O peso da regra e o sopro da vida
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(Sexta-feira, 15a Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: Is 38, 1-6.21-22.7-8 ; Cântico Is 38, 10, 11, 12abcd, 16-17a ; Mt 12, 1-8
Cada vez que lemos a Escritura, corremos o risco de olhá-la como um espectador neutro assiste a uma peça de teatro antigo, isto é, com distância, curiosidade intelectual, talvez admiração… mas sem se sentir envolvido. E, no entanto, os textos da Liturgia de hoje tocam profundamente a nossa existência, a nossa vulnerabilidade mais profunda e a maneira como gerimos as nossas pobrezas. O Papa Bento XVI dizia: «No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, a sua orientação decisiva.» (Deus caritas est, 1), portanto, a fé não é primeiramente uma teoria ou um código moral, mas o encontro. É precisamente desse encontro que se trata hoje: aquele que cura a nossa relação com o tempo, com a morte e com as nossas próprias exigências religiosas.
No domingo passado, a liturgia convidava-nos a escrutinar a terra do nosso coração através da parábola do semeador. Contemplamos essa semente divina que busca uma boa terra, um solo macio e acolhedor, livre de pedras e espinhos. Hoje, a Palavra de Deus nos impele a examinar o que endurece o nosso próprio solo: o que torna o nosso coração semelhante a esse caminho batido e impermeável onde a graça já não pode penetrar? Muitas vezes, é o peso insuportável de uma religião legalista e exterior, esvaziada de sua relação de amor com o Pai.
1. O muro dos limites e o clamor da verdade
Na primeira leitura, encontramos o rei Ezequias diante de um veredicto sem apelação: a doença e a morte iminente. E é o profeta Isaías que lhe traz a dura notícia: «Põe em ordem as coisas da tua casa, porque vais morrer». É o momento em que todas as nossas falsas seguranças desabam. Diante dessa fronteira absoluta, o rei faz um gesto de uma grande sobriedade: «Ezequias virou o rosto para a parede e orou ao Senhor…»
Virar-se para a parede é cortar as distrações, é cessar de olhar para o mundo para entrar no espaço da verdade nua da nossa alma, lá onde Deus habita. Ezequias faz a sua oração ao Senhor, chora e clama: não faz grande teologia, não tenta negociar com fórmulas pré-fabricadas, mas expõe o seu coração, a sua pobreza diante de Deus; este é o segredo da oração autêntica! Santa Teresa de Ávila já dizia que a porta para entrar no castelo da nossa alma, onde Deus habita, é a oração feita em verdade, onde nos apresentamos diante de Deus despojados de todas as nossas armaduras de perfeição factícia.
Além disso, esta cena mostra-nos que Deus não resiste à pobreza assumida do homem. Não são os méritos de Ezequias que fazem Deus ceder, mas as suas lágrimas sinceras. São João da Cruz escrevia que Deus não tem outra linguagem senão o amor silencioso, mas esse amor nunca é tão ativo como quando aceitamos não ser nada diante d'Ele, despojados das nossas armaduras de perfeição.
2. O solo pedregoso do formalismo e a fome do homem
O Evangelho mergulha-nos numa cena de uma aparente banalidade: discípulos que caminham por um campo de trigo, num dia de sábado, e que, impulsionados pela fome, arrancam espigas para se alimentar. Este gesto elementar desencadeia imediatamente a ira dos fariseus: «Olha o que os teus discípulos estão fazendo! Uma coisa que não é permitida fazer no sábado».
Olhemos bem para este contraste dramático que revela a dureza do nosso próprio coração. Os fariseus não veem homens cansados e famintos; eles só veem uma infração ao protocolo! Os fariseus transformaram o sábado, que era contudo o dom gratuito da liberdade e do repouso de Deus, numa gaiola de prescrições sufocantes. Eis o drama do legalismo: ele prefere o sistema ao homem, a estrutura à vida.
O coração deles tornou-se semelhante ao caminho pedregoso da parábola do domingo passado, tão endurecido pelos hábitos religiosos exteriores que é incapaz de deixar germinar a compaixão. Devemos sublinhar que o legalismo é frequentemente o refúgio daqueles que têm medo de entrar numa relação íntima e incontrolável com Deus, pois a regra é controlável, ao passo que o amor nos pede para nos abandonarmos. Os fariseus utilizam a lei divina para condenar a vida, esquecendo que o coração do culto é acolher a vida que Deus dá, e não sacrificar o homem no altar da letra.
3. O Templo vivo e a revolução da misericórdia
Para responder a esta acusação, Jesus cita dois exemplos históricos fortes: Davi comendo os pães da oferenda reservados aos sacerdotes, e os próprios sacerdotes que trabalham no sábado a serviço do Templo sem pecar. Depois, pronuncia esta frase extraordinária: «Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior do que o Templo».
Para o auditório judeu, o Templo é o centro do mundo, o lugar único da presença divina. Ao designar-se como «maior do que o Templo», Jesus realiza um deslocamento revolucionário, porque doravante o lugar do encontro com Deus já não é um edifício de pedra, mas uma Pessoa. A verdadeira liturgia, a verdadeira adoração não consiste em oferecer sacrifícios rituais frios e exteriores, mas em entrar na intimidade de um Deus que se fez carne para partilhar as nossas misérias.
Jesus cita então o profeta Oseias: «Eu quero a misericórdia e não o sacrifício». A misericórdia é a chave de explicação de toda a Escritura e o coração mesmo do agir de Deus. Em hebraico, a palavra traduzida por misericórdia, hesed (חֶסֶד), evoca a fidelidade visceral, um amor terno e inabalável. Portanto, se as nossas práticas religiosas nos afastam da compaixão para com o nosso próximo ou para conosco mesmos, elas tornam-se contrassensos estéreis. «O Filho do Homem é senhor do sábado» porque Ele é a fonte mesma do repouso verdadeiro que a nossa alma cansada procura sem cessar e que o sábado procura celebrar.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Esta palavra de Deus mexe com as nossas maneiras de viver e de julgar. Quantas vezes agimos como esses fariseus, com os nossos entes próximos ou com nós mesmos? Instalamos tribunais interiores onde medimos o valor de uma pessoa pelo seu rendimento espiritual, pelo seu respeito rígido a certas regras, ignorando a sua aflição ou a sua fome interior de amor e de escuta. No seguimento do que nos revelam os textos de hoje, deixemo-nos transformar por esta lógica divina:
Ousemos nos virar para a parede. Diante dos nossos limites, dos nossos bloqueios ou dos nossos medos de falhar, cessemos de fugir no barulho ou nas justificações. Tiremos um instante de silêncio para expor a nossa fragilidade ao Senhor, com as nossas lágrimas se for preciso: é nesta nudez interior que a Sua graça começa a sua obra de cura.
Escolhamos a misericórdia em vez do julgamento. Antes de criticar um comportamento ou julgar a atitude de alguém próximo hoje, perguntemo-nos qual é a «fome» escondida por trás de seus limites e de suas desajeitadas atitudes.
Coloquemos o Cristo no centro. Não passemos o nosso dia tentando ser perfeitos pelas nossas próprias forças, mas lembremo-nos de que o Cristo já nos amou na nossa pobreza: é permanecendo unidos a Ele que as nossas ações se tornarão naturalmente fecundas.
Oração
Senhor Jesus, Mestre do sábado e fonte de toda a verdadeira liberdade, vem visitar o meu coração hoje. Livra-me da tentação de construir para mim uma santidade de fachada, feita de regras rígidas e de julgamentos severos para com os outros.
Quando o medo do julgamento me assalta ou quando me sinto esmagado pelos meus próprios limites, dá-me a simplicidade de Ezequias para me virar para Ti em toda a verdade, sabendo que vês as minhas lágrimas e que ouves a minha oração.
Ensina-me a compreender o que significa realmente «Eu quero a misericórdia, não o sacrifício». Que o meu olhar sobre os outros, sobre os meus próximos, seja uma janela aberta para a Tua compaixão, e não um tribunal de condenação. Faz da minha vida uma boa terra onde a Tua Palavra de vida possa enfim dar fruto em abundância. Amém.





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