A arrogância da "ferramenta" e a transparência do coração
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(Quarta-feira, 15.a Semana do Tempo Comum; S. Boaventura, bispo e doutor da Igreja - Memória)

Leituras da Missa: Is 10, 5-7.13-16 ; Salmo 93/94 ; Mt 11, 25-27
A liturgia desta quarta-feira convida-nos a prolongar a grande meditação do domingo passado, onde Jesus nos falava da parábola do semeador, o grão da Palavra que é lançado em profusão, mas cuja fecundidade depende da qualidade da nossa terra interior. Mas para que a nossa alma seja uma terra boa e fértil, capaz de dar fruto ao cêntuplo, há um obstáculo maior a erradicar: os espinhos da autossuficiência e as pedras do orgulho que impedem a semente divina de germinar em nós. Os textos de hoje, de fato, colocam precisamente em luz esse combate invisível, onde de um lado temos a loucura de uma potência humana que se julga senhora do seu destino, enquanto do outro temos o sobressalto de alegria de Jesus que celebra a receptividade pura dos pequeninos, os únicos nos quais a Palavra ganha verdadeiramente raiz.
1. A ilusão do controle e a arrogância do cinzel
Na primeira leitura, o profeta Isaías apresenta-nos uma imagem cheia de ironia e de verdade psicológica: «…gloriar-se-á o cinzel contra quem com ele talha? Ou erguer-se-á a serra contra quem a maneja?…». A Assíria, esse império dominador e conquistador, infla-se de orgulho esquecendo uma realidade no entanto evidente: ela não passa de um instrumento histórico nas mãos do Senhor. O rei da Assíria diz no seu coração: «Foi pela força da minha mão que agi, e pela minha sabedoria, porque tenho inteligência.»
Este texto ilumina eficazmente o mistério da terra pedregosa, cheia de calcário, de que falava o Evangelho do domingo passado. A rocha, no nosso coração, é essa pretensão de querer ser a origem e o senhor absoluto da nossa vida. Eis o erro fundamental da condição humana: a tentação de acreditar que a nossa força, a nossa inteligência ou os nossos sucessos são propriedades privadas. A exegese do termo hebraico utilizado aqui para a sabedoria da Assíria é «arum» (עָרוּm), que evoca uma habilidade puramente técnica, uma inteligência calculadora; é a «astúcia» daquele que julga ter compreendido o mecanismo do mundo e que, por cálculo, pensa poder dispensar a graça. Portanto, assim que os nossos projetos funcionam, atribuímos a nós o mérito exclusivo dessa harmonia, e é então que nos tornamos como esse pedaço de madeira que imagina «mover a mão que o ergue, como se fosse a madeira a erguer o homem». Esta arrogância é um terreno impermeável onde a semente de Deus não pode penetrar em profundidade. Ao carregarmo-nos com o peso de sermos os nossos próprios criadores, condenamo-nos a uma secura espiritual, pois nenhuma vida verdadeira pode germinar sobre a pedra da autossuficiência.
2. O paradoxo do verdadeiro conhecimento
No Evangelho, Jesus faz mudar toda a nossa lógica humana por uma oração de louvor que é uma verdadeira revolução, porque Jesus dá graças ao Pai pelo fato de os mistérios do Reino estarem escondidos dos «sábios e entendidos» e revelados aos «pequeninos». Para bem compreender este texto, é preciso captar uma nuance exegética essencial: em grego, a palavra utilizada para os pequeninos é népios (νήπιος), o que significa literalmente aqueles que ainda não falam, os lactentes. Ao contrário, os sábios sophos (σοφός) e os entendidos synetos (συνετός) designam aqueles que estão cheios dos seus próprios conceitos, aqueles cuja mente está saturada pelas suas certezas.
Deus não tem, obviamente, nenhum desprezo pela inteligência humana, Ele é a fonte dela! O que Jesus aponta com o dedo é essa fechadura do coração que acompanha frequentemente o saber. O «sábio» segundo o mundo é como o solo pisoteado da beira do caminho: a sua mente é tão compacta que nenhuma novidade pode entrar nela. O pequenino, o nepios, é a boa terra por excelência: ser pequeno não é ser infantil ou imaturo, é estar num estado de receptividade total e de santa dependência. São João da Cruz exprimia este mistério explicando que para chegar a saber tudo, é preciso querer saber nada. São Boaventura, que honramos hoje, encarna magnificamente esta aliança; com efeito, ele é uma mente duma erudição imensa que, no entanto, se ajoelhava diante do crucifixo confessando que toda a sua ciência não era nada ao lado do amor de Cristo. A teologia e a reflexão, se perderem o espírito de infância, cessam de acolher a Palavra e tornam-se um ídolo estéril.
3. A revelação como uma relação recebida
Jesus prossegue e dá-nos a chave de abóbada da nossa fé: «Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» Na linguagem bíblica, o verbo conhecer (epighinósko, ἐπιγινώσκω) não indica uma simples assimilação de informações ou de dogmas intelectuais; conhecer significa entrar numa intimidade profunda, partilhar a vida do outro, fazer-se um com ele. Portanto, o drama dos sábios da Assíria ou dos fariseus é que eles abordam a verdade como um saque a ser pilhado, um território a ser conquistado pelas suas próprias forças.
Ora, a Verdade não se possui, ela recebe-se na humildade de uma relação. O Filho único não nos transmite um curso sobre Deus, mas introduz-nos na sua própria dinâmica filial, partilha conosco o seu olhar sobre o Pai. Para receber esta revelação, é preciso aceitar soltar as rédeas, não querer mais tudo controlar ou tudo justificar pelos nossos próprios méritos. É aqui que a parábola do semeador de domingo encontra o seu cumprimento: a semente dá fruto lá onde o homem aceita ser simplesmente o receptáculo da graça. Deus não se deixa capturar pelos nossos raciocínios, mas entrega-se à alma que se reconhece pobre, que se deixa trabalhar como uma terra flexível sob a mão do Semeador.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
O orgulho e a suficiência são os espinhos invisíveis que sufocam a presença de Deus em nós e nos privam da sua paz. Hoje, somos convidados a examinar com muita doçura e lucidez a terra do nosso coração, identificando esses instantes secretos em que agimos como o cinzel de Isaías: quais são os momentos de tensão em que acreditamos que tudo depende das nossas próprias forças, ou os momentos de fechamento em que recusamos deixar-nos mover?
Aplicação prática: Ao longo de todo este dia, diante de cada tarefa complexa, cada imprevisto ou cada sucesso, faça uma pausa interior de um segundo e pratique o exercício do desapego. Diga interiormente: «Senhor, eu não passo do instrumento, a terra que Tu cultivas. És Tu quem dá o crescimento.» Aceite não ter o controle sobre tudo, deixe a Palavra guiar as suas reações e ouse viver este dia com o abandono de uma criança que se sabe profundamente guardada pelo seu Pai.
Oração
Pai, Senhor do céu e da terra, eu Te bendigo e Te dou graças hoje pela minha própria pobreza e pelos meus limites. Perdão por todas as vezes em que deixei o meu coração endurecer como uma rocha ou encher-se de certezas orgulhosas, recusando deixar a Tua Palavra dar o seu fruto. Cura-me desta ilusão esgotante de querer tudo controlar e tudo conseguir pelas minhas próprias forças.
Dá-me, Senhor, esse coração de pequenino, essa terra boa, flexível e disponível, que sabe receber a Tua graça sem resistência. Pelo Teu Filho Jesus, introduz-me na Tua intimidade santa. Que o Teu Espírito Santo quebre em mim toda a suficiência e are a minha alma, para que eu possa caminhar hoje na alegria simples daqueles que se deixam conduzir e amar por Ti. Amém.





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