Quando as estruturas desabam: o segredo das fundações invisíveis
- 24 de jun.
- 5 min de leitura
(Quinta-feira, 12a Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: 2 Rs 24, 8-17 ; Salmo 78/79 ; Mt 7, 21-29
A existência humana atravessa inevitavelmente momentos de crise onde aquilo que pensávamos ser sólido começa a vacilar. Os textos desta quinta-feira convidam-nos a não esperar pela tempestade para verificar a qualidade das nossas fundações, mas a trabalhar nelas desde agora, a operar um retorno radical ao essencial.
1. A ilusão das falsas seguranças e a queda dos templos de areia
A primeira leitura mergulha-nos num dos momentos mais sombrios da história de Israel: a queda de Jerusalém e a deportação para a Babilônia. O jovem rei Joaquin «fez o que era mau aos olhos do Senhor» e, por isso, viu o seu reino desmoronar-se em apenas três meses. Nabucodonosor, rei da Babilônia, saqueia tudo: os tesouros do Templo, os objetos de ouro de Salomão e toda a elite do país; ele «deportou toda Jerusalém (…) não foi deixada no lugar senão a população mais pobre». É o drama absoluto de um povo que se tinha habituado a pensar que la presença física do Templo e a linhagem real bastavam para garantir a sua segurança, independentemente da sua fidelidade à Aliança.
Esta tragédia histórica ilumina com uma luz crua o fim do Sermão da Montanha, onde Jesus fala da casa construída sobre a areia. A areia é a ilusão de crer que as estruturas exteriores, as heranças ou as aparências podem nos salvar quando o fundamento interior está corrompido. Jerusalém desabou porque se tinha tornado uma casca vazia, preferindo seguir o seu próprio caminho – por medo dos seus inimigos – em vez de confiar no Senhor. O que nos faz lembrar o domingo anterior, que nos recordava para não temer aqueles que matam o corpo, pois o nosso valor é imenso aos olhos do Pai: o problema é que Jerusalém esqueceu que Deus cuida sempre do seu povo! Se a nossa vida, então, permanecer escondida em Deus, poderemos nos libertar do medo das ameaças exteriores; mas se essa confiança se evaporou, se já não temos senão palavras vazias, então o menor vento nos derruba.
2. A armadilha do verbalismo espiritual: "Senhor, Senhor"
No evangelho de hoje, Jesus pronuncia palavras de uma severidade que nos deve sacudir: «Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus». Ele vai ainda mais longe ao descrever pessoas que profetizaram, expulsaram demônios e fizeram milagres em nome de Cristo, mas a quem dirá: «Nunca vos conheci». Mas então um problema se impõe: como é isso possível? Como podem obras tão espetaculares coincidir com um vazio espiritual tão abissal?
A resposta toca o coração da nossa psicologia religiosa, porque, de fato, existe uma tentação permanente de substituir a conversão do coração pelo ativismo ou pelo verbalismo espiritual. Pode-se utilizar o nome de Deus para construir uma identidade social, para tranquilizar o próprio ego ou para exercer um poder sobre os outros. Mas fazer coisas "em nome de Deus" não é idêntico a "fazer a vontade do Pai". A profecia, os milagres, os sinais espetaculares podem não ser mais do que areia se servirem para a nossa própria glória, quando nós, os administradores, os operários da vinha do Senhor, nos apropriamos de tudo e nos servimos de todos esses dons para nós mesmos. Jesus, então, ensina-nos que o critério último da vida cristã não é a eficácia exterior ou o brilho dos carismas, mas o conhecimento íntimo e recíproco que nasce da obediência filial.
3. Edificar sobre a rocha: a escuta que se torna vida
O que é, então, a rocha? Jesus define-o claramente: «Aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática». A rocha não é simplesmente uma doutrina abstrata ou uma ortodoxia intelectual; a rocha é a Palavra de Deus encarnada no quotidiano das nossas escolhas concretas. O homem prudente não se contenta em escutar o Sermão da Montanha com admiração — como as multidões que ficavam impressionadas com a sua autoridade — ele começa a cavar o solo da sua vida para nele fincar as suas decisões.
São João da Cruz escrevia que, para progredir, é preciso apegar-se mais à colocação em prática da virtude do que à busca de consolações ou de revelações extraordinárias. Pôr em prática a Palavra é aceitar que ela venha contrariar os nossos egoísmos, purificar as nossas intenções e guiar as nossas relações. É um trabalho invisível, ingrato, que exige tempo e paciência, tal como lançar fundações profundas: ninguém vê as fundações de uma casa porque estão escondidas debaixo da terra. É precisamente nesta vida escondida, no segredo das nossas fidelidades quotidianas quando ninguém nos olha, que se decide a solidez da nossa existência.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A tempestade faz parte da vida. Jesus não promete que o homem prudente será poupado da chuva, das torrentes ou dos ventos, mas o que provoca a ruína não são os eventos exteriores, mas a nossa escolha de investir ou não na fundação. A diferença entre a casa sobre a rocha e a outra sobre a areia não se vê com o tempo bom, ela se revela unicamente sob o impacto da provação.
Para aplicar esta sabedoria hoje, examinemos honestamente as nossas motivações: o que nos faz agir? Será o desejo de ser vistos, de parecer bons cristãos, ou a busca sincera da vontade do Pai?
E ainda, escolhamos uma palavra concreta do Evangelho ouvida recentemente e traduzamo-la hoje num ato preciso: um perdão a dar, um serviço escondido a realizar ou um silêncio benevolente a guardar. É assim que se coloca uma pedra sobre a rocha.
Oração
Senhor Jesus, Tu que és o único verdadeiro Rochedo sobre o qual posso apoiar a minha existência sem temor, olha para as fundações da minha vida. Tu conheces as minhas fraquezas, as minhas hipocrisias e todas as vezes em que me contento em Te dizer "Senhor, Senhor" sem deixar que a Tua Palavra transforme os meus atos.
Livra-me da ilusão das falsas seguranças. Não me deixes edificar a minha vida sobre a areia da aprovação dos outros, do conforto material ou de um ativismo religioso estéril. Quando as tempestades da vida surgirem, quando os ventos da dúvida ou do sofrimento baterem contra a minha casa, faz com que eu não caia, porque terei escolhido me ancorar em Ti.
Dá-me a graça de uma escuta obediente e cordial. Ensina-me a descer ao segredo do meu coração para nele cumprir a vontade do Pai, com a paciência do artesão que cava até à rocha. Que a minha vida não seja uma fachada enganosa, mas um santuário sólido onde Tu habitas verdadeiramente e onde o Teu amor dá fruto. Amém.
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Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho em direção ao Senhor, e não hesiteis em partilhar os vossos sentimentos nos comentários, a fazer perguntas, a deixar um testemunho… isso enriquece a reflexão e encoraja os irmãos e irmãs.
Que Deus vos abençoe. Desejo-vos um excelente dia.





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