) que me dá atualmente a impressão de afundar e onde tenho o sentimento de que Deus dorme? Nomeemos esse medo claramente para não o deixar paralisar-nos. Mudar de olhar sobre o silêncio: Em vez de viver o silêncio de Deus como um abandono, decidamos hoje habitá-lo pelo ato de fé. Quando a angústia subir, lembremo-nos de que o primeiro a ter interesse nestas situações é o próprio Deus, porque nós Lhe pertencemos e Ele está dentro da barca. Perder o controle é deixar Jesus assumir o comando. Repitamos simplesmente esta fórmula curta: Senhor, Tu estás aqui, eu confio em Ti. Cessemos de lutar contra as ondas apenas com as nossas forças humanas e deixemos a sua paz assumir o controle. Oração Senhor Jesus, confesso que amo a tranquilidade e que caio em pânico assim que as ondas da vida começam a cobrir a minha frágil barca. No domingo passado, Tu me pedias para Te preferir a tudo e tomar a minha cruz, e hoje, diante do primeiro golpe de vento, já tremo, e frequentemente Te culpo pelo Teu silêncio assim que a tempestade se levanta. Perdoa a minha falta de fé e a minha tendência a acreditar que o mal tem a última palavra. Hoje, ouço o clamor do profeta Amós que me pede para me preparar para Te encontrar. Não quero mais fugir das crises da minha existência, mas quero ver nelas o lugar onde Tu me esperas para purificar o meu apego. Vem visitar os meus medos secretos, as minhas angústias diante do futuro e os meus sentimentos de abandono. Mesmo que pareças dormir na minha vida, dá-me a graça de saber que a Tua presença só basta para me guardar do naufrágio. De pé no coração das minhas tempestades, pronuncia a Tua palavra de paz, acalma as minhas agitações interiores e fortalece a minha fé, a fim de que eu possa testemunhar, diante de um mundo ansioso, que Tu és o Senhor que comanda aos ventos e ao mar. Amém.
- A solidez da brecha: quando a fraqueza se torna fundação
(Segunda-feira, 29 de junho, São Pedro e São Paulo - Solenidade) A Libertação de São Pedro, 1514; Raphael Sanzio Raphael Leituras da Missa: At 12, 1-11 ; Salmo 33/34 ; 2 Tm 4, 6-8.17-18 ; Mt 16, 13-19 Há uma estranha ironia na liturgia deste dia. Celebramos as duas colunas da Igreja, Pedro e Paulo, os gigantes da fé, e, no entanto, os textos que lemos só nos falam de algemas, de prisões, de abandonos e de execuções iminentes… De fato, a primeira leitura mostra-nos Pedro adormecido num calabouço, acorrentado, condenado antecipadamente pelo poder de Herodes; e a segunda faz-nos ouvir o canto do cisne de Paulo, confiando o seu isolamento num momento em que todos o abandonaram. A solenidade de hoje coloca-nos diante do paradoxo cristão em todo o seu esplendor: a força de Deus se manifesta naquilo que é fraco. Para compreender, então, por que a Igreja se mantém de pé há dois mil anos apesar das suas misérias, é preciso descer com os apóstolos à verdade da sua condição humana, e veremos que tudo começa com uma pergunta feita na curva de um caminho, em Cesareia de Filipe, uma pergunta que vai fazer tudo mudar. 1. A armadilha das opiniões e o salto da relação No Evangelho deste dia, Jesus começa por interrogar os seus discípulos sobre o que se diz ao redor deles. As respostas surgem – «Uns dizem João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas.» – porque, na verdade, as pessoas precisam de etiquetas, de categorias tranquilizadoras. Identificar Jesus a um profeta do passado é uma maneira educada de o manter à distância e não se comprometer, de o admirar sem se deixar incomodar. É o grande perigo da religião cultural ou intelectual: conhecemos teorias sobre Deus, temos opiniões sobre a Igreja, mas não há nenhum compromisso porque não encontramos Alguém. Então, Jesus estreita o círculo e faz a pergunta direta, aquela que já não admite evasivas: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Essa passagem do “dizem” para o “vós” é o momento mais dramático da vida espiritual: não se pode viver da fé dos outros, não se pode seguir a Cristo por procuração. Jesus não procura informantes, ele procura testemunhas. Ele quer saber se a sua presença mudou alguma coisa no concreto da existência deles. É nesse ponto preciso que Simão toma a palavra, não porque seja o mais inteligente, mas porque é o mais exposto. 2. A revelação recebida na pobreza do coração A resposta de Simão é fulgurante: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo». Imediatamente, Jesus o desengana sobre a origem desta intuição: «…não foi a carne nem o sangue que te revelou isto…». Em suma, Simão não encontrou isso sozinho pelas suas capacidades intelectuais ou pela sua intuição psicológica, porque, com efeito, a fé não é o produto de um raciocínio humano levado ao seu extremo, ela é um dom, uma graça que entra num coração aberto. Jesus chama-o de «Simão, filho de Jonas». Ao fazer isso, Jesus o traz de volta à sua história, à sua humanidade bruta, à sua fragilidade de pescador da Galileia. É como se lhe dissesse: Simão, tu és bem pequeno e, no entanto, o Pai escolheu o teu coração para nele depositar a sua maior verdade. O mistério da Igreja começa assim, não com homens perfeitos que compreenderam tudo, mas com pobres que aceitam receber aquilo que são incapazes de produzir por si mesmos. A alegria de Simão-Pedro, a sua bem-aventurança, não vem da sua própria perfeição, mas do fato de ter sido escolhido como canal de uma presença que o supera. 3. Uma pedra edificada sobre uma brecha É então que Simão recebe o seu novo nome: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja…». E sejamos sinceros: que audácia da parte de Jesus escolher este homem para dele fazer o fundamento! Porque, na verdade, Simão é instável, é impulsivo, jurará alguns versículos mais adiante que recusa a cruz e terminará por renegar o seu Mestre três vezes na noite da Paixão. Se tivéssemos de escolher um chefe para uma instituição duradoura, teríamos procurado um perfil mais gerencial, mais sólido, mais infalível. Mas Deus não pensa como nós. Jesus sabe que a única verdadeira solidez humana é aquela que fez a experiência da sua própria fraqueza e foi salva. A pedra sobre a qual a Igreja é edificada não é a coragem de Simão, mas é a sua fé confessada e as suas lágrimas de arrependimento. E Pedro vai experimentar a sua fraqueza, as suas incoerências…, mas não vai se desesperar como foi o caso do Iscariotes… É porque Pedro sabe que é frágil que ele poderá ser misericordioso com os seus irmãos. E Jesus continua o seu discurso a Pedro dizendo: «…e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela», mas não porque os cristãos são fortes, mas porque o Cristo ressuscitou. A Igreja é esta construção mística onde a solidez divina utiliza a fragilidade humana para manifestar que tudo vem da Graça. 4. As chaves do Reino e o poder de libertar O texto termina com Jesus confiando a Pedro as chaves do reino dos Céus, com o poder de ligar e de desligar. Em linguagem bíblica, isso significa a responsabilidade de guiar, de ensinar, mas sobretudo de abrir e de fechar as portas da misericórdia. Ligar e desligar é trazer o homem de volta à liberdade que o pecado lhe roubou; este poder não é um privilégio de dominação, pelo contrário, é um serviço de uma importância absoluta. Vemos a ilustração concreta disso na primeira leitura. Pedro está na prisão, acorrentado, condenao. Herodes pensa ter fechado todas as saídas. Mas a Igreja reza com insistência e Deus envia o seu anjo, as correntes caem, as portas de ferro abrem-se por si mesmas; na verdade, o ministério de Pedro é proclamar ao mundo que, para Deus, nenhuma situação está jamais definitivamente bloqueada. Portanto, voltemos agora às nossas existências, à nossa vida concreta: as prisões das nossas vidas, as nossas culpabilidades, os nossos fechamentos interiores encontram a sua chave no perdão que a Igreja transmite, na oração da igreja e pela Graça, a Presença de Deus que nela habita. Como Paulo no fim da sua vida, podemos dizer: «O Senhor assistiu-me (…) Fui libertado da boca do leão…» A libertação de Pedro na sua prisão é a profecia daquilo que Deus quer fazer por cada um de nós quando nos confiamos a ele. Conclusão e aplicação para o nosso dia A solenidade de São Pedro e São Paulo convida-nos a sair das generalidades para entrar numa decisão pessoal. O Cristo, com efeito, não nos pede para sermos perfeitos para o seguir, ele pede-nos para sermos verdadeiros. Portanto, a partir desta Palavra da Liturgia, hoje, podemos encarná-la por gestos simples e concretos. Tiremos um momento de silêncio hoje para escutar Jesus perguntar-nos: E para ti, quem sou eu? Não respondamos com frases feitas. Digamos-lhe o que ele representa realmente no nosso quotidiano, no meio das nossas alegrias e dos nossos combates; não tenhamos medo de Lhe expor toda a nossa fraqueza. E em seguida, se houver uma área da nossa vida onde nos sentimos acorrentados, bloqueados pelo medo, pelo pecado ou pelo desânimo, depositemo-la na oração da Igreja… às vezes, o que nos falta é simplesmente uma comunidade que possa rezar por nós e connosco. Dai, então, o passo de vos aproximardes um pouco mais da vossa comunidade paroquial, tornai-vos Igreja segundo o batismo que todos nós recebemos, esta Igreja edificada sobre pessoas imperfeitas, incoerentes, mas que está lá! E creiamos que a potência de Deus, que pela sua Igreja que reza em unidade, pode fazer cair as nossas correntes e abrir as nossas portas de ferro. Oração Senhor Jesus, Tu não escolheste anjos ou homens perfeitos para guiar a Tua Igreja, mas pousaste o Teu olhar sobre Simão, o pescador frágil, e sobre Saul, o perseguidor. Transformaste as suas feridas em fontes de bênção e as suas fraquezas em colunas de fé. Hoje, Tu aproximas-te de mim e perguntas-me: E para ti, quem sou eu? Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes bem que Te amo, mas Tu sabes também o quanto sou mudável, o quanto tenho medo do olhar dos outros e do sofrimento. Confesso-Te como meu Senhor e meu Deus, o Filho do Deus vivo. Vem edificar a Tua morada sobre a pobreza do meu coração. Quando me sinto encerrado nas minhas cobardias ou nas minhas dúvidas, envia o Teu anjo para me acordar, me fazer levantar e fazer cair as minhas correntes. Que a Tua graça me liberte para que, como Paulo, eu possa combater o bom combate, terminar a minha carreira guardando a fé e testemunhar que a Tua misericórdia é mais forte que a morte. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela sua atenção, espero que minhas meditações possam realmente ajudá-lo em sua jornada rumo ao Senhor, e não hesite em interagir e compartilhar suas reações nos comentários: sua interação serve aos algoritmos do Google para tornar este site mais relevante e fácil de encontrar. mais recomendado na página de busca... e ainda mais, isso enriquece a reflexão, incentiva irmãos e irmãs e me ajuda a me adaptar melhor às suas necessidades. 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- O vazio hospitaleiro e o paradoxo da vida doada
(13o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O Profeta Eliseu e a esposa de Shunem - G. van den Eeckhout (1664) Leituras da Missa: 2 Rs 4, 8-11.14-16a ; Salmo 88/89 ; Rm 6, 3-4.8-11 ; Mt 10, 37-42 A liturgia deste décimo terceiro domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma das exigências mais radicais e, paradoxalemente, mais libertadoras de todo o Evangelho. De fato, estamos no contexto em que Jesus conclui o seu grande discurso apostólico fixando as condições para o seguimento de Cristo, para ser seu discípulo. À primeira vista, as suas palavras têm o que congelar o coração, porque Ele fala de ruptura familiar, de ódio à própria vida e do carregar da cruz. Mas, se escutarmos esta Palavra com o ouvido do coração, descobrimos que não se trata de um apelo à destruição dos nossos afetos humanos, mas de um convite a entrar na ordem da verdadeira vida. Para compreender esta radicalidade evangélica necessária – porque tudo o que é sério exige determinação –, a primeira leitura do segundo livro dos Reis oferece-nos uma chave fundamental através da história da Sunamita: o acolhimento de um profeta torna-se o lugar de um renascimento, a continuidade da vida – visto que o Antigo Testamento ainda não conhece a ressurreição –, mostrando-nos que a vida só brota lá onde se aceita abrir espaço para o Outro. 1. Abrir espaço: a lógica do pequeno quarto no terraço Olhemos primeiro para esta mulher de Sunam. A Escritura descreve-a como rica, mas a sua verdadeira riqueza não é material, mas sim a sua capacidade de atenção. Ela percebe que o homem que passa sob as suas janelas é um santo homem de Deus; ela não procura agarrá-lo, retê-lo pela força ou instrumentalizá-lo, não! Ela diz simplesmente ao seu marido: «façamos-lhe um pequeno quarto.» Ela cria um vazio, um espaço gratuito, mobiliado com o estrito necessário: uma cama, uma mesa, uma cadeira, uma lâmpada. Esta atitude traz uma forte mensagem para a vida espiritual: acolher a Deus é aceitar fazer espaço nos nossos dias cheios, nas nossas mentes saturadas e nos nossos corações cheios de nós mesmos: é preciso abrir-Lhe espaço! Partilho convosco uma experiência: escuto frequentemente pessoas que me dizem: “mas eu não tenho tempo para..., sou incapaz de... não posso...” Portanto, que fique claro: é preciso abrir-Lhe espaço! É preciso fazer Deus entrar na tua vida, e isso faz-se concretamente fazendo-O entrar na nossa agenda: é preciso encontrar um espaço para Deus, e «quando ele vier à nossa casa, poderá retirar-se ali.» Mas a atitude da Sunamite é extraordinária, sublime, porque ela não espera nada em troca, ela oferece a hospitalidade por puro amor à santidade: isso significa buscar o Senhor, oferecer-Lhe um espaço na nossa vida gratuitamente! E é precisamente neste vazio oferecido, nesta gratuidade absoluta, que o milagre vai inserir-se. Ela não tinha filhos, o seu futuro era estéril, bloqueado pela velhice do seu marido, mas esta dificuldade é superada porque, ao acolher o profeta, ela acolhe a vida. Esta é a primeira grande lição deste dia: Deus nunca se deixa vencer em generosidade, e cada espaço que Lhe cedemos na nossa existência torna-se o berço duma fecundidade inesperada. 2. A ordem dos amores: quando o melhor se torna inimigo do bem No Evangelho, Jesus retoma esta ideia de acolhimento, mas leva-a até à sua raiz mais íntima. Ele diz: «Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim». Estas palavras podem escandalizar-nos se as lermos de maneira superficial. Mas reflitamos bem, porque nós conhecemos bem Jesus Cristo: então o Cristo exigiria o desprezo ao quarto mandamento? Certamente que não! O que Ele faz aqui é repor o amor no seu devido lugar. Santo Agostinho explicava que a virtude consiste precisamente na ordem do amor, o ordo amoris. Quando amamos um ser humano, mesmo o mais próximo – porque obviamente amar alguém é bom, faz-nos bem –, há um grande risco, porque temos a tendência natural de absolutizá-lo e, ao fazer isso, transformamos esse amor num ídolo. Pedimos-lhe para preencher um vazio que só Deus pode preencher: eis por que somos frequentemente decepcionados nas nossas relações. Portanto, amar alguém mais do que a Cristo é condenar essa pessoa a carregar o peso insuportável da nossa necessidade de salvação. E, se refletirmos bem, não é justo amar alguém assim, porque ninguém nos pode salvar, ninguém pode ser encarregado dessa responsabilidade, porque ninguém é capaz disso! Jesus, colocando as coisas em ordem, liberta-nos dessa ilusão. Ao exigir a primazia, Ele não destrói os nossos amores humanos: Ele purifica-os! Quando Deus está em primeiro lugar, tudo o resto encontra a sua posição correta, e só então podemos amar os nossos pais, os nossos filhos e os nossos cônjuges não mais pelo que eles nos trazem ou para preencher as nossas faltas, mas pelo que eles realmente são, na liberdade e na gratuidade. 3. O segredo da cruz: perder para possuir O Cristo prossegue com uma frase que resume toda a existência cristã: «aquele que não toma a sua cruz não é digno de mi». E atenção, porque a cruz não é a busca mórbida do sofrimento: a cruz é o preço do amor vivido até ao fim, na fidelidade. A cruz é a recusa do compromisso com o egoísmo; é aceitar a renúncia para permanecer fiel à verdade e ao seguimento do Mestre. Jesus continua e formula aqui um paradoxo existencial absoluto: «quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa achá-la-á». Esta é a lei fundamental do grão de trigo que cai na terra e deve morrer: enquanto procuramos reter a nossa vida, segurá-la, acumulá-la para nós mesmos, deixamo-la morrer de fome e de esterilidade. A vida humana só se realiza quando se doa, quando aceita perder-se por algo maior. Querer salvar a própria vida implica absorver/consumir e, portanto, instrumentalizar, aproveitar-se de tudo e de todos os que estão ao nosso redor, porque é preciso que eu salve a minha vida... Mas o Batismo introduz-nos numa realidade, numa lógica nova: São Paulo, na segunda leitura, lembra-nos que pelo batismo passamos pela morte com o Cristo: «fomos sepultados com ele pelo batismo na morte, para que caminhemos numa vida nova». Esta vida nova não é uma simples melhoria moral, é a própria existência do Ressuscitado que corre em nós, uma vida que não teme mais a perda porque está ancorada em Deus. «E se já morremos com Cristo...» se, como Ele, doamos a nossa vida, «...cremos que também viveremos com ele.» Passar da morte para a vida, eis a vida ordinária do batizado: «assim também vós considerai-vos mortos para o pecado…» para o orgulho, para o egoísmo, «…mas vivos para Deus em Cristo Jesus», prontos para amar, para dar a vida. 4. O sacramento do outro: a teologia do copo de água fria Finalmente, o Senhor traz esta alta teologia da cruz para gestos de uma simplicidade desarmante, continuando ao dizer: «Quem vos recebe, a mim recebe». Jesus identifica-se com os seus enviados, com os mais pequenos dos seus discípulos! Isso significa que o grande mistério da Encarnação se prolonga no mistério da Igreja e do próximo. E Jesus continua ainda fazendo-nos compreender que não nos pede façanhas sobre-humanas para entrar no seu Reino, Ele pede-nos para saber acolher, saber dar um copo de água fria: «E qualquer que tiver dado de beber, apenas que seja um copo de água fria, a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão». Jesus diz «apenas que seja um copo de água fria». Por que insistir na frescura da água? Porque a água fria exige atenção, um cuidado imediato, uma delicadeza para com aquele que tem sede no momento presente. O cristianismo não é uma ideologia abstrata, não é o "fazer porque tem de ser feito", mas é uma mística do quotidiano que se joga na qualidade do nosso olhar, na atenção ao outro. Acolher um discípulo na sua qualidade de discípulo é reconhecer o Cristo nele. Cada vez que quebramos a nossa indiferença para nos voltarmos para o mais pequeno, é o quarto da Sunamite que reconstruímos no terraço do nosso coração, pedindo a Jesus para ali ficar. E a promessa que Jesus faz é solene: «de modo algum perderá o seu galardão». Este galardão é a Presença, a vida, a própria alegria de Deus que vem habitar em nossa casa. Conclusão e application para o nosso dia A Palavra de Deus deste domingo mexe com as nossas lógicas de autopreservação. Ela pergunta-nos como estamos com os nossos apegos e os nossos espaços de gratuidade. No decorrer desta semana, podemos atualizar esta Palavra através de duas atitudes concretas: Organizar o nosso pequeno quarto interior: Criemos espaço, tiremos tempo todos os dias para cortar o barulho do mundo e deixar um lugar para o Senhor. Dez minutos de silêncio, uma leitura pausada da Palavra, são essa mesa e essa lâmpada oferecidas ao Profeta para que venha fecundar a nossa vida. Praticar a hospitalidade do quotidiano: Estar atentos àqueles que cruzam o nosso caminho. O copo de água fria pode ser uma escuta paciente, um sorriso a uma pessoa isolada ou a recusa de julgar. Aprendamos a perder um pouco do nosso tempo para ganhar a vida eterna. Oração Senhor Jesus, a Tua Palavra bouscula-me e coloca em luz os meus medos profundos. Tenho tantas vezes medo de perder, de faltar, de não ser suficientemente amado, e agarro-me às minhas seguranças, aos meus afetos e ao meu tempo como se me pertencesssem. Dá-me a coragem da Sunamite. Ajuda-me a abrir espaço na minha vida, a construir esse quarto de silêncio e de acolhimento onde Tu podes descansar e falar-me. Purifica os meus amores, Senhor. Ensina-me a amar aqueles que me confiaste não para mim mesmo, mas em Ti e por Ti, a fim de que as nossas relações sejam livres e portadoras de vida. Ajuda-me a tomar a minha cruz todos os dias, sem murmuração, sabendo que morrer para o meu egoísmo é o único caminho para ressuscitar contigo. Abre os meus olhos para os mais pequenos, para os sedentos do meu quotidiano, para que eu saiba oferecer-lhes esse copo de água fria que Te consola. Entrego a minha vida nas Tuas mãos, certo de que, se a perder por Ti, a reencontrarei para a eternidade. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho rumo ao Senhor, e não hesiteis em interagir e partilhar as vossas reações nos comentários: sua interação serve aos algoritmos do Google para tornar este site mais relevante e fácil de encontrar, mais recomendado na página de pesquisa... e ainda mais, isso enriquece a reflexão, encoraja os irmãos e irmãs e me ajuda a me adaptar melhor às suas exigências. Você também pode se inscrever na newsletter e, assim, posso lhe enviar todos os dias um e-mail com o link da meditação do dia. Mas cuidado, porque a primeira vez que eu te enviar o e-mail, ele provavelmente vai cair na caixa de spam (correio eletrônico). Que Deus o abençoe. Desejo-lhe um dia muito feliz.
- O clamor das ruínas e a audácia da fé: quando a Palavra reconstrói o homem
(Sábado, 12a Semana do Tempo Comum) Jesus Cristo e o centurião. O centurião de Cafarnaum suplica a Jesus que cure seu servo paralisado, Paolo Veronese (1528-1588) Leituras da Missa: Lm 2, 2.10-14.18-19 ; Salmo 73/74 ; Mt 8, 5-17 A liturgia deste dia mergulha-nos num contraste impressionante, um verdadeiro caminho de Páscoa que atravessa a mort para desaguar na vida. Na primeira leitura, temos o clamor doloroso das Lamentações, o luto de uma nação inteira que vê as suas muralhas desabadas e o seu Templo profanado. É a experiência da ruptura, do vazio absoluto, da ruína que o pecado deixa atrás de si quando o homem se afasta da fonte divina. Temos aqui um eco direto ao domingo anterior, que nos lembrava a necessidade de não ceder ao medo diante das tempestades da existência, e hoje, a Palavra de Deus conduz-nos para o único remédio capaz de curar as nossas feridas mais profundas. A liturgia de hoje fará com que vejamos que, no meio dos escombros da história humana, um homem surge, um estrangeiro, para nos ensinar que a reconstrução não depende das nossas próprias forças nem dos nossos méritos, mas de uma confiança absoluta na única Palavra de Cristo. 1. A memória dos escombros: quando a ilusão desaba O Livro das Lamentações não procura atenuar o sofrimento, de fato este livro descreve o desastre de Jerusalém com uma honestidade bruta: o Templo está destruído, os anciãos calam-se sentados no chão, cobertos de poeira, e as crianças desfalecem de fome nas esquinas das ruas. Por que tal tragédia? Para nós que acompanhamos toda esta história pela Liturgia de cada dia, compreendamos bem que todo este sofrimento tem a sua origem na atitude que teve o povo de se apoiar em estruturas visíveis, em certezas exteriores e, como o texto de hoje nos diz: «Os teus profetas tiveram para ti visões falsas e insensatas; não revelaram a tua culpa, para assim mudarem a tua sorte; mas viram para ti profecias enganadoras e ilusórias...». O povo esqueceu que a verdadeira Aliança se joga no segredo dos corações, como o texto nos faz compreender nas palavras seguintes: «O coração do povo clama para o Senhor.» O exílio interior começa sempre no momento exato em que substituímos a relação viva com Deus pelos nossos próprios ídolos e pelas nossas seguranças materiais e psicológicas. Quando essas muralhas factícias desabam sob o peso das nossas próprias incoerências ou das provações da vida, fazemos a experiência da nudez e do nada. As lágrimas do povo que ouvimos também no Salmo não são reclamações estéreis, mas o despertar doloroso de uma consciência que percebe, que toma consciência da sua pobreza. Para que a Graça possa agir, é preciso primeiro aceitar ver as suas próprias ruínas, isto é, é preciso dar-Lhe espaço, permitir a sua ação, cessar de contar histórias a si mesmo e derramar o coração «como água diante da face do Senhor». É sobre este fundo de noite coletiva que a luz do Evangelho vai brilhar com todo o seu esplendor. 2. A autoridade da confiança: a fé que comove a Deus No Evangelho, estamos em Cafarnaum, uma cidade de fronteira, e Jesus encontra ali um centurião romano. Este homem representa o ocupante, o pagão, aquele que, segundo os critérios religiosos da época, se encontra fora da Aliança, excluído da salvação. E, no entanto, este soldado carrega em si uma ferida: o seu servo sofre terrivelmente. E este mesmo soldado, em vez de se encerrar no seu poder ou no seu orgulho de romano, aproxima-se de Jesus e faz-se suplicante. A resposta de Jesus é imediata: «Eu irei curá-lo». Jesus, portanto, quebra as barreiras ao propor ir ele mesmo à casa deste estrangeiro. É então que o centurião profere esta palavra gravada para sempre na memória da Igreja: «Senhor, eu não sou digno de que entres debaixo do meu teto, mas dize somente uma palavra e o meu servo será curado.» Que intuição extraordinária! Este homem de guerra compreende o funcionamento da graça divina a partir da sua própria experiência de autoridade. Isso nos ensina que a fé verdadeira não é uma questão de pertença formal ou de privilégios religiosos, ela é o reconhecimento absoluto de que a Palavra do Cristo possui o poder de criar e de restaurar lá onde o homem é impotente. O centurião não pede um sinal, um milagre espetacular ou um ritual complexo: ele entrega-se unicamente à voz do Mestre. Diante desta confiança nua, despojada de toda pretensão, o texto diz-nos: «Ao ouvir isto, Jesus ficou admirado». Por esta atitude, vê-se que o salvamento muda de lado: os filhos do Reino, instalados nas suas certezas, correm o risco de ficar de fora, enquanto os exilados da fé entram para o banquete. 3. O contágio da vida: o Cristo que assume as nossas enfermidades O Evangelho faz-nos ver algo extraordinário: o milagre realiza-se à distância, na mesma hora, manifestando que a Palavra de Deus não é limitada pelo espaço. Mas o texto não para por aí; conduz-nos logo em seguida para a casa de Pedro, onde Jesus vê a sogra do apóstolo presa à cama pela febre. Mas, dessa vez, sem uma palavra, mas por um gesto de uma ternura inédita, toca-lhe a mão: a febre deixa-a instantaneamente e a mulher levanta-se para se colocar ao serviço deles. Estas duas curas sucessivas, a do servo do centurião e a da sogra de Pedro, revelam as duas faces da ação do Cristo: a potência da sua Palavra que comanda os acontecimentos e a delicadeza do seu contato que recria o ser por dentro. O texto continua dizendo que «Com a sua palavra expulsou os espíritos e curou todos os que estavam doentes…». Este passo do Evangelho é muito importante porque nos faz compreender que Jesus, ao curar os doentes e ao expulsar os espíritos maus, não realiza simples prodígios médicos. De fato, São Mateus continua e dá-nos a chave teológica de toda a narrativa ao citar o profeta Isaías: «Ele tomou as nossas fraquezas e carregou as nossas doenças.» O Cristo não cura permanecendo espectador da nossa miséria, porque Ele se encarrega dela, Ele a endossa, Ele próprio desce às nossas enfermidades para nos libertar delas. Na cruz, Jesus tornar-se-á Ele próprio este servo sofredor, despedaçado como as muralhas de Jerusalém da primeira leitura, para que a Sua ferida se torne a nossa cura e o nosso exílio chegue ao fim. Conclusão e aplicação para o nosso dia As leituras deste sábado interpelam-nos diretamente no coração do nosso quotidiano. Todos atravessamos momentos em que contemplamos as nossas próprias ruínas: o fracasso de uma relação, o peso de um pecado repetitivo, a doença ou o desânimo que nos paralisa como o servo do centurião. Diante disso, a tentação é grande de nos encerrarmos na reclamação amarga ou de tentar reconstruir as nossas vidas com as nossas próprias forças humanas. Hoje, o Evangelho convida-nos a adotar a atitude do centurião: Deixemos de lado as nossas pretensões, os nossos méritos imaginários e as nossas falsas dignidades, e reconheçamos com humildade a nossa pobreza espiritual. Quando nos aproximarmos da Eucaristia, ou simplesmente na nossa oração pessoal, deixemos estas palavras descerem ao nosso coração: "Dize somente uma palavra". Aceitemos que o Cristo venha tocar a nossa febre quotidiana, a nossa agitação estéril, a fim de que, libertados daquilo que nos paralisa, possamos nos levantar e nos colocar finalmente ao serviço dos nossos irmãos com uma alegria renovada. Oração Senhor Jesus, Tu que entraste em Cafarnaum para acolher a aflição de um pagão, olha hoje para o pobre que eu sou. Tu conheces as fendas da minha alma, as muralhas desabadas das minhas boas resoluções e essa febre do orgulho que me paralisa e me impede de Te amar plenamente. Não venho para Ti apoiando-me nos meus méritos ou na minha própria justiça. Como o centurião, reconheço que não sou digno de que entres debaixo do meu teto, mas sei também que a Tua misericórdia é infinitamente maior do que a minha miséria. Dize somente uma palavra, Senhor, e a minha alma será curada. Que a Tua voz poderosa venha ordenar às minhas tempestades interiores que se acalmem e às minhas paralisias que deem lugar à vida. Toma as minhas dores, carrega as minhas enfermidades, como Tu prometeste. Vem tocar-me pela Tua graça, ergue-me dos meus desânimos e dá-me a força de me levantar para Te servir em cada um dos meus irmãos. Não me deixes instalar nas trevas de fora, mas recebe-me à mesa da Tua comunhão. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho em direção ao Senhor, e não hesiteis em interagir e a partilhar as vossas reações nos comentários: a vossa interação serve aos algoritmos do Google para tornar este site mais relevante e fácil de encontrar, mais recomendado na página de busca… e mais ainda, isso enriquece a reflexão, encoraja os irmãos e irmãs e ajuda-me a adaptar-me melhor às vossas exigências. 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- A mão estendida sobre as nossas ruínas: da lepra do exílio à alegria da pureza
(Sexta-feira, 12a Semana do Tempo Comum) Cura del lebbroso - mosaico, Monreale, Italia Leituras da Missa: 2 Rs 25, 1-12 ; Salmo 136/137 ; Mt 8, 1-4 A liturgia deste dia faz-nos viver uma reviravolta vertiginosa. Passamos dos escombros fumegantes de Jerusalém, do som das correntes de bronze e do pranto de um povo no exílio, para a solidão silenciosa de um homem com o corpo enfermo que barra o caminho de Jesus ao pé da montanha. À primeira vista, duas temáticas independentes; no entanto, a derrota de Sedecias e a carne deformada desse leproso contam exatamente a mesma história: a de uma ruptura, de uma exclusão e de uma perda total de referenciais. Mas onde a história dos reis humanos termina nas lágrimas da Babilônia, a história do Rei dos Céus começa com um gesto que inverte todas as nossas fatalidades. Ecoando o domingo anterior, que nos incitava a não ceder ao medo diante das ameaças exteriores, compreendemos hoje que a pior das ameaças não é o que destrói as nossas muralhas, mas o que nos corta, por dentro, da fonte da Vida. 1. Quando a ilusão desaba: a ferida do exílio O segundo livro dos Reis entrega-nos uma narrativa de forte violência. A queda de Jerusalém não é apenas uma derrota militar, mas sobretudo o desmoronamento de um mundo espiritual: o Templo arde, os olhos do rei são furados após o massacre dos seus filhos e o povo é deportado para uma terra estrangeira, onde os algozes exigem cânticos de alegria a corações despedaçados. Mas o que os conduziu a esse drama? Como chegaram a tal situação? Porque o povo tinha acabado por confundir os sinais exteriores da presença de Deus (o templo, o rei, a cidade…) com o próprio Deus; acreditavam estar protegidos pelas suas estruturas, pelas suas muralhas e pelo seu prestígio. O exílio espiritual começa sempre assim: quando edificamos as nossas seguranças sobre o que é perecível, isso revelar-se-á ilusório e a realidade acabará por nos alcançar. O texto descreve os detalhes da queda e podemos também fazer o paralelo com a nossa vida espiritual: quando a fome se instala – quando uma falta nos atinge –, uma brecha se abre, o exército inimigo entra enquanto o nosso foge, escapa na noite – já não tem condições de combater – e tudo o que pensávamos ser sólido desaba. É a experiência do vazio absoluto, esse momento em que, sentados à beira dos nossos próprios rios da Babilônia, percebemos que os nossos ídolos não nos podem salvar. O salmo de hoje exprime essa nostalgia dolorosa: «À margem dos rios da Babilónia nos sentámos a chorar, (…) Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor numa terra estrangeira?…». Como cantar quando a alegria deixou o coração, quando nos sentimos longe da nossa pátria interior, prisioneiros das nossas próprias incoerências? Esta deportação é a imagem do nosso pecado, que nos isola, nos resseca e nos afasta da comunhão. 2. A lógica da lepra: a audácia de se deixar ver É precisamente sobre este plano de fundo de desolação que o Evangelho desenvolve toda a sua força. Jesus desce da montanha após o seu sermão; Ele acaba de proclamar “a carta, a constituição” do Reino, e as multidões o seguem. Mas, no meio da multidão, um homem ousa romper a distância de segurança. Trata-se, de fato, de um leproso e, no Antigo Israel, a lepra não é apenas uma terrível doença física, ela é a metáfora viva do exílio social e ritual. O leproso era considerado um morto-vivo e, por isso, deveria ser excluído da cidade, banido do Templo e condenado a gritar a sua impureza para que ninguém se aproximasse. No entanto, este homem recusa a fatalidade da sua condição. Este leproso encarna a atitude daquele que compreendeu que a única maneira de sair do seu exílio interior é lançar-se aos pés de Cristo. Em vez de ficar à distância a gemer pela sua sorte ou a amaldiçoar a sua vida, Ele aproxima-se, prostra-se. A sua oração é de uma pureza teológica absoluta: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me». Note-se que ele não diz "cura-me", mas "purifica-me"; na verdade, ele pede para ser reintegrado, para recuperar a sua dignidade perdida, para poder novamente amar e ser amado. E mais ainda: ele não dita nada a Jesus, não negocia, mas entrega a sua miséria nas mãos da liberdade divina. Eis um nível muito elevado de fé: reconhecer a soberania do Cristo sobre as nossas zonas de sombra mais inconfessáveis. 3. O contato que recria: a revolução da ternura divina A reação, a resposta de Jesus configura-se como um escândalo para a época: «Jesus estendeu a mão e tocou-o». Com efeito, para a lei da época, tocar num leproso equivalia a contrair a sua impureza e, portanto, a tornar-se excluído. Mas Jesus não funciona segundo a lógica do contágio do mal, na verdade Ele inaugura o contágio da santidade: o Cristo não recua diante da nossa miséria, Ele suja as mãos nela para nos arrancar dela. Este gesto de tocar o intocável revela o coração do mistério da Encarnação: Deus fez-se carne para desposar a nossa natureza ferida, para habitar as nossas Babilônias e carregar as nossas doenças. E Jesus diz a esse leproso: «Quero, sê purificado». A palavra de Cristo é eficaz, realiza imediatamente o que diz; a lepra desaparece; o exilado é trazido de volta para casa. Mas Jesus acrescenta uma instrução surpreendente: «Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote». Por que este segredo? Jesus recusa o espetacular, quer evitar os mal-entendidos de um messianismo puramente político ou mágico, mas sobretudo, ao enviá-lo ao sacerdote para oferecer o sacrifício prescrito por Moisés, Jesus reintegra plenamente este homem na comunidade religiosa e social. A cura não é um evento privado, ela é uma restauração da comunhão. Por este gesto, o Cristo reconstrói o templo vivo que a doença tinha destruído, mostrando que, se as muralhas de pedra de Jerusalém podem cair, a dignidade de um filho de Deus pode sempre ser recriada por um simples contato com a Sua graça. Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia deste dia coloca-nos diante de uma escolha fundamental para a nossa vida quotidiana. Na verdade, podemos passar o nosso tempo a tentar mascarar as nossas lepras interiores — os nossos egoísmos, as nossas dependências, os nossos rancores — atrás das muralhas das nossas aparências, com o risco de ver um dia todas as nossas falsas seguranças desabarem como os muros de Jerusalém; ou então, podemos escolher o caminho da audácia e da humildade. A partir do que nos apresentam os textos da Liturgia deste dia, deixemos cair as nossas máscaras! Identifiquemos essa zona da nossa vida onde nos sentimos "exilados", essa miséria que escondemos dos outros e, às vezes, de nós mesmos. Em vez de fugir ou de desesperar à beira dos nossos rios de amargura, desçamos do nosso pedestal e apresentemo-nos diante do Senhor em transparência, com todas as nossas doenças, a exemplo deste leproso do Evangelho. Permitamos que o Cristo venha tocar o que em nós está ferido, não para nos julgar, mas para nos devolver a nossa plena liberdade de amar. Oração Senhor Jesus, Tu que desceste da glória do Pai para vir ao encontro da nossa condição humana ferida: olha para mim. Tu conheces os meus exílios secretos, as muralhas que edifiquei para me proteger e que acabam por me encerrar, e essa lepra do pecado que me corta de Ti e dos outros. Já não quero esconder-Te a minha miséria, nem contentar-me com palavras superficiais. Hoje, prostro-me diante de Ti com a pobreza e a audácia deste leproso: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me». Tu conheces as minhas zonas de sombra, os meus desanimas, as minhas incapacidades de amar puramente: vem tocar o que está doente em mim. Estende a Tua mão soberana sobre as minhas ruínas interiores. Que a Tua voz ressoe no meu coração e me repita a Tua vontade de me ver de pé, vivo e restaurado. Não me permitas habituar-me à terra do exílio, mas acende em mim o desejo da verdadeira comunhão. Que a Tua graça me purifique para que toda a minha vida se torne, no meio deste mundo, um testemunho vivo da Tua ternura e da Tua potência que tudo recria. Amém. 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- Quando as estruturas desabam: o segredo das fundações invisíveis
(Quinta-feira, 12a Semana do Tempo Comum) Deportação dos judeus para o cativeiro babilônico, (1838), Eduard Bendemann Leituras da Missa: 2 Rs 24, 8-17 ; Salmo 78/79 ; Mt 7, 21-29 A existência humana atravessa inevitavelmente momentos de crise onde aquilo que pensávamos ser sólido começa a vacilar. Os textos desta quinta-feira convidam-nos a não esperar pela tempestade para verificar a qualidade das nossas fundações, mas a trabalhar nelas desde agora, a operar um retorno radical ao essencial. 1. A ilusão das falsas seguranças e a queda dos templos de areia A primeira leitura mergulha-nos num dos momentos mais sombrios da história de Israel: a queda de Jerusalém e a deportação para a Babilônia. O jovem rei Joaquin «fez o que era mau aos olhos do Senhor» e, por isso, viu o seu reino desmoronar-se em apenas três meses. Nabucodonosor, rei da Babilônia, saqueia tudo: os tesouros do Templo, os objetos de ouro de Salomão e toda a elite do país; ele «deportou toda Jerusalém (…) não foi deixada no lugar senão a população mais pobre». É o drama absoluto de um povo que se tinha habituado a pensar que la presença física do Templo e a linhagem real bastavam para garantir a sua segurança, independentemente da sua fidelidade à Aliança. Esta tragédia histórica ilumina com uma luz crua o fim do Sermão da Montanha, onde Jesus fala da casa construída sobre a areia. A areia é a ilusão de crer que as estruturas exteriores, as heranças ou as aparências podem nos salvar quando o fundamento interior está corrompido. Jerusalém desabou porque se tinha tornado uma casca vazia, preferindo seguir o seu próprio caminho – por medo dos seus inimigos – em vez de confiar no Senhor. O que nos faz lembrar o domingo anterior, que nos recordava para não temer aqueles que matam o corpo, pois o nosso valor é imenso aos olhos do Pai: o problema é que Jerusalém esqueceu que Deus cuida sempre do seu povo! Se a nossa vida, então, permanecer escondida em Deus, poderemos nos libertar do medo das ameaças exteriores; mas se essa confiança se evaporou, se já não temos senão palavras vazias, então o menor vento nos derruba. 2. A armadilha do verbalismo espiritual: "Senhor, Senhor" No evangelho de hoje, Jesus pronuncia palavras de uma severidade que nos deve sacudir: «Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus». Ele vai ainda mais longe ao descrever pessoas que profetizaram, expulsaram demônios e fizeram milagres em nome de Cristo, mas a quem dirá: «Nunca vos conheci». Mas então um problema se impõe: como é isso possível? Como podem obras tão espetaculares coincidir com um vazio espiritual tão abissal? A resposta toca o coração da nossa psicologia religiosa, porque, de fato, existe uma tentação permanente de substituir a conversão do coração pelo ativismo ou pelo verbalismo espiritual. Pode-se utilizar o nome de Deus para construir uma identidade social, para tranquilizar o próprio ego ou para exercer um poder sobre os outros. Mas fazer coisas "em nome de Deus" não é idêntico a "fazer a vontade do Pai". A profecia, os milagres, os sinais espetaculares podem não ser mais do que areia se servirem para a nossa própria glória, quando nós, os administradores, os operários da vinha do Senhor, nos apropriamos de tudo e nos servimos de todos esses dons para nós mesmos. Jesus, então, ensina-nos que o critério último da vida cristã não é a eficácia exterior ou o brilho dos carismas, mas o conhecimento íntimo e recíproco que nasce da obediência filial. 3. Edificar sobre a rocha: a escuta que se torna vida O que é, então, a rocha? Jesus define-o claramente: «Aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática». A rocha não é simplesmente uma doutrina abstrata ou uma ortodoxia intelectual; a rocha é a Palavra de Deus encarnada no quotidiano das nossas escolhas concretas. O homem prudente não se contenta em escutar o Sermão da Montanha com admiração — como as multidões que ficavam impressionadas com a sua autoridade — ele começa a cavar o solo da sua vida para nele fincar as suas decisões. São João da Cruz escrevia que, para progredir, é preciso apegar-se mais à colocação em prática da virtude do que à busca de consolações ou de revelações extraordinárias. Pôr em prática a Palavra é aceitar que ela venha contrariar os nossos egoísmos, purificar as nossas intenções e guiar as nossas relações. É um trabalho invisível, ingrato, que exige tempo e paciência, tal como lançar fundações profundas: ninguém vê as fundações de uma casa porque estão escondidas debaixo da terra. É precisamente nesta vida escondida, no segredo das nossas fidelidades quotidianas quando ninguém nos olha, que se decide a solidez da nossa existência. Conclusão e aplicação para o nosso dia A tempestade faz parte da vida. Jesus não promete que o homem prudente será poupado da chuva, das torrentes ou dos ventos, mas o que provoca a ruína não são os eventos exteriores, mas a nossa escolha de investir ou não na fundação. A diferença entre a casa sobre a rocha e a outra sobre a areia não se vê com o tempo bom, ela se revela unicamente sob o impacto da provação. Para aplicar esta sabedoria hoje, examinemos honestamente as nossas motivações: o que nos faz agir? Será o desejo de ser vistos, de parecer bons cristãos, ou a busca sincera da vontade do Pai? E ainda, escolhamos uma palavra concreta do Evangelho ouvida recentemente e traduzamo-la hoje num ato preciso: um perdão a dar, um serviço escondido a realizar ou um silêncio benevolente a guardar. É assim que se coloca uma pedra sobre a rocha. Oração Senhor Jesus, Tu que és o único verdadeiro Rochedo sobre o qual posso apoiar a minha existência sem temor, olha para as fundações da minha vida. Tu conheces as minhas fraquezas, as minhas hipocrisias e todas as vezes em que me contento em Te dizer "Senhor, Senhor" sem deixar que a Tua Palavra transforme os meus atos. Livra-me da ilusão das falsas seguranças. Não me deixes edificar a minha vida sobre a areia da aprovação dos outros, do conforto material ou de um ativismo religioso estéril. Quando as tempestades da vida surgirem, quando os ventos da dúvida ou do sofrimento baterem contra a minha casa, faz com que eu não caia, porque terei escolhido me ancorar em Ti. Dá-me a graça de uma escuta obediente e cordial. Ensina-me a descer ao segredo do meu coração para nele cumprir a vontade do Pai, com a paciência do artesão que cava até à rocha. Que a minha vida não seja uma fachada enganosa, mas um santuário sólido onde Tu habitas verdadeiramente e onde o Teu amor dá fruto. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho em direção ao Senhor, e não hesiteis em partilhar os vossos sentimentos nos comentários, a fazer perguntas, a deixar um testemunho… isso enriquece a reflexão e encoraja os irmãos e irmãs. Que Deus vos abençoe. Desejo-vos um excelente dia.
- A identidade recebida e a alegria de se esvaziar
(Quarta-feira, Natividade de São João Batista - Solenidade) Zacarias dá o nome de São João Batista a seu filho, Fra Angelico Leituras da Missa: Is 49, 1-6 ; Salmo 138/139 ; At 13, 22-26 ; Lc 1, 57-66.80 O nascimento de João Batista não é simplesmente um evento histórico que marca o limiar da Nova Aliança; ele é o espelho da nossa própria aventura espiritual, um convite a redescobrir o peso espiritual da nossa existência. 1. O nome compartilhado no segredo O profeta Isaías confia-nos uma certeza fundamental: «O Senhor chamou-me desde o seio maternel; desde as entranhas de minha mãe pronunciou o meu nome.». Esta intuição encontra um eco perfeito no Salmo 138, onde o salmista se maravilha diante da obra de Deus: «Fostes vós que criastes as minhas entranhas, que me tecestes no seio de minha mãe.». A experiência de Fé não começa pelos nossos esforços para alcançar Deus, mas pela tomada de consciência de que Deus nos pensou, amou e nomeou antes mesmo que tivéssemos consciência de nós mesmos. A nossa identidade não é um produto do acaso ou das expectativas daqueles que nos rodeiam, ela é um dom sagrado. No Evangelho, os vizinhos e a família querem chamar o menino de Zacarias, pelo nome de seu pai. Eles não são maus, mas tal atitude iria encerrá-lo numa repetição, numa lógica de herança familiar e de convenções sociais. Querer chamar o menino de Zacarias seria uma recusa da novidade de Deus para permanecer no conhecido, naquilo que tranquiliza o mundo. Mas Isabel, e depois Zacarias, quebram essa corrente do conformismo: «João é o seu nome». Ao aceitarem este nome que significa "Deus faz graça", os pais reconhecem que este menino pertence antes de tudo a Deus, entram na novidade de Deus e a anunciam a todo o mundo. Romper com as expectativas do mundo para abraçar o projeto único que Deus tem para nós é o primeiro passo para a verdadeira liberdade. 2. A palavra libertada pela obediência A atitude de Zacarias ensina-nos o caminho da cura interior. Na verdade, por ter duvidado da promessa do anjo, Zacarias tornou-se mudo. Esse mutismo não é uma punição arbitrária, mas a consequência lógica da incredulidade: com efeito, quando não se crê mais na Palavra de Deus, a nossa própria palavra torna-se estéril, vazia de sentido, incapaz de comunicar a vida. Durante nove meses, Zacarias viveu uma grande quaresma do silêncio, um deserto interior onde teve de digerir o seu orgulho e o seu ceticismo. O momento da verdade chega quando lhe perguntam por acenos como quer chamar o menino. Ao escrever na tabuinha «João é o seu nome», Zacarias não exprime uma simples preferência, mas pratica um ato de obediência absoluta à palavra do anjo: «No mesmo instante, a sua boca abriu-se, a sua língua desatou-se e ele falava, bendizendo a Deus.». A nossa palavra só reencontra a sua força e a sua fecundidade quando nos alinhamos com a verdade de Deus; e, no caso de Zacarias, é então que o seu silêncio se transforma numa explosão de louvor. Este relato é para nós um convite a olhar para os nossos próprios mutismos, as nossas incapacidades de testemunhar ou de amar, e a compreender que os nossos mutismos nascem frequentemente das nossas resistências interiores diante da vontade divina. 3. A grandeza do precursor: saber decrescer A segunda leitura mostra-nos São Paulo resumindo a missão de João Batista em Antioquia da Pisídia. João preparou a vinda de Jesus pregando um batismo de conversão. Mas o ápice da sua santidade reside na sua declaração memorável: «Eu não sou quem vós pensais que eu sou. Mas eis que vem depois de mim Aquele de quem não sou digno de desatar as sandálias dos pés». João recusa apropriar-se de uma glória que não lhe pertence; enquanto a multidão está fascinada por ele, ele a redireciona imediatamente para o Cristo. Esse é o segredo da alegria profunda, aquela que João já sentia ao estremecer no seio de Isabel. A verdadeira grandeza humana não consiste em ocupar todo o espaço, mas em criar espaço para um Outro. João Batista é o homem do desapego radical, ele sabe que não é a luz, mas a testemunha da luz. Como diziam frequentemente os Padres da Igreja, João é a voz que passa, mas o Cristo é a Palavra que permanece. Numa cultura que nos empurra para a autocelebração, João ensina-nos a arte de decrescer para que o Cristo cresça em nós, pois é aí que reside a nossa verdadeira dignidade. 4. O mistério do deserto e da maturação O Evangelho conclui-se com uma nota discreta, mas essencial, sobre o crescimento do menino: «O menino crescia e o seu espírito fortalecia-se. E habitou no deserto até ao dia em que se manifestou a Israel». O deserto, na Bíblia, não é apenas um lugar geográfico, mas um espaço espiritual de despojamento e de clarificação. Para que João pudesse cumprir a sua missão sem se deixar corromper pelos aplausos ou pelas pressões da sociedade, ele teve de ser educado pelo silêncio do deserto. Cada um de nós precisa do seu próprio deserto; de fato, o deserto é o lugar onde as nossas motivações são purificadas, onde aprendemos a depender unicamente de Deus e não de muletas humanas. As grandes missões preparam-se sempre na sombra e na fidelidade das pequenas coisas. São João da Cruz lembra-nos que Deus guia a alma numa noite escura para a desapegar das satisfações sensíveis e uni-la mais intimamente a Ele. A longa retirada de João no deserto mostra-nos que o tempo de Deus não é o nosso; a maturação do espírito exige paciência e silêncio. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Solenidade da Natividade de São João Batista coloca-nos novamente diante da nossa vocação profunda; com efeito, não estamos aqui para deixar o nosso nome na história, porque ele estará na história se dermos o lugar ao Senhor da história, se fizermos ressoar o único Nome capaz de salvar. Para encarnar esta Palavra hoje: Cessemos de procurar corresponder a todo o custo às expectativas ou às etiquetas que os outros, o nosso trabalho ou a sociedade nos querem colar. Tiremos um momento para nos lembrarmos de que nascemos de Deus, a nossa verdadeira identidade é única e conhecida por Deus só. Pratiquemos hoje a arte do esvaziamento benevolente. Deixemos o primeiro lugar a outro, não procuremos ter a última palavra numa discussão, alegremo-nos com o sucesso dos outros e orientemos os elogios que recebemos para a fonte de todo o bem: o Senhor. Oração Senhor Deus, Vós que me sondastes e conhecestes antes mesmo que eu fosse formado no segredo do seio de minha mãe, dou-Vos graças pelo prodígio que sou aos Vossos olhos. Pronunciastes o meu nome com amor e chamais-me para uma missão que só eu posso cumprir neste mundo. Livrai-me, Senhor, da tentação de querer sempre me vangloriar do meu nome, de repetir os esquemas do passado ou de me conformar com as exigências daqueles que me rodeiam para ser amado. Dai-me a coragem de Zacarias para obedecer à Tua Palavra, mesmo quando ela bouscula os meus hábitos, a fim de que a minha boca se abra para proclamar as Tuas maravilhas e não as minhas próprias reclamações. Faz de mim, à imagem de João Batista, uma voz que prepara os Teus caminhos. Concede-me a graça de saber me esvaziar com alegria, de não reter os olhares sobre mim mesmo, mas de sempre apontar para Jesus, o Cordeiro de Deus. Que o meu espírito se fortaleça no deserto da oração e do silêncio, a fim de que toda a minha vida se torne uma transparência da Tua luz. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho em direção ao Senhor, e não hesiteis em partilhar os vossos sentimentos nos comentários, a fazer perguntas, a deixar um testemunho… isso enriquece a reflexão e encoraja os irmãos e irmãs. Que Deus vos abençoe. Desejo-vos um excelente dia.
- O segredo da porta estreita: a audácia da confiança e a coragem do bem
(Terça-feira, 12a Semana do Tempo Comum) A derrota de Senaqueribe na Alte Pinakothek, por Pedro Paulo Rubens (entre 1612 e 1614) Leituras da Mass: 2 Rs 19, 9b-11.14-21.31-35a.36 ; Salmo 47/48 ; Mt 7, 6.12-14 Na primeira leitura, o relato do segundo livro dos Reis mergulha-nos no coração de uma enorme crise: o rei da Assíria, Senaqueribe, cerca Jerusalém com um exército aterrorizante. Senaqueribe envia uma carta ao rei Ezequias para ameaçá-lo, o que poderia ser considerado um apelo ao bom senso. Grosso modo, Senaqueribe diz-lhe: olha ao teu redor, todos os países foram destruídos, por que o teu Deus te salvaria? É a linguagem da fatalidade, da lógica do mais forte, essa voz que murmura frequentemente ao nosso ouvido que a confiança em Deus é uma ilusão diante das duras realidades da existência. A reação de Ezequias é extraordinária, sublime: ele pega a carta, sobe ao Templo e a desdobra diante do Senhor. O rei Ezequias não esconde nada de Deus, mostra-Lhe a sua ferida e a sua impotência, e a resposta de Deus não se faz esperar: «Protegerei esta cidade, salvá-la-ei por causa de mim mesmo e por causa de Davi, meu servo». Este combate histórico encontra o seu cumprimento espiritual no Evangelho de Mateus; de fato, Jesus fala-nos aqui de escolhas fundamentais, de pérolas a proteger e de caminhos a tomar. Mantendo na memória a nossa reflexão de domingo sobre o medo que paralisa e o olhar crítico que procura fugir da nossa própria realidade, o Cristo mostra-nos hoje o caminho de um boost, um impulso interior. Na verdade, a vida espiritual não é uma negociação passiva com os acontecimentos, mas um engajamento corajoso que exige discernir o que é precioso e escolher a porta estreita. 1. A dignidade da nossa interioridade: não jogar as pérolas A primeira frase do Evangelho parece misteriosa, quase dura: «Não deis aos cães o que é sagrado, nem jogueis as vossas pérolas aos porcos». Por trás dessas imagens semíticas provocantes esconde-se uma verdade antropológica profunda: a pérola, na linguagem de Jesus, representa o Reino, isto é, a intimidade do nosso coração, a nossa capacidade de amar, a nossa fé e a nossa dignidade de filhos de Deus; os cães e os porcos simbolizam as forças de destruição, a vulgaridade do mundo ou essas relações tóxicas que pisoteiam o que temos de mais belo. Quantas vezes jogamos as nossas pérolas como alimento? Entregamos, por exemplo, a nossa paz interior aos boatos, às críticas, à aprovação superficial das redes sociais ou a dinâmicas de dependência afetiva. Ezequias recusou-se a dar a sua pérola — a sua confiança em Deus — aos mensageiros de Senaqueribe; guardou-a intacta para a depositar no Templo. Portanto, proteger o que é sagrado em nós não significa isolar-se ou desprezar os outros, mas reconhecer o valor infinito da nossa alma para não a deixar profanar pelas lógicas do mundo. Esta atitude é o primeiro passo para caminhar em direção à vida, significa honrar o tesouro que Deus colocou em nós. 2. A regra de ouro: a inversão da perspectiva Jesus enuncia em seguida o que a tradição chama de regra de ouro: «Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-lho vós também a eles». À primeira vista, isso se parece com uma regra de sabedoria universal que se encontra em numerosas culturas, frequentemente sob a sua forma negativa: não faças ao outro o que não gostarias que te fizessem. Mas Jesus dá um salto qualitativo imenso ao formulá-la de maneira positiva e ativa: para Jesus, não basta simplesmente não fazer o mal, devemos tomar a iniciativa para fazer o bem. «...pois esta é a Lei e os Profetas». Com efeito, se refletirmos bem, este comando cura-nos do egocentrismo e do espírito de reivindicação quase automático em nós. Frequentemente, encontramo-nos na atitude daqueles que esperam que os outros mudem, que sejam mais atentos, mais benevolentes, mais agradecidos connosco e que sejam os outros a vir ao nosso encontro para pedir desculpas. Jesus inverte a situação: o que esperais do vosso cônjuge, do vosso colega, do vosso irmão, do vosso próximo, começai vós mesmos por lho oferecer! A vida cristã não começa quando as condições exteriores são perfeitas, mas quando decidimos amar primeiro, sem esperar reciprocidade. É exatamente o comportamento de Deus que, como lembrava São Paulo na carta aos Romanos: «...fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, quando éramos ainda seus inimigos...» (Rm 5,10). 3. A porta estreita: a escolha da vida verdadeira Por fim, o Cristo coloca-nos diante de uma alternativa radical: a porta larga e o caminho espaçoso que conduzem à perdição, e a porta estreita e o caminho apertado que conduzem à vida. O mensagem é claro, ou seja, o caminho largo é o da facilidade, do relaxamento, da reação imediata aos nossos impulsos, da reclamação contínua, do conformismo social... É muito fácil entrar por esta porta, pois ela não exige nenhum esforço sobre si mesmo. Mas este caminho, embora atraente no início, estreita-se por dentro e conduz ao sufocamento da alma, à perdição. O caminho apertado, por outro lado, exige uma conversão, um despojamento. Trata-se do caminho da fidelidade quotidiana, do perdão oferecido, do domínio de si e da confiança absoluta em Deus no meio da tempestade. Por que esta porta é estreita? Porque não se pode atravessá-la com as bagagens volumosas do nosso orgulho, dos nossos rancores e das nossas falsas seguranças. É preciso fazer-se pequeno, como Ezequias, que se despoja da sua soberba real para rezar de joelhos. A porta estreita não é uma armadilha de Deus para nos tornar a vida difícil, é a única passagem onde o nosso coração, libertado do supérfluo, encontra a verdadeira largueza da vida divine. Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia deste dia convida-nos a deixar a postura de vítimas das nossas circunstâncias para nos tornarmos atores da graça. Para encarnar esta Palavra hoje, proponhamo-nos a não deixar que as dificuldades ou as palavras negativas daqueles que nos rodeiam ditem o nosso estado de espírito. Escolhamos proteger a nossa paz interior entregando imediatamente as nossas preocupações a Deus, à imagem de Ezequias que estende a sua carta. E ainda, pratiquemos ativamente a regra de ouro hoje: em vez de esperar um gesto, uma palavra encorajadora ou um sorriso da parte de alguém, tomemos a iniciativa de dar precisamente o que gostaríamos de receber. Oração Senhor Jesus, Tu conheces os exércitos de dúvidas, de medos e de dificuldades que às vezes cercam o meu coração e procuram abalar a minha fé. Ensina-me, na escola do rei Ezequias, a não lutar apenas com as minhas forças terrenas, mas a estender diante de Ti todas as minhas feridas e as minhas impotências, com a certeza de que Tu és a minha única cidadela. Perdão por todas as vezes em que desperdicei as pérolas da minha interioridade, entregando a minha paz ao julgamento dos outros e às distrações fáceis. Dá-me a força de escolher hoje a porta estreita. Dá-me a coragem da renúncia ao egoísmo, à crítica fácil e ao conforto do caminho largo que adormece a alma. Que o Teu Espírito Santo me torne capaz de praticar a regra de ouro com alegria. Faz de mim o primeiro a oferecer o perdão, o primeiro a escutar, o primeiro a amar, sem nada esperar em troca. Entrego a minha vida nas Tuas mãos, certo de que o Teu caminho, embora apertado, é o único que se abre para o espaço infinito da Tua vida e da Tua alegria. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho em direção ao Senhor, e não hesiteis em partilhar os vossos sentimentos nos comentários, a fazer perguntas, a deixar um testemunho… isso enriquece a reflexão e encoraja os irmãos e irmãs. Que Deus vos abençoe. Desejo-vos um excelente dia.
- O espelho da alma: do julgamento que cega ao olhar que cura
(Segunda-feira, 12a Semana do Tempo Comum) A Parábola dos Cegos por Pieter Bruegel, o Velho (1568) A primeira leitura de hoje, do segundo livro dos Reis, coloca-nos diante de um desastre histórico do povo de Israel, ou seja, a queda de Samaria – o Norte – e a deportação do povo. A tradição Deuteronomista, responsável também pela redação dos livros dos Reis, é clara ao fazer-nos compreender que não se trata de um simples acidente político, mas é a história de um desmoronamento interior. O texto de hoje diz isso claramente: «Mas eles não obedeceram e endureceram a sua cerviz como tinham feito os seus pais, que não tinham confiado no Senhor seu Deus.». Eles preferiram olhar para outro lado, seguir os costumes dos outros, em vez de olhar para o próprio coração e permanecer fiéis à Aliança. E o salmo de hoje exprime bem o que deve ter sido a dor do povo de Israel nesse momento: «Deus, tu nos rejeitaste, quebrantaste; estavas irado, volta-te para nós! Sacudiste, deslocaste o país; repara as suas fendas: ele desmorona-se.». É a consequência dos seus atos, o diagnóstico de uma ruptura de relação com Deus. E é precisamente aqui que Jesus nos espera no Evangelho de hoje. É preciso saber bem que o Cristo não nos fala de uma moral exterior, ele nos fala da estrutura mesma da nossa vida espiritual. Fazendo eco à nossa meditação dominical, onde vimos como o medo do mundo se apaga diante do olhar amoroso do Pai, Jesus desmonta hoje o mecanismo pelo qual fugimos desse olhar: o julgamento do outro. O julgamento é a estratégia que utilizamos para não ver as nossas próprias fendas, a nossa própria ruína interior. Entremos nessa lógica para deixar o Senhor reparar o que está deslocado. 1. A ilusão do tribunal interior Jesus começa com uma palavra que ecoa como um absoluto: «Não julgueis, para não serdes julgados». Para compreender a profundidade desta frase, é preciso ver que o julgamento é uma tentativa de tomar o lugar de Deus: quando julgo, instalo-me num trono que não me pertence; na verdade, quando julgo, olho para o meu irmão não como uma pessoa a amar, mas como um processo a resolver. Lembremo-nos bem do relato do pecado original, onde o homem passa a decidir por si mesmo o que é bom e o que é mau. É o drama de Israel na primeira leitura: à força de olhar para os ídolos das nações e julgar a Lei de Deus como insuficiente, perderam a sua própria identidade. O Cristo adverte-nos: «a medida com que medirdes, com ela vos medirão». Não se trata de uma ameaça de vingança divina, mas de uma lei espiritual de reciprocidade diante da incapacidade humana de julgar o que é bem e o que é mal. O coração que se fecha à misericórdia para com os outros torna-se incapaz de receber a misericórdia para si mesmo, mas não porque Deus se feche a ele, não! Mas porque a misericórdia se torna para ele algo completamente estranho, desconhecido, dir-se-ia quase incompatível! Se passamos a vida a condenar, construímos uma prisão de dureza da qual seremos os primeiros prisioneiros. O ato de recusar julgar não é ingenuidade, é o começo da liberdade cristã, onde reencontramos enfim o nosso verdadeiro lugar. 2. O cisco e a trave, uma anatomia da fuga A imagem do cisco e da trave utilizada por Jesus é quase humorística, mas o seu significado é trágico. Com efeito, poder-se-ia bem perguntar: como é possível sermos tão rápidos a notar um fio de cisco no outro e totalmente cegos à trave que bloqueia a nossa própria visão? A resposta é simples: examinar o pecado do outro é uma magnífica distração para não chorar sobre o nosso. É a grande armadilha da vida espiritual: ocupamo-nos da santidade do vizinho para não termos de começar o trabalho em nós mesmos; mas o que é preciso saber é que preocupar-se com o pecado do outro — em vez de ser compassivo, misericordioso — denuncia que há ainda muito a fazer em nós mesmos antes de cuidarmos do outro. A palavra, então, que Jesus utiliza é forte: Hipócrita! No teatro antigo, o hipócrita é aquele que usa uma máscara. A hipocrisia espiritual consiste em usar a máscara do justo para esconder um coração ferido e orgulhoso. São João da Cruz lembrava-nos frequentemente que as almas que começam a progredir caem às vezes numa espécie de ira espiritual, tornando-se impacientes diante das imperfeições dos outros, em vez de se olharem a si mesmas com humildade. A trave é esse orgulho que nos impede de ver que também nós temos uma necessidade infinita de ser salvos. 3. A purificação do olhar para uma verdadeira fraternidade A conclusão de Jesus não é uma proibição de ajudar o nosso irmão, de fato Ele não diz para deixar o cisco no olho do irmão para todo o sempre, mas diz: «Tira primeiro a trave do teu olho; e então verás claramente para tirar o cisco». A prioridade é cronológica e existencial. A correção fraterna é um ato de amor, necessário para uma verdadeira vida comunitária, mas exige um olhar purificado. Se quero ajudar alguém a curar-se, não posso aproximar-me com a dureza de um juiz, mas com a compaixão de um doente em convalescença. Só aquele que fez a experiência de ser perdoado e curado por Deus pode aproximar-se da fraqueza do seu irmão com a delicadeza necessária. O objetivo da vida cristã não é ignorar o mal, mas olhá-lo com os olhos do Cristo, olhos cheios de lágrimas e de ternura, não de condenação. Ao retirarmos a nossa trave pelo sacramento do perdão e pela humildade, redescobrimos que o outro não é um inimigo a avaliar, mas um membro do mesmo corpo a sustentar. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra de Deus hoje chama-nos a passar da crítica que divide para a humildade que reconstrói. Para viver isso concretamente hoje, observemos os nossos pensamentos e as nossas palavras. Assim que sentirmos brotar em nós uma crítica ou um julgamento sobre um colega, um membro da nossa família ou um acontecimento, paremos imediatamente. Substituamos esse julgamento por uma oração secreta por essa pessoa e perguntemos ao Senhor: O que é que esta situação revela sobre as faltas do meu próprio coração? E, além disso, façamos um ato de verdade indo pedir perdão ou tendo um gesto de benevolência para com alguém que tenhamos mental ou verbalmente condenado nos últimos tempos. Oração Senhor Jesus, Tu que sondas os rins e os corações, Tu vês como me é fácil ver os defeitos dos outros e como sou cego para as minhas próprias misérias. Perdão por todas as vezes em que me sentei na cadeira de juiz, esquecendo que sou o primeiro a depender inteiramente da Tua misericórdia. Retira, peço-Te, a trave de orgulho, de autossuficiência e de amargura que obstrui o meu olhar. Ensina-me a santa humildade que sabe reconhecer as suas próprias fendas antes de querer reparar as alheias. Cura a minha visão para que eu possa olhar para os meus irmãos e irmãs como Tu os olhas: com paciência, ternura e um desejo imenso de os ver crescer. Não permitas que eu endureça a minha cerviz como o povo de Israel, mas torna o meu coração maleável e aberto às Tuas advertências. Que a minha única medida para com os outros seja a do Teu amor gratuito, a fim de que eu possa, também eu, permanecer para sempre sob o olhar do Teu perdão. Amém.
- A coragem da vulnerabilidade: vencer o medo sob o olhar do Pai
(12o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O profeta Jeremias (Capela Sistina) - Michelangelo, entre 1508 e 1512 Leituras da Missa: Jr 20, 10-13 ; Salmo 68/69 ; Rm 5, 12-15 O medo é, sem dúvida, a experiência humana mais universal e mais paralisante. Com efeito, o medo insinua-se nas nossas relações, dita as nossas escolhas e acaba frequentemente por encerrar a nossa existência num reduto de compromissos. Este 12º domingo do Tempo Comum situa-nos precisamente na encruzilhada dos nossos medos e da verdade da nossa fé. A liturgia da Palavra não procura anestesiar-nos com falsas promessas de conforto, mas, pelo contrário, expõe a nossa vulnerabilidade para nela introduzir uma certeza libertadora: nós não estamos abandonados. Para compreender o apelo de Cristo a não temer os homens, é preciso escutar o clamor de Jeremias na primeira leitura, onde o profeta sofre a calúnia e a traição dos seus próprios amigos, tornando-se o alvo de zombarias. Na verdade, a sua vida está ameaçada porque ele carrega uma palavra que incomoda. E, no entanto, no coração mesmo desta aflição, opera-se uma reviravolta, porque Jeremias não se apoia nas suas próprias forças, mas na presença do Senhor, a quem descreve como um «guerreiro temível». É esta experiência da perseguição que ilumina a palavra de Jesus no Evangelho deste domingo. O Cristo retoma a realidade do combate espiritual e humano para lhe dar a sua dimensão definitiva: o medo humano só pode ser vencido pela revelação da nossa dignidade de filhos. São Paulo, na sua carta aos Romanos – segunda leitura –, vem confirmar esta vitória lembrando-nos que, se o pecado e a morte feriram a nossa condição humana, o dom gratuito da graça em Jesus Cristo superabundou de maneira infinitamente mais poderosa. Entremos, então, juntos nesta dinâmica de confiança. 1. O complô do medo e a tentação do silêncio A primeira leitura mergulha-nos no clima psicológico da perseguição: o profeta Jeremias ouve os murmúrios da multidão e sofre a vigilância hipócrita dos seus parentes que espreitam a sua queda. Se refletirmos bem, trata-se de uma estratégia clássica do mundo: isolar aquele que procura viver na verdade para o empurrar ao compromisso ou ao silêncio. Esta experiência de Jeremias encontra o seu cumprimento na advertência que Jesus dirige aos seus discípulos no Evangelho de hoje: o Cristo, com efeito, sabe que o testemunho da verdade desperta inevitavelmente a oposição. Devemos reconhecer que o medo dos homens é uma armadilha temível porque nos empurra a esconder o que somos. Ele sussurra-nos que vale mais fundir-se na massa, calar as nossas convicções profundas e mascarar a nossa fé para evitar o conflito, que não vale o sacrifício. Mas Jesus, no primeiro versículo do Evangelho de hoje, quebra esse círculo vicioso: «Não tenhais medo dos homens; nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nem oculto que não venha a ser conhecido». O Cristo, portanto, convida-nos a recusar a vida dupla: «o que ouvis ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados». O primeiro passo para a liberdade consiste em aceitar o risco de ser rejeitado para permanecer fiel à verdade do Evangelho, fiel a si mesmo. 2. A justa medida das ameaças: o corpo e a alma Jesus, então, continua o seu discurso introduzindo uma distinção fundamental, mas que ao mesmo tempo vira ao avesso a nossa escala de valores: «Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma». Vivemos numa época que tende a absolutizar a sobrevivência física, o bem-estar material…, mas que esquece que o homem é habitado por uma dimensão eterna. Aqueles que atacam o corpo, seja pela violência física, pela exclusão social ou pela destruição da reputação, só têm, na realidade, um poder limitado. Eles não podem tocar no essencial: a nossa comunhão com Deus. E aproveito a oportunidade para acrescentar um pequeno parêntese para uma opinião pessoal: é justamente por não termos mais esta certeza que temos, neste nosso século, homens e mulheres fracos, paralisados pelo medo e que, consequentemente, são alvos muito fáceis do autoritarismo e dos sistemas que nos acorrentam. Vivemos numa sociedade onde ninguém é capaz de reação: queixamo-nos, criticamos, mas ninguém é capaz de ação! Os personagens que fizeram a história foram aqueles que não tinham medo de dar a sua vida porque estavam certos desta verdade evangélica: os que matam o corpo não podem matar a alma. E os primeiros a agir seguros desta verdade foram os apóstolos: a Igreja existe graças ao sangue derramado, a almas vivas para a eternidade. Com efeito, este discurso de Jesus revela-nos que a verdadeira tragédia não é perder a vida corporal, mas perder a alma, isto é, deixar apagar em si a capacidade de amar e de receber o amor de Deus. E para o dizer com uma linguagem terra-a-terra, que até os ateus compreendem: quem ama faz história, é memorável; quem não ama é esquecido; é isso perecer na geena: não amar, não receber o amor de Deus. E atenção, porque temer a Deus não significa ter medo de um tirano cruel, mas sentir uma santa reverência diante do único que detém o sentido último da nossa existência. Viver o Evangelho é levar a nossa liberdade a sério, compreendendo que as nossas escolhas têm um alcance eterno: é apenas isso que nos permite verdadeiramente amar. 3. A teologia do pardal e o valor da nossa vida Para nos arrancar à angústia da destruição, Jesus utiliza uma imagem de uma simplicidade e de uma ternura avassaladoras, Ele fala dos pardais, essas aves tão comuns e de tão pouco valor nos mercados da época. E, no entanto, «nem um só deles cairá em terra sem o consentimento do vosso Pai»: o Cristo faz-nos passar de um mundo que parece regido pelo acaso ou pela fatalidade cega para um universo sustentado pela Providência amorosa de Deus. E a afirmação culmina nesta revelação personalizada: «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados». É uma maneira de dizer que nada do que compõe a nossa vida, nenhum detalhe, nenhuma ferida escondida, nenhuma lágrima derramada no segredo, escapa ao olhar do Pai. É por estas afirmações evangélicas que devemos convencer-nos de que o nosso valor não depende do nosso sucesso, da nossa utilidade social ou da aprovação dos homens, mas do fato de sermos amados pessoalmente por Deus. Esta certeza é o único remédio eficaz contra a ansiedade que corrói o nosso quotidiano. 4. A coragem do testemunho e o espelho da eternidade O Evangelho conclui-se com uma palavra solene sobre a responsabilidade do nosso testemunho: «Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos céus». Há uma reciprocidade profunda entre a nossa liberdade histórica e o reconhecimento eterno: confessar o Cristo diante dos homens não é dar provas de arrogância ou de proselitismo agressivo, é assumir publicamente a nossa identidade de crentes através dos nossos atos, das nossas palavras e das nossas escolhas de vida. E estejamos atentos porque o renegamento, à inversa, começa frequentemente por pequenas cobardias quotidianas, quando fingimos não conhecer o Cristo para agradar aos que nos rodeiam ou para preservar os nossos interesses, a nossa imagem diante do mundo. Jesus, neste discurso, lembra-nos que a nossa vida terrena é o lugar onde se joga o nosso destino eterno. Como nos ensina a tradição mística da Igreja, no entardecer desta vida, seremos julgados sobre o amor e sobre a fidelidade. Declarar-se por Jesus é aceitar perder a nossa vida segundo os critérios do mundo para a salvar na luz do Pai. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra de Deus convida-nos hoje a uma conversão do olhar. Ela propõe-nos passar do medo que paralisa para a confiança que põe em marcha. Para traduzir esta meditação no concreto da nossa existência, eis duas pistas de ação: Identifiquemos o medo específico que influencia ou bloqueia atualmente uma das nossas decisões (medo do julgamento de um colega, medo do futuro, medo de não estar à altura). Olhemos essa situação de frente e repitamos calmamente esta palavra do Cristo a nós mesmos: Não tenhais medo, vós valeis mais do que uma multidão de pardais. Façamos hoje um ato claro, mas ao mesmo tempo discreto, de fidelidade à nossa fé. Isso pode ser tirar o tempo para rezar antes de uma refeição, um sinal da cruz antes das nossas atividades, defender uma pessoa caluniada na nossa presença, ou exprimir com mansidão, mas de forma clara, uma convicção cristã numa conversa. Oração Senhor Jesus, Tu conheces os recônditos secretos da minha alma e sabes o quanto o medo dos homens e do "que dirão" pode acorrentar-me. Muitas vezes, busquei o refúgio do silêncio ou do compromisso para não desagradar, esquecendo a dignidade do meu batismo. Cura o meu coração dessa ansiedade estéril; ensina-me a olhar-me com os olhos do Pai, a lembrar-me de que cada um dos meus cabelos está contado e que a minha vida tem um preço infinito aos Teus olhos. Que esta certeza do Teu amor se torne a minha força e o meu escudo diante das tempestades e das incompreensões do mundo. Dá-me a graça da coragem; que eu não tenha medo de viver em plena luz o que Tu me sussurras no segredo da oração. Faz de mim uma testemunha audaz e humilde da Tua verdade, verdade revelada pelas Sagradas Escrituras, testemunhada e confirmada pela Tradição da Igreja, a fim de que, no último dia, eu possa ouvir a Tua voz reconhecer-me diante do Pai que está nos céus. Amém.












