Resultados da pesquisa
39 resultados encontrados com uma busca vazia
- O silêncio de um Deus que cura sem ruído
(Sábado, 15a Semana do Tempo Comum) Jesus Cristo que cura os doentes, dita "A Moeda com cem florins", Rembrandt, Harmensz. van Rijn 1649 Leituras da Missa: Mi 2, 1-5 ; Salmo 9 B/10 ; Mt 12, 14-21 Meus caros amigos, vivemos num mundo que sofre de uma terrível ilusão: a de acreditar que, para existir, é preciso fazer barulho, impor-se e dominar. Pensa-se frequentemente que a força se mede pela capacidade de dobrar os outros à sua vontade. No entanto, a liturgia de hoje vem operar uma reviravolta completa nos nossos corações, porque nos mostra que a verdadeira potência de Deus não reside no brilho da força bruta, mas na doçura desarmante de um amor que sabe retirar-se para restaurar o que está quebrado. 1. A cobiça planejada diante do complô do poder Na primeira leitura, temos o profeta Miqueias que faz uma descrição arrepiante da natureza humana deformada pelo pecado: homens que, do fundo de suas camas, elaboram o mal e esperam a manhã para executá-lo simplesmente «porque está em seu poder». É o triunfo da cobiça: quer-se possuir, então toma-se; quer-se dominar, então esmaga-se. O texto deixa claro que esta violência não é um acidente de percurso, ela é planejada, refletida. Esta atitude encontra o seu eco direto no Evangelho de hoje, onde vemos os fariseus se reunirem em conselho para ver como fazer Jesus perecer. É o mesmo mecanismo: diante da luz, o poder humano que se sente ameaçado reage pelo complô e pela morte. Quando buscamos a nossa segurança na dominação e na posse, construímos as nossas próprias prisões interiores, armamos uma armadilha para nós mesmos. Como lembrava a grande tradição mística, aquele que se apega às criaturas e quer possuí-las a todo o custo acaba por perder a sua liberdade e encerrar-se numa fome espiritual sem fim, que o faz sempre querer mais e mais. Obviamente que tal fome de possuir não é um bom terreno para que a Palavra possa germinar, ela é sufocada pelos espinhos. Quando buscamos possuir, cessamos de receber. O salmista nos mostra a astúcia do ímpio: «Deus não é nada». O homem que quer tudo controlar acaba por excluir Deus do seu horizonte. Ao acreditar que está ampliando o seu domínio, ele transforma em realidade a sua terra interior num deserto de pedras, impermeável e estéril. 2. O segredo messiânico: a potência da retirada Mas qual é a resposta de Jesus diante deste complô que se trama contra ele? Ele não convoca um exército; não começa um debate teológico para provar que tem razão; o texto diz: «Jesus, sabendo disso, retirou-se dali». Este gesto de retirada é de uma profundidade teológica imensa. Não se trata de uma fuga por cobardia, mas de um ato soberano de amor. Jesus recusa-se a entrar na espiral da violência e da rivalidade, Ele protege a sua missão. A potência de Deus nunca se impõe pela força ou pelo estrondo, mas age como a semente do domingo passado, que cai na terra na discrição e no silêncio. O detalhe deste relato é que, nesta retirada, as multidões o seguem, e ele cura a todas. A cura divina realiza-se neste espaço preservado do barulho do mundo. Mas Jesus «proibiu-lhes severamente de falar dele». Por que este silêncio? É o que a exegese bíblica chama de segredo messiânico, Jesus que se recusa a ser confundido com um messias político, um realizador de milagres espetaculares que lisonjearia o orgulho das multidões. Santa Teresa de Ávila adverte-nos com tanta sabedoria que nunca devemos buscar a nossa segurança nos louvores ou nas aclamações do mundo, pois o beijo do mundo é frequentemente enganador e semelhante ao de Judas. Jesus sabe perfeitamente disso: o sucesso mundano é uma ilusão. Eis por que Jesus escolhe o caminho da intimidade e do segredo para tocar os corações em profundidade, lá onde ninguém olha, pois é ali, no segredo da alma, que Deus gosta de trabalhar e de se doar, e para que a nossa resposta seja uma adesão livre e não uma fascinação de passagem. 3. A ternura infinita do Servo Para nos fazer entrar na compreensão desta retirada misteriosa, o evangelista Mateus cita o magnífico canto do Servo de Isaías: «Não discutirá, nem gritará... Não quebrará o caniço rachado, não apagará a mecha que ainda fumega». Eis a identidade profunda do nosso Deus. Quando estamos machucados pelas provações, danificados pelos nossos próprios erros ou pecados, Deus não vem nos liquidar, Ele não coloca sobre nós um olhar de condenação. Lá onde o mundo descarta o que está quebrado e substitui o que já não brilha, Jesus inclina-se sobre a nossa fragilidade com uma delicadeza infinita. Como escrevia São João da Cruz, onde não há amor, coloca amor e colherás amor: o Cristo não vem apagar a nossa pobreza, vem nela depositar o seu Espírito para reacender a nossa esperança. O Servo cura pela doçura, pois é a única força capaz de amolecer a dureza da nossa terra para nela fazer germinar a vida eterna. A nossa salvação vem justamente desta ternura, desta doçura infinita de Deus. Se Deus agisse segundo os nossos critérios de força e de justiça puramente humana, quem de nós poderia subsistir? A sua justiça é uma justiça que salva, que ergue e que faz triunfar a vida. Conclusão e aplicação para o nosso dia Hoje, o Evangelho convida-nos a uma conversão do olhar e da ação. Como reagimos diante das contrariedades, das injustiças ou das agressões do nosso quotidiano? Somos daqueles que planejam a vingança do fundo de sua cama, ou escolhemos a doçura do Cristo? Os textos da liturgia de hoje nos convidam a aprender pelo menos três atitudes: Abrir espaço para o silêncio na nossa vida. Tiremos alguns minutos hoje para nos retirar do barulho, das telas e das agitações, e deixemos o Cristo visitar as nossas zonas de sombra. Cuidar dos fracos. Identifiquemos ao nosso redor um «caniço rachado» – um colega desanimado, um membro de nossa família ferido, um vizinho isolado – e aproximemo-nos dele com a delicadeza mesma do Servo. Renunciar à justificação permanente. Aceitemos não ter sempre a última palavra, não procurar a todo o custo nos impor. A verdade não precisa de gritos para triunfar. Oração Senhor Jesus, Servo manso e humilde de coração, venho me colocar diante de Ti hoje com as minhas pobrezas e as minhas feridas. Tu conheces os momentos em que o meu coração se assemelha a um caniço rachado, cansado pelas lutas da vida, e os dias em que a minha fé já não é senão uma mecha que enfraquece. Peço-Te perdão por todas as vezes em que busquei me impor pela força, pela palavra cortante ou pela cobiça. Ensina-me a arte divina de me retirar no silêncio do meu coração para Te deixar me curar. Dá-me contemplar-Te na Tua doçura infinita, a fim de que a minha alma aprenda a buscar a sua paz somente em Ti. Faz de mim um instrumento da Tua delicadeza junto daqueles que colocas no meu caminho hoje. Amém.
- O peso da regra e o sopro da vida
(Sexta-feira, 15a Semana do Tempo Comum) Andrea Previtali : Salvator Mundi 1519 Leituras da Missa: Is 38, 1-6.21-22.7-8 ; Cântico Is 38, 10, 11, 12abcd, 16-17a ; Mt 12, 1-8 Cada vez que lemos a Escritura, corremos o risco de olhá-la como um espectador neutro assiste a uma peça de teatro antigo, isto é, com distância, curiosidade intelectual, talvez admiração… mas sem se sentir envolvido. E, no entanto, os textos da Liturgia de hoje tocam profundamente a nossa existência, a nossa vulnerabilidade mais profunda e a maneira como gerimos as nossas pobrezas. O Papa Bento XVI dizia: «No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, a sua orientação decisiva.» (Deus caritas est, 1), portanto, a fé não é primeiramente uma teoria ou um código moral, mas o encontro. É precisamente desse encontro que se trata hoje: aquele que cura a nossa relação com o tempo, com a morte e com as nossas próprias exigências religiosas. No domingo passado, a liturgia convidava-nos a escrutinar a terra do nosso coração através da parábola do semeador. Contemplamos essa semente divina que busca uma boa terra, um solo macio e acolhedor, livre de pedras e espinhos. Hoje, a Palavra de Deus nos impele a examinar o que endurece o nosso próprio solo: o que torna o nosso coração semelhante a esse caminho batido e impermeável onde a graça já não pode penetrar? Muitas vezes, é o peso insuportável de uma religião legalista e exterior, esvaziada de sua relação de amor com o Pai. 1. O muro dos limites e o clamor da verdade Na primeira leitura, encontramos o rei Ezequias diante de um veredicto sem apelação: a doença e a morte iminente. E é o profeta Isaías que lhe traz a dura notícia: «Põe em ordem as coisas da tua casa, porque vais morrer». É o momento em que todas as nossas falsas seguranças desabam. Diante dessa fronteira absoluta, o rei faz um gesto de uma grande sobriedade: «Ezequias virou o rosto para a parede e orou ao Senhor…» Virar-se para a parede é cortar as distrações, é cessar de olhar para o mundo para entrar no espaço da verdade nua da nossa alma, lá onde Deus habita. Ezequias faz a sua oração ao Senhor, chora e clama: não faz grande teologia, não tenta negociar com fórmulas pré-fabricadas, mas expõe o seu coração, a sua pobreza diante de Deus; este é o segredo da oração autêntica! Santa Teresa de Ávila já dizia que a porta para entrar no castelo da nossa alma, onde Deus habita, é a oração feita em verdade, onde nos apresentamos diante de Deus despojados de todas as nossas armaduras de perfeição factícia. Além disso, esta cena mostra-nos que Deus não resiste à pobreza assumida do homem. Não são os méritos de Ezequias que fazem Deus ceder, mas as suas lágrimas sinceras. São João da Cruz escrevia que Deus não tem outra linguagem senão o amor silencioso, mas esse amor nunca é tão ativo como quando aceitamos não ser nada diante d'Ele, despojados das nossas armaduras de perfeição. 2. O solo pedregoso do formalismo e a fome do homem O Evangelho mergulha-nos numa cena de uma aparente banalidade: discípulos que caminham por um campo de trigo, num dia de sábado, e que, impulsionados pela fome, arrancam espigas para se alimentar. Este gesto elementar desencadeia imediatamente a ira dos fariseus: «Olha o que os teus discípulos estão fazendo! Uma coisa que não é permitida fazer no sábado». Olhemos bem para este contraste dramático que revela a dureza do nosso próprio coração. Os fariseus não veem homens cansados e famintos; eles só veem uma infração ao protocolo! Os fariseus transformaram o sábado, que era contudo o dom gratuito da liberdade e do repouso de Deus, numa gaiola de prescrições sufocantes. Eis o drama do legalismo: ele prefere o sistema ao homem, a estrutura à vida. O coração deles tornou-se semelhante ao caminho pedregoso da parábola do domingo passado, tão endurecido pelos hábitos religiosos exteriores que é incapaz de deixar germinar a compaixão. Devemos sublinhar que o legalismo é frequentemente o refúgio daqueles que têm medo de entrar numa relação íntima e incontrolável com Deus, pois a regra é controlável, ao passo que o amor nos pede para nos abandonarmos. Os fariseus utilizam a lei divina para condenar a vida, esquecendo que o coração do culto é acolher a vida que Deus dá, e não sacrificar o homem no altar da letra. 3. O Templo vivo e a revolução da misericórdia Para responder a esta acusação, Jesus cita dois exemplos históricos fortes: Davi comendo os pães da oferenda reservados aos sacerdotes, e os próprios sacerdotes que trabalham no sábado a serviço do Templo sem pecar. Depois, pronuncia esta frase extraordinária: «Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior do que o Templo». Para o auditório judeu, o Templo é o centro do mundo, o lugar único da presença divina. Ao designar-se como «maior do que o Templo», Jesus realiza um deslocamento revolucionário, porque doravante o lugar do encontro com Deus já não é um edifício de pedra, mas uma Pessoa. A verdadeira liturgia, a verdadeira adoração não consiste em oferecer sacrifícios rituais frios e exteriores, mas em entrar na intimidade de um Deus que se fez carne para partilhar as nossas misérias. Jesus cita então o profeta Oseias: «Eu quero a misericórdia e não o sacrifício». A misericórdia é a chave de explicação de toda a Escritura e o coração mesmo do agir de Deus. Em hebraico, a palavra traduzida por misericórdia, hesed (חֶסֶד), evoca a fidelidade visceral, um amor terno e inabalável. Portanto, se as nossas práticas religiosas nos afastam da compaixão para com o nosso próximo ou para conosco mesmos, elas tornam-se contrassensos estéreis. «O Filho do Homem é senhor do sábado» porque Ele é a fonte mesma do repouso verdadeiro que a nossa alma cansada procura sem cessar e que o sábado procura celebrar. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta palavra de Deus mexe com as nossas maneiras de viver e de julgar. Quantas vezes agimos como esses fariseus, com os nossos entes próximos ou com nós mesmos? Instalamos tribunais interiores onde medimos o valor de uma pessoa pelo seu rendimento espiritual, pelo seu respeito rígido a certas regras, ignorando a sua aflição ou a sua fome interior de amor e de escuta. No seguimento do que nos revelam os textos de hoje, deixemo-nos transformar por esta lógica divina: Ousemos nos virar para a parede. Diante dos nossos limites, dos nossos bloqueios ou dos nossos medos de falhar, cessemos de fugir no barulho ou nas justificações. Tiremos um instante de silêncio para expor a nossa fragilidade ao Senhor, com as nossas lágrimas se for preciso: é nesta nudez interior que a Sua graça começa a sua obra de cura. Escolhamos a misericórdia em vez do julgamento. Antes de criticar um comportamento ou julgar a atitude de alguém próximo hoje, perguntemo-nos qual é a «fome» escondida por trás de seus limites e de suas desajeitadas atitudes. Coloquemos o Cristo no centro. Não passemos o nosso dia tentando ser perfeitos pelas nossas próprias forças, mas lembremo-nos de que o Cristo já nos amou na nossa pobreza: é permanecendo unidos a Ele que as nossas ações se tornarão naturalmente fecundas. Oração Senhor Jesus, Mestre do sábado e fonte de toda a verdadeira liberdade, vem visitar o meu coração hoje. Livra-me da tentação de construir para mim uma santidade de fachada, feita de regras rígidas e de julgamentos severos para com os outros. Quando o medo do julgamento me assalta ou quando me sinto esmagado pelos meus próprios limites, dá-me a simplicidade de Ezequias para me virar para Ti em toda a verdade, sabendo que vês as minhas lágrimas e que ouves a minha oração. Ensina-me a compreender o que significa realmente «Eu quero a misericórdia, não o sacrifício». Que o meu olhar sobre os outros, sobre os meus próximos, seja uma janela aberta para a Tua compaixão, e não um tribunal de condenação. Faz da minha vida uma boa terra onde a Tua Palavra de vida possa enfim dar fruto em abundância. Amém.
- A Maternidade da Graça e o Segredo do Silêncio
(Quinta-feira, 15ª Semana do Tempo Comum – Nossa Senhora do Carmo) Rogier van der Weyden: Tríptico da Crucificação (1443 e 1445) Leituras da Missa: 1Rs 18.42-45; Sl 14; 2; Gl 4:4-7; Jo 19:25-27 A liturgia desta solenidade de Nossa Senhora do Carmo nos leva a ascender duas montanhas que, na realidade, são uma só na geografia da alma: o Carmelo e o Gólgota. Esta solenidade da família carmelita nos oferece uma jornada que nos conduz da promessa à realização, da espera pela chuva vivificante ao recebimento da fonte de água viva que brota do coração transpassado de Cristo. Para compreender e trilhar este caminho, precisamos estar dispostos a abandonar nossos modos de pensar puramente humanos e nossos desejos por resultados imediatos. A vida espiritual não se trata de obter coisas de Deus, mas de permitir que Deus habite em nós. É a aventura da adoção filial, uma realidade tão profunda que exige de nós escuta atenta e silêncio interior, como a Virgem Maria que soube guardar e meditar sobre todas essas coisas em seu coração. 1. A expectativa carmelita e a pedagogia da perseverança Na primeira leitura do Primeiro Livro dos Reis, encontramos o profeta Elias no cume do Monte Carmelo. O contexto é uma terra assolada por uma terrível seca, que é uma imagem dos nossos próprios corações quando se afastam da fonte da vida. A postura de Elias é marcante: " Ele prostrou-se com o rosto em terra e pôs o rosto entre os joelhos ". É a atitude de uma humildade radical, de uma oração que não busca se impor, mas se humilha para permitir que Deus aja. Elias enviou seu servo para olhar em direção ao mar, e seis vezes o servo voltou com a mesma resposta desanimadora: “ Não há nada ”. Quantas vezes, em nossa própria vida de oração, experimentamos essa mesma sensação de vazio? Oramos, pedimos, e o céu sempre parece o mesmo, imóvel… Mas o segredo da fé reside na sétima vez, e como você sabe, o número sete significa plenitude, o tempo de Deus, que não corresponde ao nosso. Na sétima tentativa, uma pequena nuvem, “ do tamanho de um punho ”, emerge do mar… Esta é uma observação exegética belíssima e perspicaz, que revela que Deus sempre inicia suas maiores obras na pequenez e na insignificância . Essa pequena nuvem, que os Padres da Igreja frequentemente viam como uma figura profética da Virgem Maria, carrega em si a imensidão da chuva que fertilizará a terra árida. A fé autêntica reside nessa capacidade de discernir a infinitude de Deus, sua Presença e sua ação, em quase nada do cotidiano. 2. A ruptura com o espírito da escravidão Para que esta chuva de graça não seja recebida em vão, São Paulo, em sua carta aos Gálatas, nos lembra do propósito final da Encarnação: " para que sejamos adotados como filhos ". Este é o cerne do mistério cristão: Cristo não veio para estabelecer uma religião de desempenho ou um dever moral externo, mas veio para efetuar uma transformação existencial em nós. Nesta passagem, o apóstolo contrapõe duas figuras: o escravo e o filho, e essa distinção é essencial para a vida espiritual. O escravo vive com medo do julgamento, busca agradar para evitar a punição, calcula seus esforços e permanece fundamentalmente separado da família de seu senhor; enquanto o filho sabe que é amado livremente, mesmo antes de agir. A prova de que entramos nessa liberdade é o Espírito Santo clamando em nossos corações: "Aba!" — isto é, Pai. Este clamor não é uma fórmula mágica que faz a oração "funcionar", mas sim a própria voz de Jesus ressoando dentro de nós. O que precisamos entender é que tornar-se filho ou filha de Deus significa deixar de justificar nossa própria existência por nossos sucessos ou méritos! João da Cruz frequentemente nos lembra que Deus vê apenas amor em nós, e esse amor é um dom que Ele nos dá antes de tudo. Portanto, devemos rejeitar diariamente essa sutil tentação de retornar à escravidão da culpa e da ansiedade espiritual. 3. A Cruz, lugar do novo nascimento Toda essa trajetória encontra seu ápice e explicação dramática aos pés da Cruz, no Evangelho de João. Ali encontramos Maria, de pé: ela não clama, não se prostra no chão em desespero… mas permanece ali, em uma presença silenciosa e infinitamente dolorosa. É a hora em que a “plenitude dos tempos” se cumpre. Da cruz, Jesus vê sua mãe e o discípulo a quem amava, e diz à sua mãe: “ Mulher, eis aí o teu filho ”. Ao usar o termo “mulher”, Jesus se refere ao relato do Gênesis: Maria, portanto, é a nova Eva, a mãe dos viventes. Esse diálogo aos pés da cruz não é simplesmente um arranjo familiar para cuidar de uma mãe viúva, mas um ato de geração espiritual: no momento da morte de Cristo, a Igreja nasce do lado aberto do Salvador, e Maria se torna sua Mãe. Ao dizer ao discípulo: “ Eis aí tua mãe ”, Jesus nos confia pessoalmente a ela, porque “o discípulo amado” é aquele que lê o Evangelho; ele representa cada um de nós. A conclusão lógica é que não podemos ser plenamente discípulos de Cristo se nos recusarmos a acolher Maria em nossa própria intimidade espiritual. 4. Acolhendo Maria em sua casa, o espaço do silêncio O Evangelho termina com esta frase de imensa profundidade: " E desde aquela hora o discípulo a acolheu em sua casa. " Em grego, a expressão é εἰς τὰ ἴδια ( eis ta idia ), que significa literalmente "para as próprias coisas", "em casa" ou "para os próprios pertences", no espaço mais íntimo, onde se guarda o que se tem de mais precioso. O que isso significa para nós em termos práticos? Significa acolher Maria em nossos lares, adotar seu modo de vida, fazer de nossas almas um espaço de silêncio e receptividade à Palavra de Deus — algo que a devoção carmelita expressa com o escapulário, ou seja, revestir-nos das virtudes de Maria. Teresa de Ávila explicou que o santuário interior de nossa alma deve ser habitado pelo Rei, mas para que isso aconteça, devemos banir o ruído do mundo. Maria é quem nos ensina a silenciar, não um silêncio vazio, mas um silêncio repleto da presença do Outro. Acolhê-la em nossa casa significa confiar-lhe nossos espaços áridos, nossos momentos de "nada", para que ela possa, mais uma vez, atrair a chuva do Espírito Santo; significa aceitar que nossa vida espiritual será educada por seu olhar materno. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta celebração de Nossa Senhora do Carmo não deve permanecer uma mera memória histórica, mas sim tornar-se uma bússola para os nossos dias. Apresento três pontos para reflexão: Observe a pequena nuvem. Hoje, diante de situações que parecem estéreis ou bloqueadas (um conflito familiar, uma aridez interior, o cansaço profissional), não nos deixemos abater pelo desânimo: aprendamos com Elias a perseverar na fé e a buscar os pequenos sinais da graça; Deus age em segredo. Viver como filhos, não como escravos. Examinemos hoje nossas motivações mais profundas. Ajo por medo, por necessidade de reconhecimento ou por amor incondicional? Dediquemos alguns instantes de silêncio para permitir que o Espírito repita em nós esta palavra de absoluta liberdade: "Abba". Vamos acolhê-la em nosso dia a dia. Vamos reservar um lugar concreto para Maria em nossas atividades. Trazer Maria para nossos lares hoje pode significar um momento de silêncio no meio do trabalho, ou confiar explicitamente a ela uma pessoa que é difícil de amar. Oração Senhor Jesus, do alto da Cruz, não me deixaste órfão. Concedeste-me o dom mais precioso do teu coração amoroso, dando-me a tua própria Mãe para ser a minha Mãe. Hoje, quero imitar-te e acolher Maria em minha casa, no segredo da minha alma, nas minhas alegrias, nas minhas lutas e na minha aridez. Ó Virgem do Silêncio, Mãe do Carmelo, vem e cobre a minha vida com o teu manto de paz. Ensina-me a rezar como Elias, com o rosto inclinado em humildade e perseverança. Livra-me do espírito de escravidão, dos medos que paralisam o meu amor e da constante necessidade de controlar tudo. Que o teu Espírito, Senhor, clame em mim: “Aba”, com confiança de criança. Que a minha vida se torne, como a de Maria, terra sagrada onde a tua Palavra possa criar raízes e dar frutos para o mundo. Amém.
- A arrogância da "ferramenta" e a transparência do coração
(Quarta-feira, 15.a Semana do Tempo Comum; S. Boaventura, bispo e doutor da Igreja - Memória) O Menino Jesus adormecido na cruz, Bartolomé Esteban Murillo Leituras da Missa: Is 10, 5-7.13-16 ; Salmo 93/94 ; Mt 11, 25-27 A liturgia desta quarta-feira convida-nos a prolongar a grande meditação do domingo passado, onde Jesus nos falava da parábola do semeador, o grão da Palavra que é lançado em profusão, mas cuja fecundidade depende da qualidade da nossa terra interior. Mas para que a nossa alma seja uma terra boa e fértil, capaz de dar fruto ao cêntuplo, há um obstáculo maior a erradicar: os espinhos da autossuficiência e as pedras do orgulho que impedem a semente divina de germinar em nós. Os textos de hoje, de fato, colocam precisamente em luz esse combate invisível, onde de um lado temos a loucura de uma potência humana que se julga senhora do seu destino, enquanto do outro temos o sobressalto de alegria de Jesus que celebra a receptividade pura dos pequeninos, os únicos nos quais a Palavra ganha verdadeiramente raiz. 1. A ilusão do controle e a arrogância do cinzel Na primeira leitura, o profeta Isaías apresenta-nos uma imagem cheia de ironia e de verdade psicológica: «…gloriar-se-á o cinzel contra quem com ele talha? Ou erguer-se-á a serra contra quem a maneja?…». A Assíria, esse império dominador e conquistador, infla-se de orgulho esquecendo uma realidade no entanto evidente: ela não passa de um instrumento histórico nas mãos do Senhor. O rei da Assíria diz no seu coração: «Foi pela força da minha mão que agi, e pela minha sabedoria, porque tenho inteligência.» Este texto ilumina eficazmente o mistério da terra pedregosa, cheia de calcário, de que falava o Evangelho do domingo passado. A rocha, no nosso coração, é essa pretensão de querer ser a origem e o senhor absoluto da nossa vida. Eis o erro fundamental da condição humana: a tentação de acreditar que a nossa força, a nossa inteligência ou os nossos sucessos são propriedades privadas. A exegese do termo hebraico utilizado aqui para a sabedoria da Assíria é «arum» (עָרוּm), que evoca uma habilidade puramente técnica, uma inteligência calculadora; é a «astúcia» daquele que julga ter compreendido o mecanismo do mundo e que, por cálculo, pensa poder dispensar a graça. Portanto, assim que os nossos projetos funcionam, atribuímos a nós o mérito exclusivo dessa harmonia, e é então que nos tornamos como esse pedaço de madeira que imagina «mover a mão que o ergue, como se fosse a madeira a erguer o homem». Esta arrogância é um terreno impermeável onde a semente de Deus não pode penetrar em profundidade. Ao carregarmo-nos com o peso de sermos os nossos próprios criadores, condenamo-nos a uma secura espiritual, pois nenhuma vida verdadeira pode germinar sobre a pedra da autossuficiência. 2. O paradoxo do verdadeiro conhecimento No Evangelho, Jesus faz mudar toda a nossa lógica humana por uma oração de louvor que é uma verdadeira revolução, porque Jesus dá graças ao Pai pelo fato de os mistérios do Reino estarem escondidos dos «sábios e entendidos» e revelados aos «pequeninos». Para bem compreender este texto, é preciso captar uma nuance exegética essencial: em grego, a palavra utilizada para os pequeninos é népios (νήπιος), o que significa literalmente aqueles que ainda não falam, os lactentes. Ao contrário, os sábios sophos (σοφός) e os entendidos synetos (συνετός) designam aqueles que estão cheios dos seus próprios conceitos, aqueles cuja mente está saturada pelas suas certezas. Deus não tem, obviamente, nenhum desprezo pela inteligência humana, Ele é a fonte dela! O que Jesus aponta com o dedo é essa fechadura do coração que acompanha frequentemente o saber. O «sábio» segundo o mundo é como o solo pisoteado da beira do caminho: a sua mente é tão compacta que nenhuma novidade pode entrar nela. O pequenino, o nepios, é a boa terra por excelência: ser pequeno não é ser infantil ou imaturo, é estar num estado de receptividade total e de santa dependência. São João da Cruz exprimia este mistério explicando que para chegar a saber tudo, é preciso querer saber nada. São Boaventura, que honramos hoje, encarna magnificamente esta aliança; com efeito, ele é uma mente duma erudição imensa que, no entanto, se ajoelhava diante do crucifixo confessando que toda a sua ciência não era nada ao lado do amor de Cristo. A teologia e a reflexão, se perderem o espírito de infância, cessam de acolher a Palavra e tornam-se um ídolo estéril. 3. A revelação como uma relação recebida Jesus prossegue e dá-nos a chave de abóbada da nossa fé: «Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» Na linguagem bíblica, o verbo conhecer (epighinósko, ἐπιγινώσκω) não indica uma simples assimilação de informações ou de dogmas intelectuais; conhecer significa entrar numa intimidade profunda, partilhar a vida do outro, fazer-se um com ele. Portanto, o drama dos sábios da Assíria ou dos fariseus é que eles abordam a verdade como um saque a ser pilhado, um território a ser conquistado pelas suas próprias forças. Ora, a Verdade não se possui, ela recebe-se na humildade de uma relação. O Filho único não nos transmite um curso sobre Deus, mas introduz-nos na sua própria dinâmica filial, partilha conosco o seu olhar sobre o Pai. Para receber esta revelação, é preciso aceitar soltar as rédeas, não querer mais tudo controlar ou tudo justificar pelos nossos próprios méritos. É aqui que a parábola do semeador de domingo encontra o seu cumprimento: a semente dá fruto lá onde o homem aceita ser simplesmente o receptáculo da graça. Deus não se deixa capturar pelos nossos raciocínios, mas entrega-se à alma que se reconhece pobre, que se deixa trabalhar como uma terra flexível sob a mão do Semeador. Conclusão e aplicação para o nosso dia O orgulho e a suficiência são os espinhos invisíveis que sufocam a presença de Deus em nós e nos privam da sua paz. Hoje, somos convidados a examinar com muita doçura e lucidez a terra do nosso coração, identificando esses instantes secretos em que agimos como o cinzel de Isaías: quais são os momentos de tensão em que acreditamos que tudo depende das nossas próprias forças, ou os momentos de fechamento em que recusamos deixar-nos mover? Aplicação prática: Ao longo de todo este dia, diante de cada tarefa complexa, cada imprevisto ou cada sucesso, faça uma pausa interior de um segundo e pratique o exercício do desapego. Diga interiormente: «Senhor, eu não passo do instrumento, a terra que Tu cultivas. És Tu quem dá o crescimento.» Aceite não ter o controle sobre tudo, deixe a Palavra guiar as suas reações e ouse viver este dia com o abandono de uma criança que se sabe profundamente guardada pelo seu Pai. Oração Pai, Senhor do céu e da terra, eu Te bendigo e Te dou graças hoje pela minha própria pobreza e pelos meus limites. Perdão por todas as vezes em que deixei o meu coração endurecer como uma rocha ou encher-se de certezas orgulhosas, recusando deixar a Tua Palavra dar o seu fruto. Cura-me desta ilusão esgotante de querer tudo controlar e tudo conseguir pelas minhas próprias forças. Dá-me, Senhor, esse coração de pequenino, essa terra boa, flexível e disponível, que sabe receber a Tua graça sem resistência. Pelo Teu Filho Jesus, introduz-me na Tua intimidade santa. Que o Teu Espírito Santo quebre em mim toda a suficiência e are a minha alma, para que eu possa caminhar hoje na alegria simples daqueles que se deixam conduzir e amar por Ti. Amém.
- A arte de se manter de pé na tempestade
(Terça-feira, 15a Semana do Tempo Comum) Le Christ pleurant sur Jérusalem, 1851, Ary Scheffer Leituras da Missa: Is 7, 1-9 ; Salmo 47/48 ; Mt 11, 20-24 No domingo anterior, a liturgia nos advertia contra o perigo de um coração superficial, esse solo rochoso onde a Palavra brota rapidamente sob o efeito de um fervor passageiro, mas se apaga assim que surge o calor da provação, porque lhe faltam raízes profundas. Ontem ainda, o Evangelho introduzia o gládio da verdade para cortar as nossas falsas pazes interiores. Hoje, as leituras nos fazem dar um passo a mais nesta escola da profundidade: diante das ameaças históricas que abalam o rei Acaz ou diante das repreensões severas que Jesus dirige às cidades da Galileia, descobrimos uma verdade fundamental: descobrir que o nosso verdadeiro drama não é a intensidade da tempestade exterior, mas a nossa recusa de nos enraizarmos em Cristo. 1. O pânico do coração sem raízes O texto de Isaías nos mergulha no coração de uma crise geopolítica maior. O pequeno reino de Judá vê Jerusalém cercada por uma coalizão temível: o reino de Israel (o reino do Norte) e o de Arame (a Síria). O plano dos agressores é simples: derrubar o rei Acaz para instalar em seu lugar um soberano dócil, capaz de se juntar a eles na sua guerra contra o ogro assírio. Diante desta ameaça asfixiante, a Bíblia utiliza uma imagem de uma força psicológica marcante: «Então o coração do rei e o coração do seu povo ficaram agitados, como as árvores da floresta são agitadas pelo vento.» É o retrato exato do pânico e da ansiedade que nos submergem assim que os nossos apoios visíveis desaparecem. Quando as nossas seguranças ordinárias — a saúde, as finanças, uma relação ou um projeto de vida — começam a vacilar, tornamo-nos precisamente como essas árvores agitadas pela tempestade. A mente tomada pelo medo nos faz esquecer que as nossas raízes profundas não dependem das circunstâncias exteriores, mas d'Aquele que tem a história entre as suas mãos. O profeta Isaías é enviado ao encontro do rei com uma instrução surpreendente: «Garante o teu calmo, não temas, não vás perder o coração». Humanamente, é uma loucura: como permanecer calmo quando o inimigo está às portas? Eis que Isaías introduz o olhar de Deus sobre a história: esses reis que aterrorizam Acaz não passam, para Deus, de dois pedaços de tições fumegantes, como nos diz o texto; eles fazem muita fumaça, impressionam, mas já não têm fogo, já estão consumidos. O problema do rei Acaz é que ele olha para a potência dos seus inimigos em vez de olhar para a fidelidade do seu Deus. A nossa ansiedade é quase sempre o sintoma de um olhar fixado no problema e não na Promessa; isto é, apresentamos sempre a Deus o tamanho dos nossos problemas, em vez de apresentar aos nossos problemas a grandeza do nosso Deus. 2. Crer para sustentar: o segredo da estabilidade É neste contexto que Isaías pronuncia esta frase que é uma das mais belas definições de fé de todo o Antigo Testamento: «Se não crerdes, não podereis subsistir.» Em hebraico, há um jogo de palavras intraduzível, mas magnífico, baseado na raiz amân (אָמֵן), que deu origem à nossa palavra Amém. O profeta diz literalmente: Im lo taaminou, ki lo teamenou (אִ֚ם לֹ֣א תַאֲמִ֔ינוּ כִּ֖י לֹ֥א תֵאָמֵֽנוּ׃ ס), que traduzido seria: «Se não vos apoiais em Deus, não sereis estáveis». A Fé, na Bíblia, não é uma simples adesão intelectual a verdades abstratas ou um sentimento piedoso, não! A Fé é o gesto concreto de colocar todo o peso da sua existência sobre alguém sólido. É a atitude do lactente que se abandona nos braços de sua mãe, ou do escalador que confia na sua corda. Se recusamos esse ancoradouro, passamos a nossa vida a buscar apoios/muletas humanas, alianças políticas ou psicológicas para nos tranquilizar. Mas quem já conhece a história sabe bem que o rei Acaz acabará por recusar a confiança em Deus para se aliar com o outro inimigo, os temíveis assírios, introduzindo assim o lobo no redil. A sabedoria bíblica quer fazer-nos compreender que cada vez que escolhemos resolver os nossos medos por compromissos mundanos em vez de pela confiança radical em Deus, preparamos a nossa própria ruína: a Fé é o único solo que não desaparece sob os nossos pés. 3. O paradoxo da indiferença diante dos milagres Esta falta de fé e de ancoragem profunda toma um rosto ainda mais trágico no Evangelho, onde Jesus pronuncia invectivas duma severidade inédita contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum. O que fizeram elas de tão horrível para merecerem ser comparadas a Sodoma, o símbolo bíblico da perversão? Nada, justamente, elas não fizeram nada: não perseguiram Jesus, não o expulsaram… Com efeito, elas simplesmente assistiram aos seus milagres, escutaram os seus ensinamentos, acharam isso admirável... e continuaram a sua vida como antes, sem que nada mudasse. De fato, Cafarnaum tinha se tornado a própria cidade de Jesus, o lugar do seu quotidiano, lá onde a manifestação da sua divindade tinha se tornado habitual, e é justamente esse o problema. Com efeito, o grande perigo das pessoas piedosas, dos familiares da religião, é o costume: habituamo-nos à graça, habituamo-nos à Missa, habituamo-nos à Palavra de Deus… Então, a ação quotidiana de Deus, os milagres, tornam-se eventos banais que divertem a nossa curiosidade, mas já não tocam o nosso coração… A pior das fechaduras espirituais não é a revolta, mas a indiferença das pessoas instaladas; Tiro, Sidônia e Sodoma, se tivessem visto o que Cafarnaum viu, «essas cidades, outrora, teriam se convertido sob o saco e a cinza», sinais de uma conversão radical. A repreensão de Jesus, portanto, é um apelo premente a sair do nosso sonambulismo espiritual; a profusão de graças que recebemos empenha a nossa responsabilidade. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Liturgia de hoje oferece-nos a ocasião de fazer uma escolha consciente. No nosso quotidiano, somos inevitavelmente confrontados com pequenos ou grandes ventos contrários que tentarão agitar o nosso coração. A Palavra de Deus convida-nos a não buscar a salvação em agitações estéreis ou consolações superficiais, porque, na verdade, manter-se de pé não depende da ausência de dificuldades, mas da qualidade da nossa Fé. Hoje, diante duma situação que me inquieta ou me irrita, posso decidir parar, pronunciar um Amém consciente e dizer: «Sehor, não sei como as coisas vão se resolver, mas escolho apoiar-me em Ti.» Não deixemos que a graça deste dia se torne apenas mais um hábito vão. Oração Senhor Jesus, o meu coração é tantas vezes como as árvores da floresta, agitado e aterrorizado pelos ventos da inquietude e pelas ameaças da vida quotidiana. Reconheço que frequentemente busquei construir para mim fortalezas de ilusões, apoiando-me nas minhas próprias forças ou em seguranças frágeis que acabam sempre por me decepcionar. Hoje, quero ouvir o Teu convite para guardar a calma e não perder o coração. Peço-Te a graça de uma fé autêntica, aquela que não pede milagres para se divertir, mas que se abandona humildemente à Tua vontade. Cura-me da indiferença e da tibieza que me fazem olhar para os Teus benefícios sem que a minha vida mude. Vem cavar em mim essas raízes profundas que me permitirão atravessar todas as tempestades, com os olhos fixos em Ti, minha única cidadela inabalável. Amém.
- A Espada da Verdade
(Segunda-feira, 15a Semana do Tempo Comum) Jesus expulsando os mercadores do Templo é um quadro realizado pelo pintor flamengo Jacob Jordaens em 1645-1650 Leituras da Missa: Is 1, 10-17 ; Salmo 49/50 ; Mt 10, 34 – 11, 1 O Evangelho desta segunda-feira da 15ª semana do Tempo Comum vem sacudir uma forma de torpor. Ontem, a liturgia lembrava-nos a importância da escuta, desse terreno interior que deve acolher a semente sem se deixar sufocar, enquanto hoje, a Palavra de Deus passa à ação concreta colocando uma pergunta de fundo: qual é a natureza real do nosso apego a Cristo? O profeta Isaías, na primeira leitura, começa com uma constatação sem concessões sobre a religião de fachada, enquanto Jesus, no Evangelho de hoje, conclui as suas instruções aos discípulos com palavras que cortam como uma lâmina: não se trata de uma ameaça, mas de um ato de amor de uma imensa lucidez. 1. O recuso do culto estético O profeta Isaías utiliza palavras de uma forte violência da parte de Deus. Com efeito, Ele dirige-se aos chefes e ao povo comparando-os a Sodoma e Gomorra, não por causa de uma ausência de piedade, mas precisamente por causa de um excesso de piedade exterior que serve de para-vento para a injustiça. Deus diz que tem horror ao incenso, que está cansado das festas e dos sacrifícios. E por que essa atitude tão colérica da parte de Deus? Porque as mãos daqueles que rezam estão cheias de sangue. Na exegese bíblica, o termo utilizado para as “vãs oferendas” (minchah shav, מִנְחַת־שָׁ֔וְא) evoca um culto vazio, mentiroso, sem valor, portanto, uma tentativa de manipular a divindade oferecendo-lhe coisas para evitar oferecer-Lhe a própria vida. O salmo 49 vem apoiar essa ideia: Deus não precisa dos nossos animais, tudo lhe pertence (cf. v10-13). O que Ele deseja – o que está bem descrito no último parágrafo do Salmo de hoje –, é um sacrifício de ação de graças, isto é, uma existência vivida no reconhecimento e na retidão: «A quem procede retamente, eu mostrarei a salvação de Deus» recitamos no refrão. Portanto, a primeira leitura de hoje coloca-nos o diagnóstico: o nosso drama espiritual começa quando separamos a liturgia da vida, quando a oração se torna um rito estético que nada muda na nossa maneira de tratar o fraco, o órfão ou a viúva, isto é, o próximo em situação de necessidade. 2. O gládio que separa a ilusão da realidade É sobre este fundo de conversão radical que ressoa a palavra de Jesus: «Não penseis que vim trazer a paz à terra: não vim trazer a paz, mas a espada.» Estas palavras chocam a nossa sensibilidade moderna, nós que procuramos frequentemente na religião um calmante, um espaço de bem-estar morno. O termo grego utilizado aqui para a espada é machaira (μάχαιρα), uma espada curta, uma arma encurvada para o combate corpo a corpo que serve para cortar nitidamente. O Cristo não é um tirano que vem quebrar as famílias por prazer, não! Mas Ele constata uma realidade espiritual: a verdade do Evangelho introduz uma divisão necessária lá onde reinava uma falsa paz. O que é essa falsa paz? É o pacto que fazemos com o mundo, com os nossos compromissos, com o "o que vão dizer", ou mesmo com os afetos humanos quando estes se tornam ídolos. Se a paz significa calar-se diante da mentira para não criar dificuldades, para não preocupar, então Jesus recusa essa paz. A espada/gládio de Cristo é a sua Palavra que penetra, como dirá mais tarde a epístola aos Hebreus, até à divisão da alma e do espírito, para revelar as intenções do coração (cf. carta aos Hebreus 4,12-13). Jesus vem separar o que é da vida do que é da morte, o que é segundo a verdade do que é segundo a mentira. 3. A ordem do amor e o mistério da cruz Jesus prossegue tocando naquilo que temos de mais caro, isto é, as relações familiares. «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim.» Santo Agostinho explicava magnificamente que não se trata de amar menos os seus entes próximos, mas de os amar na ordem correta: se os nossos apegos humanos, por mais legítimos que sejam, se tornam o absoluto da nossa vida, transformam-se em prisões. Ser digno do Cristo é aceitar que só Ele seja o centro de gravidade da nossa existência, e é unicamente a partir desta centralidade que podemos enfim amar os outros não mais pelo que eles nos trazem ou para preencher um vazio, mas com um amor livre e puro. É nesse ponto que ganha sentido o convite a tomar a sua cruz: a Cruz não é a busca mórbida do sofrimento, mas é o preço da fidelidade ao Amour. Neste Evangelho, então, Jesus faz-nos um alerta: quem quer salvar a sua vida a todo o custo, evitando o conflito da verdade, acaba por perdê-la na insignificância; mas aquele que aceita perder a sua segurança por amor ao Cristo descobre uma vida recebida do alto, inabalável, que até mesmo um simples copo de água dado ao mais pequeno vem selar para a eternidade. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta página do Evangelho convida-nos a fazer a verdade sobre as nossas motivações profundas. Então hoje, podemos perguntar-nos: onde estão os meus compromissos? Quais são as falsas pazes que mantenho na minha vida para evitar tomar posição pelo Cristo? O gládio da Palavra não vem para nos ferir, mas para nos libertar dos nossos ídolos e das nossas práticas religiosas superficiais. A verdadeira paz, então, não é a ausência de combate, mas a presença do Cristo no mais forte da tempestade. Escolher o Cristo em primeiro lugar é aceitar que certas relações ou situações sejam mexidas, mas é o único caminho necessário para que a nossa vida dê um fruto autêntico. Oração Senhor Jesus, o Teu amor é exigente porque é verdadeiro. Peço-Te hoje que deixes o Teu gládio de verdade atravessar o meu coração. Perdoa-me por todas as vezes em que busquei uma piedade confortável, uma religião de superfície que nada me custa e não muda o meu olhar sobre os outros. Dá-me a coragem de Te colocar em primeiro lugar, acima das minhas seguranças, das minhas reputações e até dos meus afetos mais preciosos. Ensina-me a perder a minha vida por amor a Ti, para a receber das Tuas mãos, purificada e radiante. Que o meu dia seja uma sequência de pequenas escolhas concretas de justiça, de verdade e de acolhimento do Teu Reino. Amém.
- A extrema generosidade do Semeador e o trabalho do solo
(15o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O semeador, c.1888, Vincent van Gogh Leituras da Missa: Is 55, 10-11 ; Salmo 64/65 ; Rm 8, 18-23 ; Mt 13, 1-23 Há uma forma de desperdício divino que deveria saltar aos nossos olhos cada vez que lemos o Evangelho, e particularmente neste décimo quinto domingo do Tempo Comum. De fato, estamos tão habituados à parábola do semeador que esquecemos o quanto o comportamento deste camponês é paradoxal, até mesmo provocador para a nossa mentalidade de eficácia e de rentabilidade. Quem jogaria grão sobre o asfalto, entre as pedras ou no meio dos espinhos? No entanto, é exatamente assim que Deus age conosco. Para entrar plenamente no mistério desta página, precisamos levantar os olhos para a promessa que o profeta Isaías formulava na primeira leitura. Deus afirma ali que a sua palavra nunca volta para ele sem efeito, sem ter feito germinar a terra. A Palavra de Deus não é uma simples informação ou uma moral a mais, mas ela é um evento que realiza sempre aquilo para o qual foi enviada. Na língua hebraica, a palavra Dabar (דָּבָר) significa ao mesmo tempo palavra e ação, o que significa que quando Deus fala, Ele faz. Portanto, pensar que a Palavra de Deus depende unicamente das nossas competências ou da nossa santidade é uma sutil tentação de orgulho. A ligação entre estes dois textos – a primeira leitura e o evangelho – é o pivô da nossa fé: a Palavra tem uma eficácia intrínseca, uma força de ressurreição absoluta. Mas então, por que o Evangelho nos mostra tantos fracassos aparentes? Por que esta Palavra, que carrega em si a potência da chuva de Isaías, acaba às vezes sufocada ou ressecada? A resposta não se encontra na potência do grão, mas no estado da nossa liberdade. Deus é um semeador pródigo que recusa selecionar os corações antes de amá-los. 1. O caminho ou o perigo da distração superficial O primeiro terreno descrito por Jesus é o caminho, a beira do caminho. Não se trata de uma terra ruim em si, mas é simplesmente uma terra pisoteada, tornada impermeável de tanto ver todo o mundo passar. Isso descreve bem a nossa vida quando a deixamos tornar-se um lugar de passagem pública, sem intimidade, sem interioridade. Quando a Palavra cai no caminho, ela fica na superfície, e as aves do céu, que o Cristo identifica com o Maligno, não têm nenhum esforço a fazer para se apoderar dela. O drama da nossa época não é, frequentemente, uma hostilidade consciente em relação a Deus, mas uma distração crônica que torna o espírito impermeável. É impressionante ver como há pessoas que nos escutam maravilhadas, mas nada muda: elas nos agradecem, mas tudo termina aí; mas nós também podemos nos encontrar nesta mesma situação. De fato, vivemos no barulho, na urgência, no desfile incessante de informações e de imagens, o que faz com que a nossa interioridade se endureça de tanto ser pisoteada por tantas solicitações. A consequência é que a Palavra não penetra porque não há mais espaço de silêncio para acolhê-la. É o perigo de uma fé puramente intelectual ou de uma prática de hábito e de rituais sem vida quase automatizados, onde se ouvem as palavras sem nunca deixá-las descer à profundidade da nossa existência real, das nossas feridas e dos nossos desejos profundos. 2. O solo pedregoso ou a tentação da emoção sem raiz O segundo solo é mais enganoso, o solo pedregoso, porque há um pouco de terra, a semente brota muito rápido e o entusiasmo é imediato. É a figura do crente que vive a sua fé ao sabor das suas emoções: enquanto o clima é caloroso, a liturgia é bela e a vida sorri, a fé parece radiante. A exegese bíblica nos ajuda a compreender que Jesus não fala de uma terra com pedras soltas; o termo grego utilizado no Evangelho é to petrôdes (το πετρώδες), que designa precisamente uma configuração geológica típica da Palestina, e particularmente da Galileia: uma placa de rocha calcária contínua, situada a apenas alguns centímetros abaixo da superfície do solo, sob uma fina camada de húmus. A raiz não pode descer. Num terreno como este, assim que o sol queima — isto é, assim que surgem a provação, o luto, a secura espiritual ou a simples monotonia do quotidiano — a planta seca. Portanto, uma fé que não ganha raiz na vontade e no compromisso fiel não pode sobreviver à crise. O Cristo, então, nos adverte que a vida cristã comporta a sua parte de tribulação. Se a nossa relação com Deus repousar apenas sobre o bem-estar espiritual que ela nos proporciona, capitularemos ao primeiro golpe de vento. O calcário interior, então, deve ser quebrado pela escolha consciente de permanecer fiel, mesmo na noite da fé. 3. Os espinhos ou a armadilha da divisão do coração O terceiro terreno está congestionado. A semente penetra nele, as raízes crescem, mas ela deve partilhar o espaço com espinhos que Jesus identifica claramente: os cuidados do mundo e a sedução da riqueza. É o drama do coração dividido: queremos Deus, mas queremos também manter o controle absoluto sobre a nossa segurança material e a nossa reputação. A palavra "cuidado" aqui não designa a justa responsabilidade humana – de fato, Jesus não condena o mundo em si, nem o trabalho, nem as necessidades da vida quotidiana –, mas essa angústia que corrói e que impele a buscar a salvação nas coisas deste mundo. Os espinhos sufocam a Palavra ao tirarem dela a sua luz e o seu oxigênio. Encontramo-nos então com uma fé asfixiada, incapaz de dar fruto ou de tomar escolhas proféticas. Não se pode servir a dois senhores, não porque Deus seja ciumento no sentido humano, mas porque o nosso coração é pequeno demais para conter ao mesmo tempo o infinito do seu amor e a obsessão dos nossos ídolos de segurança. Portanto, para que a semente cresça, não basta rezar mais; é preciso aceitar podar, cortar os espinhos da dispersão/distração para devolver ao Cristo a primazia da nossa atenção. 4. A boa terra e a lógica do cêntuplo Chega enfim a boa terra. O que a torna boa? Não é a ausência de fraquezas ou uma pureza moral impecável, mas uma terra que foi arada, revolvida, aberta; é o coração daquele «que ouve a Palavra e a compreende», diz-nos Jesus. Compreender, no sentido bíblico, não é simplesmente captar com a inteligência, é "tomar em si", abraçar a Palavra ao ponto de deixá-la reconfigurar as nossas prioridades. Esta boa terra produz fruto de maneira variada: cem, sessenta ou trinta por um. O Cristo respeita o ritmo e a capacidade de cada um, o essencial é a fecundidade. Como lembrava Isaías, na primeira leitura, a chuva não volta ao céu sem ter fecundado o solo. Quando cedemos à Palavra, quando aceitamos que Deus are as nossas certezas, a nossa vida torna-se milagrosamente fecunda, bem além das nossas capacidades naturais. Esta fecundidade não é um sucesso humano, ela é o transbordamento da vida divina em nós. Conclusão e aplicação para a vida A mensagem deste domingo é um apelo a passar de uma postura de espectador da Palavra para a de um artesão do nosso próprio solo espiritual. O Semeador já deu tudo, a semente é perfeita e o sol da sua graça brilha sem distinção sobre cada um de nós. A questão nunca é: "Onde está Deus?", mas antes: "Como estou eu em relação à minha terra?". Durante esta semana que se abre, podemos realizar atos concretos para trabalhar o nosso solo: Contra o caminho pisoteado, decidamos preservar cada dia cinco ou dez minutos de silêncio estrito após a leitura dos textos da liturgia do dia, sem telefone nem distração, para deixar a Palavra descer em nós. Contra a terra rochosa, escolhamos a fidelidade à oração mesmo que não "sintamos" nada, pois é na secura que as raízes se aprofundam mais longe. Contra os espinhos, identifiquemos a inquietação material ou o cuidado com o olhar dos outros que nos paralisa, e entreguemo-lo explicitamente à misericórdia de Deus. Oração Senhor Jesus, Semeador infatigável e paciente, eu te agradeço por tua louca confiança. Tu conheces as minhas durezas, as minhas leviandades e estes espinhos que, demasiadas vezes, invadem os meus dias, e no entanto continuas a lançar de mãos cheias o grão precioso de tua Palavra no segredo de minha alma. Peço-te hoje a graça de um coração aberto. Vem arar em mim o que se endureceu ao longo das decepções e dos hábitos. Quebra a rocha das minhas superficialidades para que a minha fé não dependa apenas das minhas emoções, e dá-me a coragem de cortar os espinhos da ansiedade que me sufocam. Faz de mim, passo a passo, uma terra humilde, hospitaleira e fecunda, capaz de fazer amadurecer o teu tempo de amor para a alegria do mundo e a glória de teu Nome. Amém.
- O segredo do cêntuplo: quando perder se torna um ganho
(Sábado, sábado, 14a Semana do Tempo Comum - S. Bento, abade; Festa na Europa) São Bento triunfa sobre a tentação lançando-se nu num arbusto de espinhos, enquanto um anjo combate o demônio Afresco do refeitório dos monges realizado por Antonio Bazzi chamado il Sodoma (1477 - 1549) contando a vida de São Bento (480 - 567) Leituras da Missa: Pr 2, 1-9 ; Salmo 33/34 ; Mt 19, 27-29 A liturgia do domingo anterior lembrava-nos com força que o Reino de Dieu se recebe na gratuidade, como um dom que nos ultrapassa e pede o nosso abandono. Ao longo desta semana, vimos como esse seguimento de Cristo exige de nós uma simplificação interior, um desapego das nossas falsas seguranças. Hoje, celebrando São Bento, o grande pai do monaquismo ocidental, a Igreja coloca sob os nossos olhos os textos próprios da sua festa. É a ocasião ideal para mergulhar naquilo que constitui o coração pulsante da vida espiritual: a busca absoluta de Deus e a promessa que lhe está unida. Não nos enganemos, os textos deste sábado não se dirigem unicamente aos monges atrás das suasclausuras, eles falam do nosso quotidiano, dos nossos apegos e da nossa sede profunda de felicidade. 1. Buscar a Sabedoria como um tesouro escondido A primeira leitura, do livro dos Provérbios, abre-se com um convite premente que ressoa estranhamente com a aventura de São Bento: «Sim, se cultivares a inteligência e orientares o teu coração para o entendimento, se a buscares como à prata e a procurares como a tesouros escondidos…». A sabedoria de que fala a Escritura não é uma acumulação de conhecimentos intelectuais, mas é a arte de viver segundo Deus, a capacidade de ver/ler a realidade com os Seus olhos. Mas o texto impõe uma condição: esta sabedoria exige um esforço, uma tensão do coração: «se a buscares… se a procurares…». A vida espiritual não é uma simples recreação passiva, ela exige a audácia de um garimpeiro. O provérbio diz ainda que esta busca passa pela escuta: «o ouvido atento». É, aliás, a primeiríssima palavra da célebre Regra de São Bento: «Escuta, ó filho…». Para escutar, é preciso fazer silêncio, abrir espaço. O texto bíblico diz-nos que aquele que busca assim «…então compreenderás o temor do Senhor». Este temor não é o medo de um Deus castigador, mas o respeito maravilhado diante da sua grandeza, a recusa de ferir o seu amor. Ao convidar-nos a cavar o solo da nossa vida para nela encontrar esse tesouro, a primeira leitura prepara o nosso coração para compreender a radicalidade do Evangelho de hoje: mostra-nos que, para obter o que tem valor, é preciso aceitar deixar o que é secundário. 2. A lógica do cálculo diante da lógica do dom É nesse ponto que o Evangelho de hoje vai ao nosso encontro na nossa humanidade mais bruta. Pedro, com a sua franqueza habitual, faz a Jesus a pergunta que nós frequentemente guardamos em segredo nos nossos corações: «Eis que nós deixamos tudo e te seguimos: que recompensa teremos?». Mas não condenemos Pedro depressa demais, porque a sua pergunta é profundamente humana. Ele entrou numa lógica de troca, de escambo, de contabilidade. Em substância, ele pergunta a Jesus: «nós investimos a nossa vida no teu projeto, qual é o retorno do investimento?» O detalhe interessante é que Jesus não se indigna com esta pergunta, Ele a acolhe e a desloca. Jesus vê bem que, por trás desse cálculo, há simplesmente o medo humano do vazio, da falta e da insegurança. De fato, o drama da nossa vida é que confundimos frequentemente possuir e ser, pensamos que aquilo que possuímos nos define, quando muitas vezes isso nos acorrenta, nos torna escravos. Ao responder a Pedro, Jesus vai fazer os seus discípulos passar de uma mentalidade de mercenários para uma mentalidade de filhos: Ele não lhes promete um bônus de fim de contrato, promete-lhes uma transformação total da sua existência. 3. A promessa do cêntuplo aqui na terra A resposta de Jesus é uma das mais audaciosas de todo o Evangelho, porque Ele afirma que quem tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe ou terras por causa do seu nome, «receberá o cêntuplo». O que é esse cêntuplo? Não é uma promessa material ou mágica, como se Deus fosse multiplicar as nossas contas bancárias, os nossos pais, mães, irmãos etc. O cêntuplo, com efeito, é a experiência de uma liberdade nova, que nos permite experimentar/realizar mais intensamente a nossa existência: o Evangelho revela-nos que aquele que já não possui nada, possui tudo em Deus. Quando renunciamos a possuir as coisas e as pessoas para as amar em Cristo, encontramo-las de uma maneira infinitamente mais bela, mais intensa. São Bento é a testemunha histórica disso, porque deixou a nobreza e as riquezas de Roma para se encerrar numa gruta em Subiaco, sem nada. E o que Deus lhe deu? Tornou-se o pai espiritual de milhares de monges, os seus mosteiros tornaram-se casas de acolhimento para os pobres e os viajantes, e as suas terras civilizaram a Europa. Ao deixar a sua pequena família carnal, recebeu uma multidão de irmãos e de filhos. Isso é o cêntuplo: uma intensificação da vida. Na verdade, Deus não tira nada, Ele dá tudo. Como dirá, mais tarde, magnificamente São João da Cruz: para saboreares o tudo, não queiras ter gosto em nada; para possuíres o tudo, não queiras nada possuir. Conclusão e aplicação para o nosso dia A festa de São Bento impele-nos a fazer um balanço sobre os nossos próprios apegos; de fato, a pergunta de Pedro continua colocada a cada um de nós: estamos ainda numa fé de cálculo, à espera de que Deus valide os nossos méritos, ou aceitamos arriscar a nossa vida na sua simples palavra? A felicidade de que falam os Provérbios não se encontra na acumulação, mas na orientação de todo o nosso ser para a Sabedoria, para o Cristo. Para o nosso dia, tiremos tempo para um exame de consciência, para nos interrogarmos seriamente: qual é o pequeno «algo» que recuso largar hoje? Será um ressentimento, a necessidade de ter sempre razão, uma segurança material que me angustia? Façamos a experiência da confiança. Entreguemos esse pouco a Deus, desapeguemo-nos dele por amor, e abramos as mãos para receber o cêntuplo de paz e de alegria que Ele preparou para nós. Oração Senhor Jesus, Tu vês os meus medos e os meus cálculos. Tu sabes o quanto amo as minhas pequenas seguranças e os meus hábitos e como, tal como Pedro, me acontece de Te perguntar o que vou ganhar em Te servir. Perdoa a minha falta de fé e a pequenez do meu coração. A exemplo de São Bento, dá-me a coragem de nada preferir ao Teu amor. Vem educar o meu ouvido para que eu busque a Tua sabedoria como um tesouro precioso. Livra-me do medo da falta e da ilusão da posse. Quero investir tudo na Tua Palavra, certo de que Tu nunca Te deixas vencer em generosidade e que a Tua presença na minha vida é o único verdadeiro cêntuplo que preenche o meu coração. Amém.
- A vulnerabilidade habitada: quando a fraqueza se torna testemunho
(Sexta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Fra Angelico: Martírio de São Lourenço, entre 1447 e 1449 Leituras da Missa: Os 14, 2-10 ; Salmo 50/51 ; Mt 10, 16-23 A liturgia destes últimos dias conduziu-nos ao coração de um paradoxo que bouscula todas as nossas lógicas humanas. Com efeito, no domingo anterior, ouvíamos o Cristo convidar-nos ao repouso e à gratuidade, lembrando-nos de que o Reino dos Céus não se compra a golpes de performances, mas se recebe no maravilhamento de sermos amados sem mérito. Ontem ainda, o profeta Oseias mostrava-nos a ternura comovente de um Deus que cuida de nós como um lactente contra a sua face, enquanto Jesus nos pedia para partir em missão totalmente leves, sem ouro nem prata. Hoje, esse despojamento toma um rumo mais radical e quase assustador. Jesus não nos esconde nada da realidade: essa leveza e essa gratuidade evangélicas não vão desarmar o mundo, elas vão, às vezes, irritá-lo! Passar da gratuidade recebida para a perseguição sofrida parece um salto brutal. No entanto, há um fio de ouro invisível que une estas leituras, e é o fio da confiança absoluta. Esta sexta-feira, a Palavra na Liturgia convida-nos a descer mais um degrau no nosso abandono: após termos renunciado às nossas seguranças materiais, somos chamados a renunciar à segurança das nossas próprias forças e dos nossos próprios discursos para dar lugar ao Espírito. 1. Quebrar o ídolo da autossuficiência Para compreender o realismo do Evangelho, precisamos primeiro escutar a conclusão do magnífico livro de Oseias que a primeira leitura nos oferece hoje. O profeta lança um apelo premente ao retorno, mas um retorno bem específico: «Não diremos mais à obra das nossas mãos: “Tu és o nosso Deus”». Eis o coração do problema do homem, o ídolo que fabricamos todos os dias. O ídolo não é uma outra divindade que rivaliza contra Deus, nem apenas uma estátua de pedra, mas é, antes, tudo o que construímos com as nossas próprias forças para nos tranquilizar, para nos convencer de que podemos nos salvar a nós mesmos: é a nossa reputação, a nossa necessidade de ter razão, as nossas estratégias humanas de defesa, etc… A resposta de Deus trazida pelo profeta a este renascimento é de uma pura beleza: «Eu os amarei com um amor gratuito... Serei para Israel como o orvalho». Portanto, a cura das nossas infidelidades começa precisamente lá onde cessamos de divinizar as nossas próprias obras. Enquanto contarmos com os nossos cavalos e as nossas blindagens psicológicas, continuaremos impermeáveis à graça. Deus só pode ser o nosso orvalho se aceitarmos reconhecer a nossa secura. É esta ruptura com a autossuficiência que prepara o discípulo para entrar na lógica desconcertante da missão que Jesus vai descrever. 2. O paradoxo da ovelha no meio dos lobos No Evangelho, Jesus utiliza uma imagem de um realismo impactante: «Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos». Humanamente falando, esta estratégia é uma loucura, um erro tático absoluto; não se enviam animais indefesos para o meio de predadores. A reação lógica da ovelha diante do lobo seria tentar fazer crescer presas, tornar-se ela própria um lobo para sobreviver. Esta é a nossa tentação permanente na vida de fé e nas nossas relações: ou fingimos ser como os lobos, ser como as pessoas do mundo e nos escondemos para não revelar a nossa identidade de cristãos; ou tentamos responder à dureza com a dureza, à agressividade do mundo com uma arrogância espiritual ou uma rigidez defensiva. Mas o Cristo recusa essa saída, Ele mantém a identidade da ovelha. Ele faz isso para nos fazer compreender que ser cristão não é desenvolver técnicas de sobrevivência agressivas, mas aceitar uma vulnerabilidade radical porque o nosso verdadeiro defensor não é deste mundo. E depois Jesus continua pedindo-nos para associar duas qualidades que parecem se excluir: a prudência da serpente e a simplicidade da pomba. A prudência não é a cobardia ou o cálculo político, é o realismo aguçado que sabe discernir o mal sem se deixar fascinar por ele; enquanto a simplicidade não é a ingenuidade estúpida, é a pureza de um coração que recusa deixar-se contaminar pela astúcia e pelo ódio do lobo. O discípulo olha o perigo de frente, mas guarda as mãos e o coração desarmados. 3. O Espírito de vosso Pai: o fim da ansiedade apologética O ponto culminante do texto toca no nosso medo mais íntimo, ou seja, o de não estar à altura, de não saber o que responder diante da hostilidade, do desprezo ou da contradição. No seu discurso, Jesus evoca os tribunais, as sinagogas, os governadores. Para nós, hoje, no nosso contexto ordinário, não pensemos logo em perseguições sistemáticas contra os cristãos, porque antes de chegar aí – mesmo que em certos contextos do mundo já se esteja –, este discurso de Jesus ganha forma muito frequentemente num jantar de família onde a nossa fé é ridicularizada, num ambiente profissional onde os nossos valores são pisoteados, ou simplesmente nessa solidão interior diante de um mundo que já não compreende a nossa escolha de seguir o Cristo. A instrução é libertadora: «Não vos preocupeis em saber como falar ou o que dizer... porque não sereis vós a falar, mas o Espírito de vosso Pai falará em vós». O segredo da perseverança cristã não reside na nossa eloquência ou nas nossas competências intelectuais, mas na nossa capacidade de fazer silêncio para deixar o Espírito assumir o controle. Santa Teresa de Ávila dizia que o maior dano para a alma é querer defender-se a si mesma. Quando cessamos de nos crispar sobre a nossa própria defesa, a nossa impotência torna-se o trono da potência de Deus. O testemunho mais impactante nunca é uma lição de teologia bem amarrada, mas a paz inexplicável que emana de uma pessoa que confia no meio da tempestade: é o Espírito do Pai que se torna visível através das fissuras da nossa fraqueza aceita. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia desinstala-nos profundamente. Ela pede-nos para olhar os nossos medos de frente, não para nos desencorajar, mas para mudar de ponto de apoio. O Cristo promete-nos que a perseverança é possível, não porque somos fortes, mas porque o Pai é fiel. Para o nosso dia concreto, a aplicação é simples e exigente: identifiquemos o lugar ou a relação onde nos sentimos atualmente como uma ovelha no meio dos lobos, isto é, onde sentimos agressividade, incompreensão ou pressão. Tomemos a decisão deliberada de não nos esconder ou de não colocar as nossas garras para fora. Recusemos a ironia, a réplica cortante ou a justificação ansiosa. Diante duma crítica ou duma situação estressante hoje, façamos uma pausa de um segundo, respiremos interiormente e digamos simplesmente: «Espírito Santo, é a Tua hora, fala e age Tu mesmo através de mim, se quiseres, para a Tua maior Glória». Escolhamos a paz da pomba. Oração Senhor Jesus, Tu, a bússola da minha vida, vês os meus tremores e o meu medo instintivo de sofrer ou de ser rejeitado. Tu sabes quantas vezes procuro fabricar os meus próprios ídolos, defender-me com as minhas próprias palavras e as minhas pobres estratégias humanas. Canso-me frequentemente ao querer ser forte por mim mesmo. Hoje, desejo depositar as armas. Peço-Te a graça da prudência e da simplicidade. Dá-me não temer o mundo, mas amá-lo com esse amor gratuito que Tu derramaste no meu coração. Quando a incompreensão se levantar, quando as minhas palavras se mostrarem impotentes, vem fazer silêncio em mim. Que eu não procure mais salvar a minha própria imagem, mas que eu deixe o Teu Espírito Santo ser a minha força, a minha palavra e a minha paz. Entrego-me nas Tuas mãos, certo de que a minha pequenez é o Teu espaço sagrado. Amém.
- A audácia da gratuidade: da ternura do Pai à leveza do apóstolo
(Quinta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt van Rijn 1668. O detalhe das mãos do Pai, uma masculina, a outra com traços mais maternos, colocadas sobre os ombros do filho ajoelhado. Leituras da Missa: Os 11, 1-4.8c-9 ; Salmo 79/80 ; Mt 10, 7-15 No domingo passado, fomos alcançados por esta palavra libertadora de Cristo que nos convidava a encontrar o nosso repouso n'Ele, a depor enfim o jugo tão pesado das nossas performances e das nossas angústias. Hoje descobrimos a verdadeira fonte deste repouso da alma: a ternura incompreensível, e poder-se-ia dizer quase irracional, de Deus. O grande drama da existência humana é acreditar obstinadamente que devemos comprar o amor; de fato, esgotamo-nos a provar, dia após dia, que somos dignos de ser amados: pelos nossos entes próximos, pela sociedade, por nós mesmos e, tragicamente, por Deus também; raramente a nossa religiosidade é gratuita… No entanto, a liturgia desta quinta-feira vem despedaçar essa lógica mercantil com uma grande doçura. O profeta Oseias, na primeira leitura, dá-nos a contemplar o coração vulnerável de Deus, um Deus que sofre por amar, que se comporta como um pai ou uma mãe perdidos de ternura diante do seu filho rebelde. E é justamente esta experiência visceral do amor divino – a compaixão de Jesus – que torna possível a exigência radical que Jesus impõe aos seus apóstolos no Evangelho: partir caminhos afora sem nenhuma bagagem. A missão nunca começa por uma injunção moral, uma ordem, um mandamento, não! A missão brota como a consequência natural do maravilhamento de ter sido amado por nada. Dito de outro modo, o missionário é aquele que se sente impelido a clamar ao mundo inteiro: «eu sou amado por um amor incondicional, e vós que me escutais, sabei bem que também o sois.» 1. A memória de ter sido loucamente amado Na primeira leitura, Oseias desenvolve uma das linguagens mais comoventes de toda a história bíblica. Aqui se descobre que Deus não se mantém à distância atrás do balcão de um tribunal, mas Ele é aquele que se inclina, que sustenta, que nutre. «Fui eu que o ensinei a andar... eu o tratava como um lactente que se eleva bem contra a sua face». Mas eis a grande tragédia humana: quanto mais o filho recebe, mais ele se afasta para ir sacrificar aos Baais. Os ídolos nos tranquilizam porque são manipuláveis – criados por mãos humanas –, enquanto o amor vivo de Deus implica o risco de uma verdadeira relação: preferimos frequentemente o controle espiritual ao abandono amoroso. Se aplicássemos a nossa lógica humana a esta constatação descrita pelo profeta Oseias, tal traição – que é a nossa – mereceria a condenação; julgar-se-ia mesmo como um ato imperdoável. Mas a reação divina é uma inversão absoluta: «O meu coração revira-se contra mim; ao mesmo tempo, as minhas entranhas estremecem.» E eis o espanto da ação divina: Deus escolhe ser Deus, e não homem. A Sua justiça não é a nossa, é a sua Misericórdia infinita – um conceito que o nosso raciocínio nunca poderá captar, mas que podemos aceitar. A verdadeira conversão nunca nasce do terror de um castigo, ela produz-se quando a nossa carapaça se fissura sob o peso da memória deste amor gratuito e incondicional. Não temos de nos tornar perfeitos para ser amados; é porque somos incondicionalmente amados que poderemos, um dia, tornar-nos melhores. Sem esta certeza gravada no fundo da alma, a vida cristã não passa de um moralismo esgotante e lamentável! 2. O escândalo da gratuidade: só se dá o que se recebeu É unicamente à luz desta ternura paterna que se deve ler o Evangelho de Mateus. Jesus confia aos Doze um poder imenso: curar, purificar, expulsar. Depois, Ele acrescenta o axioma fundamental de toda a vida espiritual: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» O Cristo não envia profissionais da religião ou filósofos arrogantes, mas Ele envia sobreviventes de milagres. De fato, contemplamos aqui que, desde o começo, Jesus envia homens que estavam paralisados pelo medo, leprosos pelo pecado, mortos nos seus desesperos, e que foram erguidos gratuitamente pela graça. Se vives a tua relação com Deus como um contrato comercial — eu Te dou as minhas orações, Tu me dás a Tua proteção —, transmitirás aos outros uma fé rígida, julgadora e angustiante. Mas se fizeste a experiência da face de Deus colada à tua – como está descrita a relação de Deus para com o seu povo na primeira leitura –, então a tua simples presença tornar-se-á uma boa nova. O Reino dos Céus não se comunica por argumentações técnicas, mas pelo transbordamento inevitável de um coração que foi impactado pela gratuidade divina: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» Na verdade, não somos senão mendigos que indicam a outros mendigos onde se encontra o Pão da vida. 3. A pobreza evangélica, um espaço para a Providence A sequência das instruções de Jesus parece quase uma loucura, porque Ele diz aos apóstolos para não levarem nada, nem ouro, nem prata, nem sacola para o caminho, nem túnica de reserva. Por que exigir tal despojamento? Porque as nossas malas, sejam elas materiais, intelectuais ou afetivas, criam a ilusão tenaz de que somos os senhores da nossa existência. Temos essa tendência de acumular seguranças justamente para não termos de depender de Deus, porque, na verdade, ainda não temos certeza d'Ele. Santa Teresa de Ávila lembrava com força que quem tem Deus não carece de nada. As bagagens tornam o nosso passo pesado e nos deixam surdos à dependência alegre para com o Pai. O Cristo despoja-nos não para nos empobrecer, mas para que as nossas mãos estejam finalmente livres, livres para receber e livres para dar. A pobreza pedida aqui é o espaço vazio que deixamos deliberadamente em nós para que a Providência possa entrar e se manifestar, frequentemente através do rosto e da hospitalidade daqueles que encontramos. «Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi a poeira dos vossos pés.» Este gesto não é uma maldição orgulhosa, é a proteção da nossa própria liberdade e o respeito absoluto pela liberdade do outro, porque, com efeito, a verdade sempre se propõe, nunca se impõe. Deixar a poeira é recusar guardar a amargura do fracasso para continuar a avançar, leve, em direção a quem espera a Boa Nova. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia convoca-nos diante de um espelho exigente. Verifiquemos as nossas próprias bagagens: de que estamos inutilmente carregados hoje? Estaremos sobrecarregados por velhos rancores, pela necessidade obsessiva de tudo prever, pelo medo visceral de que algo nos falte, pela vontade de provar que temos razão? A aplicação concreta para este dia é fazer conscientemente um ato de pura gratuidade, em memória da gratuidade de Deus para conosco. Escutemos um colega sem olhar para o relógio; prestemos um serviço silencioso sem esperar o menor obrigado; cedamos a passagem; deixemos de lado a vontade de ter a última palavra… Façamos a experiência concreta da leveza, deixemos que a paz que carregamos em nós se deposite suavemente nos lugares onde vivemos. Oração Senhor Jesus, Tu que conheces a minha tendência constante de querer controlar tudo, de buscar seguranças lá onde só há areia. Vem curar o meu coração de comerciante. Perdoa-me por todas as vezes em que fujo do Teu amor porque ele me dá medo, porque é grande demais, gratuito demais, e porque prefiro a estreiteza dos meus próprios méritos. Peço-Te que me ensines a leveza do Evangelho. Ajuda-me a largar as bagagens pesadas dos meus medos e dos meus julgamentos. Faz-me a graça de me lembrar sem cessar de que fui salvo gratuitamente. Que eu possa hoje, com a pobreza de um coração pacificado, oferecer um olhar de esperança, uma palavra de paz e um pouco da ternura imensa que o Pai tem por mim. Amém.
- Do coração partido à chamada que unifica a vida
(Quarta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Vocação dos primeiros Apóstolos por Domenico Ghirlandaio, 1481 Leituras da Missa: Os 10, 1-3.7-8.12 ; Salmo 104/105 ; Mt 10, 1-7 No domingo passado, o Cristo quebrava as nossas solidões por meio de um convite gravado no mais profundo da nossa memória espiritual: «Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso» ; fomos feitos para Deus, o nosso descanso só se encontra n'Ele só. Este descanso não é uma simples ausência de cansaço, é a redescoberta de uma Presença, o lugar onde a nossa existência cessa de ser um combate permanente para se tornar um acolhimento. Hoje, nesta quarta-feira da décima quarta semana, a Palavra de Deus vem iluminar aquilo que, em nós, faz obstáculo a esse descanso divino. Por que as nossas vidas continuam tão frequentemente cansadas, agitadas e ressecadas, semelhantes ao deserto? Os dois textos de hoje, o do profeta Oseias e o Evangelho de Mateus, unem-se para nos mostrar que a raiz do nosso esgotamento reside na dispersão do nosso coração. Diante das nossas tentativas de fabricar os nossos próprios pequenos refúgios, Jesus toma um ato radical: Ele chama, Ele nomeia e Ele reúne. 1. A videira luxuriante e a tragédia do coração partido O profeta Oseias utiliza uma imagem magnífica e terrível, ele diz «Israel era uma videira luxuriante» que, em vez de dar graças pela sua abundância, utiliza os seus próprios frutos para multiplicar os altares aos falsos deuses. É exatamente isso que fazemos com a nossa liberdade quando ela se esquece da sua fonte. Frequentemente nos acontece que o Senhor nos abençoa, Ele torna a nossa vida mais bela, mas, como fazia o povo de Israel – «quanto mais rica era a sua terra, mais ele embelezava as estelas dos falsos deuses» –, isto é, esse reflexo ou tendência de colocar a nossa segurança, privilegiar e apegar-nos aos dons e não ao Doador. Oseias então pronuncia a frase central da sua mensagem: «O seu coração está dividido; agora eles vão pagar». A palavra hebraica aqui utilizada para «dividido» é חָלַ֥ק (khaw-lak’), que evoca uma divisão interna, um coração escorregadio, que já não sabe apoiar-se na rocha, ser liso, falso. Obviamente que um coração dividido é um coração que se esgota, o exato oposto do repouso prometido no domingo passado. Quando vivemos divididos entre o desejo de Deus e a necessidade de tudo controlar pelas nossas próprias forças, criamos o nosso próprio exílio, isto é, provocamos a nossa destruição interna e nos encontramos como numa terra estrangeira, longe da nossa própria identidade e de Deus. Eis por que Oseias diz: «o Senhor derrubará os seus altares; as estelas, ele as destruirá» ; os ídolos que construímos acabarão por desabar como espuma à superfície da água. Mesmo que se trate de um ato forte, violento de Deus para conosco, é preciso saber que Ele não destrói as nossas obras por ciúme, mas Ele quebra as nossas falsas seguranças para nos evitar perecer com elas e nos encontrarmos na condição de exilados. Eis por que Ele clama pelo profeta: «Semeai justiça, colhei bondade, lavrai as vossas terras incultas. É tempo de buscar o Senhor, até que ele venha e derrame sobre vós a chuva da justiça.» 2. Jesus chama e nomeia a nossa realidade Diante desta humanidade com o coração dividido, desta colheita abundante mas onde os trabalhadores são poucos (cf. final do Evangelho de ontem), o texto do Evangelho abre-se com um gesto forte da parte de Jesus, de uma força inaudita: «Jesus chamou os seus doze discípulos…» Lá onde o pecado dispersa, o Cristo reúne. Interessante que Ele não começa por lhes dar uma doutrina ou uma lista de regras, mas Ele cria uma relação para depois os enviar. O que é fascinante nesta narrativa é a enumeração meticulosa dos nomes dos doze Apóstolos, o que nos revela que, de fato, Deus nos conhece na nossa singularidade mais íntima, e esta lista é a prova concreta disso. Olhemos mais de perto para esta lista: ela associa opostos que, humanamente, deveriam ter se matado. Encontra-se ali, por exemplo, Mateus, «o publicano», que colaborava com o ocupante romano, e Simão, «o Zelote», que pertencia a um movimento de resistência armada contra Roma. Há Pedro, o generoso mas frágil, e Judas Iscariotes, aquele mesmo que o entregou. Isso nos revela que o Senhor não escolhe homens perfeitos ou uniformes, Ele escolhe histórias concretas, feridas, contradições vivas. Ao inscrever o nome de Judas desde o início da missão, o Evangelho mostra-nos que Jesus não exclui ninguém da sua intimidade, mesmo sabendo até onde a nossa liberdade pode escorregar. Portanto, ser chamado pelo nosso nome é aceitar que o Cristo entre na nossa própria realidade, com as nossas sombras e as nossas luzes, para nela trazer a unidade. E nunca nos esqueçamos de que a esses homens Ele «deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar toda a espécie de doenças e enfermidades». 3. A missão começa pelas ovelhas perdidas As instruções de Jesus aos seus Apóstolos podem surpreender-nos: «Não tomeis o caminho que leva às nações pagãs... Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.» Esta escolha não é uma recusa dos outros povos, mas é uma prioridade teológica e pastoral de grande profundidade. As ovelhas perdidas de Israel são precisamente aquelas que deveriam conhecer a Aliança mas se extraviaram, aquelas cujo coração se tornou semelhante à videira de Oseias: estéril de tanto buscar falsos pastores. Na nossa vida espiritual, esta instrução ecoa de maneira muito pessoal. Antes de querermos evangelizar o mundo inteiro ou resolver os problemas dos outros, devemos deixar o Cristo evangelizar as nossas próprias zonas que se tornaram pagãs. As ovelhas perdidas estão dentro de nós: são os nossos desânimos, as nossas dúvidas, as nossas iras contidas, os nossos momentos em que funcionamos como se Deus não existisse. O Reino dos Céus está muito próximo, não como uma conquista exterior, mas como uma presença que vem habitar as nossas pobrezas. A missão cristã não consiste em trazer uma verdade do alto de um púpito, mas em testemunhar, como um mendigo que encontrou pão, que a ternura do Pai está acessível aqui e agora. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra de Deus hoje convida-nos a uma clarificação interior. Tiremos um instante para olhar para a nossa vida com lucidez e benevolência: onde se situam as minhas divisões neste momento? Em que certezas humanas busquei uma segurança ilusória que me afasta do verdadeiro repouso da alma? A aplicação concreta para o nosso dia é descer novamente ao nosso coração para escutar o Cristo pronunciar o nosso nome. Não fujamos das nossas fragilidades ou das nossas contradições e não as escondamos do Senhor. Como os Doze, deixemos o Senhor associar as nossas pobrezas ao seu poder de cura. Hoje, diante duma situação difícil ou duma relação tensa, não semeemos o vento da crítica ou da inquietação. Proclamemos antes, pela nossa paciência, pela nossa escuta e pelo nosso sorriso, que o Reino está próximo, transformando assim o nosso pequeno pedaço de mundo numa terra pronta para a colheita. Oração Senhor Jesus, Tu conheces os recônditos do meu coração e os momentos em que a minha vida se dispersa longe de Ti. Vem curar o meu coração dividido que busca tantas falsas seguranças em vez de, antes de tudo, se abandonar à Tua graça. Obrigado porque não me chamas porque sou digno, mas porque me amas gratuitamente. Tu conheces o meu nome, os meus limites e as minhas dúvidas e, no entanto, confias em mim. Confio-Te hoje as ovelhas perdidas da minha alma, os meus medos e as minhas feridas. Toma-os entre as Teu mãos, derrama sobre eles a Tua chuva de justiça e de cura. Faz de mim um instrumento da Tua paz, capaz de testemunhar ao meu redor, pelos meus atos mais do que pelas minhas palavras, que o Teu Reino está muito próximo e que o Teu amor é o único necessário. Amém.
- Sair do mutismo espiritual para entrar na colheita da graça
(Terça-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Jesus curando um surdo-mudo, sobre fundo composto de ruínas romanas antigas, Bartholomeus Breenbergh 1625 / 1650 Leituras da Missa: Os 8, 4-7.11-13 ; Salmo 113b/115 ; Mt 9, 32-38 No domingo passado, o Senhor Jesus dirigia-nos um dos convites mais comoventes de todo o Evangelho: «Vinde a mi, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso.» Ele chamava-nos a depositar os nossos fardos, a colocar-nos à sua escola, a de um coração manso e humilde, para encontrar o verdadeiro alívio das nossas almas. Nesta terça-feira da décima quarta semana, a liturgia vem aprofundar essa promessa, mostrando-nos o que nos impede, concretamente, de saborear esse repouso divino. Os nossos fardos mais pesados nem sempre vêm do exterior; com efeito, nascem frequentemente da nossa incapacidade de escutar a Deus e da nossa tendência tenaz de fabricar ídolos para preencher o nosso vazio interior. Jesus vem hoje quebrar este círculo vicioso para nos introduzir na verdadeira liberdade dos filhos de Deus. 1. A armadilha dos ídolos e a tempestade das nossas vidas O profeta Oseias, na primeira leitura, apresenta um diagnóstico de uma impressionante atualidade sobre o coração humano. Ele descreve um povo que se agita, que toma decisões políticas e espirituais sem consultar a Deus, e que utiliza as suas riquezas para fabricar ídolos para si. A sentença espiritual é imediata: «Eles semeiam ventos e colherão tempestades». Não é uma punição arbitrária que Deus envia do alto do céu, é o mecanismo mesmo do pecado, consequência das suas escolhas: quando colocamos a nossa confiança naquilo que sai das nossas próprias mãos, nas nossas performances, nos nossos diplomas ou nas nossas seguranças materiais, edificamos a nossa existência sobre o nada. O vento que semeamos é essa ilusão de autossuficiência, e a tempestade que dela resulta é a angústia profunda que nos submerge quando essas falsas seguranças desabam. O salmista prolonga esta reflexão com uma ironia que nos deveria fazer pensar: os ídolos «têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem...» E acrescenta esta verdade antropológica maior: «Tornem-se como eles os que os fazem». São João da Cruz dizia que é próprio do amor semelhar o amante ao amado: acabamos sempre por nos parecer com aquilo que adoramos; se você adora o dinheiro ou o poder, o seu coração torna-se duro, frio e calculista. A idolatria corta-nos da relação viva, fixa-nos, torna-nos insensíveis e encerra-nos num mutismo profundo, onde nos tornamos incapazes de ouvir a voz do Amor e de falar a linguagem da gratuidade. 2. O mutismo quebrado e a recusa da novidade É precisamente essa condição humana que Jesus encontra no Evangelho, onde Lhe apresentam um homem que está sob o domínio de um demônio que o torna surdo e mudo: o demônio colocou-o na incapacidade de se comunicar. No plano bíblico e teológico, existe uma ligação indissociável entre a escuta e a palavra, ou seja, para poder falar uma palavra verdadeira, é preciso primeiro ter escutado, porque sem a escuta, a palavra pode não corresponder à realidade. O adversário das nossas almas começa sempre por cortar a nossa escuta da Palavra de Deus, torna-nos surdos à Sua bondade, para nos impedir de ler, ver e compreender a realidade e a verdade; e uma vez que estamos surdos à promessa do Amor revelada no domingo passado, tornamo-nos incapazes de uma verdadeira comunicação, e então a nossa boca já não sabe senão queixar-se de tudo e contra todos, julgar ou encerrar-se num silêncio de morte. No relato do Evangelho de hoje, assim que o demônio é expulso, o homem começa a falar e a multidão fica admirada. Mas os fariseus, encerrados nas suas certezas rígidas, recusam ver a novidade de Deus e afirmam: «É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios». Esta atitude dos fariseus revela o ápice do mutismo e da surdez espiritual, pois diante da Vida que irrompe e que liberta, eles preferem encerrar-se na suspeita e na teoria. Esse mesmo perigo dos fariseus nos espreita cada vez que preferimos os nossos sistemas de pensamento rígidos e os nossos hábitos confortáveis ao inesperado da graça… Eles recusam o repouso que Jesus oferece porque querem continuar senhores da sua própria salvação e, como bem ouvimos no domingo passado, a eles o Pai esconde os Seus segredos. 3. As entranhas de compaixão e o apelo da colheita O texto do Evangelho continua: «Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas deles, proclamando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade.» Diante desta humanidade ferida, cansada e dividida, o olhar de Jesus muda tudo. Mateus nota com grande profundidade exegética: «Vendo as multidões, Jesus compadeceu-se delas». O termo grego utilizado aqui é σπλαγχνίζομαι (splagchnizomai), frequentemente traduzido por "movido de compaixão", mas que na verdade evoca uma reviravolta nas entranhas (pois as entranhas são consideradas o lugar do amor e da piedade na cultura bíblica); este termo indica também o amor materno mais visceral. Jesus não olha para as multidões com o desprezo os fariseus, nem com o oportunismo dos reis de Israel denunciados por Oseias. Jesus vê a nossa aflição profunda, as nossas vidas abatidas como ovelhas sem pastor, errando de ídolo em ídolo sem encontrar repouso. Diante deste espetáculo, a reação de Jesus não é a de condenar, mas Ele volta-se para os discípulos para mudar a perspectiva deles. Com efeito, lá onde nós frequentemente só vemos um deserto espiritual, uma multidão hostil ou problemas insolúveis, Ele vê uma promessa: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos». O bem já está ali, escondido sob o sofrimento, pronto para ser colhido pelo amor. Um detalhe muito interessante deste relato é que, diante desta realidade, o primeiro ato que Jesus pede não é um ativismo frenético, mas um ato de fé e de abandono: «Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita». Rezar pela colheita é recusar dar-se por vencido pelo mal, é conformar o nosso coração à compaixão de Jesus para nos tornarmos, por nossa vez, servos capazes de aliviar e erguer os nossos irmãos; atitude possível unicamente se tivermos um coração como o de Jesus: capaz de uma verdadeira compaixão. Conclusão e aplicação para o nosso dia Para avançar hoje neste caminho de cura, tiremos um instante para fazer um balanço no segredo do nosso coração: quais são os ídolos sutis que tenho tendência a fabricar para me tranquilizar, correndo o risco de semear o vento da agitação? Haverá áreas da minha vida onde me tornei surdo à voz do Senhor e mudo diante das necessidades do meu próximo? Jesus chama-nos hoje a deixar o cinismo dos fariseus para entrar na Sua própria compaixão. Olhemos para a nossa família, o nosso lugar de trabalho e o nosso mundo não com amargura, mas com os olhos de Cristo, que sabe ver a colheita lá onde os outros só veem espinhos. Deixemos que Ele abra os nossos ouvidos à Sua Palavra para que a nossa boca possa anunciar a Sua bondade ao longo de todo este dia. Oração Senhor Jesus, Tu que abres os ouvidos dos surdos e desatas a língua dos mudos, vem visitar hoje as minhas próprias paralisias interiores. Tu conheces os fardos sob os quais me canso e as falsas seguranças nas quais procuro, demasiadas vezes, um repouso ilusório. Purifica o meu coração de todos os seus ídolos mudos que me tornam insensível à Tua presença. Abre a minha escuta à suavidade da Tua voz, a fim de que a minha palavra seja libertada para Te louvar e para dizer palavras de consolação ao meu redor. Dá-me, Senhor, o Teu olhar de compaixão sobre as multidões do nosso tempo. Não me permitas julgar ou desanimar, mas faz de mim um humilde e alegre trabalhador da Tua colheita, queimando no desejo de fazer conhecer o Teu amor. Amém.












