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  • A audácia da gratuidade: da ternura do Pai à leveza do apóstolo

    (Quinta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt van Rijn 1668. O detalhe das mãos do Pai, uma masculina, a outra com traços mais maternos, colocadas sobre os ombros do filho ajoelhado. Leituras da Missa: Os 11, 1-4.8c-9 ; Salmo 79/80 ; Mt 10, 7-15 No domingo passado, fomos alcançados por esta palavra libertadora de Cristo que nos convidava a encontrar o nosso repouso n'Ele, a depor enfim o jugo tão pesado das nossas performances e das nossas angústias. Hoje descobrimos a verdadeira fonte deste repouso da alma: a ternura incompreensível, e poder-se-ia dizer quase irracional, de Deus. O grande drama da existência humana é acreditar obstinadamente que devemos comprar o amor; de fato, esgotamo-nos a provar, dia após dia, que somos dignos de ser amados: pelos nossos entes próximos, pela sociedade, por nós mesmos e, tragicamente, por Deus também; raramente a nossa religiosidade é gratuita… No entanto, a liturgia desta quinta-feira vem despedaçar essa lógica mercantil com uma grande doçura. O profeta Oseias, na primeira leitura, dá-nos a contemplar o coração vulnerável de Deus, um Deus que sofre por amar, que se comporta como um pai ou uma mãe perdidos de ternura diante do seu filho rebelde. E é justamente esta experiência visceral do amor divino – a compaixão de Jesus – que torna possível a exigência radical que Jesus impõe aos seus apóstolos no Evangelho: partir caminhos afora sem nenhuma bagagem. A missão nunca começa por uma injunção moral, uma ordem, um mandamento, não! A missão brota como a consequência natural do maravilhamento de ter sido amado por nada. Dito de outro modo, o missionário é aquele que se sente impelido a clamar ao mundo inteiro: «eu sou amado por um amor incondicional, e vós que me escutais, sabei bem que também o sois.» 1. A memória de ter sido loucamente amado Na primeira leitura, Oseias desenvolve uma das linguagens mais comoventes de toda a história bíblica. Aqui se descobre que Deus não se mantém à distância atrás do balcão de um tribunal, mas Ele é aquele que se inclina, que sustenta, que nutre. «Fui eu que o ensinei a andar... eu o tratava como um lactente que se eleva bem contra a sua face». Mas eis a grande tragédia humana: quanto mais o filho recebe, mais ele se afasta para ir sacrificar aos Baais. Os ídolos nos tranquilizam porque são manipuláveis – criados por mãos humanas –, enquanto o amor vivo de Deus implica o risco de uma verdadeira relação: preferimos frequentemente o controle espiritual ao abandono amoroso. Se aplicássemos a nossa lógica humana a esta constatação descrita pelo profeta Oseias, tal traição – que é a nossa – mereceria a condenação; julgar-se-ia mesmo como um ato imperdoável. Mas a reação divina é uma inversão absoluta: «O meu coração revira-se contra mim; ao mesmo tempo, as minhas entranhas estremecem.» E eis o espanto da ação divina: Deus escolhe ser Deus, e não homem. A Sua justiça não é a nossa, é a sua Misericórdia infinita – um conceito que o nosso raciocínio nunca poderá captar, mas que podemos aceitar. A verdadeira conversão nunca nasce do terror de um castigo, ela produz-se quando a nossa carapaça se fissura sob o peso da memória deste amor gratuito e incondicional. Não temos de nos tornar perfeitos para ser amados; é porque somos incondicionalmente amados que poderemos, um dia, tornar-nos melhores. Sem esta certeza gravada no fundo da alma, a vida cristã não passa de um moralismo esgotante e lamentável! 2. O escândalo da gratuidade: só se dá o que se recebeu É unicamente à luz desta ternura paterna que se deve ler o Evangelho de Mateus. Jesus confia aos Doze um poder imenso: curar, purificar, expulsar. Depois, Ele acrescenta o axioma fundamental de toda a vida espiritual: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» O Cristo não envia profissionais da religião ou filósofos arrogantes, mas Ele envia sobreviventes de milagres. De fato, contemplamos aqui que, desde o começo, Jesus envia homens que estavam paralisados pelo medo, leprosos pelo pecado, mortos nos seus desesperos, e que foram erguidos gratuitamente pela graça. Se vives a tua relação com Deus como um contrato comercial — eu Te dou as minhas orações, Tu me dás a Tua proteção —, transmitirás aos outros uma fé rígida, julgadora e angustiante. Mas se fizeste a experiência da face de Deus colada à tua – como está descrita a relação de Deus para com o seu povo na primeira leitura –, então a tua simples presença tornar-se-á uma boa nova. O Reino dos Céus não se comunica por argumentações técnicas, mas pelo transbordamento inevitável de um coração que foi impactado pela gratuidade divina: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» Na verdade, não somos senão mendigos que indicam a outros mendigos onde se encontra o Pão da vida. 3. A pobreza evangélica, um espaço para a Providence A sequência das instruções de Jesus parece quase uma loucura, porque Ele diz aos apóstolos para não levarem nada, nem ouro, nem prata, nem sacola para o caminho, nem túnica de reserva. Por que exigir tal despojamento? Porque as nossas malas, sejam elas materiais, intelectuais ou afetivas, criam a ilusão tenaz de que somos os senhores da nossa existência. Temos essa tendência de acumular seguranças justamente para não termos de depender de Deus, porque, na verdade, ainda não temos certeza d'Ele. Santa Teresa de Ávila lembrava com força que quem tem Deus não carece de nada. As bagagens tornam o nosso passo pesado e nos deixam surdos à dependência alegre para com o Pai. O Cristo despoja-nos não para nos empobrecer, mas para que as nossas mãos estejam finalmente livres, livres para receber e livres para dar. A pobreza pedida aqui é o espaço vazio que deixamos deliberadamente em nós para que a Providência possa entrar e se manifestar, frequentemente através do rosto e da hospitalidade daqueles que encontramos. «Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi a poeira dos vossos pés.» Este gesto não é uma maldição orgulhosa, é a proteção da nossa própria liberdade e o respeito absoluto pela liberdade do outro, porque, com efeito, a verdade sempre se propõe, nunca se impõe. Deixar a poeira é recusar guardar a amargura do fracasso para continuar a avançar, leve, em direção a quem espera a Boa Nova. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia convoca-nos diante de um espelho exigente. Verifiquemos as nossas próprias bagagens: de que estamos inutilmente carregados hoje? Estaremos sobrecarregados por velhos rancores, pela necessidade obsessiva de tudo prever, pelo medo visceral de que algo nos falte, pela vontade de provar que temos razão? A aplicação concreta para este dia é fazer conscientemente um ato de pura gratuidade, em memória da gratuidade de Deus para conosco. Escutemos um colega sem olhar para o relógio; prestemos um serviço silencioso sem esperar o menor obrigado; cedamos a passagem; deixemos de lado a vontade de ter a última palavra… Façamos a experiência concreta da leveza, deixemos que a paz que carregamos em nós se deposite suavemente nos lugares onde vivemos. Oração Senhor Jesus, Tu que conheces a minha tendência constante de querer controlar tudo, de buscar seguranças lá onde só há areia. Vem curar o meu coração de comerciante. Perdoa-me por todas as vezes em que fujo do Teu amor porque ele me dá medo, porque é grande demais, gratuito demais, e porque prefiro a estreiteza dos meus próprios méritos. Peço-Te que me ensines a leveza do Evangelho. Ajuda-me a largar as bagagens pesadas dos meus medos e dos meus julgamentos. Faz-me a graça de me lembrar sem cessar de que fui salvo gratuitamente. Que eu possa hoje, com a pobreza de um coração pacificado, oferecer um olhar de esperança, uma palavra de paz e um pouco da ternura imensa que o Pai tem por mim. Amém.

  • Do coração partido à chamada que unifica a vida

    (Quarta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Vocação dos primeiros Apóstolos por Domenico Ghirlandaio, 1481 Leituras da Missa: Os 10, 1-3.7-8.12 ; Salmo 104/105 ; Mt 10, 1-7 No domingo passado, o Cristo quebrava as nossas solidões por meio de um convite gravado no mais profundo da nossa memória espiritual: «Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso» ; fomos feitos para Deus, o nosso descanso só se encontra n'Ele só. Este descanso não é uma simples ausência de cansaço, é a redescoberta de uma Presença, o lugar onde a nossa existência cessa de ser um combate permanente para se tornar um acolhimento. Hoje, nesta quarta-feira da décima quarta semana, a Palavra de Deus vem iluminar aquilo que, em nós, faz obstáculo a esse descanso divino. Por que as nossas vidas continuam tão frequentemente cansadas, agitadas e ressecadas, semelhantes ao deserto? Os dois textos de hoje, o do profeta Oseias e o Evangelho de Mateus, unem-se para nos mostrar que a raiz do nosso esgotamento reside na dispersão do nosso coração. Diante das nossas tentativas de fabricar os nossos próprios pequenos refúgios, Jesus toma um ato radical: Ele chama, Ele nomeia e Ele reúne. 1. A videira luxuriante e a tragédia do coração partido O profeta Oseias utiliza uma imagem magnífica e terrível, ele diz «Israel era uma videira luxuriante» que, em vez de dar graças pela sua abundância, utiliza os seus próprios frutos para multiplicar os altares aos falsos deuses. É exatamente isso que fazemos com a nossa liberdade quando ela se esquece da sua fonte. Frequentemente nos acontece que o Senhor nos abençoa, Ele torna a nossa vida mais bela, mas, como fazia o povo de Israel – «quanto mais rica era a sua terra, mais ele embelezava as estelas dos falsos deuses» –, isto é, esse reflexo ou tendência de colocar a nossa segurança, privilegiar e apegar-nos aos dons e não ao Doador. Oseias então pronuncia a frase central da sua mensagem: «O seu coração está dividido; agora eles vão pagar». A palavra hebraica aqui utilizada para «dividido» é חָלַ֥ק (khaw-lak’), que evoca uma divisão interna, um coração escorregadio, que já não sabe apoiar-se na rocha, ser liso, falso. Obviamente que um coração dividido é um coração que se esgota, o exato oposto do repouso prometido no domingo passado. Quando vivemos divididos entre o desejo de Deus e a necessidade de tudo controlar pelas nossas próprias forças, criamos o nosso próprio exílio, isto é, provocamos a nossa destruição interna e nos encontramos como numa terra estrangeira, longe da nossa própria identidade e de Deus. Eis por que Oseias diz: «o Senhor derrubará os seus altares; as estelas, ele as destruirá» ; os ídolos que construímos acabarão por desabar como espuma à superfície da água. Mesmo que se trate de um ato forte, violento de Deus para conosco, é preciso saber que Ele não destrói as nossas obras por ciúme, mas Ele quebra as nossas falsas seguranças para nos evitar perecer com elas e nos encontrarmos na condição de exilados. Eis por que Ele clama pelo profeta: «Semeai justiça, colhei bondade, lavrai as vossas terras incultas. É tempo de buscar o Senhor, até que ele venha e derrame sobre vós a chuva da justiça.» 2. Jesus chama e nomeia a nossa realidade Diante desta humanidade com o coração dividido, desta colheita abundante mas onde os trabalhadores são poucos (cf. final do Evangelho de ontem), o texto do Evangelho abre-se com um gesto forte da parte de Jesus, de uma força inaudita: «Jesus chamou os seus doze discípulos…» Lá onde o pecado dispersa, o Cristo reúne. Interessante que Ele não começa por lhes dar uma doutrina ou uma lista de regras, mas Ele cria uma relação para depois os enviar. O que é fascinante nesta narrativa é a enumeração meticulosa dos nomes dos doze Apóstolos, o que nos revela que, de fato, Deus nos conhece na nossa singularidade mais íntima, e esta lista é a prova concreta disso. Olhemos mais de perto para esta lista: ela associa opostos que, humanamente, deveriam ter se matado. Encontra-se ali, por exemplo, Mateus, «o publicano», que colaborava com o ocupante romano, e Simão, «o Zelote», que pertencia a um movimento de resistência armada contra Roma. Há Pedro, o generoso mas frágil, e Judas Iscariotes, aquele mesmo que o entregou. Isso nos revela que o Senhor não escolhe homens perfeitos ou uniformes, Ele escolhe histórias concretas, feridas, contradições vivas. Ao inscrever o nome de Judas desde o início da missão, o Evangelho mostra-nos que Jesus não exclui ninguém da sua intimidade, mesmo sabendo até onde a nossa liberdade pode escorregar. Portanto, ser chamado pelo nosso nome é aceitar que o Cristo entre na nossa própria realidade, com as nossas sombras e as nossas luzes, para nela trazer a unidade. E nunca nos esqueçamos de que a esses homens Ele «deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar toda a espécie de doenças e enfermidades». 3. A missão começa pelas ovelhas perdidas As instruções de Jesus aos seus Apóstolos podem surpreender-nos: «Não tomeis o caminho que leva às nações pagãs... Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.» Esta escolha não é uma recusa dos outros povos, mas é uma prioridade teológica e pastoral de grande profundidade. As ovelhas perdidas de Israel são precisamente aquelas que deveriam conhecer a Aliança mas se extraviaram, aquelas cujo coração se tornou semelhante à videira de Oseias: estéril de tanto buscar falsos pastores. Na nossa vida espiritual, esta instrução ecoa de maneira muito pessoal. Antes de querermos evangelizar o mundo inteiro ou resolver os problemas dos outros, devemos deixar o Cristo evangelizar as nossas próprias zonas que se tornaram pagãs. As ovelhas perdidas estão dentro de nós: são os nossos desânimos, as nossas dúvidas, as nossas iras contidas, os nossos momentos em que funcionamos como se Deus não existisse. O Reino dos Céus está muito próximo, não como uma conquista exterior, mas como uma presença que vem habitar as nossas pobrezas. A missão cristã não consiste em trazer uma verdade do alto de um púpito, mas em testemunhar, como um mendigo que encontrou pão, que a ternura do Pai está acessível aqui e agora. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra de Deus hoje convida-nos a uma clarificação interior. Tiremos um instante para olhar para a nossa vida com lucidez e benevolência: onde se situam as minhas divisões neste momento? Em que certezas humanas busquei uma segurança ilusória que me afasta do verdadeiro repouso da alma? A aplicação concreta para o nosso dia é descer novamente ao nosso coração para escutar o Cristo pronunciar o nosso nome. Não fujamos das nossas fragilidades ou das nossas contradições e não as escondamos do Senhor. Como os Doze, deixemos o Senhor associar as nossas pobrezas ao seu poder de cura. Hoje, diante duma situação difícil ou duma relação tensa, não semeemos o vento da crítica ou da inquietação. Proclamemos antes, pela nossa paciência, pela nossa escuta e pelo nosso sorriso, que o Reino está próximo, transformando assim o nosso pequeno pedaço de mundo numa terra pronta para a colheita. Oração Senhor Jesus, Tu conheces os recônditos do meu coração e os momentos em que a minha vida se dispersa longe de Ti. Vem curar o meu coração dividido que busca tantas falsas seguranças em vez de, antes de tudo, se abandonar à Tua graça. Obrigado porque não me chamas porque sou digno, mas porque me amas gratuitamente. Tu conheces o meu nome, os meus limites e as minhas dúvidas e, no entanto, confias em mim. Confio-Te hoje as ovelhas perdidas da minha alma, os meus medos e as minhas feridas. Toma-os entre as Teu mãos, derrama sobre eles a Tua chuva de justiça e de cura. Faz de mim um instrumento da Tua paz, capaz de testemunhar ao meu redor, pelos meus atos mais do que pelas minhas palavras, que o Teu Reino está muito próximo e que o Teu amor é o único necessário. Amém.

  • Sair do mutismo espiritual para entrar na colheita da graça

    (Terça-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Jesus curando um surdo-mudo, sobre fundo composto de ruínas romanas antigas, Bartholomeus Breenbergh 1625 / 1650 Leituras da Missa: Os 8, 4-7.11-13 ; Salmo 113b/115 ; Mt 9, 32-38 No domingo passado, o Senhor Jesus dirigia-nos um dos convites mais comoventes de todo o Evangelho: «Vinde a mi, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso.» Ele chamava-nos a depositar os nossos fardos, a colocar-nos à sua escola, a de um coração manso e humilde, para encontrar o verdadeiro alívio das nossas almas. Nesta terça-feira da décima quarta semana, a liturgia vem aprofundar essa promessa, mostrando-nos o que nos impede, concretamente, de saborear esse repouso divino. Os nossos fardos mais pesados nem sempre vêm do exterior; com efeito, nascem frequentemente da nossa incapacidade de escutar a Deus e da nossa tendência tenaz de fabricar ídolos para preencher o nosso vazio interior. Jesus vem hoje quebrar este círculo vicioso para nos introduzir na verdadeira liberdade dos filhos de Deus. 1. A armadilha dos ídolos e a tempestade das nossas vidas O profeta Oseias, na primeira leitura, apresenta um diagnóstico de uma impressionante atualidade sobre o coração humano. Ele descreve um povo que se agita, que toma decisões políticas e espirituais sem consultar a Deus, e que utiliza as suas riquezas para fabricar ídolos para si. A sentença espiritual é imediata: «Eles semeiam ventos e colherão tempestades». Não é uma punição arbitrária que Deus envia do alto do céu, é o mecanismo mesmo do pecado, consequência das suas escolhas: quando colocamos a nossa confiança naquilo que sai das nossas próprias mãos, nas nossas performances, nos nossos diplomas ou nas nossas seguranças materiais, edificamos a nossa existência sobre o nada. O vento que semeamos é essa ilusão de autossuficiência, e a tempestade que dela resulta é a angústia profunda que nos submerge quando essas falsas seguranças desabam. O salmista prolonga esta reflexão com uma ironia que nos deveria fazer pensar: os ídolos «têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem...» E acrescenta esta verdade antropológica maior: «Tornem-se como eles os que os fazem». São João da Cruz dizia que é próprio do amor semelhar o amante ao amado: acabamos sempre por nos parecer com aquilo que adoramos; se você adora o dinheiro ou o poder, o seu coração torna-se duro, frio e calculista. A idolatria corta-nos da relação viva, fixa-nos, torna-nos insensíveis e encerra-nos num mutismo profundo, onde nos tornamos incapazes de ouvir a voz do Amor e de falar a linguagem da gratuidade. 2. O mutismo quebrado e a recusa da novidade É precisamente essa condição humana que Jesus encontra no Evangelho, onde Lhe apresentam um homem que está sob o domínio de um demônio que o torna surdo e mudo: o demônio colocou-o na incapacidade de se comunicar. No plano bíblico e teológico, existe uma ligação indissociável entre a escuta e a palavra, ou seja, para poder falar uma palavra verdadeira, é preciso primeiro ter escutado, porque sem a escuta, a palavra pode não corresponder à realidade. O adversário das nossas almas começa sempre por cortar a nossa escuta da Palavra de Deus, torna-nos surdos à Sua bondade, para nos impedir de ler, ver e compreender a realidade e a verdade; e uma vez que estamos surdos à promessa do Amor revelada no domingo passado, tornamo-nos incapazes de uma verdadeira comunicação, e então a nossa boca já não sabe senão queixar-se de tudo e contra todos, julgar ou encerrar-se num silêncio de morte. No relato do Evangelho de hoje, assim que o demônio é expulso, o homem começa a falar e a multidão fica admirada. Mas os fariseus, encerrados nas suas certezas rígidas, recusam ver a novidade de Deus e afirmam: «É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios». Esta atitude dos fariseus revela o ápice do mutismo e da surdez espiritual, pois diante da Vida que irrompe e que liberta, eles preferem encerrar-se na suspeita e na teoria. Esse mesmo perigo dos fariseus nos espreita cada vez que preferimos os nossos sistemas de pensamento rígidos e os nossos hábitos confortáveis ao inesperado da graça… Eles recusam o repouso que Jesus oferece porque querem continuar senhores da sua própria salvação e, como bem ouvimos no domingo passado, a eles o Pai esconde os Seus segredos. 3. As entranhas de compaixão e o apelo da colheita O texto do Evangelho continua: «Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas deles, proclamando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade.» Diante desta humanidade ferida, cansada e dividida, o olhar de Jesus muda tudo. Mateus nota com grande profundidade exegética: «Vendo as multidões, Jesus compadeceu-se delas». O termo grego utilizado aqui é σπλαγχνίζομαι (splagchnizomai), frequentemente traduzido por "movido de compaixão", mas que na verdade evoca uma reviravolta nas entranhas (pois as entranhas são consideradas o lugar do amor e da piedade na cultura bíblica); este termo indica também o amor materno mais visceral. Jesus não olha para as multidões com o desprezo os fariseus, nem com o oportunismo dos reis de Israel denunciados por Oseias. Jesus vê a nossa aflição profunda, as nossas vidas abatidas como ovelhas sem pastor, errando de ídolo em ídolo sem encontrar repouso. Diante deste espetáculo, a reação de Jesus não é a de condenar, mas Ele volta-se para os discípulos para mudar a perspectiva deles. Com efeito, lá onde nós frequentemente só vemos um deserto espiritual, uma multidão hostil ou problemas insolúveis, Ele vê uma promessa: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos». O bem já está ali, escondido sob o sofrimento, pronto para ser colhido pelo amor. Um detalhe muito interessante deste relato é que, diante desta realidade, o primeiro ato que Jesus pede não é um ativismo frenético, mas um ato de fé e de abandono: «Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita». Rezar pela colheita é recusar dar-se por vencido pelo mal, é conformar o nosso coração à compaixão de Jesus para nos tornarmos, por nossa vez, servos capazes de aliviar e erguer os nossos irmãos; atitude possível unicamente se tivermos um coração como o de Jesus: capaz de uma verdadeira compaixão. Conclusão e aplicação para o nosso dia Para avançar hoje neste caminho de cura, tiremos um instante para fazer um balanço no segredo do nosso coração: quais são os ídolos sutis que tenho tendência a fabricar para me tranquilizar, correndo o risco de semear o vento da agitação? Haverá áreas da minha vida onde me tornei surdo à voz do Senhor e mudo diante das necessidades do meu próximo? Jesus chama-nos hoje a deixar o cinismo dos fariseus para entrar na Sua própria compaixão. Olhemos para a nossa família, o nosso lugar de trabalho e o nosso mundo não com amargura, mas com os olhos de Cristo, que sabe ver a colheita lá onde os outros só veem espinhos. Deixemos que Ele abra os nossos ouvidos à Sua Palavra para que a nossa boca possa anunciar a Sua bondade ao longo de todo este dia. Oração Senhor Jesus, Tu que abres os ouvidos dos surdos e desatas a língua dos mudos, vem visitar hoje as minhas próprias paralisias interiores. Tu conheces os fardos sob os quais me canso e as falsas seguranças nas quais procuro, demasiadas vezes, um repouso ilusório. Purifica o meu coração de todos os seus ídolos mudos que me tornam insensível à Tua presença. Abre a minha escuta à suavidade da Tua voz, a fim de que a minha palavra seja libertada para Te louvar e para dizer palavras de consolação ao meu redor. Dá-me, Senhor, o Teu olhar de compaixão sobre as multidões do nosso tempo. Não me permitas julgar ou desanimar, mas faz de mim um humilde e alegre trabalhador da Tua colheita, queimando no desejo de fazer conhecer o Teu amor. Amém.

  • Do medo à intimidade: o toque que devolve a vida

    (Segunda-feira, 14a Semana do Tempo Comum) A Ressurreição da filha de Jaira, 1871, por Ilya Efimovich Repin Leituras da Missa: Os 2, 16.17b-18.21-22 ; Salmo 144/145 ; Mt 9, 18-26 Todos nós carregamos em nós o eco da liturgia deste domingo que acaba de passar; este convite de Cristo para encontrar o repouso, para tomar sobre nós este jugo tão suave e tão leve do Seu amor, ressoa ainda nos nossos corações. E eis que os textos desta segunda-feira vêm explicar-nos concretamente como entrar neste repouso interior. De fato, os textos falam-nos de uma passagem indispensável para a nossa saúde espiritual: passar de uma religião do temor para uma relação de intimidade, deixar a agitação da multidão pelo silêncio que cura. 1. O deserto, lugar dos noivados divinos O profeta Oseias, na primeira leitura, oferece-nos hoje uma das páginas mais comoventes do Antigo Testamento: Deus olha para o seu povo (a sua esposa) infiel. Numa lógica puramente humana, desta terra, Ele deveria puni-lo, abandoná-lo, rejeitá-lo. Mas o que faz o Senhor? Ele decide seduzi-lo, levando-o de volta ao deserto. Este detalhe é capital, porque o deserto não é aqui o lugar da aridez ou da morte, mas é o lugar onde não há mais distrações, não há mais ídolos tranquilizadores, não há mais ilusões de potência. É o lugar de um face a face autêntico. Mas o deserto é também o lugar onde o povo conheceu o Senhor após a libertação do Egito: Deus quer lembrar-lhe o primeiro amor, o amor do início, a condição do povo quando Deus o desposou e o amor incondicional que Deus lhe revelou. E ali, no coração dessa nudez, Deus faz uma declaração surpreendente: «Tu me chamarás: Meu esposo, e não mais: Meu mestre» (em hebraico, o termo utilizado para mestre é Baal, que era o deus da fertilidade, e que aqui designa o proprietário). Eis o coração do problema da nossa vida espiritual! Muito frequentemente, tratamos Deus como um outro deus e, portanto, como um mestre exigente, um patrão com quem teríamos um contrato de boa conduta, enquanto Ele se apresenta a nós como um esposo louco de amor. O Esposo não busca escravos eficientes ou empregados irrepreensíveis, mas Ele mendiga corações abertos. Aceitar que Deus seja o nosso esposo é precisamente aceitar carregar esse famoso "jugo leve" do Evangelho de ontem: o jugo de uma relação baseada na misericórdia e não na contabilidade dos nossos méritos. 2. A hemorragia da alma e a coragem da fragilidade É exatamente esta dinâmica de um Esposo que cuida e que salva que vemos em ação no Evangelho de Mateus. O Evangelho fala-nos de uma mulher que se aproxima de Jesus, e ela sofre de hemorragias há doze anos. Podemos imaginar, por um instante, qual deveria ser o seu estado físico e psicológico. O sangue, na mentalidade bíblica, é a vida, e esta mulher perde literalmente a vida aos poucos, gota após gota. E justamente porque o sangue é a vida – portanto sagrado –, a lei religiosa da sua época tornava-a ritualmente impura; ela não podia, por isso, tocar em ninguém sob pena de transmitir a sua impureza. Esta mulher, portanto, é a imagem perfeita das nossas próprias fugas de energia vital: as nossas angústias constantes, os nossos pecados repetidos, os nossos compromissos e esse sentimento permanente de nunca estar à altura. Mas reparem bem na sua atitude: ela não para diante de Jesus para lhe fazer um grande discurso justificativo; mas ela desliza por trás, no anonimato de uma multidão que a pressiona, e toca na franja do seu manto. É um ato de uma audácia inaudita; a verdadeira fé não é uma fortaleza de certezas intelectuais inabaláveis, mas a capacidade de estender a nossa miséria em direção à santidade de Deus sem ter medo de ser rejeitado. E Jesus não se zanga, Ele não a repreende pela sua impureza, mas Ele volta-se, cruza o seu olhar e dá-lhe o mais belo dos títulos: «Minha filha». Ao chamá-la assim, Ele a reintegra na sua dignidade de filho de Deus; e o simples contato com o Esposo bastou para estancar a hemorragia. 3. Fazer calar o barulho para deixar a Graça nos erguer Contudo, a trama do Evangelho não para por aí. Este milagre produz-se no caminho de um outro drama: a filha de um chefe da sinagoga que acaba de morrer. Uma pequena nota de exegese bíblica impõe-se aqui para captar a profundidade do texto. O evangelista Marcos, na sua narrativa paralela, precisa que esta jovem tinha doze anos, exatamente o número de anos de agonia da mulher que sofria de hemorragias: quando a menina nasceu, a mulher começou a morrer. O evangelista, unificando as duas histórias, quer dizer-nos que o Cristo veio abraçar toda a nossa história humana, desde os seus nascimentos até às suas agonias, unindo todas as nossas pobrezas. Quando Jesus chega à casa da jovem morta, ele depara-se com o barulho: os tocadores de flauta, a multidão que se agita, o ritual do desespero. Jesus diz-lhes: «Retirai-vos. A menina não está morta, mas dorme». Mas zombavam dele. Para que a vida volte, Jesus toma um gesto forte: ele coloca toda a gente para fora. Aqui estamos diante de uma lei espiritual decisiva para nós hoje: enquanto deixarmos o barulho do mundo, o cinismo, a agitação estéril e as zombarias dominarem o nosso panorama interior, não poderemos ouvir a voz d'Aquele que desperta. «Quando a multidão foi colocada fora, ele entrou, segurou-lhe a mão e a menina levantou-se.» Jesus pega a jovem pela mão na intimidade de um silêncio sagrado. Como dizia tão magnificamente São João da Cruz: «O Pai não disse senão uma palavra, que é o seu Filho, e diz a sempre num eterno silêncio, e é no silêncio que a alma a ouve». O Cristo não se assusta com as nossas mortes interiores, com os nossos bloqueios paralisantes; para Ele, a nossa morte não é senão um sono… Basta, então, fazer silêncio e deixá-Lo pegar-nos pela mão para que nos levantemos. Conclusão e aplicação para o nosso dia Como podemos viver esta imensa luz desde hoje? Comecemos por olhar com honestidade para o que "foge" na nossa vida, as nossas hemorragias… Quais são essas hemorragias de paciência, de esperança, de alegria ou de amor puro que nos esgotam no quotidiano? Não procuremos ser subitamente fortes, eficientes ou "apresentáveis" antes de nos voltarmos para Deus, mas aproximemo-nos d'Ele com a nossa realidade, mesmo que desajeitadamente. Toquemos a borda do Seu manto hoje por um gesto simples: uma oração curta no meio do nosso trabalho, um olhar silencioso para uma cruz, a leitura lenta de um salmo… E, sobretudo, deixemos de lado a imagem de um Deus "Mestre" que julgaria as nossas incapacidades. Acolhamos o Esposo que nos convida ao deserto interior, longe do barulho, para nos pegar pela mão e nos colocar novamente de pé. Oração Senhor Jesus, Tu, o Esposo fiel e bom, confio-Te hoje as minhas aridezes e as minhas hemorragias interiores. Tu conheces os meus cansaços, esses momentos em que a vida parece escapar de mim e onde já não me sinto capaz de amar nem de avançar. Perdoa-me por olhar para Ti tantas vezes como um juiz severo, quando Tu não és senão ternura. Faz calar em mim o clamor dos meus medos e a agitação do mundo que me rodeia. Dá-me a audácia desta mulher enferma: que eu possa, nem que seja de leve, tocar a borda do Teu manto para nele colher a Tua graça salvadora. Pega-me pela mão, Senhor, lá onde me sinto morto, ergue-me docemente e conduz-me ao deserto do Teu amor. Amém.

  • O repouso dos pequeninos e a Vida segundo o Espírito Santo

    (14o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O Cristo consolador por Carl Bloch (século XIX) Leituras da Missa: Zc 9, 9-10 ; Salmo 144/145 ; Rm 8, 9.11-13 ; Mt 11, 25-30 A vida moderna assemelha-se frequentemente a uma corrida de fundo onde os vencedores são os fortes, são os mais rápidos, os eficientes. Atravessamos os nossos dias esgotados pelo dever de triunfar, de trazer resultados, de manter ao máximo o controle sobre todas as situações e, porque estamos tão cansados, exaustos, sentimos a necessidade de ser reconhecidos, de aparecer, visto todo o esforço que fazemos. O Evangelho (a boa nova) é que é justamente a esta humanidade cansada que a liturgia do décimo quarto domingo do Tempo Comum se dirige com uma delicadeza comovente. Os textos deste dia não vêm acrescentar uma exigência moral ou mais uma lei às nossas agendas já sobrecarregadas, mas, pelo contrário, abrem uma brecha de liberdade. De fato, o Senhor convida-nos a um deslocamento interior radical: abandonar a lógica do rendimento para entrar na lógica do abandono, o único espaço onde a alma encontra finalmente o seu verdadeiro repouso. 1. O Rei que desarma as nossas guerras interiores Para entrar no Evangelho deste dia, precisamos primeiro escutar o profeta Zacarias na primeira leitura. A sua profecia é um choque para a nossa imaginação, porque, na verdade, quando pensamos num rei capaz de resolver as crises e de trazer a paz, visualizamos a potência, alguém que é forte, carros de guerra, cavalos de combate, estratégias políticas implacáveis, cheio de recursos… Mas Zacarias anuncia um rei que vem pobre e montado num jumentinho, a cria de uma jumenta. Para a exegese bíblica, o jumento não é o símbolo da estupidez, mas a montaria dos tempos de paz, ao contrário do cavalo, que é o animal da conquista militar. Este rei não se impõe pela força, mas desarma. O texto diz-nos que ele fará desaparecer as armas de guerra de Efraim e de Jerusalém (reino do Norte e reino do Sul de Israel). Espiritualmente, esta primeira leitura mostra-nos que Deus não vem salvar a nossa vida utilizando as armas deste mundo; da mesma forma que Ele não vem responder à nossa violência com uma violência sagrada, nem ao nosso orgulho com uma potência esmagadora. Mas este Rei pacífico vem ao nosso encontro na nossa pobreza para “quebrar o arco de guerra” que apontamos frequentemente contra nós mesmos, contra os outros e contra Deus. Este texto anuncia-nos que a paz profunda começa quando aceitamos que o Senhor entre na nossa vida sem as nossas armaduras, sem artifícios, e quando aceitamos depor as nossas próprias armas de defesa e de justificação. 2. O paradoxo do conhecimento divino No Evangelho de hoje, Jesus irrompe num louvor que é uma verdadeira revelação sobre o funcionamento do Reino. Ele agradece ao Pai por ter escondido os segredos do céu aos sábios e aos entendidos para os revelar aos pequeninos. A primeira pergunta a fazer é: quem são estes sábios e entendidos? Não são as pessoas inteligentes ou instruídas no sentido humano, mas os que estão cheios de si mesmos, os que pensam saber tudo sobre Deus, sobre a vida e sobre os outros; são os espíritos autossuficientes, bloqueados nas suas certezas intelectuais ou religiosas, fechados à surpresa da graça. Por outro lado, os pequeninos, em grego os νήπιος (népios), designam literalmente os lactentes, aqueles que ainda não falam, aqueles que dependem totalmente do outro para viver. Ser um pequenino segundo o Evangelho é adotar uma atitude de abertura, de recetividade. São João da Cruz explica magnificamente que, para entrar na sabedoria divina, a alma deve despojar-se das suas próprias luzes humanas e consentir numa forma de ignorância sagrada, pois Deus supera infinitamente os nossos conceitos: aceitar e querer ir além. A verdade de Deus não se conquista pelo esforço da mente, ela é recebida pela pobreza do coração. Os mistérios do Pai não são enigmas a resolver, mas uma relação a viver, uma intimidade que o Filho único quer partilhar com aqueles que aceitam ter necessidade d’Ele. 3. O jugo que liberta e o segredo da doçura É então que Jesus profere este convite tão caloroso: «Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo». Ele propõe uma troca surpreendente: «Tomai sobre vós o meu jugo». À primeira vista, a palavra jugo evoca submissão, escravidão, o instrumento de madeira que une os bois para lavrar a terra. Mas, no contexto do judaísmo da época, o jugo designava a Lei de Moisés, que os escribas e os fariseus tinham tornado pesada, meticulosa, culpabilizante, impossível de carregar para o povo simples. Jesus diz: mudai de jugo, «Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve». Por que o jugo de Jesus é leve? Porque o d’Ele é o jugo do amor, e o amor não pesa. Além disso, na tradição agrícola, o jugo era frequentemente duplo: unia um animal jovem e inexperiente a um animal mais forte e experiente que puxava o essencial da carga. Tomar o jugo de Jesus não é caminhar sozinho com novas regras, é estar ligado a Ele. É avançar ao Seu ritmo, consciente dos seus limites, da sua realidade, sabendo que é Ele quem carrega o mais pesado dos nossos fardos, das nossas faltas e das nossas angústias. «…porque sou manso e humilde de coração»: a Sua doçura não é uma fraqueza, mas, muito pelo contrário, é uma força imensa que nunca esmaga a mecha que ainda fumega, uma humildade que se baixa para nos erguer. 4. Viver segundo o Espírito para superar o esgotamento da carne São Paulo, na segunda leitura, dá uma chave teológica essencial para compreender como carregar este jugo leve no quotidiano: de fato, ele opõe a carne e o Espírito. A carne, na linguagem paulina, não é simplesmente o nosso corpo físico ou os nossos impulsos instintivos; é o homem concentrado nas suas próprias forças, o homem que tenta salvar-se a si mesmo, construir a sua felicidade e a sua justiça sem Deus. Viver segundo a carne conduz inevitavelmente ao cansaço, à morte espiritual, pois os nossos recursos humanos são limitados e acabam por se esgotar. Viver segundo o Espírito é deixar o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habitar em nós. É aceitar que a vida cristã não seja uma performance da nossa vontade, mas o desenvolvimento de uma vida divina em nós. E como é que isso se faz? Deixando-se amar por Jesus; ou seja, aceitar, crer que a Sua Palavra é para mim, deixar que a Sua Palavra ganhe espaço na nossa vida, permitindo-se ser interrogado, interpelado por Jesus, e permitir que a Sua palavra produza em nós o seu efeito. Um pouco antes, neste mesmo capítulo da carta de São Paulo, no versículo 16, ele diz: «O próprio Espírito Santo testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus». Se, portanto, no teu coração, tu crês, tu aceitas, tu tens a certeza de ser filho de Deus, é porque o Espírito Santo habita plenamente em ti. E é esta certeza que vai permitir que a Sua Palavra produza em ti os seus efeitos. E, para voltar aos textos de hoje, o Espírito Santo é o motor interior que torna o jugo de Jesus suave. O que a lei humana exige sem dar a força para cumprir, o Espírito oferece-o gratuitamente por amor. É este Espírito que nos permite clamar para o Pai com a confiança de uma criança e matar «as obras do homem pecador», isto é, essa tendência permanente de querer gerir tudo pelas nossas próprias forças carnais, esse delírio de autossuficiência que nos conduz sempre ao erro e ao esgotamento. Precisamos sempre uns dos outros, precisamos sempre de um Pai, de Deus: permitamos que o seu Espírito aja em nós. «Pai, Senhor do céu e da terra, eu proclamo o teu louvor: o que escondeste aos sábios e aos entendidos, revelaste-o aos pequeninos» Conclusão e aplicação para o nosso dia O Evangelho deste domingo é um imenso alívio para a nossa vida. O Senhor vê os nossos cansaços, as nossas decepções, o peso das nossas responsabilidades familiares, profissionais ou espirituais. Ele não nos pede para fazer mais, Ele pede-nos para ir a Ele. Para aplicar esta Palavra concretamente na nossa semana: Identifiquemos claramente o nosso fardo atual: será uma inquietação com o futuro, uma ferida do passado, o medo de não estar à altura? Depositemo-lo explicitamente na oração entre as mãos do Cristo manso e humilde. Renunciemos à tentação da autossuficiência. Diante das situações que não compreendemos, aceitemos ser pequeninos, aceitemos não saber nem compreender todas as coisas, e que há mais além; aceitemos aprender, aceitemos ser ajudados, dizendo simplesmente: Pai, não sei como fazer, mas confio em Ti. Verifiquemos se a nossa maneira de viver a fé é um peso ou uma libertação. Se a nossa vida cristã se torna uma fonte de ansiedade e de cansaço, é porque carregamos o nosso próprio jugo e não o de Jesus. Repeçamos o Espírito Santo para reencontrar a frescura do dom gratuito. Oração Senhor Jesus, Tu, o Rei manso e humilde, venho a Ti hoje com todo o meu cansaço e os fardos que pesam sobre os meus ombros. Tu conheces os meus combates interiores, os meus esforços contínuos para parecer forte, sábio e capaz de resolver tudo por mim mesmo. Reconheço que este caminho da carne me esgota e me afasta da Tua alegria. Peço-Te, Senhor, faz de mim um pequenino. Despoja-me do meu orgulho, das minhas falsas seguranças e das minhas certezas rígidas. Quero colocar-me sob o Teu jugo tão suave de carregar, ligar-me a Ti para caminhar ao Teu passo. Que o Teu Espírito Santo, o Espírito da ressurreição, penetre no meu coração para purificar os meus pensamentos e devolver a vida ao meu corpo mortal. Concede à minha alma esse repouso profundo que só Tu podes dar, a fim de que a minha vida proclame o louvor do Pai, na paz e na confiança absoluta. Amém.

  • O Vinho Novo exige Corações Novos

    (Sábado, 13ª Semana do Tempo Comum) As Bodas de Caná por Paulo Verônese, 1563 Leituras da Missa: Am 9, 11-15 ; Salmo 84/85 ; Mt 9, 14-17 A existência humana balança frequentemente entre a nostalgia do passado e o medo da mudança. Instalamo-nos em ritos, em hábitos, às vezes até nas nossas próprias feridas, porque nos são familiares. No entanto, a liturgia deste sábado da 13ª semana do Tempo Comum vem quebrar esse torpor. Com efeito, a Palavra de Deus hoje coloca-nos diante de uma alternativa radical: continuar a remendar o antigo ou aceitar renovar tudo sob o impulso da graça. O Evangelho deste dia mostra-nos que Deus não faz compromissos com a novidade que Ele traz; Ele não vem tapar brechas, Ele vem fazer novas todas as coisas. 1. A promessa de uma reconstrução total Para compreender a força das palavras de Jesus sobre o vinho novo, é preciso primeiro escutar a promessa do profeta Amós na primeira leitura. Já no primeiro versículo vemos Deus declarar: «reerguerei a cabana de Davi, que está caindo». Este texto bíblico, com efeito, utiliza verbos duma potência extraordinária: reerguer, reparar, reconstruir. No tempo do profeta Amós, o povo vivia em paz, em prosperidade; as cerimônias religiosas eram muito frequentadas, mas essa opulência caminhava lado a lado com um declínio moral e religioso que corroía os fundamentos da sociedade. O texto de hoje fala de uma Promessa que não consiste numa vaga consolação espiritual, mas numa verdadeira restauração da vida. O texto de hoje descreve uma surabundância magnífica onde «as montanhas deixarão correr vinho novo». Esta imagem de fertilidade inédita, onde o camponês segue de perto o ceifador, mostra-nos que a ação de Deus antecipa as nossas capacidades humanas; no entanto, esta reconstrução exige uma ruptura com aquilo que nos mantinha cativos. O Salmo 84 faz eco a isso, sendo o exemplo daquele que escuta a Palavra de Deus, dizendo: «Quero ouvir o que diz o Senhor Deus: ele promete a paz para o seu povo e para os seus fiéis, desde que não voltem à sua loucura!». A Promessa divina, portanto, está condicionada ao nosso consentimento em deixar as ruínas das nossas antigas maneiras de viver, as nossas loucuras, para entrar nesta terra prometida onde o Senhor nos planta definitivamente. 2. A presença do Esposo e o sentido da falta No Evangelho, vemos os discípulos de João Batista interrogarem Jesus sobre uma prática religiosa fundamental: o jejum. Mas por trás da pergunta deles há uma incompreensão diante da alegria e da liberdade dos discípulos de Jesus. A resposta de Cristo desloca imediatamente o debate do terreno jurídico ou ritual para o terreno relacional, fazendo-nos compreender que o jejum só tem sentido se estiver orientado para a expectativa de uma Presença. Ora, a presença está ali, e Jesus aqui se define como o Esposo. Na tradição bíblica, e em seguida os Padres da Igreja utilizam frequentemente esta imagem para a vida espiritual, a figura do Esposo é a de Deus que se une à humanidade. São João da Cruz lembra-nos frequentemente que o fim último de toda alma é esta união esponsal com o Verbo. E neste Evangelho, Jesus diz uma coisa comovente: «Podem os convidados do casamento estar de luto enquanto o Esposo está com eles?». A vida cristã não é primeiramente uma ética do esforço ou uma ascese da tristeza, mas uma experiência de núpcias, uma alegria fundamental ligada à presença do Ressuscitado. Podemos dizer que o cristão é aquele que acorda e descobre que o Reino de Deus está entre nós, o Cristo está ali! O jejum voltará, diz Jesus, quando o Esposo lhes for tirado. É o jejum da Igreja que espera o retorno do seu Senhor, um jejum que nasce não do dever, mas do desejo ardente de O reencontrar; o jejum é uma preparação para receber o Senhor, eis por que jejuamos antes de ir à Missa, antes da Comunhão; faz-se o jejum quando, no meio duma situação específica, se busca o Senhor. 3. A armadilha do remendo espiritual É então que Jesus utiliza as duas célebres parábolas da roupa e dos odres, que contêm uma verdade psicológica e espiritual de uma profundidade imensa. «Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda.» Espiritualmente, isso significa que não podemos utilizar o Evangelho simplesmente para corrigir alguns defeitos da nossa vida enquanto mantemos, por exemplo, a nossa mentalidade egoísta ou legalista, enquanto mantemos uma mentalidade que não é a de Cristo. Ou seja, a graça não é um verniz superficial. Se tentarmos ajustar a mensagem de Cristo aos nossos velhos esquemas de pensamento, aos nossos rancores ou às nossas lógicas mundanas, acabamos por quebrar tudo. Quantas vezes tentamos viver uma vida de oração enquanto recusamos perdoar? Quantas vezes queremos a paz de Deus sem abandonar os nossos ídolos? Esse é o grande perigo do compromisso espiritual: querer o vinho da alegria cristã sem aceitar mudar de mentalidade. 4. Os odres novos: a conversão da estrutura interior «Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizerem, os odres arrebentam, o vinho derrama-se e os odres perdem-se.» O odre novo é o homem interior transformado pelo Espírito Santo. O vinho novo é a vida divina, o fogo do amor, o Espírito de liberdade que o Cristo veio derramar. Se as nossas estruturas interiores – a nossa maneira de julgar, de reagir, de amar – permanecerem rígidas, ressecadas pelo orgulho ou pela rotina, elas arrebentarão sob a pressão da novidade de Deus. Aqui vemos que a verdadeira conversão consiste precisamente em aceitar que Deus mude o nosso recipiente, e não apenas o nosso conteúdo. Ser um odre novo significa aceitar uma flexibilidade interior, uma docilidade ao Espírito. São João da Cruz explicava que, para receber a luz divina, a alma deve esvaziar-se das suas próprias fixações. O vinho novo da graça precisa dum espaço livre, de um coração disponível que não pretenda ditar a Deus como Ele deve agir. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta página do Evangelho convida-nos a fazer uma verdade profunda em nós mesmos hoje. Neste sábado, olhemos para a nossa vida e permitamo-nos interrogar: como estamos com os nossos «odres velhos»? Estamos a remendar penosamente situações, relações ou uma prática religiosa rotineira, ou aceitamos deixar-nos renovar por Cristo? Para a nossa vida espiritual, podemos propor aplicações muito concretas: Cessemos de gerir a nossa vida espiritual como uma lista de deveres a cumprir e redescubramos a presença do Esposo ao nosso lado. Diante duma dificuldade ou duma tensão hoje, não apliquemos a nossa velha solução automática (a cólera, a fuga, o controle), mas peçamos ao Senhor que Ele mesmo nos inspire uma atitude nova, nascida do seu Evangelho. E, finalmente, ofereçamos ao Cristo as nossas rigidezes para que Ele as torne flexíveis pelo óleo da sua misericórdia. Oração Senhor Jesus, Tu que és o Esposo da minha alma e a fonte de toda verdadeira alegria, apresento-me diante de Ti neste dia com as minhas pobrezas e os meus velhos hábitos. Tu conheces as minhas rigidezes, as minhas resistências à mudança e a minha infeliz tendência de querer remendar a minha vida em vez de Te a dar inteiramente. Peço-Te, faz do meu coração um odre novo. Torna-me flexível, disponível e dócil à ação do teu Espírito Santo. Vem derramar em mim o vinho novo da tua caridade, da tua paciência e da tua alegria, a fim de que a minha vida quotidiana se torne um reflexo do teu Reino. Não permitas que eu me agarre às minhas ruínas, mas ajuda-me a entrar plenamente na novidade da tua Ressurreição. Amém.

  • A ferida aberta: onde começa a morada da fé

    (Sexta-feira, São Tomás, apóstolo - Festa) A incredulidade de São Tomás, de Caravaggio (c. 1601-1602) Leituras da Missa: Ef 2, 19-22 ; Salmo 116 ; Jo 20, 24-29 Há uma tentação sutil que atravessa frequentemente a nossa vida espiritual: a de acreditar que, para ir a Deus, devemos ser perfeitos, impecáveis, sem a sombra de uma hesitação. Pensamos que a dúvida é uma anomalia, uma falta grave a ser escondida de todo o mundo. E, no entanto, a festa de São Tomé que celebramos hoje vem quebrar essa ilusão. Ao lembrarmo-nos do fio condutor do domingo anterior — onde o Evangelho nos chamava à radicalidade do seguimento de Cristo, a amá-Lo sobre todas as pessoas e coisas —, compreendemos que esse seguimento exige uma verdade total: não se pode seguir Jesus com uma máscara. Tomé, com a sua resistência tenaz, representa a todos nós na nossa recusa de respostas pré-fabricadas; ele mostra-nos que a fé não é uma ideia abstrata à qual se adere intelectualmente, mas um encontro carnal, concreto, uma experiência de pobreza que se deixa abraçar pela misericórdia. 1. Quebrar a solidão para entrar no edifício A primeira leitura, tirada da carta de São Paulo aos Efésios, estabelece um quadro magnífico para compreender a aventura espiritual de Tomé. Paulo diz-nos: «Já não sois estrangeiros nem hóspedes de passagem, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus.» É uma palavra de pura consolação, mas contém uma exigência: para ser integrado numa construção, é preciso aceitar fazer corpo com as outras pedras. Ora, o que faz Tomé no início do texto do Evangelho de hoje? Ele não está lá! Isolou-se. O sofrimento, o luto da morte de Jesus e, talvez, a decepção levaram-no a fechar-se na sua própria solidão, longe da comunidade…; e quando os outros lhe dizem «Vimos o Senhor», ele recusa o testemunho deles. O drama da dúvida de Tomé começa pela sua ausência da comunidade, estar fora do corpo dos apóstolos torna-o vulnerável ao isolamento. São Paulo lembra-nos que somos elementos duma mesma construção para nos tornarmos uma morada de Deus por meio do Espírito Santo. A fé cresce e fortalece-se unida, na partilha da pobreza dos irmãos, e não no isolamento de uma busca puramente individual. 2. O direito de tocar: a pedagogia divina da vulnerabilidade Mas o que é extraordinário neste episódio, e que coloca em crise o nosso perfeccionismo religioso imaginário, é que o Cristo não rejeita Tomé por causa das suas condições estritas. «Oito dias depois», diz o texto, «estando as portas fechadas», Jesus volta. Ele atravessa as paredes dos nossos medos, das nossas exclusões, e coloca-se «no meio deles». A sua primeira palavra é um dom: «A paz esteja convosco!» Depois, imediatamente, Jesus volta-se para aquele que duvida: não há nenhuma condenação no seu olhar, apenas uma condescendência infinita. E ainda mais impressionante é que Jesus aceita as exigências de Tomé, aquele que duvidava! Jesus satisfaz a exigência de Tomé e diz-lhe: «Aproxima o teu dedo daqui... aproxima a tua mão». E aqui estamos diante de outro mistério igualmente comovente: o Ressuscitado guarda as suas feridas abertas. E o questionamento é legítimo: por que a glória da ressurreição não apagou as marcas da crucificação? Porque são precisamente essas feridas que nos curam… O Cristo mostra a Tomé que a Sua glória não é uma anulação do sofrimento, mas a sua transfiguração. Ao convidar Tomé a tocar as suas feridas, Jesus mostra-lhe que a fé não nasce de uma teoria, mas de um contato com a sua vulnerabilidade. Entrar em relação com Deus é aceitar tocar e ser tocado pela carne sofredora do Cristo, que continua frequentemente a gemer nos membros dos nossos irmãos mais necessitados: a ferida deles revela a nossa, e esse contato faz-nos reconhecer que Ele realmente ressuscitou. 3. Do desabamento da dúvida à teologia do coração Quando Tomé toca a ferida, algo desaba nele: não são apenas as suas dúvidas que voam, é o seu orgulho, a sua pretensão de querer tudo controlar, tudo verificar por si mesmo… A sua resposta é a mais alta confissão de fé de todo o Novo Testamento: «Meu Senhor e meu Deus!» Ele não diz apenas «Tu estás vivo», ele diz «Tu és meu»: é a linguagem da aliança, a expressão de uma intimidade recuperada. Os Padres da Igreja, como por exemplo São Gregório Magno (século VI), gostam de sublinhar que a dúvida de Tomé foi mais útil para a nossa fé do que a crença imediata dos outros discípulos: portanto, ao tocar o Cristo, Tomé curou a nossa própria incredulidade. E, finalmente, a bem-aventurança final de Jesus, «Felizes os que creem sem terem visto», ao contrário do que se poderia pensar, não diminui Tomé, mas abre a porta para todos nós: a verdadeira fé começa onde terminam as nossas evidências sensíveis; é o ato de confiança absoluta duma alma que se sabe amada através das suas próprias falhas. São João da Cruz escrevia que, para chegar ao que não se sabe, é preciso passar por um caminho onde não se sabe: Tomé aceitou perder as suas certezas lógicas para receber a certeza do coração. Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia deste dia convida-nos a olhar para as nossas próprias dúvidas e para as nossas próprias feridas não como obstáculos, mas como o lugar potencial do nosso encontro mais profundo com Deus. Enquanto apresentarmos ao Senhor uma vida lisa, ideal — o que não é verdade —, não poderemos experimentar verdadeiramente a Sua ressurreição. Para que estes ensinamentos bíblicos possam realizar estes efeitos em nós, primeiro, cessemos de fugir da comunidade quando atravessamos momentos de escuridão ou de secura espiritual; é precisamente no meio dos nossos irmãos que o Cristo se faz presente. E segundo, não tenhamos medo de apresentar as nossas próprias feridas interiores ao Cristo na oração, dizendo-Lhe com simplicidade a nossa incapacidade de crer ou de amar pelas nossas próprias forças: rezar desta forma é abrir-Lhe um espaço e permitir-Lhe que nos toque. Sigamos o exemplo de São Tomé e deixemos Jesus colocar a sua paz sobre os nossos ferrolhos para viver na liberdade do Ressuscitado, em comunhão com os nossos irmãos. Oração Meu Senhor e meu Deus, peço-Te perdão por todas as vezes em que, por medo ou por orgulho, me fechei na minha solidão, recusando crer na alegria que os meus irmãos partilhavam comigo. Tu conheces as minhas exigências, as minhas lentidões e as minhas dúvidas. Hoje, atravessa as minhas portas fechadas. Não retires de mim as Tuas feridas, mas permite-me esconder-me nelas. Vem tocar a minha incredulidade e transfigurar as minhas próprias feridas em lugares de luz e de testemunho. Faz de mim uma pedra viva, solidamente ajustada aos meus irmãos, para que as nossas vidas reunidas se tornem uma morada acolhedora para o Teu Espírito. Eu creio, Senhor, mas vem socorrer a minha falta de fé. Amém.

  • Lenta-te e caminha: o poder que recria o coração

    (Quinta-feira, XIII Semana do Tempo Comum) A cura do paralítico em Capernaum, por volta de 1350, artista desconhecido Leituras da Missa: Am 7, 10-17 ; Salmo 18b/19 ; Mt 9, 1-8 No caminhamento da nossa fé, chegamos frequentemente diante de Deus com as nossas urgências visíveis, apresentamos-Lhe os nossos sofrimentos materiais, os nossos corpos cansados, os nossos projetos quebrantados. Somos frequentemente como os amigos desse paralítico no Evangelho de Mateus: queremos uma solução imediata para aquilo que nos impede de caminhar. E, no entanto, a liturgia desta quinta-feira da 13ª semana do Tempo Comum convida-nos a operar um deslocamento interior radical. Para compreender plenamente o que Jesus realiza em Cafarnaum, precisamos fazer memória do domingo anterior, onde o Cristo nos chamava a segui-Lo sem reserva, a deixar as nossas seguranças e os nossos apegos. Seguir a Cristo exige ser livre, flexível, vivo. Mas como caminhar no seguimento de Jesus, como ser digno d’Ele quando se está paralisado por dentro? É para esta cura fundamental que o Senhor nos convoca hoje. 1. A liberdade do profeta diante do conforto do santuário A primeira leitura de hoje mostra-nos uma outra forma de rigidez e de paralisia, a das estruturas religiosas desconectadas da vida divina. Amós encontra-se diante de Amasias, o sacerdote de Betel. Amasias gere a religião como uma carreira e uma ferramenta política. Para o sacerdote Amasias, a palavra de Deus deve ser rentável e confortável, eis por que diz ao profeta Amós: «Vai-te daqui, foge para a terra de Judá; é lá que poderás ganhar a tua vida fazendo o teu ofício de profeta.» Além de ser contra o conteúdo da pregação de Amos, aqui vemos que o sacerdote Amasias vê o profetismo como um ofício, um ganha-pão. Mas a palavra de Deus não se comercializa e não se domestica. A resposta de Amós é admirável, cheia de liberdade e de humildade: «Eu não era profeta nem filho de profeta; eu era pastor e cultivava sicômoros. Mas o Senhor me tirou…» Amós não tem interesse pessoal a defender, não tem status a proteger; ele foi abordado, apreendido por uma Presença: é a sua docilidade ao Senhor que o torna capaz de se manter de pé diante dos poderosos. Para usar a linguagem do episódio do Evangelho de hoje, podemos dizer que a paralisia de Amasias é a sua instalação, o seu apego no conforto religioso da coorte de Israel, enquanto a liberdade de Amós é a do homem de pé, cuja vida está escorada na verdade da Palavra. São João da Cruz lembra-nos frequentemente que, para possuir o Tudo, é preciso aceitar não querer ser nada por si mesmo. Amós encarna essa pobreza que conhecemos como “evangélica”, que se torna potência espiritual. 2. O diagnóstico do Cristo: ir à raiz do mal Façamos agora a ligação com o Evangelho. Jesus está de volta à sua cidade, isto é, Cafarnaum, e trazem-lhe um paralítico numa maca. O texto nota um detalhe crucial: «Vendo a fé deles, Jesus disse ao paralítico: Coragem, meu filho, os teus pecados estão perdoados.» Coloquemo-nos bem na pele deste paralítico e dos seus amigos que fizeram um grande esforço para chegar até Jesus: esta frase de Jesus ao paralítico é um choque! Um choque porque este homem precisa recuperar o uso das suas pernas, e Jesus fala-lhe do perdão dos pecados… Mas, então, por que esse descompasso “aparente”? É que Jesus não cura na superfície, ele vai imediatamente à raiz do nosso bloqueio mais íntimo. O Cristo sabe que a pior das paralisias não é a do corpo, mas a da alma. Com efeito, o pecado, na sua essência profunda, é uma ruptura de relação com Deus e, por consequência, com o próximo. O pecado é o fechamento em si mesmo, a desconfiança em relação a Deus, a incapacidade de amar e de se deixar amar. O pecado fixa-nos, torna-nos imóveis, prisioneiros das nossas culpabilidades e dos nossos fracassos. Jesus, ao dizer-lhe «os teus pecados estão perdoados», opera uma recriação. Ele não faz uma simples anistia jurídica, ele devolve a vida! É belo como Jesus se dirige ao paralítico: «Coragem, meu filho…», restaurando assim a sua identidade de filho de Deus. O perdão é o primeiro passo do homem de pé: sem esta cura do coração, caminhar fisicamente só serviria para errar sem rumo. 3. O poder de reconciliar e o escândalo da graça Esta palavra de libertação desperta imediatamente a resistência dos escribas. «Este homem blasfema», dizem eles. Para eles, Deus é distante, encerrado em categorias teológicas estritas. Não podem compreender, não podem suportar que a misericórdia divina se manifeste de maneira tão direta, tão humana através de Jesus. Jesus lê nos seus pensamentos e faz a pergunta central: «O que é mais fácil? Dizer: Os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te e caminha?» Do ponto de vista humano, dizer que os pecados estão perdoados é mais fácil, porque isso não se vê. Mas, para manifestar que a Sua Palavra tem uma eficácia real, divina, Jesus realiza o milagre visível. «Levanta-te, pega a tua maca e vai para a tua casa.» Este milagre é o sinal exterior de uma realidade invisível bem mais imensa. Com efeito, a verdadeira novidade cristã é este poder de reconciliação dado aos homens. A multidão não se engana, ficaram «possuídos de temor e glorificaram a Deus por ter dado tal poder aos homens.» Este poder continua a desenvolver-se hoje na Igreja, nomeadamente através do sacramento da reconciliação; é aí que o Cristo continua a dizer-nos individualmente: «Coragem, levanta-te.» Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia deste dia coloca-nos diante das nossas próprias macas. Qual é a paralisia que me impede hoje de avançar, de amar, de seguir o Cristo com a liberdade de Amós? Será um velho rancor? Uma culpabilidade que não consigo abandonar? Uma instalação confortável, mas estéril como a de Amasias? A Palavra de Deus convida-nos hoje à audácia: somos chamados a aceitar que Jesus pouse o seu olhar sobre aquilo que está ferido em nós, aquilo que frequentemente escondemos, porque muito frequentemente trata-se de um caso, uma situação onde precisamos ser perdoados… A aplicação concreta para o nosso dia, então, é dupla: Primeiro, cessar de ocultar as nossas paralisias interiores sob externalidades, sob a estética de uma falsa saúde espiritual: vir ao Cristo com a nossa verdade, a nossa pobreza, conscientes do pecado que nos paralisia. Em seguida, ou por consequência, confiar na potência do perdão: se carregamos um fardo, o sacramento da confissão é o lugar por excelência onde o Cristo nos coloca novamente de pé. Hoje, não fiquemos deitados nas nossas macas do hábito ou do desânimo. O Senhor repete-nos: «Coragem, levanta-te e caminha.» Oração Senhor Jesus, apresento-me diante de Ti hoje com as minhas pobrezas e as minhas imobilidades secretas. Tu conheces as zonas do meu coração que estão paralisadas pelo medo, pelo dúvida ou pelo pecado. Peço-Te a graça de não me esconder atrás de falsas seguranças. Dá-me a fé desses homens que carregaram o paralítico até Ti. Vem dizer-me ao ouvido do coração esta palavra que ressuscita: «Coragem, meu filho.» Purifica o meu olhar pelos Teus julgamentos que são retos e que alegram o coração. Devolve-me a liberdade do profeta Amós para que eu possa caminhar no Teu seguimento, leve, curado, e testemunhar a Tua misericórdia junto dos meus irmãos. Amém.

  • O preço da liberdade e o recurso da cura

    (Quarta-feira, 13a Semana do Tempo Comum) A cura do demoníaco - Sébastien Bourdon, entre 1653 e 1657 Leituras da Missa: Am 5, 14-15.21-24 ; Salmo 49/50 ; Mt 8, 28-34 A vida cristã sofre frequentemente de uma terrível ambiguidade: desejamos a salvação, mas tememos a mudança que ela impõe. O domingo anterior lembrava-nos a exigência radical de Cristo, que nos convidava a perder a nossa vida para a encontrar, a tomar a nossa cruz sem olhar para trás. Hoje, nesta quarta-feira da décima terceira semana, a liturgia mergulha-nos no vivo deste combate interior. Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia uma fé de fachada que se contenta com ritos exteriores sem conversão do coração, enquanto o Evangelho de hoje, segundo São Mateus, mostra-nos como a presença de Cristo pode paradoxalmente assustar aqueles que preferem preservar os seus interesses materiais em vez de ver vidas humanas reconstruídas. Entremos juntos nesta travessia em direção à outra margem, lá onde os nossos demônios interiores e as nossas recusas de curar são colocados em luz. 1. O culto sem o coração: a clameur de Amós O profeta Amós dirige-se a um povo que pensa estar em regra com Deus porque as suas liturgias são faustosas: os cantos ecoam, os sacrifícios acumulam-se, as assembleias estão cheias. E, no entanto, o veredicto divino é de uma intensidade, de uma força inédita: «…eu detesto, eu desprezo as vossas festas». Deus não se deixa comprar por rituais que servem de para-vento para a injustiça quotidiana. Estamos diante do perigo de se aproveitar da religião para criar um sistema de segurança psicológica onde se oferecem coisas a Deus para evitar dar-Lhe a nossa própria vida. O último versículo deste texto mostra uma particularidade interessante a nível exegético; de fato, o versículo diz: «Mas que o direito jorrasse como uma fonte, e a justiça como um torrente que nunca seca!» Em hebraico, dois conceitos fundamentais do Antigo Testamento são aqui associados em paralelismo: O Direito (מִשְׁפָּט = Mishpat): É a justiça concreta, o fato de dar a cada um o que lhe é devido, nomeadamente aos mais pobres, às viúvas e aos órfãos. A Justiça (צְדָקָה = Tzedakah): É um termo ainda mais profundo. Não se trata de uma justiça legal ou punitiva, mas de uma justiça relacional. É a fidelidade à Aliança, o fato de estar ajustado ao coração de Deus. Quando Amós utiliza a imagem do «torrente que nunca seca», faz um contraste impressionante com os ribeiros (oueds) do deserto da Judeia. Estes ribeiros enchem-se de uma água violenta durante a estação das chuvas, mas secam completamente no resto do ano. Portanto, o profeta aqui censura o povo por ter uma fé «ribeiro»: uma fervura espetacular durante as festas religiosas (v. 21-23), mas uma seca total no resto do tempo na vida quotidiana. Voltando a nós, é preciso saber que a vida espiritual não é uma água estagnada feita de devoções rotineiras, mas um rio dinâmico que transforma as nossas relações humanas. Amós lembra-nos que o Senhor não procura as nossas performances religiosas, mas a verdade da nossa existência. Quando o culto está desconectado da caridade e do direito, torna-se um barulho insuportável aos ouvidos de Deus. Esse é o fundamento mesmo da nossa caminhada: antes de avançar para o altar, devemos aceitar que a Palavra coloque a nu as nossas hipocrisias e as nossas falsas piedades. 2. A prisão dos túmulos e o medo do tormento No Evangelho, temos Jesus que, passando para a outra margem, no território pagão dos gadarenos, deixa o conforto das multidões familiares para enfrentar a miséria humana naquilo que ela tem de mais radical. «…dois possessos saíram de entre os túmulos ao seu encontro…». Estes homens habitam o lugar da morte e «eram tão agressivos que ninguém podia passar por aquele caminho», eles bloqueiam o caminho. Aqui se constata que o demônio isola sempre, ele torna o homem incapaz de relação, violento para consigo mesmo e para com os outros, confinado nas suas próprias sepulturas afetivas ou espirituais. A reação dos demônios diante de Jesus é reveladora: «Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo fixado?» Esse é o grande engano do espírito do mal: ele tenta fazer-nos acreditar que a presença de Deus é um tormento, uma ameaça para a nossa liberdade. Quantas vezes pensamos, nós também, que se deixarmos o Cristo entrar plenamente nas nossas vidas, Ele vai privar-nos da nossa felicidade? Temos medo da Vontade de Deus… Preferimos às vezes domesticar as nossas neuroses, as nossas dependências e as nossas escuridões, permanecendo dóceis, habituando-nos àquilo que nos destrói, em vez de arriscar a novidade de uma cura. Frequentemente, o Cristo incomoda o status quo das nossas misérias bem instaladas. 3. Os porcos e os homens: a escolha das nossas prioridades O desfecho do exorcismo ilumina a profundidade do drama. Os demônios pedem para ser enviados para uma grande manada de porcos, animais impuros segundo a lei judaica, símbolos dos apegos terrenos e da busca exclusiva do alimento material. Assim que a palavra soberana de Jesus ecoa – uma única palavra: «Ide» –, toda a manada se precipita no mar. A destruição dos porcos mostra a natureza intrinsecamente destruidora do mal: ele não gera senão a morte e o caos. É então que se produz o verdadeiro drama deste Evangelho: os guardas alertam a cidade e toda a população sai ao encontro de Jesus. Esperar-se-ia uma explosão de alegria, uma ação de graças por estes dois concidadãos finalmente libertados, sentados, vestidos e devolvidos à sua dignidade de homens. Em vez disso, «as pessoas suplicaram-lhe que partisse do seu território.» Por quê? Porque a cura teve um custo. A libertação destes dois homens provocou a perda econômica da manada. Para esta cidade, o valor de uma vida humana é inferior à rentabilidade econômica. Eles preferem dois possessos furiosos nos cemitérios e uma economia florescente, em vez de um Salvador gratuito que mexe com o seu conforto material. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta página do Evangelho é um espelho estendido à nossa vida quotidiana. Ela pergunta-nos de que lado nos situamos quando o Cristo vem mexer com a nossa existência. A Liturgia de hoje convida-nos a olhar para os nossos túmulos interiores: quais são os espaços da minha vida onde me comportamento como estes possessos, bloqueando o caminho, recusando a relação, encerrando-me em velhos rancores ou hábitos destrutivos? Aceitemos desde hoje deixar o Cristo visitar estas zonas de sombra sem ter medo da sua luz. Os textos de hoje convidam-nos também a avaliar o custo da nossa liberdade: estou pronto a perder as minhas «manadas de porcos» – isto é, os meus pequenos lucros pessoais, os meus confortos egoístas, as minhas seguranças materiais – para que a justiça e a cura de Deus se desenvolvam em mim e ao meu redor? Não expulsemos o Senhor do nosso território interior quando Ele nos pede para tomar escolhas corajosas: prefiramos sempre o homem às estruturas e a vida espiritual às aparências. Oração Senhor Jesus, Tu que não hesitaste em atravessar o mar para ir buscar dois homens perdidos no meio dos túmulos, vem hoje visitar as margens do meu coração. Tu conheces os meus fechamentos, as minhas violências interiores e todas essas cumplicidades que mantenho com o que me separa de Ti e dos outros. Às vezes, tenho medo da Tua presença, temo que venhas perturbar os meus pobres equilíbrios e os meus pequenos confortos quotidianos. Perdoa-me por todas as vezes em que, como os habitantes desta cidade, Te pedi para Te fores embora porque a Tua palavra exigia de mim um desapego que eu não estava pronto a viver. Não quero mais apresentar-Te a agitação, o som dos meus cânticos ou das orações de fachada enquanto a minha vida recusa converter-se. Dai-me a coragem de consentir no despojamento necessário para acolher a Tua verdadeira liberdade. Que o Teu torrente de justiça purifique as minhas intenções. Toma tudo o que, em mim, se agarra às seguranças deste mundo, e concede-me a graça de preferir a alegria da Tua cura à segurança das minhas prisões. Permanece no meu território, Senhor, e faz de mim uma testemunha viva da Tua potência que ergue e que liberta. Amém.

  • O sono de Deus e o despertar da nossa fé

    (Terça-feira, 13a Semana do Tempo Comum) O Cristo na tempestade sobre o mar da Galileia, por Rembrandt em 1633 Leituras da Missa: Am 3, 1-8 ; 4, 11-12 ; Salmo 5 ; Mt 8, 23-27 A vida espiritual assemelha-se frequentemente a uma travessia marítima que pensávamos ser pacífica pelo simples pretexto de termos embarcado com Jesus, mas o Evangelho de hoje vem quebrar essa ilusão confortável. Seguir a Cristo não nos poupa das tempestades e, às vezes, parece até conduzir-nos diretamente a elas. No domingo passado, o Senhor advertia-nos com força: aquele que não toma a sua cruz não é digno de dele. E corremos o risco de ficar numa exigência teórica, quase abstrata; mas hoje, passamos da teologia para a provação existencial. De fato, na primeira leitura, Amós lembra-nos que Deus fala através das crises da história, e o Evangelho mergulha-nos no concreto de uma barca que se enche de água. É aqui, quando a madeira estala, que compreendemos o que significa concretamente perder a sua vida para a salvar. 1. O rugido dos acontecimentos e o apelo de Amós O profeta Amós começa com uma palavra paradoxal que mexe com a nossa visão de uma religião fofinha, confortável. Na sua profecia, Deus lembra a sua aliança, mas essa proximidade não se traduz num privilégio de impunidade; muito pelo contrário. Pensamos frequentemente – de maneira muito infantil – que se rezarmos e seguirmos o Senhor, a nossa vida deve ser um longo rio tranquilo, tudo correrá bem… mas, de fato, esse é o erro de um cristianismo contratual: eu te dou a minha piedade, tu me dás a segurança. Amós utiliza imagens de causa e efeito de uma lógica implacável: «Ruge o leão na floresta sem ter uma presa? (…) Cai a armadilha no solo sem nada ter apanhado?» Através destas metáforas, o profeta quer fazer-nos compreender que as crises da história e das nossas vidas pessoais não são acidentes absurdos, elas são sinais, alertas! Quando o nosso conforto é abalado, é Deus que nos desperta do nosso torpor. Com efeito, Deus nunca procuraria destruir-nos; mas porque Ele é um Pai, porque nos ama, Ele fará o que for preciso para quebrar as nossas falsas seguranças. Em seguida, a conclusão do texto de Amós de hoje é um clamor de urgência: «…eis como te vou tratar, Israel! …prepara-te para te encontrares com o teu Deus». Portanto, a tempestade não é uma punição, ela é o lugar de um encontro despojado de qualquer artifício. 2. O Cristo dorme: a provação do silêncio divino Entremos agora na barca com os discípulos. O texto nota um detalhe crucial: «os seus discípulos seguiram-no.» Eles estão na obediência, fizeram a escolha radical pedida no domingo passado. E, no entanto, a tempestade eclode: «E eis que o mar se tornou tão agitado que a barca ficava coberta pelas ondas.» É a experiência da submersão existencial, esse momento preciso em que os nossos problemas, as nossas doenças, as nossas rupturas ou as nossas dúvidas se tornam maiores do que a nossa capacidade de os enfrentar… nós afundamos. E no meio de todos esses problemas, o que faz Jesus? Ele dorme. Este sono de Cristo é uma das páginas mais provocantes do Evangelho, pois toca na nossa ferida mais viva: o sentimento da ausência ou da indiferença de Deus diante do nosso sofrimento. Por que dorme Ele? Porque está em perfeita comunhão com o Pai, numa confiança absoluta que não teme o caos. E a boa nova é que o sono de Jesus não é indiferença, mas um convite a entrar na sua própria paz. Mas para os discípulos – e frequentemente para nós também –, esse silêncio é insuportável. Mas, se refletirmos bem, podemos constatar que o problema dos discípulos é que eles medem a situação pelo tamanho das suas ondas e não pelo tamanho da presença daquele que está com eles. De fato, o seu clamor, «Senhor, salva-nos! Estamos perdidos», é uma mistura de oração autêntica e de pânico total: eles creem na Sua potência, mas duvidam da Sua solicitude. 3. Do medo ao temor sagrado: o milagre da confiança A reação de Jesus é surpreendente, porque antes mesmo de acalmar os elementos, dirige-se aos seus discípulos: «Por que tendes medo, homens de pouca fé?» O diagnóstico do Senhor é direto: o contrário da fé não é a descrença intelectual, é o medo que paralisa e que isola. Ter pouca fé é pensar que a nossa destruição é mais provável do que a salvação de Deus; é olhar para a tempestade esquecendo quem está na barca. E, se quisermos, ressoa aqui o eco do domingo anterior: para encontrar a sua vida, é preciso aceitar perdê-la, isto é, colocá-la nas mãos de outra pessoa, aceitar não controlar mais tudo. «Então Jesus, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria.» A exegese deste passo mostra-nos que Jesus utiliza os mesmos termos que nos exorcismos, Ele reprime o caos original, as forças de divisão e de morte que tentam engolir o homem. A estupefação que domina as testemunhas muda de natureza: «Os homens ficaram admirados e diziam: “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?”» Eles passam de um medo de pânico para um temor religioso, uma admiração sagrada. A tempestade cumpriu a sua missão educativa: permitiu aos discípulos passar de um Jesus mestre espiritual para um Jesus Senhor, mestre de tudo. Descobriram que a sua presença no silêncio é mais sólida do que a fúria do mundo. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia coloca-nos novamente diante da realidade da nossa própria barca existencial. Se queremos que esta meditação dê fruto desde hoje, devemos trabalhar pelo menos em duas atitudes: Identificar a nossa tempestade atual: Qual é a área da minha vida (profissional, familiar, interior) que me dá atualmente a impressão de afundar e onde tenho o sentimento de que Deus dorme? Nomeemos esse medo claramente para não o deixar paralisar-nos. Mudar de olhar sobre o silêncio: Em vez de viver o silêncio de Deus como um abandono, decidamos hoje habitá-lo pelo ato de fé. Quando a angústia subir, lembremo-nos de que o primeiro a ter interesse nestas situações é o próprio Deus, porque nós Lhe pertencemos e Ele está dentro da barca. Perder o controle é deixar Jesus assumir o comando. Repitamos simplesmente esta fórmula curta: Senhor, Tu estás aqui, eu confio em Ti. Cessemos de lutar contra as ondas apenas com as nossas forças humanas e deixemos a sua paz assumir o controle. Oração Senhor Jesus, confesso que amo a tranquilidade e que caio em pânico assim que as ondas da vida começam a cobrir a minha frágil barca. No domingo passado, Tu me pedias para Te preferir a tudo e tomar a minha cruz, e hoje, diante do primeiro golpe de vento, já tremo, e frequentemente Te culpo pelo Teu silêncio assim que a tempestade se levanta. Perdoa a minha falta de fé e a minha tendência a acreditar que o mal tem a última palavra. Hoje, ouço o clamor do profeta Amós que me pede para me preparar para Te encontrar. Não quero mais fugir das crises da minha existência, mas quero ver nelas o lugar onde Tu me esperas para purificar o meu apego. Vem visitar os meus medos secretos, as minhas angústias diante do futuro e os meus sentimentos de abandono. Mesmo que pareças dormir na minha vida, dá-me a graça de saber que a Tua presença só basta para me guardar do naufrágio. De pé no coração das minhas tempestades, pronuncia a Tua palavra de paz, acalma as minhas agitações interiores e fortalece a minha fé, a fim de que eu possa testemunhar, diante de um mundo ansioso, que Tu és o Senhor que comanda aos ventos e ao mar. Amém.

  • A solidez da brecha: quando a fraqueza se torna fundação

    (Segunda-feira, 29 de junho, São Pedro e São Paulo - Solenidade) A Libertação de São Pedro, 1514; Raphael Sanzio Raphael Leituras da Missa: At 12, 1-11 ; Salmo 33/34 ; 2 Tm 4, 6-8.17-18 ; Mt 16, 13-19 Há uma estranha ironia na liturgia deste dia. Celebramos as duas colunas da Igreja, Pedro e Paulo, os gigantes da fé, e, no entanto, os textos que lemos só nos falam de algemas, de prisões, de abandonos e de execuções iminentes… De fato, a primeira leitura mostra-nos Pedro adormecido num calabouço, acorrentado, condenado antecipadamente pelo poder de Herodes; e a segunda faz-nos ouvir o canto do cisne de Paulo, confiando o seu isolamento num momento em que todos o abandonaram. A solenidade de hoje coloca-nos diante do paradoxo cristão em todo o seu esplendor: a força de Deus se manifesta naquilo que é fraco. Para compreender, então, por que a Igreja se mantém de pé há dois mil anos apesar das suas misérias, é preciso descer com os apóstolos à verdade da sua condição humana, e veremos que tudo começa com uma pergunta feita na curva de um caminho, em Cesareia de Filipe, uma pergunta que vai fazer tudo mudar. 1. A armadilha das opiniões e o salto da relação No Evangelho deste dia, Jesus começa por interrogar os seus discípulos sobre o que se diz ao redor deles. As respostas surgem – «Uns dizem João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas.» – porque, na verdade, as pessoas precisam de etiquetas, de categorias tranquilizadoras. Identificar Jesus a um profeta do passado é uma maneira educada de o manter à distância e não se comprometer, de o admirar sem se deixar incomodar. É o grande perigo da religião cultural ou intelectual: conhecemos teorias sobre Deus, temos opiniões sobre a Igreja, mas não há nenhum compromisso porque não encontramos Alguém. Então, Jesus estreita o círculo e faz a pergunta direta, aquela que já não admite evasivas: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Essa passagem do “dizem” para o “vós” é o momento mais dramático da vida espiritual: não se pode viver da fé dos outros, não se pode seguir a Cristo por procuração. Jesus não procura informantes, ele procura testemunhas. Ele quer saber se a sua presença mudou alguma coisa no concreto da existência deles. É nesse ponto preciso que Simão toma a palavra, não porque seja o mais inteligente, mas porque é o mais exposto. 2. A revelação recebida na pobreza do coração A resposta de Simão é fulgurante: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo». Imediatamente, Jesus o desengana sobre a origem desta intuição: «…não foi a carne nem o sangue que te revelou isto…». Em suma, Simão não encontrou isso sozinho pelas suas capacidades intelectuais ou pela sua intuição psicológica, porque, com efeito, a fé não é o produto de um raciocínio humano levado ao seu extremo, ela é um dom, uma graça que entra num coração aberto. Jesus chama-o de «Simão, filho de Jonas». Ao fazer isso, Jesus o traz de volta à sua história, à sua humanidade bruta, à sua fragilidade de pescador da Galileia. É como se lhe dissesse: Simão, tu és bem pequeno e, no entanto, o Pai escolheu o teu coração para nele depositar a sua maior verdade. O mistério da Igreja começa assim, não com homens perfeitos que compreenderam tudo, mas com pobres que aceitam receber aquilo que são incapazes de produzir por si mesmos. A alegria de Simão-Pedro, a sua bem-aventurança, não vem da sua própria perfeição, mas do fato de ter sido escolhido como canal de uma presença que o supera. 3. Uma pedra edificada sobre uma brecha É então que Simão recebe o seu novo nome: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja…». E sejamos sinceros: que audácia da parte de Jesus escolher este homem para dele fazer o fundamento! Porque, na verdade, Simão é instável, é impulsivo, jurará alguns versículos mais adiante que recusa a cruz e terminará por renegar o seu Mestre três vezes na noite da Paixão. Se tivéssemos de escolher um chefe para uma instituição duradoura, teríamos procurado um perfil mais gerencial, mais sólido, mais infalível. Mas Deus não pensa como nós. Jesus sabe que a única verdadeira solidez humana é aquela que fez a experiência da sua própria fraqueza e foi salva. A pedra sobre a qual a Igreja é edificada não é a coragem de Simão, mas é a sua fé confessada e as suas lágrimas de arrependimento. E Pedro vai experimentar a sua fraqueza, as suas incoerências…, mas não vai se desesperar como foi o caso do Iscariotes… É porque Pedro sabe que é frágil que ele poderá ser misericordioso com os seus irmãos. E Jesus continua o seu discurso a Pedro dizendo: «…e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela», mas não porque os cristãos são fortes, mas porque o Cristo ressuscitou. A Igreja é esta construção mística onde a solidez divina utiliza a fragilidade humana para manifestar que tudo vem da Graça. 4. As chaves do Reino e o poder de libertar O texto termina com Jesus confiando a Pedro as chaves do reino dos Céus, com o poder de ligar e de desligar. Em linguagem bíblica, isso significa a responsabilidade de guiar, de ensinar, mas sobretudo de abrir e de fechar as portas da misericórdia. Ligar e desligar é trazer o homem de volta à liberdade que o pecado lhe roubou; este poder não é um privilégio de dominação, pelo contrário, é um serviço de uma importância absoluta. Vemos a ilustração concreta disso na primeira leitura. Pedro está na prisão, acorrentado, condenao. Herodes pensa ter fechado todas as saídas. Mas a Igreja reza com insistência e Deus envia o seu anjo, as correntes caem, as portas de ferro abrem-se por si mesmas; na verdade, o ministério de Pedro é proclamar ao mundo que, para Deus, nenhuma situação está jamais definitivamente bloqueada. Portanto, voltemos agora às nossas existências, à nossa vida concreta: as prisões das nossas vidas, as nossas culpabilidades, os nossos fechamentos interiores encontram a sua chave no perdão que a Igreja transmite, na oração da igreja e pela Graça, a Presença de Deus que nela habita. Como Paulo no fim da sua vida, podemos dizer: «O Senhor assistiu-me (…) Fui libertado da boca do leão…» A libertação de Pedro na sua prisão é a profecia daquilo que Deus quer fazer por cada um de nós quando nos confiamos a ele. Conclusão e aplicação para o nosso dia A solenidade de São Pedro e São Paulo convida-nos a sair das generalidades para entrar numa decisão pessoal. O Cristo, com efeito, não nos pede para sermos perfeitos para o seguir, ele pede-nos para sermos verdadeiros. Portanto, a partir desta Palavra da Liturgia, hoje, podemos encarná-la por gestos simples e concretos. Tiremos um momento de silêncio hoje para escutar Jesus perguntar-nos: E para ti, quem sou eu? Não respondamos com frases feitas. Digamos-lhe o que ele representa realmente no nosso quotidiano, no meio das nossas alegrias e dos nossos combates; não tenhamos medo de Lhe expor toda a nossa fraqueza. E em seguida, se houver uma área da nossa vida onde nos sentimos acorrentados, bloqueados pelo medo, pelo pecado ou pelo desânimo, depositemo-la na oração da Igreja… às vezes, o que nos falta é simplesmente uma comunidade que possa rezar por nós e connosco. Dai, então, o passo de vos aproximardes um pouco mais da vossa comunidade paroquial, tornai-vos Igreja segundo o batismo que todos nós recebemos, esta Igreja edificada sobre pessoas imperfeitas, incoerentes, mas que está lá! E creiamos que a potência de Deus, que pela sua Igreja que reza em unidade, pode fazer cair as nossas correntes e abrir as nossas portas de ferro. Oração Senhor Jesus, Tu não escolheste anjos ou homens perfeitos para guiar a Tua Igreja, mas pousaste o Teu olhar sobre Simão, o pescador frágil, e sobre Saul, o perseguidor. Transformaste as suas feridas em fontes de bênção e as suas fraquezas em colunas de fé. Hoje, Tu aproximas-te de mim e perguntas-me: E para ti, quem sou eu? Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes bem que Te amo, mas Tu sabes também o quanto sou mudável, o quanto tenho medo do olhar dos outros e do sofrimento. Confesso-Te como meu Senhor e meu Deus, o Filho do Deus vivo. Vem edificar a Tua morada sobre a pobreza do meu coração. Quando me sinto encerrado nas minhas cobardias ou nas minhas dúvidas, envia o Teu anjo para me acordar, me fazer levantar e fazer cair as minhas correntes. Que a Tua graça me liberte para que, como Paulo, eu possa combater o bom combate, terminar a minha carreira guardando a fé e testemunhar que a Tua misericórdia é mais forte que a morte. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela sua atenção, espero que minhas meditações possam realmente ajudá-lo em sua jornada rumo ao Senhor, e não hesite em interagir e compartilhar suas reações nos comentários: sua interação serve aos algoritmos do Google para tornar este site mais relevante e fácil de encontrar. mais recomendado na página de busca... e ainda mais, isso enriquece a reflexão, incentiva irmãos e irmãs e me ajuda a me adaptar melhor às suas necessidades. 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  • O vazio hospitaleiro e o paradoxo da vida doada

    (13o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O Profeta Eliseu e a esposa de Shunem - G. van den Eeckhout (1664) Leituras da Missa: 2 Rs 4, 8-11.14-16a ; Salmo 88/89 ; Rm 6, 3-4.8-11 ; Mt 10, 37-42 A liturgia deste décimo terceiro domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma das exigências mais radicais e, paradoxalemente, mais libertadoras de todo o Evangelho. De fato, estamos no contexto em que Jesus conclui o seu grande discurso apostólico fixando as condições para o seguimento de Cristo, para ser seu discípulo. À primeira vista, as suas palavras têm o que congelar o coração, porque Ele fala de ruptura familiar, de ódio à própria vida e do carregar da cruz. Mas, se escutarmos esta Palavra com o ouvido do coração, descobrimos que não se trata de um apelo à destruição dos nossos afetos humanos, mas de um convite a entrar na ordem da verdadeira vida. Para compreender esta radicalidade evangélica necessária – porque tudo o que é sério exige determinação –, a primeira leitura do segundo livro dos Reis oferece-nos uma chave fundamental através da história da Sunamita: o acolhimento de um profeta torna-se o lugar de um renascimento, a continuidade da vida – visto que o Antigo Testamento ainda não conhece a ressurreição –, mostrando-nos que a vida só brota lá onde se aceita abrir espaço para o Outro. 1. Abrir espaço: a lógica do pequeno quarto no terraço Olhemos primeiro para esta mulher de Sunam. A Escritura descreve-a como rica, mas a sua verdadeira riqueza não é material, mas sim a sua capacidade de atenção. Ela percebe que o homem que passa sob as suas janelas é um santo homem de Deus; ela não procura agarrá-lo, retê-lo pela força ou instrumentalizá-lo, não! Ela diz simplesmente ao seu marido: «façamos-lhe um pequeno quarto.» Ela cria um vazio, um espaço gratuito, mobiliado com o estrito necessário: uma cama, uma mesa, uma cadeira, uma lâmpada. Esta atitude traz uma forte mensagem para a vida espiritual: acolher a Deus é aceitar fazer espaço nos nossos dias cheios, nas nossas mentes saturadas e nos nossos corações cheios de nós mesmos: é preciso abrir-Lhe espaço! Partilho convosco uma experiência: escuto frequentemente pessoas que me dizem: “mas eu não tenho tempo para..., sou incapaz de... não posso...” Portanto, que fique claro: é preciso abrir-Lhe espaço! É preciso fazer Deus entrar na tua vida, e isso faz-se concretamente fazendo-O entrar na nossa agenda: é preciso encontrar um espaço para Deus, e «quando ele vier à nossa casa, poderá retirar-se ali.» Mas a atitude da Sunamite é extraordinária, sublime, porque ela não espera nada em troca, ela oferece a hospitalidade por puro amor à santidade: isso significa buscar o Senhor, oferecer-Lhe um espaço na nossa vida gratuitamente! E é precisamente neste vazio oferecido, nesta gratuidade absoluta, que o milagre vai inserir-se. Ela não tinha filhos, o seu futuro era estéril, bloqueado pela velhice do seu marido, mas esta dificuldade é superada porque, ao acolher o profeta, ela acolhe a vida. Esta é a primeira grande lição deste dia: Deus nunca se deixa vencer em generosidade, e cada espaço que Lhe cedemos na nossa existência torna-se o berço duma fecundidade inesperada. 2. A ordem dos amores: quando o melhor se torna inimigo do bem No Evangelho, Jesus retoma esta ideia de acolhimento, mas leva-a até à sua raiz mais íntima. Ele diz: «Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim». Estas palavras podem escandalizar-nos se as lermos de maneira superficial. Mas reflitamos bem, porque nós conhecemos bem Jesus Cristo: então o Cristo exigiria o desprezo ao quarto mandamento? Certamente que não! O que Ele faz aqui é repor o amor no seu devido lugar. Santo Agostinho explicava que a virtude consiste precisamente na ordem do amor, o ordo amoris. Quando amamos um ser humano, mesmo o mais próximo – porque obviamente amar alguém é bom, faz-nos bem –, há um grande risco, porque temos a tendência natural de absolutizá-lo e, ao fazer isso, transformamos esse amor num ídolo. Pedimos-lhe para preencher um vazio que só Deus pode preencher: eis por que somos frequentemente decepcionados nas nossas relações. Portanto, amar alguém mais do que a Cristo é condenar essa pessoa a carregar o peso insuportável da nossa necessidade de salvação. E, se refletirmos bem, não é justo amar alguém assim, porque ninguém nos pode salvar, ninguém pode ser encarregado dessa responsabilidade, porque ninguém é capaz disso! Jesus, colocando as coisas em ordem, liberta-nos dessa ilusão. Ao exigir a primazia, Ele não destrói os nossos amores humanos: Ele purifica-os! Quando Deus está em primeiro lugar, tudo o resto encontra a sua posição correta, e só então podemos amar os nossos pais, os nossos filhos e os nossos cônjuges não mais pelo que eles nos trazem ou para preencher as nossas faltas, mas pelo que eles realmente são, na liberdade e na gratuidade. 3. O segredo da cruz: perder para possuir O Cristo prossegue com uma frase que resume toda a existência cristã: «aquele que não toma a sua cruz não é digno de mi». E atenção, porque a cruz não é a busca mórbida do sofrimento: a cruz é o preço do amor vivido até ao fim, na fidelidade. A cruz é a recusa do compromisso com o egoísmo; é aceitar a renúncia para permanecer fiel à verdade e ao seguimento do Mestre. Jesus continua e formula aqui um paradoxo existencial absoluto: «quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa achá-la-á». Esta é a lei fundamental do grão de trigo que cai na terra e deve morrer: enquanto procuramos reter a nossa vida, segurá-la, acumulá-la para nós mesmos, deixamo-la morrer de fome e de esterilidade. A vida humana só se realiza quando se doa, quando aceita perder-se por algo maior. Querer salvar a própria vida implica absorver/consumir e, portanto, instrumentalizar, aproveitar-se de tudo e de todos os que estão ao nosso redor, porque é preciso que eu salve a minha vida... Mas o Batismo introduz-nos numa realidade, numa lógica nova: São Paulo, na segunda leitura, lembra-nos que pelo batismo passamos pela morte com o Cristo: «fomos sepultados com ele pelo batismo na morte, para que caminhemos numa vida nova». Esta vida nova não é uma simples melhoria moral, é a própria existência do Ressuscitado que corre em nós, uma vida que não teme mais a perda porque está ancorada em Deus. «E se já morremos com Cristo...» se, como Ele, doamos a nossa vida, «...cremos que também viveremos com ele.» Passar da morte para a vida, eis a vida ordinária do batizado: «assim também vós considerai-vos mortos para o pecado…» para o orgulho, para o egoísmo, «…mas vivos para Deus em Cristo Jesus», prontos para amar, para dar a vida. 4. O sacramento do outro: a teologia do copo de água fria Finalmente, o Senhor traz esta alta teologia da cruz para gestos de uma simplicidade desarmante, continuando ao dizer: «Quem vos recebe, a mim recebe». Jesus identifica-se com os seus enviados, com os mais pequenos dos seus discípulos! Isso significa que o grande mistério da Encarnação se prolonga no mistério da Igreja e do próximo. E Jesus continua ainda fazendo-nos compreender que não nos pede façanhas sobre-humanas para entrar no seu Reino, Ele pede-nos para saber acolher, saber dar um copo de água fria: «E qualquer que tiver dado de beber, apenas que seja um copo de água fria, a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão». Jesus diz «apenas que seja um copo de água fria». Por que insistir na frescura da água? Porque a água fria exige atenção, um cuidado imediato, uma delicadeza para com aquele que tem sede no momento presente. O cristianismo não é uma ideologia abstrata, não é o "fazer porque tem de ser feito", mas é uma mística do quotidiano que se joga na qualidade do nosso olhar, na atenção ao outro. Acolher um discípulo na sua qualidade de discípulo é reconhecer o Cristo nele. Cada vez que quebramos a nossa indiferença para nos voltarmos para o mais pequeno, é o quarto da Sunamite que reconstruímos no terraço do nosso coração, pedindo a Jesus para ali ficar. E a promessa que Jesus faz é solene: «de modo algum perderá o seu galardão». Este galardão é a Presença, a vida, a própria alegria de Deus que vem habitar em nossa casa. Conclusão e application para o nosso dia A Palavra de Deus deste domingo mexe com as nossas lógicas de autopreservação. Ela pergunta-nos como estamos com os nossos apegos e os nossos espaços de gratuidade. No decorrer desta semana, podemos atualizar esta Palavra através de duas atitudes concretas: Organizar o nosso pequeno quarto interior: Criemos espaço, tiremos tempo todos os dias para cortar o barulho do mundo e deixar um lugar para o Senhor. Dez minutos de silêncio, uma leitura pausada da Palavra, são essa mesa e essa lâmpada oferecidas ao Profeta para que venha fecundar a nossa vida. Praticar a hospitalidade do quotidiano: Estar atentos àqueles que cruzam o nosso caminho. O copo de água fria pode ser uma escuta paciente, um sorriso a uma pessoa isolada ou a recusa de julgar. Aprendamos a perder um pouco do nosso tempo para ganhar a vida eterna. Oração Senhor Jesus, a Tua Palavra bouscula-me e coloca em luz os meus medos profundos. Tenho tantas vezes medo de perder, de faltar, de não ser suficientemente amado, e agarro-me às minhas seguranças, aos meus afetos e ao meu tempo como se me pertencesssem. Dá-me a coragem da Sunamite. Ajuda-me a abrir espaço na minha vida, a construir esse quarto de silêncio e de acolhimento onde Tu podes descansar e falar-me. Purifica os meus amores, Senhor. Ensina-me a amar aqueles que me confiaste não para mim mesmo, mas em Ti e por Ti, a fim de que as nossas relações sejam livres e portadoras de vida. Ajuda-me a tomar a minha cruz todos os dias, sem murmuração, sabendo que morrer para o meu egoísmo é o único caminho para ressuscitar contigo. Abre os meus olhos para os mais pequenos, para os sedentos do meu quotidiano, para que eu saiba oferecer-lhes esse copo de água fria que Te consola. Entrego a minha vida nas Tuas mãos, certo de que, se a perder por Ti, a reencontrarei para a eternidade. Amém. __________________________________________________________________________________________________ Obrigado pela vossa atenção, espero que as minhas meditações possam realmente ajudar-vos no vosso caminho rumo ao Senhor, e não hesiteis em interagir e partilhar as vossas reações nos comentários: sua interação serve aos algoritmos do Google para tornar este site mais relevante e fácil de encontrar, mais recomendado na página de pesquisa... e ainda mais, isso enriquece a reflexão, encoraja os irmãos e irmãs e me ajuda a me adaptar melhor às suas exigências. Você também pode se inscrever na newsletter e, assim, posso lhe enviar todos os dias um e-mail com o link da meditação do dia. Mas cuidado, porque a primeira vez que eu te enviar o e-mail, ele provavelmente vai cair na caixa de spam (correio eletrônico). Que Deus o abençoe. Desejo-lhe um dia muito feliz.

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