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A audácia da gratuidade: da ternura do Pai à leveza do apóstolo

  • 8 de jul.
  • 5 min de leitura

(Quinta-feira, XIV Semana do Tempo Comum)

O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt van Rijn 1668. O detalhe das mãos do Pai, uma masculina, a outra com traços mais maternos, colocadas sobre os ombros do filho ajoelhado.
O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt van Rijn 1668. O detalhe das mãos do Pai, uma masculina, a outra com traços mais maternos, colocadas sobre os ombros do filho ajoelhado.

Leituras da Missa: Os 11, 1-4.8c-9 ; Salmo 79/80 ; Mt 10, 7-15


No domingo passado, fomos alcançados por esta palavra libertadora de Cristo que nos convidava a encontrar o nosso repouso n'Ele, a depor enfim o jugo tão pesado das nossas performances e das nossas angústias. Hoje descobrimos a verdadeira fonte deste repouso da alma: a ternura incompreensível, e poder-se-ia dizer quase irracional, de Deus. O grande drama da existência humana é acreditar obstinadamente que devemos comprar o amor; de fato, esgotamo-nos a provar, dia após dia, que somos dignos de ser amados: pelos nossos entes próximos, pela sociedade, por nós mesmos e, tragicamente, por Deus também; raramente a nossa religiosidade é gratuita…

No entanto, a liturgia desta quinta-feira vem despedaçar essa lógica mercantil com uma grande doçura. O profeta Oseias, na primeira leitura, dá-nos a contemplar o coração vulnerável de Deus, um Deus que sofre por amar, que se comporta como um pai ou uma mãe perdidos de ternura diante do seu filho rebelde. E é justamente esta experiência visceral do amor divino – a compaixão de Jesus – que torna possível a exigência radical que Jesus impõe aos seus apóstolos no Evangelho: partir caminhos afora sem nenhuma bagagem. A missão nunca começa por uma injunção moral, uma ordem, um mandamento, não! A missão brota como a consequência natural do maravilhamento de ter sido amado por nada. Dito de outro modo, o missionário é aquele que se sente impelido a clamar ao mundo inteiro: «eu sou amado por um amor incondicional, e vós que me escutais, sabei bem que também o sois.»


1. A memória de ter sido loucamente amado

Na primeira leitura, Oseias desenvolve uma das linguagens mais comoventes de toda a história bíblica. Aqui se descobre que Deus não se mantém à distância atrás do balcão de um tribunal, mas Ele é aquele que se inclina, que sustenta, que nutre. «Fui eu que o ensinei a andar... eu o tratava como um lactente que se eleva bem contra a sua face». Mas eis a grande tragédia humana: quanto mais o filho recebe, mais ele se afasta para ir sacrificar aos Baais. Os ídolos nos tranquilizam porque são manipuláveis – criados por mãos humanas –, enquanto o amor vivo de Deus implica o risco de uma verdadeira relação: preferimos frequentemente o controle espiritual ao abandono amoroso.

Se aplicássemos a nossa lógica humana a esta constatação descrita pelo profeta Oseias, tal traição – que é a nossa – mereceria a condenação; julgar-se-ia mesmo como um ato imperdoável. Mas a reação divina é uma inversão absoluta: «O meu coração revira-se contra mim; ao mesmo tempo, as minhas entranhas estremecem.» E eis o espanto da ação divina: Deus escolhe ser Deus, e não homem. A Sua justiça não é a nossa, é a sua Misericórdia infinita – um conceito que o nosso raciocínio nunca poderá captar, mas que podemos aceitar. A verdadeira conversão nunca nasce do terror de um castigo, ela produz-se quando a nossa carapaça se fissura sob o peso da memória deste amor gratuito e incondicional. Não temos de nos tornar perfeitos para ser amados; é porque somos incondicionalmente amados que poderemos, um dia, tornar-nos melhores. Sem esta certeza gravada no fundo da alma, a vida cristã não passa de um moralismo esgotante e lamentável!


2. O escândalo da gratuidade: só se dá o que se recebeu

É unicamente à luz desta ternura paterna que se deve ler o Evangelho de Mateus. Jesus confia aos Doze um poder imenso: curar, purificar, expulsar. Depois, Ele acrescenta o axioma fundamental de toda a vida espiritual: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» O Cristo não envia profissionais da religião ou filósofos arrogantes, mas Ele envia sobreviventes de milagres. De fato, contemplamos aqui que, desde o começo, Jesus envia homens que estavam paralisados pelo medo, leprosos pelo pecado, mortos nos seus desesperos, e que foram erguidos gratuitamente pela graça.

Se vives a tua relação com Deus como um contrato comercial — eu Te dou as minhas orações, Tu me dás a Tua proteção —, transmitirás aos outros uma fé rígida, julgadora e angustiante. Mas se fizeste a experiência da face de Deus colada à tua – como está descrita a relação de Deus para com o seu povo na primeira leitura –, então a tua simples presença tornar-se-á uma boa nova. O Reino dos Céus não se comunica por argumentações técnicas, mas pelo transbordamento inevitável de um coração que foi impactado pela gratuidade divina: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» Na verdade, não somos senão mendigos que indicam a outros mendigos onde se encontra o Pão da vida.


3. A pobreza evangélica, um espaço para a Providence

A sequência das instruções de Jesus parece quase uma loucura, porque Ele diz aos apóstolos para não levarem nada, nem ouro, nem prata, nem sacola para o caminho, nem túnica de reserva. Por que exigir tal despojamento? Porque as nossas malas, sejam elas materiais, intelectuais ou afetivas, criam a ilusão tenaz de que somos os senhores da nossa existência. Temos essa tendência de acumular seguranças justamente para não termos de depender de Deus, porque, na verdade, ainda não temos certeza d'Ele. Santa Teresa de Ávila lembrava com força que quem tem Deus não carece de nada. As bagagens tornam o nosso passo pesado e nos deixam surdos à dependência alegre para com o Pai. O Cristo despoja-nos não para nos empobrecer, mas para que as nossas mãos estejam finalmente livres, livres para receber e livres para dar. A pobreza pedida aqui é o espaço vazio que deixamos deliberadamente em nós para que a Providência possa entrar e se manifestar, frequentemente através do rosto e da hospitalidade daqueles que encontramos.

«Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi a poeira dos vossos pés.» Este gesto não é uma maldição orgulhosa, é a proteção da nossa própria liberdade e o respeito absoluto pela liberdade do outro, porque, com efeito, a verdade sempre se propõe, nunca se impõe. Deixar a poeira é recusar guardar a amargura do fracasso para continuar a avançar, leve, em direção a quem espera a Boa Nova.


Conclusão e aplicação para o nosso dia

A Palavra deste dia convoca-nos diante de um espelho exigente. Verifiquemos as nossas próprias bagagens: de que estamos inutilmente carregados hoje? Estaremos sobrecarregados por velhos rancores, pela necessidade obsessiva de tudo prever, pelo medo visceral de que algo nos falte, pela vontade de provar que temos razão?

A aplicação concreta para este dia é fazer conscientemente um ato de pura gratuidade, em memória da gratuidade de Deus para conosco. Escutemos um colega sem olhar para o relógio; prestemos um serviço silencioso sem esperar o menor obrigado; cedamos a passagem; deixemos de lado a vontade de ter a última palavra… Façamos a experiência concreta da leveza, deixemos que a paz que carregamos em nós se deposite suavemente nos lugares onde vivemos.


Oração

Senhor Jesus, Tu que conheces a minha tendência constante de querer controlar tudo, de buscar seguranças lá onde só há areia. Vem curar o meu coração de comerciante. Perdoa-me por todas as vezes em que fujo do Teu amor porque ele me dá medo, porque é grande demais, gratuito demais, e porque prefiro a estreiteza dos meus próprios méritos.

Peço-Te que me ensines a leveza do Evangelho. Ajuda-me a largar as bagagens pesadas dos meus medos e dos meus julgamentos. Faz-me a graça de me lembrar sem cessar de que fui salvo gratuitamente. Que eu possa hoje, com a pobreza de um coração pacificado, oferecer um olhar de esperança, uma palavra de paz e um pouco da ternura imensa que o Pai tem por mim. Amém.

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Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

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