A coragem da vulnerabilidade: vencer o medo sob o olhar do Pai
- 20 de jun.
- 6 min de leitura
(12o Domingo do Tempo Comum - Ano A)

Leituras da Missa: Jr 20, 10-13 ; Salmo 68/69 ; Rm 5, 12-15
O medo é, sem dúvida, a experiência humana mais universal e mais paralisante. Com efeito, o medo insinua-se nas nossas relações, dita as nossas escolhas e acaba frequentemente por encerrar a nossa existência num reduto de compromissos. Este 12º domingo do Tempo Comum situa-nos precisamente na encruzilhada dos nossos medos e da verdade da nossa fé. A liturgia da Palavra não procura anestesiar-nos com falsas promessas de conforto, mas, pelo contrário, expõe a nossa vulnerabilidade para nela introduzir uma certeza libertadora: nós não estamos abandonados.
Para compreender o apelo de Cristo a não temer os homens, é preciso escutar o clamor de Jeremias na primeira leitura, onde o profeta sofre a calúnia e a traição dos seus próprios amigos, tornando-se o alvo de zombarias. Na verdade, a sua vida está ameaçada porque ele carrega uma palavra que incomoda. E, no entanto, no coração mesmo desta aflição, opera-se uma reviravolta, porque Jeremias não se apoia nas suas próprias forças, mas na presença do Senhor, a quem descreve como um «guerreiro temível». É esta experiência da perseguição que ilumina a palavra de Jesus no Evangelho deste domingo. O Cristo retoma a realidade do combate espiritual e humano para lhe dar a sua dimensão definitiva: o medo humano só pode ser vencido pela revelação da nossa dignidade de filhos. São Paulo, na sua carta aos Romanos – segunda leitura –, vem confirmar esta vitória lembrando-nos que, se o pecado e a morte feriram a nossa condição humana, o dom gratuito da graça em Jesus Cristo superabundou de maneira infinitamente mais poderosa. Entremos, então, juntos nesta dinâmica de confiança.
1. O complô do medo e a tentação do silêncio
A primeira leitura mergulha-nos no clima psicológico da perseguição: o profeta Jeremias ouve os murmúrios da multidão e sofre a vigilância hipócrita dos seus parentes que espreitam a sua queda. Se refletirmos bem, trata-se de uma estratégia clássica do mundo: isolar aquele que procura viver na verdade para o empurrar ao compromisso ou ao silêncio. Esta experiência de Jeremias encontra o seu cumprimento na advertência que Jesus dirige aos seus discípulos no Evangelho de hoje: o Cristo, com efeito, sabe que o testemunho da verdade desperta inevitavelmente a oposição.
Devemos reconhecer que o medo dos homens é uma armadilha temível porque nos empurra a esconder o que somos. Ele sussurra-nos que vale mais fundir-se na massa, calar as nossas convicções profundas e mascarar a nossa fé para evitar o conflito, que não vale o sacrifício. Mas Jesus, no primeiro versículo do Evangelho de hoje, quebra esse círculo vicioso: «Não tenhais medo dos homens; nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nem oculto que não venha a ser conhecido». O Cristo, portanto, convida-nos a recusar a vida dupla: «o que ouvis ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados». O primeiro passo para a liberdade consiste em aceitar o risco de ser rejeitado para permanecer fiel à verdade do Evangelho, fiel a si mesmo.
2. A justa medida das ameaças: o corpo e a alma
Jesus, então, continua o seu discurso introduzindo uma distinção fundamental, mas que ao mesmo tempo vira ao avesso a nossa escala de valores: «Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma». Vivemos numa época que tende a absolutizar a sobrevivência física, o bem-estar material…, mas que esquece que o homem é habitado por uma dimensão eterna. Aqueles que atacam o corpo, seja pela violência física, pela exclusão social ou pela destruição da reputação, só têm, na realidade, um poder limitado. Eles não podem tocar no essencial: a nossa comunhão com Deus.
E aproveito a oportunidade para acrescentar um pequeno parêntese para uma opinião pessoal: é justamente por não termos mais esta certeza que temos, neste nosso século, homens e mulheres fracos, paralisados pelo medo e que, consequentemente, são alvos muito fáceis do autoritarismo e dos sistemas que nos acorrentam. Vivemos numa sociedade onde ninguém é capaz de reação: queixamo-nos, criticamos, mas ninguém é capaz de ação!
Os personagens que fizeram a história foram aqueles que não tinham medo de dar a sua vida porque estavam certos desta verdade evangélica: os que matam o corpo não podem matar a alma. E os primeiros a agir seguros desta verdade foram os apóstolos: a Igreja existe graças ao sangue derramado, a almas vivas para a eternidade.
Com efeito, este discurso de Jesus revela-nos que a verdadeira tragédia não é perder a vida corporal, mas perder a alma, isto é, deixar apagar em si a capacidade de amar e de receber o amor de Deus. E para o dizer com uma linguagem terra-a-terra, que até os ateus compreendem: quem ama faz história, é memorável; quem não ama é esquecido; é isso perecer na geena: não amar, não receber o amor de Deus. E atenção, porque temer a Deus não significa ter medo de um tirano cruel, mas sentir uma santa reverência diante do único que detém o sentido último da nossa existência. Viver o Evangelho é levar a nossa liberdade a sério, compreendendo que as nossas escolhas têm um alcance eterno: é apenas isso que nos permite verdadeiramente amar.
3. A teologia do pardal e o valor da nossa vida
Para nos arrancar à angústia da destruição, Jesus utiliza uma imagem de uma simplicidade e de uma ternura avassaladoras, Ele fala dos pardais, essas aves tão comuns e de tão pouco valor nos mercados da época. E, no entanto, «nem um só deles cairá em terra sem o consentimento do vosso Pai»: o Cristo faz-nos passar de um mundo que parece regido pelo acaso ou pela fatalidade cega para um universo sustentado pela Providência amorosa de Deus.
E a afirmação culmina nesta revelação personalizada: «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados». É uma maneira de dizer que nada do que compõe a nossa vida, nenhum detalhe, nenhuma ferida escondida, nenhuma lágrima derramada no segredo, escapa ao olhar do Pai. É por estas afirmações evangélicas que devemos convencer-nos de que o nosso valor não depende do nosso sucesso, da nossa utilidade social ou da aprovação dos homens, mas do fato de sermos amados pessoalmente por Deus. Esta certeza é o único remédio eficaz contra a ansiedade que corrói o nosso quotidiano.
4. A coragem do testemunho e o espelho da eternidade
O Evangelho conclui-se com uma palavra solene sobre a responsabilidade do nosso testemunho: «Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos céus». Há uma reciprocidade profunda entre a nossa liberdade histórica e o reconhecimento eterno: confessar o Cristo diante dos homens não é dar provas de arrogância ou de proselitismo agressivo, é assumir publicamente a nossa identidade de crentes através dos nossos atos, das nossas palavras e das nossas escolhas de vida.
E estejamos atentos porque o renegamento, à inversa, começa frequentemente por pequenas cobardias quotidianas, quando fingimos não conhecer o Cristo para agradar aos que nos rodeiam ou para preservar os nossos interesses, a nossa imagem diante do mundo. Jesus, neste discurso, lembra-nos que a nossa vida terrena é o lugar onde se joga o nosso destino eterno. Como nos ensina a tradição mística da Igreja, no entardecer desta vida, seremos julgados sobre o amor e sobre a fidelidade. Declarar-se por Jesus é aceitar perder a nossa vida segundo os critérios do mundo para a salvar na luz do Pai.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A Palavra de Deus convida-nos hoje a uma conversão do olhar. Ela propõe-nos passar do medo que paralisa para a confiança que põe em marcha. Para traduzir esta meditação no concreto da nossa existência, eis duas pistas de ação:
Identifiquemos o medo específico que influencia ou bloqueia atualmente uma das nossas decisões (medo do julgamento de um colega, medo do futuro, medo de não estar à altura). Olhemos essa situação de frente e repitamos calmamente esta palavra do Cristo a nós mesmos: Não tenhais medo, vós valeis mais do que uma multidão de pardais.
Façamos hoje um ato claro, mas ao mesmo tempo discreto, de fidelidade à nossa fé. Isso pode ser tirar o tempo para rezar antes de uma refeição, um sinal da cruz antes das nossas atividades, defender uma pessoa caluniada na nossa presença, ou exprimir com mansidão, mas de forma clara, uma convicção cristã numa conversa.
Oração
Senhor Jesus, Tu conheces os recônditos secretos da minha alma e sabes o quanto o medo dos homens e do "que dirão" pode acorrentar-me. Muitas vezes, busquei o refúgio do silêncio ou do compromisso para não desagradar, esquecendo a dignidade do meu batismo.
Cura o meu coração dessa ansiedade estéril; ensina-me a olhar-me com os olhos do Pai, a lembrar-me de que cada um dos meus cabelos está contado e que a minha vida tem um preço infinito aos Teus olhos. Que esta certeza do Teu amor se torne a minha força e o meu escudo diante das tempestades e das incompreensões do mundo.
Dá-me a graça da coragem; que eu não tenha medo de viver em plena luz o que Tu me sussurras no segredo da oração. Faz de mim uma testemunha audaz e humilde da Tua verdade, verdade revelada pelas Sagradas Escrituras, testemunhada e confirmada pela Tradição da Igreja, a fim de que, no último dia, eu possa ouvir a Tua voz reconhecer-me diante do Pai que está nos céus. Amém.





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