O espelho da alma: do julgamento que cega ao olhar que cura
- 21 de jun.
- 5 min de leitura
(Segunda-feira, 12a Semana do Tempo Comum)

A primeira leitura de hoje, do segundo livro dos Reis, coloca-nos diante de um desastre histórico do povo de Israel, ou seja, a queda de Samaria – o Norte – e a deportação do povo. A tradição Deuteronomista, responsável também pela redação dos livros dos Reis, é clara ao fazer-nos compreender que não se trata de um simples acidente político, mas é a história de um desmoronamento interior. O texto de hoje diz isso claramente: «Mas eles não obedeceram e endureceram a sua cerviz como tinham feito os seus pais, que não tinham confiado no Senhor seu Deus.». Eles preferiram olhar para outro lado, seguir os costumes dos outros, em vez de olhar para o próprio coração e permanecer fiéis à Aliança. E o salmo de hoje exprime bem o que deve ter sido a dor do povo de Israel nesse momento: «Deus, tu nos rejeitaste, quebrantaste; estavas irado, volta-te para nós! Sacudiste, deslocaste o país; repara as suas fendas: ele desmorona-se.». É a consequência dos seus atos, o diagnóstico de uma ruptura de relação com Deus.
E é precisamente aqui que Jesus nos espera no Evangelho de hoje. É preciso saber bem que o Cristo não nos fala de uma moral exterior, ele nos fala da estrutura mesma da nossa vida espiritual. Fazendo eco à nossa meditação dominical, onde vimos como o medo do mundo se apaga diante do olhar amoroso do Pai, Jesus desmonta hoje o mecanismo pelo qual fugimos desse olhar: o julgamento do outro. O julgamento é a estratégia que utilizamos para não ver as nossas próprias fendas, a nossa própria ruína interior. Entremos nessa lógica para deixar o Senhor reparar o que está deslocado.
1. A ilusão do tribunal interior
Jesus começa com uma palavra que ecoa como um absoluto: «Não julgueis, para não serdes julgados». Para compreender a profundidade desta frase, é preciso ver que o julgamento é uma tentativa de tomar o lugar de Deus: quando julgo, instalo-me num trono que não me pertence; na verdade, quando julgo, olho para o meu irmão não como uma pessoa a amar, mas como um processo a resolver. Lembremo-nos bem do relato do pecado original, onde o homem passa a decidir por si mesmo o que é bom e o que é mau. É o drama de Israel na primeira leitura: à força de olhar para os ídolos das nações e julgar a Lei de Deus como insuficiente, perderam a sua própria identidade.
O Cristo adverte-nos: «a medida com que medirdes, com ela vos medirão». Não se trata de uma ameaça de vingança divina, mas de uma lei espiritual de reciprocidade diante da incapacidade humana de julgar o que é bem e o que é mal. O coração que se fecha à misericórdia para com os outros torna-se incapaz de receber a misericórdia para si mesmo, mas não porque Deus se feche a ele, não! Mas porque a misericórdia se torna para ele algo completamente estranho, desconhecido, dir-se-ia quase incompatível! Se passamos a vida a condenar, construímos uma prisão de dureza da qual seremos os primeiros prisioneiros. O ato de recusar julgar não é ingenuidade, é o começo da liberdade cristã, onde reencontramos enfim o nosso verdadeiro lugar.
2. O cisco e a trave, uma anatomia da fuga
A imagem do cisco e da trave utilizada por Jesus é quase humorística, mas o seu significado é trágico. Com efeito, poder-se-ia bem perguntar: como é possível sermos tão rápidos a notar um fio de cisco no outro e totalmente cegos à trave que bloqueia a nossa própria visão? A resposta é simples: examinar o pecado do outro é uma magnífica distração para não chorar sobre o nosso. É a grande armadilha da vida espiritual: ocupamo-nos da santidade do vizinho para não termos de começar o trabalho em nós mesmos; mas o que é preciso saber é que preocupar-se com o pecado do outro — em vez de ser compassivo, misericordioso — denuncia que há ainda muito a fazer em nós mesmos antes de cuidarmos do outro.
A palavra, então, que Jesus utiliza é forte: Hipócrita! No teatro antigo, o hipócrita é aquele que usa uma máscara. A hipocrisia espiritual consiste em usar a máscara do justo para esconder um coração ferido e orgulhoso. São João da Cruz lembrava-nos frequentemente que as almas que começam a progredir caem às vezes numa espécie de ira espiritual, tornando-se impacientes diante das imperfeições dos outros, em vez de se olharem a si mesmas com humildade. A trave é esse orgulho que nos impede de ver que também nós temos uma necessidade infinita de ser salvos.
3. A purificação do olhar para uma verdadeira fraternidade
A conclusão de Jesus não é uma proibição de ajudar o nosso irmão, de fato Ele não diz para deixar o cisco no olho do irmão para todo o sempre, mas diz: «Tira primeiro a trave do teu olho; e então verás claramente para tirar o cisco». A prioridade é cronológica e existencial. A correção fraterna é um ato de amor, necessário para uma verdadeira vida comunitária, mas exige um olhar purificado. Se quero ajudar alguém a curar-se, não posso aproximar-me com a dureza de um juiz, mas com a compaixão de um doente em convalescença.
Só aquele que fez a experiência de ser perdoado e curado por Deus pode aproximar-se da fraqueza do seu irmão com a delicadeza necessária. O objetivo da vida cristã não é ignorar o mal, mas olhá-lo com os olhos do Cristo, olhos cheios de lágrimas e de ternura, não de condenação. Ao retirarmos a nossa trave pelo sacramento do perdão e pela humildade, redescobrimos que o outro não é um inimigo a avaliar, mas um membro do mesmo corpo a sustentar.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A Palavra de Deus hoje chama-nos a passar da crítica que divide para a humildade que reconstrói. Para viver isso concretamente hoje, observemos os nossos pensamentos e as nossas palavras. Assim que sentirmos brotar em nós uma crítica ou um julgamento sobre um colega, um membro da nossa família ou um acontecimento, paremos imediatamente. Substituamos esse julgamento por uma oração secreta por essa pessoa e perguntemos ao Senhor: O que é que esta situação revela sobre as faltas do meu próprio coração? E, além disso, façamos um ato de verdade indo pedir perdão ou tendo um gesto de benevolência para com alguém que tenhamos mental ou verbalmente condenado nos últimos tempos.
Oração
Senhor Jesus, Tu que sondas os rins e os corações, Tu vês como me é fácil ver os defeitos dos outros e como sou cego para as minhas próprias misérias. Perdão por todas as vezes em que me sentei na cadeira de juiz, esquecendo que sou o primeiro a depender inteiramente da Tua misericórdia.
Retira, peço-Te, a trave de orgulho, de autossuficiência e de amargura que obstrui o meu olhar. Ensina-me a santa humildade que sabe reconhecer as suas próprias fendas antes de querer reparar as alheias. Cura a minha visão para que eu possa olhar para os meus irmãos e irmãs como Tu os olhas: com paciência, ternura e um desejo imenso de os ver crescer.
Não permitas que eu endureça a minha cerviz como o povo de Israel, mas torna o meu coração maleável e aberto às Tuas advertências. Que a minha única medida para com os outros seja a do Teu amor gratuito, a fim de que eu possa, também eu, permanecer para sempre sob o olhar do Teu perdão. Amém.





Comentários