Sair do mutismo espiritual para entrar na colheita da graça
- 6 de jul.
- 5 min de leitura
(Terça-feira, XIV Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: Os 8, 4-7.11-13 ; Salmo 113b/115 ; Mt 9, 32-38
No domingo passado, o Senhor Jesus dirigia-nos um dos convites mais comoventes de todo o Evangelho: «Vinde a mi, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso.» Ele chamava-nos a depositar os nossos fardos, a colocar-nos à sua escola, a de um coração manso e humilde, para encontrar o verdadeiro alívio das nossas almas. Nesta terça-feira da décima quarta semana, a liturgia vem aprofundar essa promessa, mostrando-nos o que nos impede, concretamente, de saborear esse repouso divino. Os nossos fardos mais pesados nem sempre vêm do exterior; com efeito, nascem frequentemente da nossa incapacidade de escutar a Deus e da nossa tendência tenaz de fabricar ídolos para preencher o nosso vazio interior. Jesus vem hoje quebrar este círculo vicioso para nos introduzir na verdadeira liberdade dos filhos de Deus.
1. A armadilha dos ídolos e a tempestade das nossas vidas
O profeta Oseias, na primeira leitura, apresenta um diagnóstico de uma impressionante atualidade sobre o coração humano. Ele descreve um povo que se agita, que toma decisões políticas e espirituais sem consultar a Deus, e que utiliza as suas riquezas para fabricar ídolos para si. A sentença espiritual é imediata: «Eles semeiam ventos e colherão tempestades». Não é uma punição arbitrária que Deus envia do alto do céu, é o mecanismo mesmo do pecado, consequência das suas escolhas: quando colocamos a nossa confiança naquilo que sai das nossas próprias mãos, nas nossas performances, nos nossos diplomas ou nas nossas seguranças materiais, edificamos a nossa existência sobre o nada. O vento que semeamos é essa ilusão de autossuficiência, e a tempestade que dela resulta é a angústia profunda que nos submerge quando essas falsas seguranças desabam.
O salmista prolonga esta reflexão com uma ironia que nos deveria fazer pensar: os ídolos «têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem...» E acrescenta esta verdade antropológica maior: «Tornem-se como eles os que os fazem». São João da Cruz dizia que é próprio do amor semelhar o amante ao amado: acabamos sempre por nos parecer com aquilo que adoramos; se você adora o dinheiro ou o poder, o seu coração torna-se duro, frio e calculista. A idolatria corta-nos da relação viva, fixa-nos, torna-nos insensíveis e encerra-nos num mutismo profundo, onde nos tornamos incapazes de ouvir a voz do Amor e de falar a linguagem da gratuidade.
2. O mutismo quebrado e a recusa da novidade
É precisamente essa condição humana que Jesus encontra no Evangelho, onde Lhe apresentam um homem que está sob o domínio de um demônio que o torna surdo e mudo: o demônio colocou-o na incapacidade de se comunicar. No plano bíblico e teológico, existe uma ligação indissociável entre a escuta e a palavra, ou seja, para poder falar uma palavra verdadeira, é preciso primeiro ter escutado, porque sem a escuta, a palavra pode não corresponder à realidade. O adversário das nossas almas começa sempre por cortar a nossa escuta da Palavra de Deus, torna-nos surdos à Sua bondade, para nos impedir de ler, ver e compreender a realidade e a verdade; e uma vez que estamos surdos à promessa do Amor revelada no domingo passado, tornamo-nos incapazes de uma verdadeira comunicação, e então a nossa boca já não sabe senão queixar-se de tudo e contra todos, julgar ou encerrar-se num silêncio de morte.
No relato do Evangelho de hoje, assim que o demônio é expulso, o homem começa a falar e a multidão fica admirada. Mas os fariseus, encerrados nas suas certezas rígidas, recusam ver a novidade de Deus e afirmam: «É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios». Esta atitude dos fariseus revela o ápice do mutismo e da surdez espiritual, pois diante da Vida que irrompe e que liberta, eles preferem encerrar-se na suspeita e na teoria. Esse mesmo perigo dos fariseus nos espreita cada vez que preferimos os nossos sistemas de pensamento rígidos e os nossos hábitos confortáveis ao inesperado da graça… Eles recusam o repouso que Jesus oferece porque querem continuar senhores da sua própria salvação e, como bem ouvimos no domingo passado, a eles o Pai esconde os Seus segredos.
3. As entranhas de compaixão e o apelo da colheita
O texto do Evangelho continua: «Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas deles, proclamando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade.» Diante desta humanidade ferida, cansada e dividida, o olhar de Jesus muda tudo. Mateus nota com grande profundidade exegética: «Vendo as multidões, Jesus compadeceu-se delas». O termo grego utilizado aqui é σπλαγχνίζομαι (splagchnizomai), frequentemente traduzido por "movido de compaixão", mas que na verdade evoca uma reviravolta nas entranhas (pois as entranhas são consideradas o lugar do amor e da piedade na cultura bíblica); este termo indica também o amor materno mais visceral. Jesus não olha para as multidões com o desprezo os fariseus, nem com o oportunismo dos reis de Israel denunciados por Oseias. Jesus vê a nossa aflição profunda, as nossas vidas abatidas como ovelhas sem pastor, errando de ídolo em ídolo sem encontrar repouso.
Diante deste espetáculo, a reação de Jesus não é a de condenar, mas Ele volta-se para os discípulos para mudar a perspectiva deles. Com efeito, lá onde nós frequentemente só vemos um deserto espiritual, uma multidão hostil ou problemas insolúveis, Ele vê uma promessa: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos». O bem já está ali, escondido sob o sofrimento, pronto para ser colhido pelo amor. Um detalhe muito interessante deste relato é que, diante desta realidade, o primeiro ato que Jesus pede não é um ativismo frenético, mas um ato de fé e de abandono: «Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita». Rezar pela colheita é recusar dar-se por vencido pelo mal, é conformar o nosso coração à compaixão de Jesus para nos tornarmos, por nossa vez, servos capazes de aliviar e erguer os nossos irmãos; atitude possível unicamente se tivermos um coração como o de Jesus: capaz de uma verdadeira compaixão.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Para avançar hoje neste caminho de cura, tiremos um instante para fazer um balanço no segredo do nosso coração: quais são os ídolos sutis que tenho tendência a fabricar para me tranquilizar, correndo o risco de semear o vento da agitação? Haverá áreas da minha vida onde me tornei surdo à voz do Senhor e mudo diante das necessidades do meu próximo?
Jesus chama-nos hoje a deixar o cinismo dos fariseus para entrar na Sua própria compaixão. Olhemos para a nossa família, o nosso lugar de trabalho e o nosso mundo não com amargura, mas com os olhos de Cristo, que sabe ver a colheita lá onde os outros só veem espinhos. Deixemos que Ele abra os nossos ouvidos à Sua Palavra para que a nossa boca possa anunciar a Sua bondade ao longo de todo este dia.
Oração
Senhor Jesus, Tu que abres os ouvidos dos surdos e desatas a língua dos mudos, vem visitar hoje as minhas próprias paralisias interiores. Tu conheces os fardos sob os quais me canso e as falsas seguranças nas quais procuro, demasiadas vezes, um repouso ilusório. Purifica o meu coração de todos os seus ídolos mudos que me tornam insensível à Tua presença.
Abre a minha escuta à suavidade da Tua voz, a fim de que a minha palavra seja libertada para Te louvar e para dizer palavras de consolação ao meu redor. Dá-me, Senhor, o Teu olhar de compaixão sobre as multidões do nosso tempo. Não me permitas julgar ou desanimar, mas faz de mim um humilde e alegre trabalhador da Tua colheita, queimando no desejo de fazer conhecer o Teu amor. Amém.





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