top of page

A audácia do pão e do perdão: do acendimento de Elias à confiança dos filhos

  • 17 de jun.
  • 5 min de leitura
O profeta Elias e o carro de fogo, anos 1570, Pintor de ícones russo anônimo
O profeta Elias e o carro de fogo, anos 1570, Pintor de ícones russo anônimo

(Quinta-feira, 11a Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: Eo 48, 1-14 ; Salmo 96/97 ; Mt 6, 7-15


A vida espiritual não é uma busca de performances ou uma tentativa de manipulação da vontade divina a nosso favor. No domingo anterior, o Evangelho convidava-nos à gratuidade radical da missão, lembrando-nos que recebemos de graça e que devemos dar de graça. É sobre este plano de fundo que devemos acolher a liturgia desta quinta-feira da 11ª semana do Tempo Comum: para que o nosso dom seja autêntico, ele deve correr de uma fonte pura, limpa de toda lógica de comércio com Deus. Os textos de hoje operam um contraste impressionante: de um lado, o fogo arrebatador de Elias que atravessa a história bíblica; do outro, a sobriedade desarmante do Pai Nosso. Jesus convida-nos a passar de uma religião do espetacular e do controle para uma fé de pura confiança filial.


1. O fogo de Elias e a transmissão de uma herança interior

O livro de Ben Sira, o Sábio, traça um retrato fulgurante do profeta Elias. Elias é o homem do fogo, da palavra que queima como uma tocha, dos milagres espetaculares que perturbam os reis e fecham o céu… Elias impressiona porque a sua ação é visível, cortante, indiscutível. No entanto, o texto bíblico insiste num detalhe capital: quando Elias é envolvido pelo turbilhão de fogo, a sua história não para, ela transpõe-se; de fato, Eliseu fica repleto do seu espírito. Portanto, o texto quer dizer-nos que o milagre mais duradouro de Elias não foi fazer descer o fogo do céu, mas ter deixado uma descendência espiritual capaz de caminhar sem vacilar diante dos príncipes.

É aqui que se estabelece a ponte com a nossa vida concreta: o zelo de Elias, as suas ações, encontram a sua fonte numa escuta absoluta da Palavra. Eliseu não herda uma receita mágica nem um poder pessoal, ele herda uma relação. Muitas vezes, gostaríamos que a nossa fé se parecesse com o fogo de Elias, que pudesse resolver os nossos problemas por golpes de efeito ou intervenções espetaculares, etc. Mas o texto mostra-nos que a verdadeira herança profética é uma disposição interior, uma fidelidade que atravessa a morte e continua a agir no silêncio da história.


2. A armadilha da repetição mecânica e a ilusão do controle

É precisamente nesse terreno da relação que Jesus nos espera no Evangelho de Mateus. Ao dizer-nos para não usarmos de repetições vazias como os pagãos, o Cristo acusa o nosso reflexo mais arcaico, que é a necessidade de controle. No plano da exegese bíblica, a palavra grega utilizada por Mateus é βατταλογήσητε, do verbo βατταλογέω (battalogeo), um termo difícil de traduzir que evoca a gagueira; conceitualmente, seria a acumulação de palavras vazias, desprovidas de sentido, vãs, uma ladainha mecânica. Com efeito, os pagãos pensam que Deus é uma potência distante, distraída ou caprichosa, que é preciso acordar, seduzir ou saturar de informações para obter o que se quer.

Jesus quebra esse ídolo de um só golpe: «o vosso Pai sabe de que tendes necessidade antes mesmo que lho peçais». E então, uma pergunta surge espontaneamente: se Deus já sabe tudo, então por que rezar? Mas a resposta é libertadora: a oração não serve para informar a Deus, serve para dilatar o nosso coração para que nos tornemos capazes de receber o que Ele nos quer dar. Repetir mecanicamente, portanto, é querer dobrar a vontade de Deus à nossa pela força da nossa insistência. A oração cristã, ao contrário, começa por um desarmamento; ela é o ato pelo qual aceito largar as minhas estratégias de persuasão para entrar na confiança em um Outro que sei que me ama e me conhece melhor do que eu me conheço a mim mesmo.


3. O Pai Nosso ou a geografia da filiação

Para nos arrancar dessa magia verbal, Jesus oferece-nos uma estrutura, palavras precisas que reorganizam a nossa arquitetura interior. O Pai Nosso começa por uma descentralização: o Pai é o sujeito, Ele é o centro! Depois, as três primeiras petições não falam de nós, mas d'Ele: o seu Nome, o seu Reino, a sua Vontade. É esse o segredo da paz cristã: antes de gritar as minhas necessidades, lembro-me de quem Ele é; lembro-me de que o Senhor do mundo é o meu Pai, e que o seu projeto para mim é um projeto de vida.

Em seguida, e só em seguida, o Evangelho faz-nos descer ao realismo mais bruto do nosso quotidiano: o pão e o perdão. O pão de cada dia é a antipânico por excelência, porque, de fato, o Cristo não nos pede para rezar pelas reservas dos próximos dez anos, mas por hoje: é o retorno espiritual ao maná do deserto. Pedir o pão quotidiano, dia após dia, é curar-se da angústia do amanhã e aceitar depender amorosamente de Deus. Quanto ao perdão, Jesus volta a ele com uma insistência quase incômoda no fim do texto, porque nos faz compreender que o perdão recebido e dado é o teste de verdade da nossa oração: não podemos respirar o amor de Deus de um lado e bloquear a sua circulação do outro. O perdão é o ponto onde a oração deixa o domínio das ideias para encarnar na carne das nossas relações humanas.


Conclusão e aplicação para o nosso dia

O Pai Nosso não é uma fórmula para recitar maquinalmente para apaziguar a nossa consciência, é um programa de vida que vira as nossas prioridades ao avesso e cura a nossa relação com o mundo. Para verificar a verdade da nossa oração hoje, tentemos viver pelo menos estas duas atitudes:

  • Paremos um instante antes de começar as nossas orações ou petições ansiosas, e tiremos o tempo para pronunciar a palavra «Pai» com lentidão, dando-nos conta da segurança absoluta que esta palavra contém, e deixemos que esta certeza desarme a nossa necessidade de planificar tudo.

  • Examinemos se temos uma dívida, um rancor ou uma amargura para com alguém neste momento. O Cristo mostra-nos que a nossa capacidade de receber a Sua paz é proporcional à nossa liberdade para desapegar dos erros dos outros. Portanto, escolhamos o perdão, mesmo discreto, como um ato de confiança filial.


Oração

Senhor Jesus, obrigado por me teres libertado do peso de ter de convencer a Deus. Obrigado por me revelares que não preciso de ser perfeito, barulhento ou espetacular como Elias para ser ouvido, mas que me basta ser um filho, uma filha, sob o olhar do seu Pai.

Livra-me desta tendência pagã de acumular palavras por medo do vazio ou por necessidade de controlar o futuro. Ensina-me o silêncio da confiança. Dá-me hoje o pão necessário para dar mais um passo, sem a angústia do amanhã, repousando na Tua providência.

Purifica o meu coração de toda amargura. Vem quebrar as minhas lógicas de contabilidade nas minhas relações e concede-me a força de perdoar como Tu me perdoas. Que a Tua vontade seja a minha paz, e que a minha vida corrente se torne, dia após dia, o lugar onde o Teu Nome é santificado. Amém.

Comentários


sobre

Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

#AtoDeFé

Arquivo de publicações

Assine a newsletter

Envie-me sua intenção de oração, seu testemunho, pedidos ou perguntas...

  • Facebook
  • Instagram

© 2026 Spiritus e Vita. Desenvolvido e protegido por Wix.

bottom of page