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- A arte de se manter de pé na tempestade
(Terça-feira, 15a Semana do Tempo Comum) Le Christ pleurant sur Jérusalem, 1851, Ary Scheffer Leituras da Missa: Is 7, 1-9 ; Salmo 47/48 ; Mt 11, 20-24 No domingo anterior, a liturgia nos advertia contra o perigo de um coração superficial, esse solo rochoso onde a Palavra brota rapidamente sob o efeito de um fervor passageiro, mas se apaga assim que surge o calor da provação, porque lhe faltam raízes profundas. Ontem ainda, o Evangelho introduzia o gládio da verdade para cortar as nossas falsas pazes interiores. Hoje, as leituras nos fazem dar um passo a mais nesta escola da profundidade: diante das ameaças históricas que abalam o rei Acaz ou diante das repreensões severas que Jesus dirige às cidades da Galileia, descobrimos uma verdade fundamental: descobrir que o nosso verdadeiro drama não é a intensidade da tempestade exterior, mas a nossa recusa de nos enraizarmos em Cristo. 1. O pânico do coração sem raízes O texto de Isaías nos mergulha no coração de uma crise geopolítica maior. O pequeno reino de Judá vê Jerusalém cercada por uma coalizão temível: o reino de Israel (o reino do Norte) e o de Arame (a Síria). O plano dos agressores é simples: derrubar o rei Acaz para instalar em seu lugar um soberano dócil, capaz de se juntar a eles na sua guerra contra o ogro assírio. Diante desta ameaça asfixiante, a Bíblia utiliza uma imagem de uma força psicológica marcante: «Então o coração do rei e o coração do seu povo ficaram agitados, como as árvores da floresta são agitadas pelo vento.» É o retrato exato do pânico e da ansiedade que nos submergem assim que os nossos apoios visíveis desaparecem. Quando as nossas seguranças ordinárias — a saúde, as finanças, uma relação ou um projeto de vida — começam a vacilar, tornamo-nos precisamente como essas árvores agitadas pela tempestade. A mente tomada pelo medo nos faz esquecer que as nossas raízes profundas não dependem das circunstâncias exteriores, mas d'Aquele que tem a história entre as suas mãos. O profeta Isaías é enviado ao encontro do rei com uma instrução surpreendente: «Garante o teu calmo, não temas, não vás perder o coração». Humanamente, é uma loucura: como permanecer calmo quando o inimigo está às portas? Eis que Isaías introduz o olhar de Deus sobre a história: esses reis que aterrorizam Acaz não passam, para Deus, de dois pedaços de tições fumegantes, como nos diz o texto; eles fazem muita fumaça, impressionam, mas já não têm fogo, já estão consumidos. O problema do rei Acaz é que ele olha para a potência dos seus inimigos em vez de olhar para a fidelidade do seu Deus. A nossa ansiedade é quase sempre o sintoma de um olhar fixado no problema e não na Promessa; isto é, apresentamos sempre a Deus o tamanho dos nossos problemas, em vez de apresentar aos nossos problemas a grandeza do nosso Deus. 2. Crer para sustentar: o segredo da estabilidade É neste contexto que Isaías pronuncia esta frase que é uma das mais belas definições de fé de todo o Antigo Testamento: «Se não crerdes, não podereis subsistir.» Em hebraico, há um jogo de palavras intraduzível, mas magnífico, baseado na raiz amân (אָמֵן), que deu origem à nossa palavra Amém. O profeta diz literalmente: Im lo taaminou, ki lo teamenou (אִ֚ם לֹ֣א תַאֲמִ֔ינוּ כִּ֖י לֹ֥א תֵאָמֵֽנוּ׃ ס), que traduzido seria: «Se não vos apoiais em Deus, não sereis estáveis». A Fé, na Bíblia, não é uma simples adesão intelectual a verdades abstratas ou um sentimento piedoso, não! A Fé é o gesto concreto de colocar todo o peso da sua existência sobre alguém sólido. É a atitude do lactente que se abandona nos braços de sua mãe, ou do escalador que confia na sua corda. Se recusamos esse ancoradouro, passamos a nossa vida a buscar apoios/muletas humanas, alianças políticas ou psicológicas para nos tranquilizar. Mas quem já conhece a história sabe bem que o rei Acaz acabará por recusar a confiança em Deus para se aliar com o outro inimigo, os temíveis assírios, introduzindo assim o lobo no redil. A sabedoria bíblica quer fazer-nos compreender que cada vez que escolhemos resolver os nossos medos por compromissos mundanos em vez de pela confiança radical em Deus, preparamos a nossa própria ruína: a Fé é o único solo que não desaparece sob os nossos pés. 3. O paradoxo da indiferença diante dos milagres Esta falta de fé e de ancoragem profunda toma um rosto ainda mais trágico no Evangelho, onde Jesus pronuncia invectivas duma severidade inédita contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum. O que fizeram elas de tão horrível para merecerem ser comparadas a Sodoma, o símbolo bíblico da perversão? Nada, justamente, elas não fizeram nada: não perseguiram Jesus, não o expulsaram… Com efeito, elas simplesmente assistiram aos seus milagres, escutaram os seus ensinamentos, acharam isso admirável... e continuaram a sua vida como antes, sem que nada mudasse. De fato, Cafarnaum tinha se tornado a própria cidade de Jesus, o lugar do seu quotidiano, lá onde a manifestação da sua divindade tinha se tornado habitual, e é justamente esse o problema. Com efeito, o grande perigo das pessoas piedosas, dos familiares da religião, é o costume: habituamo-nos à graça, habituamo-nos à Missa, habituamo-nos à Palavra de Deus… Então, a ação quotidiana de Deus, os milagres, tornam-se eventos banais que divertem a nossa curiosidade, mas já não tocam o nosso coração… A pior das fechaduras espirituais não é a revolta, mas a indiferença das pessoas instaladas; Tiro, Sidônia e Sodoma, se tivessem visto o que Cafarnaum viu, «essas cidades, outrora, teriam se convertido sob o saco e a cinza», sinais de uma conversão radical. A repreensão de Jesus, portanto, é um apelo premente a sair do nosso sonambulismo espiritual; a profusão de graças que recebemos empenha a nossa responsabilidade. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Liturgia de hoje oferece-nos a ocasião de fazer uma escolha consciente. No nosso quotidiano, somos inevitavelmente confrontados com pequenos ou grandes ventos contrários que tentarão agitar o nosso coração. A Palavra de Deus convida-nos a não buscar a salvação em agitações estéreis ou consolações superficiais, porque, na verdade, manter-se de pé não depende da ausência de dificuldades, mas da qualidade da nossa Fé. Hoje, diante duma situação que me inquieta ou me irrita, posso decidir parar, pronunciar um Amém consciente e dizer: «Sehor, não sei como as coisas vão se resolver, mas escolho apoiar-me em Ti.» Não deixemos que a graça deste dia se torne apenas mais um hábito vão. Oração Senhor Jesus, o meu coração é tantas vezes como as árvores da floresta, agitado e aterrorizado pelos ventos da inquietude e pelas ameaças da vida quotidiana. Reconheço que frequentemente busquei construir para mim fortalezas de ilusões, apoiando-me nas minhas próprias forças ou em seguranças frágeis que acabam sempre por me decepcionar. Hoje, quero ouvir o Teu convite para guardar a calma e não perder o coração. Peço-Te a graça de uma fé autêntica, aquela que não pede milagres para se divertir, mas que se abandona humildemente à Tua vontade. Cura-me da indiferença e da tibieza que me fazem olhar para os Teus benefícios sem que a minha vida mude. Vem cavar em mim essas raízes profundas que me permitirão atravessar todas as tempestades, com os olhos fixos em Ti, minha única cidadela inabalável. Amém.
- A Espada da Verdade
(Segunda-feira, 15a Semana do Tempo Comum) Jesus expulsando os mercadores do Templo é um quadro realizado pelo pintor flamengo Jacob Jordaens em 1645-1650 Leituras da Missa: Is 1, 10-17 ; Salmo 49/50 ; Mt 10, 34 – 11, 1 O Evangelho desta segunda-feira da 15ª semana do Tempo Comum vem sacudir uma forma de torpor. Ontem, a liturgia lembrava-nos a importância da escuta, desse terreno interior que deve acolher a semente sem se deixar sufocar, enquanto hoje, a Palavra de Deus passa à ação concreta colocando uma pergunta de fundo: qual é a natureza real do nosso apego a Cristo? O profeta Isaías, na primeira leitura, começa com uma constatação sem concessões sobre a religião de fachada, enquanto Jesus, no Evangelho de hoje, conclui as suas instruções aos discípulos com palavras que cortam como uma lâmina: não se trata de uma ameaça, mas de um ato de amor de uma imensa lucidez. 1. O recuso do culto estético O profeta Isaías utiliza palavras de uma forte violência da parte de Deus. Com efeito, Ele dirige-se aos chefes e ao povo comparando-os a Sodoma e Gomorra, não por causa de uma ausência de piedade, mas precisamente por causa de um excesso de piedade exterior que serve de para-vento para a injustiça. Deus diz que tem horror ao incenso, que está cansado das festas e dos sacrifícios. E por que essa atitude tão colérica da parte de Deus? Porque as mãos daqueles que rezam estão cheias de sangue. Na exegese bíblica, o termo utilizado para as “vãs oferendas” (minchah shav, מִנְחַת־שָׁ֔וְא) evoca um culto vazio, mentiroso, sem valor, portanto, uma tentativa de manipular a divindade oferecendo-lhe coisas para evitar oferecer-Lhe a própria vida. O salmo 49 vem apoiar essa ideia: Deus não precisa dos nossos animais, tudo lhe pertence (cf. v10-13). O que Ele deseja – o que está bem descrito no último parágrafo do Salmo de hoje –, é um sacrifício de ação de graças, isto é, uma existência vivida no reconhecimento e na retidão: «A quem procede retamente, eu mostrarei a salvação de Deus» recitamos no refrão. Portanto, a primeira leitura de hoje coloca-nos o diagnóstico: o nosso drama espiritual começa quando separamos a liturgia da vida, quando a oração se torna um rito estético que nada muda na nossa maneira de tratar o fraco, o órfão ou a viúva, isto é, o próximo em situação de necessidade. 2. O gládio que separa a ilusão da realidade É sobre este fundo de conversão radical que ressoa a palavra de Jesus: «Não penseis que vim trazer a paz à terra: não vim trazer a paz, mas a espada.» Estas palavras chocam a nossa sensibilidade moderna, nós que procuramos frequentemente na religião um calmante, um espaço de bem-estar morno. O termo grego utilizado aqui para a espada é machaira (μάχαιρα), uma espada curta, uma arma encurvada para o combate corpo a corpo que serve para cortar nitidamente. O Cristo não é um tirano que vem quebrar as famílias por prazer, não! Mas Ele constata uma realidade espiritual: a verdade do Evangelho introduz uma divisão necessária lá onde reinava uma falsa paz. O que é essa falsa paz? É o pacto que fazemos com o mundo, com os nossos compromissos, com o "o que vão dizer", ou mesmo com os afetos humanos quando estes se tornam ídolos. Se a paz significa calar-se diante da mentira para não criar dificuldades, para não preocupar, então Jesus recusa essa paz. A espada/gládio de Cristo é a sua Palavra que penetra, como dirá mais tarde a epístola aos Hebreus, até à divisão da alma e do espírito, para revelar as intenções do coração (cf. carta aos Hebreus 4,12-13). Jesus vem separar o que é da vida do que é da morte, o que é segundo a verdade do que é segundo a mentira. 3. A ordem do amor e o mistério da cruz Jesus prossegue tocando naquilo que temos de mais caro, isto é, as relações familiares. «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim.» Santo Agostinho explicava magnificamente que não se trata de amar menos os seus entes próximos, mas de os amar na ordem correta: se os nossos apegos humanos, por mais legítimos que sejam, se tornam o absoluto da nossa vida, transformam-se em prisões. Ser digno do Cristo é aceitar que só Ele seja o centro de gravidade da nossa existência, e é unicamente a partir desta centralidade que podemos enfim amar os outros não mais pelo que eles nos trazem ou para preencher um vazio, mas com um amor livre e puro. É nesse ponto que ganha sentido o convite a tomar a sua cruz: a Cruz não é a busca mórbida do sofrimento, mas é o preço da fidelidade ao Amour. Neste Evangelho, então, Jesus faz-nos um alerta: quem quer salvar a sua vida a todo o custo, evitando o conflito da verdade, acaba por perdê-la na insignificância; mas aquele que aceita perder a sua segurança por amor ao Cristo descobre uma vida recebida do alto, inabalável, que até mesmo um simples copo de água dado ao mais pequeno vem selar para a eternidade. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta página do Evangelho convida-nos a fazer a verdade sobre as nossas motivações profundas. Então hoje, podemos perguntar-nos: onde estão os meus compromissos? Quais são as falsas pazes que mantenho na minha vida para evitar tomar posição pelo Cristo? O gládio da Palavra não vem para nos ferir, mas para nos libertar dos nossos ídolos e das nossas práticas religiosas superficiais. A verdadeira paz, então, não é a ausência de combate, mas a presença do Cristo no mais forte da tempestade. Escolher o Cristo em primeiro lugar é aceitar que certas relações ou situações sejam mexidas, mas é o único caminho necessário para que a nossa vida dê um fruto autêntico. Oração Senhor Jesus, o Teu amor é exigente porque é verdadeiro. Peço-Te hoje que deixes o Teu gládio de verdade atravessar o meu coração. Perdoa-me por todas as vezes em que busquei uma piedade confortável, uma religião de superfície que nada me custa e não muda o meu olhar sobre os outros. Dá-me a coragem de Te colocar em primeiro lugar, acima das minhas seguranças, das minhas reputações e até dos meus afetos mais preciosos. Ensina-me a perder a minha vida por amor a Ti, para a receber das Tuas mãos, purificada e radiante. Que o meu dia seja uma sequência de pequenas escolhas concretas de justiça, de verdade e de acolhimento do Teu Reino. Amém.
- A extrema generosidade do Semeador e o trabalho do solo
(15o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O semeador, c.1888, Vincent van Gogh Leituras da Missa: Is 55, 10-11 ; Salmo 64/65 ; Rm 8, 18-23 ; Mt 13, 1-23 Há uma forma de desperdício divino que deveria saltar aos nossos olhos cada vez que lemos o Evangelho, e particularmente neste décimo quinto domingo do Tempo Comum. De fato, estamos tão habituados à parábola do semeador que esquecemos o quanto o comportamento deste camponês é paradoxal, até mesmo provocador para a nossa mentalidade de eficácia e de rentabilidade. Quem jogaria grão sobre o asfalto, entre as pedras ou no meio dos espinhos? No entanto, é exatamente assim que Deus age conosco. Para entrar plenamente no mistério desta página, precisamos levantar os olhos para a promessa que o profeta Isaías formulava na primeira leitura. Deus afirma ali que a sua palavra nunca volta para ele sem efeito, sem ter feito germinar a terra. A Palavra de Deus não é uma simples informação ou uma moral a mais, mas ela é um evento que realiza sempre aquilo para o qual foi enviada. Na língua hebraica, a palavra Dabar (דָּבָר) significa ao mesmo tempo palavra e ação, o que significa que quando Deus fala, Ele faz. Portanto, pensar que a Palavra de Deus depende unicamente das nossas competências ou da nossa santidade é uma sutil tentação de orgulho. A ligação entre estes dois textos – a primeira leitura e o evangelho – é o pivô da nossa fé: a Palavra tem uma eficácia intrínseca, uma força de ressurreição absoluta. Mas então, por que o Evangelho nos mostra tantos fracassos aparentes? Por que esta Palavra, que carrega em si a potência da chuva de Isaías, acaba às vezes sufocada ou ressecada? A resposta não se encontra na potência do grão, mas no estado da nossa liberdade. Deus é um semeador pródigo que recusa selecionar os corações antes de amá-los. 1. O caminho ou o perigo da distração superficial O primeiro terreno descrito por Jesus é o caminho, a beira do caminho. Não se trata de uma terra ruim em si, mas é simplesmente uma terra pisoteada, tornada impermeável de tanto ver todo o mundo passar. Isso descreve bem a nossa vida quando a deixamos tornar-se um lugar de passagem pública, sem intimidade, sem interioridade. Quando a Palavra cai no caminho, ela fica na superfície, e as aves do céu, que o Cristo identifica com o Maligno, não têm nenhum esforço a fazer para se apoderar dela. O drama da nossa época não é, frequentemente, uma hostilidade consciente em relação a Deus, mas uma distração crônica que torna o espírito impermeável. É impressionante ver como há pessoas que nos escutam maravilhadas, mas nada muda: elas nos agradecem, mas tudo termina aí; mas nós também podemos nos encontrar nesta mesma situação. De fato, vivemos no barulho, na urgência, no desfile incessante de informações e de imagens, o que faz com que a nossa interioridade se endureça de tanto ser pisoteada por tantas solicitações. A consequência é que a Palavra não penetra porque não há mais espaço de silêncio para acolhê-la. É o perigo de uma fé puramente intelectual ou de uma prática de hábito e de rituais sem vida quase automatizados, onde se ouvem as palavras sem nunca deixá-las descer à profundidade da nossa existência real, das nossas feridas e dos nossos desejos profundos. 2. O solo pedregoso ou a tentação da emoção sem raiz O segundo solo é mais enganoso, o solo pedregoso, porque há um pouco de terra, a semente brota muito rápido e o entusiasmo é imediato. É a figura do crente que vive a sua fé ao sabor das suas emoções: enquanto o clima é caloroso, a liturgia é bela e a vida sorri, a fé parece radiante. A exegese bíblica nos ajuda a compreender que Jesus não fala de uma terra com pedras soltas; o termo grego utilizado no Evangelho é to petrôdes (το πετρώδες), que designa precisamente uma configuração geológica típica da Palestina, e particularmente da Galileia: uma placa de rocha calcária contínua, situada a apenas alguns centímetros abaixo da superfície do solo, sob uma fina camada de húmus. A raiz não pode descer. Num terreno como este, assim que o sol queima — isto é, assim que surgem a provação, o luto, a secura espiritual ou a simples monotonia do quotidiano — a planta seca. Portanto, uma fé que não ganha raiz na vontade e no compromisso fiel não pode sobreviver à crise. O Cristo, então, nos adverte que a vida cristã comporta a sua parte de tribulação. Se a nossa relação com Deus repousar apenas sobre o bem-estar espiritual que ela nos proporciona, capitularemos ao primeiro golpe de vento. O calcário interior, então, deve ser quebrado pela escolha consciente de permanecer fiel, mesmo na noite da fé. 3. Os espinhos ou a armadilha da divisão do coração O terceiro terreno está congestionado. A semente penetra nele, as raízes crescem, mas ela deve partilhar o espaço com espinhos que Jesus identifica claramente: os cuidados do mundo e a sedução da riqueza. É o drama do coração dividido: queremos Deus, mas queremos também manter o controle absoluto sobre a nossa segurança material e a nossa reputação. A palavra "cuidado" aqui não designa a justa responsabilidade humana – de fato, Jesus não condena o mundo em si, nem o trabalho, nem as necessidades da vida quotidiana –, mas essa angústia que corrói e que impele a buscar a salvação nas coisas deste mundo. Os espinhos sufocam a Palavra ao tirarem dela a sua luz e o seu oxigênio. Encontramo-nos então com uma fé asfixiada, incapaz de dar fruto ou de tomar escolhas proféticas. Não se pode servir a dois senhores, não porque Deus seja ciumento no sentido humano, mas porque o nosso coração é pequeno demais para conter ao mesmo tempo o infinito do seu amor e a obsessão dos nossos ídolos de segurança. Portanto, para que a semente cresça, não basta rezar mais; é preciso aceitar podar, cortar os espinhos da dispersão/distração para devolver ao Cristo a primazia da nossa atenção. 4. A boa terra e a lógica do cêntuplo Chega enfim a boa terra. O que a torna boa? Não é a ausência de fraquezas ou uma pureza moral impecável, mas uma terra que foi arada, revolvida, aberta; é o coração daquele «que ouve a Palavra e a compreende», diz-nos Jesus. Compreender, no sentido bíblico, não é simplesmente captar com a inteligência, é "tomar em si", abraçar a Palavra ao ponto de deixá-la reconfigurar as nossas prioridades. Esta boa terra produz fruto de maneira variada: cem, sessenta ou trinta por um. O Cristo respeita o ritmo e a capacidade de cada um, o essencial é a fecundidade. Como lembrava Isaías, na primeira leitura, a chuva não volta ao céu sem ter fecundado o solo. Quando cedemos à Palavra, quando aceitamos que Deus are as nossas certezas, a nossa vida torna-se milagrosamente fecunda, bem além das nossas capacidades naturais. Esta fecundidade não é um sucesso humano, ela é o transbordamento da vida divina em nós. Conclusão e aplicação para a vida A mensagem deste domingo é um apelo a passar de uma postura de espectador da Palavra para a de um artesão do nosso próprio solo espiritual. O Semeador já deu tudo, a semente é perfeita e o sol da sua graça brilha sem distinção sobre cada um de nós. A questão nunca é: "Onde está Deus?", mas antes: "Como estou eu em relação à minha terra?". Durante esta semana que se abre, podemos realizar atos concretos para trabalhar o nosso solo: Contra o caminho pisoteado, decidamos preservar cada dia cinco ou dez minutos de silêncio estrito após a leitura dos textos da liturgia do dia, sem telefone nem distração, para deixar a Palavra descer em nós. Contra a terra rochosa, escolhamos a fidelidade à oração mesmo que não "sintamos" nada, pois é na secura que as raízes se aprofundam mais longe. Contra os espinhos, identifiquemos a inquietação material ou o cuidado com o olhar dos outros que nos paralisa, e entreguemo-lo explicitamente à misericórdia de Deus. Oração Senhor Jesus, Semeador infatigável e paciente, eu te agradeço por tua louca confiança. Tu conheces as minhas durezas, as minhas leviandades e estes espinhos que, demasiadas vezes, invadem os meus dias, e no entanto continuas a lançar de mãos cheias o grão precioso de tua Palavra no segredo de minha alma. Peço-te hoje a graça de um coração aberto. Vem arar em mim o que se endureceu ao longo das decepções e dos hábitos. Quebra a rocha das minhas superficialidades para que a minha fé não dependa apenas das minhas emoções, e dá-me a coragem de cortar os espinhos da ansiedade que me sufocam. Faz de mim, passo a passo, uma terra humilde, hospitaleira e fecunda, capaz de fazer amadurecer o teu tempo de amor para a alegria do mundo e a glória de teu Nome. Amém.
- O segredo do cêntuplo: quando perder se torna um ganho
(Sábado, sábado, 14a Semana do Tempo Comum - S. Bento, abade; Festa na Europa) São Bento triunfa sobre a tentação lançando-se nu num arbusto de espinhos, enquanto um anjo combate o demônio Afresco do refeitório dos monges realizado por Antonio Bazzi chamado il Sodoma (1477 - 1549) contando a vida de São Bento (480 - 567) Leituras da Missa: Pr 2, 1-9 ; Salmo 33/34 ; Mt 19, 27-29 A liturgia do domingo anterior lembrava-nos com força que o Reino de Dieu se recebe na gratuidade, como um dom que nos ultrapassa e pede o nosso abandono. Ao longo desta semana, vimos como esse seguimento de Cristo exige de nós uma simplificação interior, um desapego das nossas falsas seguranças. Hoje, celebrando São Bento, o grande pai do monaquismo ocidental, a Igreja coloca sob os nossos olhos os textos próprios da sua festa. É a ocasião ideal para mergulhar naquilo que constitui o coração pulsante da vida espiritual: a busca absoluta de Deus e a promessa que lhe está unida. Não nos enganemos, os textos deste sábado não se dirigem unicamente aos monges atrás das suasclausuras, eles falam do nosso quotidiano, dos nossos apegos e da nossa sede profunda de felicidade. 1. Buscar a Sabedoria como um tesouro escondido A primeira leitura, do livro dos Provérbios, abre-se com um convite premente que ressoa estranhamente com a aventura de São Bento: «Sim, se cultivares a inteligência e orientares o teu coração para o entendimento, se a buscares como à prata e a procurares como a tesouros escondidos…». A sabedoria de que fala a Escritura não é uma acumulação de conhecimentos intelectuais, mas é a arte de viver segundo Deus, a capacidade de ver/ler a realidade com os Seus olhos. Mas o texto impõe uma condição: esta sabedoria exige um esforço, uma tensão do coração: «se a buscares… se a procurares…». A vida espiritual não é uma simples recreação passiva, ela exige a audácia de um garimpeiro. O provérbio diz ainda que esta busca passa pela escuta: «o ouvido atento». É, aliás, a primeiríssima palavra da célebre Regra de São Bento: «Escuta, ó filho…». Para escutar, é preciso fazer silêncio, abrir espaço. O texto bíblico diz-nos que aquele que busca assim «…então compreenderás o temor do Senhor». Este temor não é o medo de um Deus castigador, mas o respeito maravilhado diante da sua grandeza, a recusa de ferir o seu amor. Ao convidar-nos a cavar o solo da nossa vida para nela encontrar esse tesouro, a primeira leitura prepara o nosso coração para compreender a radicalidade do Evangelho de hoje: mostra-nos que, para obter o que tem valor, é preciso aceitar deixar o que é secundário. 2. A lógica do cálculo diante da lógica do dom É nesse ponto que o Evangelho de hoje vai ao nosso encontro na nossa humanidade mais bruta. Pedro, com a sua franqueza habitual, faz a Jesus a pergunta que nós frequentemente guardamos em segredo nos nossos corações: «Eis que nós deixamos tudo e te seguimos: que recompensa teremos?». Mas não condenemos Pedro depressa demais, porque a sua pergunta é profundamente humana. Ele entrou numa lógica de troca, de escambo, de contabilidade. Em substância, ele pergunta a Jesus: «nós investimos a nossa vida no teu projeto, qual é o retorno do investimento?» O detalhe interessante é que Jesus não se indigna com esta pergunta, Ele a acolhe e a desloca. Jesus vê bem que, por trás desse cálculo, há simplesmente o medo humano do vazio, da falta e da insegurança. De fato, o drama da nossa vida é que confundimos frequentemente possuir e ser, pensamos que aquilo que possuímos nos define, quando muitas vezes isso nos acorrenta, nos torna escravos. Ao responder a Pedro, Jesus vai fazer os seus discípulos passar de uma mentalidade de mercenários para uma mentalidade de filhos: Ele não lhes promete um bônus de fim de contrato, promete-lhes uma transformação total da sua existência. 3. A promessa do cêntuplo aqui na terra A resposta de Jesus é uma das mais audaciosas de todo o Evangelho, porque Ele afirma que quem tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe ou terras por causa do seu nome, «receberá o cêntuplo». O que é esse cêntuplo? Não é uma promessa material ou mágica, como se Deus fosse multiplicar as nossas contas bancárias, os nossos pais, mães, irmãos etc. O cêntuplo, com efeito, é a experiência de uma liberdade nova, que nos permite experimentar/realizar mais intensamente a nossa existência: o Evangelho revela-nos que aquele que já não possui nada, possui tudo em Deus. Quando renunciamos a possuir as coisas e as pessoas para as amar em Cristo, encontramo-las de uma maneira infinitamente mais bela, mais intensa. São Bento é a testemunha histórica disso, porque deixou a nobreza e as riquezas de Roma para se encerrar numa gruta em Subiaco, sem nada. E o que Deus lhe deu? Tornou-se o pai espiritual de milhares de monges, os seus mosteiros tornaram-se casas de acolhimento para os pobres e os viajantes, e as suas terras civilizaram a Europa. Ao deixar a sua pequena família carnal, recebeu uma multidão de irmãos e de filhos. Isso é o cêntuplo: uma intensificação da vida. Na verdade, Deus não tira nada, Ele dá tudo. Como dirá, mais tarde, magnificamente São João da Cruz: para saboreares o tudo, não queiras ter gosto em nada; para possuíres o tudo, não queiras nada possuir. Conclusão e aplicação para o nosso dia A festa de São Bento impele-nos a fazer um balanço sobre os nossos próprios apegos; de fato, a pergunta de Pedro continua colocada a cada um de nós: estamos ainda numa fé de cálculo, à espera de que Deus valide os nossos méritos, ou aceitamos arriscar a nossa vida na sua simples palavra? A felicidade de que falam os Provérbios não se encontra na acumulação, mas na orientação de todo o nosso ser para a Sabedoria, para o Cristo. Para o nosso dia, tiremos tempo para um exame de consciência, para nos interrogarmos seriamente: qual é o pequeno «algo» que recuso largar hoje? Será um ressentimento, a necessidade de ter sempre razão, uma segurança material que me angustia? Façamos a experiência da confiança. Entreguemos esse pouco a Deus, desapeguemo-nos dele por amor, e abramos as mãos para receber o cêntuplo de paz e de alegria que Ele preparou para nós. Oração Senhor Jesus, Tu vês os meus medos e os meus cálculos. Tu sabes o quanto amo as minhas pequenas seguranças e os meus hábitos e como, tal como Pedro, me acontece de Te perguntar o que vou ganhar em Te servir. Perdoa a minha falta de fé e a pequenez do meu coração. A exemplo de São Bento, dá-me a coragem de nada preferir ao Teu amor. Vem educar o meu ouvido para que eu busque a Tua sabedoria como um tesouro precioso. Livra-me do medo da falta e da ilusão da posse. Quero investir tudo na Tua Palavra, certo de que Tu nunca Te deixas vencer em generosidade e que a Tua presença na minha vida é o único verdadeiro cêntuplo que preenche o meu coração. Amém.
- A vulnerabilidade habitada: quando a fraqueza se torna testemunho
(Sexta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Fra Angelico: Martírio de São Lourenço, entre 1447 e 1449 Leituras da Missa: Os 14, 2-10 ; Salmo 50/51 ; Mt 10, 16-23 A liturgia destes últimos dias conduziu-nos ao coração de um paradoxo que bouscula todas as nossas lógicas humanas. Com efeito, no domingo anterior, ouvíamos o Cristo convidar-nos ao repouso e à gratuidade, lembrando-nos de que o Reino dos Céus não se compra a golpes de performances, mas se recebe no maravilhamento de sermos amados sem mérito. Ontem ainda, o profeta Oseias mostrava-nos a ternura comovente de um Deus que cuida de nós como um lactente contra a sua face, enquanto Jesus nos pedia para partir em missão totalmente leves, sem ouro nem prata. Hoje, esse despojamento toma um rumo mais radical e quase assustador. Jesus não nos esconde nada da realidade: essa leveza e essa gratuidade evangélicas não vão desarmar o mundo, elas vão, às vezes, irritá-lo! Passar da gratuidade recebida para a perseguição sofrida parece um salto brutal. No entanto, há um fio de ouro invisível que une estas leituras, e é o fio da confiança absoluta. Esta sexta-feira, a Palavra na Liturgia convida-nos a descer mais um degrau no nosso abandono: após termos renunciado às nossas seguranças materiais, somos chamados a renunciar à segurança das nossas próprias forças e dos nossos próprios discursos para dar lugar ao Espírito. 1. Quebrar o ídolo da autossuficiência Para compreender o realismo do Evangelho, precisamos primeiro escutar a conclusão do magnífico livro de Oseias que a primeira leitura nos oferece hoje. O profeta lança um apelo premente ao retorno, mas um retorno bem específico: «Não diremos mais à obra das nossas mãos: “Tu és o nosso Deus”». Eis o coração do problema do homem, o ídolo que fabricamos todos os dias. O ídolo não é uma outra divindade que rivaliza contra Deus, nem apenas uma estátua de pedra, mas é, antes, tudo o que construímos com as nossas próprias forças para nos tranquilizar, para nos convencer de que podemos nos salvar a nós mesmos: é a nossa reputação, a nossa necessidade de ter razão, as nossas estratégias humanas de defesa, etc… A resposta de Deus trazida pelo profeta a este renascimento é de uma pura beleza: «Eu os amarei com um amor gratuito... Serei para Israel como o orvalho». Portanto, a cura das nossas infidelidades começa precisamente lá onde cessamos de divinizar as nossas próprias obras. Enquanto contarmos com os nossos cavalos e as nossas blindagens psicológicas, continuaremos impermeáveis à graça. Deus só pode ser o nosso orvalho se aceitarmos reconhecer a nossa secura. É esta ruptura com a autossuficiência que prepara o discípulo para entrar na lógica desconcertante da missão que Jesus vai descrever. 2. O paradoxo da ovelha no meio dos lobos No Evangelho, Jesus utiliza uma imagem de um realismo impactante: «Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos». Humanamente falando, esta estratégia é uma loucura, um erro tático absoluto; não se enviam animais indefesos para o meio de predadores. A reação lógica da ovelha diante do lobo seria tentar fazer crescer presas, tornar-se ela própria um lobo para sobreviver. Esta é a nossa tentação permanente na vida de fé e nas nossas relações: ou fingimos ser como os lobos, ser como as pessoas do mundo e nos escondemos para não revelar a nossa identidade de cristãos; ou tentamos responder à dureza com a dureza, à agressividade do mundo com uma arrogância espiritual ou uma rigidez defensiva. Mas o Cristo recusa essa saída, Ele mantém a identidade da ovelha. Ele faz isso para nos fazer compreender que ser cristão não é desenvolver técnicas de sobrevivência agressivas, mas aceitar uma vulnerabilidade radical porque o nosso verdadeiro defensor não é deste mundo. E depois Jesus continua pedindo-nos para associar duas qualidades que parecem se excluir: a prudência da serpente e a simplicidade da pomba. A prudência não é a cobardia ou o cálculo político, é o realismo aguçado que sabe discernir o mal sem se deixar fascinar por ele; enquanto a simplicidade não é a ingenuidade estúpida, é a pureza de um coração que recusa deixar-se contaminar pela astúcia e pelo ódio do lobo. O discípulo olha o perigo de frente, mas guarda as mãos e o coração desarmados. 3. O Espírito de vosso Pai: o fim da ansiedade apologética O ponto culminante do texto toca no nosso medo mais íntimo, ou seja, o de não estar à altura, de não saber o que responder diante da hostilidade, do desprezo ou da contradição. No seu discurso, Jesus evoca os tribunais, as sinagogas, os governadores. Para nós, hoje, no nosso contexto ordinário, não pensemos logo em perseguições sistemáticas contra os cristãos, porque antes de chegar aí – mesmo que em certos contextos do mundo já se esteja –, este discurso de Jesus ganha forma muito frequentemente num jantar de família onde a nossa fé é ridicularizada, num ambiente profissional onde os nossos valores são pisoteados, ou simplesmente nessa solidão interior diante de um mundo que já não compreende a nossa escolha de seguir o Cristo. A instrução é libertadora: «Não vos preocupeis em saber como falar ou o que dizer... porque não sereis vós a falar, mas o Espírito de vosso Pai falará em vós». O segredo da perseverança cristã não reside na nossa eloquência ou nas nossas competências intelectuais, mas na nossa capacidade de fazer silêncio para deixar o Espírito assumir o controle. Santa Teresa de Ávila dizia que o maior dano para a alma é querer defender-se a si mesma. Quando cessamos de nos crispar sobre a nossa própria defesa, a nossa impotência torna-se o trono da potência de Deus. O testemunho mais impactante nunca é uma lição de teologia bem amarrada, mas a paz inexplicável que emana de uma pessoa que confia no meio da tempestade: é o Espírito do Pai que se torna visível através das fissuras da nossa fraqueza aceita. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia desinstala-nos profundamente. Ela pede-nos para olhar os nossos medos de frente, não para nos desencorajar, mas para mudar de ponto de apoio. O Cristo promete-nos que a perseverança é possível, não porque somos fortes, mas porque o Pai é fiel. Para o nosso dia concreto, a aplicação é simples e exigente: identifiquemos o lugar ou a relação onde nos sentimos atualmente como uma ovelha no meio dos lobos, isto é, onde sentimos agressividade, incompreensão ou pressão. Tomemos a decisão deliberada de não nos esconder ou de não colocar as nossas garras para fora. Recusemos a ironia, a réplica cortante ou a justificação ansiosa. Diante duma crítica ou duma situação estressante hoje, façamos uma pausa de um segundo, respiremos interiormente e digamos simplesmente: «Espírito Santo, é a Tua hora, fala e age Tu mesmo através de mim, se quiseres, para a Tua maior Glória». Escolhamos a paz da pomba. Oração Senhor Jesus, Tu, a bússola da minha vida, vês os meus tremores e o meu medo instintivo de sofrer ou de ser rejeitado. Tu sabes quantas vezes procuro fabricar os meus próprios ídolos, defender-me com as minhas próprias palavras e as minhas pobres estratégias humanas. Canso-me frequentemente ao querer ser forte por mim mesmo. Hoje, desejo depositar as armas. Peço-Te a graça da prudência e da simplicidade. Dá-me não temer o mundo, mas amá-lo com esse amor gratuito que Tu derramaste no meu coração. Quando a incompreensão se levantar, quando as minhas palavras se mostrarem impotentes, vem fazer silêncio em mim. Que eu não procure mais salvar a minha própria imagem, mas que eu deixe o Teu Espírito Santo ser a minha força, a minha palavra e a minha paz. Entrego-me nas Tuas mãos, certo de que a minha pequenez é o Teu espaço sagrado. Amém.
- A audácia da gratuidade: da ternura do Pai à leveza do apóstolo
(Quinta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt van Rijn 1668. O detalhe das mãos do Pai, uma masculina, a outra com traços mais maternos, colocadas sobre os ombros do filho ajoelhado. Leituras da Missa: Os 11, 1-4.8c-9 ; Salmo 79/80 ; Mt 10, 7-15 No domingo passado, fomos alcançados por esta palavra libertadora de Cristo que nos convidava a encontrar o nosso repouso n'Ele, a depor enfim o jugo tão pesado das nossas performances e das nossas angústias. Hoje descobrimos a verdadeira fonte deste repouso da alma: a ternura incompreensível, e poder-se-ia dizer quase irracional, de Deus. O grande drama da existência humana é acreditar obstinadamente que devemos comprar o amor; de fato, esgotamo-nos a provar, dia após dia, que somos dignos de ser amados: pelos nossos entes próximos, pela sociedade, por nós mesmos e, tragicamente, por Deus também; raramente a nossa religiosidade é gratuita… No entanto, a liturgia desta quinta-feira vem despedaçar essa lógica mercantil com uma grande doçura. O profeta Oseias, na primeira leitura, dá-nos a contemplar o coração vulnerável de Deus, um Deus que sofre por amar, que se comporta como um pai ou uma mãe perdidos de ternura diante do seu filho rebelde. E é justamente esta experiência visceral do amor divino – a compaixão de Jesus – que torna possível a exigência radical que Jesus impõe aos seus apóstolos no Evangelho: partir caminhos afora sem nenhuma bagagem. A missão nunca começa por uma injunção moral, uma ordem, um mandamento, não! A missão brota como a consequência natural do maravilhamento de ter sido amado por nada. Dito de outro modo, o missionário é aquele que se sente impelido a clamar ao mundo inteiro: «eu sou amado por um amor incondicional, e vós que me escutais, sabei bem que também o sois.» 1. A memória de ter sido loucamente amado Na primeira leitura, Oseias desenvolve uma das linguagens mais comoventes de toda a história bíblica. Aqui se descobre que Deus não se mantém à distância atrás do balcão de um tribunal, mas Ele é aquele que se inclina, que sustenta, que nutre. «Fui eu que o ensinei a andar... eu o tratava como um lactente que se eleva bem contra a sua face». Mas eis a grande tragédia humana: quanto mais o filho recebe, mais ele se afasta para ir sacrificar aos Baais. Os ídolos nos tranquilizam porque são manipuláveis – criados por mãos humanas –, enquanto o amor vivo de Deus implica o risco de uma verdadeira relação: preferimos frequentemente o controle espiritual ao abandono amoroso. Se aplicássemos a nossa lógica humana a esta constatação descrita pelo profeta Oseias, tal traição – que é a nossa – mereceria a condenação; julgar-se-ia mesmo como um ato imperdoável. Mas a reação divina é uma inversão absoluta: «O meu coração revira-se contra mim; ao mesmo tempo, as minhas entranhas estremecem.» E eis o espanto da ação divina: Deus escolhe ser Deus, e não homem. A Sua justiça não é a nossa, é a sua Misericórdia infinita – um conceito que o nosso raciocínio nunca poderá captar, mas que podemos aceitar. A verdadeira conversão nunca nasce do terror de um castigo, ela produz-se quando a nossa carapaça se fissura sob o peso da memória deste amor gratuito e incondicional. Não temos de nos tornar perfeitos para ser amados; é porque somos incondicionalmente amados que poderemos, um dia, tornar-nos melhores. Sem esta certeza gravada no fundo da alma, a vida cristã não passa de um moralismo esgotante e lamentável! 2. O escândalo da gratuidade: só se dá o que se recebeu É unicamente à luz desta ternura paterna que se deve ler o Evangelho de Mateus. Jesus confia aos Doze um poder imenso: curar, purificar, expulsar. Depois, Ele acrescenta o axioma fundamental de toda a vida espiritual: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» O Cristo não envia profissionais da religião ou filósofos arrogantes, mas Ele envia sobreviventes de milagres. De fato, contemplamos aqui que, desde o começo, Jesus envia homens que estavam paralisados pelo medo, leprosos pelo pecado, mortos nos seus desesperos, e que foram erguidos gratuitamente pela graça. Se vives a tua relação com Deus como um contrato comercial — eu Te dou as minhas orações, Tu me dás a Tua proteção —, transmitirás aos outros uma fé rígida, julgadora e angustiante. Mas se fizeste a experiência da face de Deus colada à tua – como está descrita a relação de Deus para com o seu povo na primeira leitura –, então a tua simples presença tornar-se-á uma boa nova. O Reino dos Céus não se comunica por argumentações técnicas, mas pelo transbordamento inevitável de um coração que foi impactado pela gratuidade divina: «De graça recebestes, de graça deveis dar.» Na verdade, não somos senão mendigos que indicam a outros mendigos onde se encontra o Pão da vida. 3. A pobreza evangélica, um espaço para a Providence A sequência das instruções de Jesus parece quase uma loucura, porque Ele diz aos apóstolos para não levarem nada, nem ouro, nem prata, nem sacola para o caminho, nem túnica de reserva. Por que exigir tal despojamento? Porque as nossas malas, sejam elas materiais, intelectuais ou afetivas, criam a ilusão tenaz de que somos os senhores da nossa existência. Temos essa tendência de acumular seguranças justamente para não termos de depender de Deus, porque, na verdade, ainda não temos certeza d'Ele. Santa Teresa de Ávila lembrava com força que quem tem Deus não carece de nada. As bagagens tornam o nosso passo pesado e nos deixam surdos à dependência alegre para com o Pai. O Cristo despoja-nos não para nos empobrecer, mas para que as nossas mãos estejam finalmente livres, livres para receber e livres para dar. A pobreza pedida aqui é o espaço vazio que deixamos deliberadamente em nós para que a Providência possa entrar e se manifestar, frequentemente através do rosto e da hospitalidade daqueles que encontramos. «Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi a poeira dos vossos pés.» Este gesto não é uma maldição orgulhosa, é a proteção da nossa própria liberdade e o respeito absoluto pela liberdade do outro, porque, com efeito, a verdade sempre se propõe, nunca se impõe. Deixar a poeira é recusar guardar a amargura do fracasso para continuar a avançar, leve, em direção a quem espera a Boa Nova. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra deste dia convoca-nos diante de um espelho exigente. Verifiquemos as nossas próprias bagagens: de que estamos inutilmente carregados hoje? Estaremos sobrecarregados por velhos rancores, pela necessidade obsessiva de tudo prever, pelo medo visceral de que algo nos falte, pela vontade de provar que temos razão? A aplicação concreta para este dia é fazer conscientemente um ato de pura gratuidade, em memória da gratuidade de Deus para conosco. Escutemos um colega sem olhar para o relógio; prestemos um serviço silencioso sem esperar o menor obrigado; cedamos a passagem; deixemos de lado a vontade de ter a última palavra… Façamos a experiência concreta da leveza, deixemos que a paz que carregamos em nós se deposite suavemente nos lugares onde vivemos. Oração Senhor Jesus, Tu que conheces a minha tendência constante de querer controlar tudo, de buscar seguranças lá onde só há areia. Vem curar o meu coração de comerciante. Perdoa-me por todas as vezes em que fujo do Teu amor porque ele me dá medo, porque é grande demais, gratuito demais, e porque prefiro a estreiteza dos meus próprios méritos. Peço-Te que me ensines a leveza do Evangelho. Ajuda-me a largar as bagagens pesadas dos meus medos e dos meus julgamentos. Faz-me a graça de me lembrar sem cessar de que fui salvo gratuitamente. Que eu possa hoje, com a pobreza de um coração pacificado, oferecer um olhar de esperança, uma palavra de paz e um pouco da ternura imensa que o Pai tem por mim. Amém.
- Do coração partido à chamada que unifica a vida
(Quarta-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Vocação dos primeiros Apóstolos por Domenico Ghirlandaio, 1481 Leituras da Missa: Os 10, 1-3.7-8.12 ; Salmo 104/105 ; Mt 10, 1-7 No domingo passado, o Cristo quebrava as nossas solidões por meio de um convite gravado no mais profundo da nossa memória espiritual: «Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso» ; fomos feitos para Deus, o nosso descanso só se encontra n'Ele só. Este descanso não é uma simples ausência de cansaço, é a redescoberta de uma Presença, o lugar onde a nossa existência cessa de ser um combate permanente para se tornar um acolhimento. Hoje, nesta quarta-feira da décima quarta semana, a Palavra de Deus vem iluminar aquilo que, em nós, faz obstáculo a esse descanso divino. Por que as nossas vidas continuam tão frequentemente cansadas, agitadas e ressecadas, semelhantes ao deserto? Os dois textos de hoje, o do profeta Oseias e o Evangelho de Mateus, unem-se para nos mostrar que a raiz do nosso esgotamento reside na dispersão do nosso coração. Diante das nossas tentativas de fabricar os nossos próprios pequenos refúgios, Jesus toma um ato radical: Ele chama, Ele nomeia e Ele reúne. 1. A videira luxuriante e a tragédia do coração partido O profeta Oseias utiliza uma imagem magnífica e terrível, ele diz «Israel era uma videira luxuriante» que, em vez de dar graças pela sua abundância, utiliza os seus próprios frutos para multiplicar os altares aos falsos deuses. É exatamente isso que fazemos com a nossa liberdade quando ela se esquece da sua fonte. Frequentemente nos acontece que o Senhor nos abençoa, Ele torna a nossa vida mais bela, mas, como fazia o povo de Israel – «quanto mais rica era a sua terra, mais ele embelezava as estelas dos falsos deuses» –, isto é, esse reflexo ou tendência de colocar a nossa segurança, privilegiar e apegar-nos aos dons e não ao Doador. Oseias então pronuncia a frase central da sua mensagem: «O seu coração está dividido; agora eles vão pagar». A palavra hebraica aqui utilizada para «dividido» é חָלַ֥ק (khaw-lak’), que evoca uma divisão interna, um coração escorregadio, que já não sabe apoiar-se na rocha, ser liso, falso. Obviamente que um coração dividido é um coração que se esgota, o exato oposto do repouso prometido no domingo passado. Quando vivemos divididos entre o desejo de Deus e a necessidade de tudo controlar pelas nossas próprias forças, criamos o nosso próprio exílio, isto é, provocamos a nossa destruição interna e nos encontramos como numa terra estrangeira, longe da nossa própria identidade e de Deus. Eis por que Oseias diz: «o Senhor derrubará os seus altares; as estelas, ele as destruirá» ; os ídolos que construímos acabarão por desabar como espuma à superfície da água. Mesmo que se trate de um ato forte, violento de Deus para conosco, é preciso saber que Ele não destrói as nossas obras por ciúme, mas Ele quebra as nossas falsas seguranças para nos evitar perecer com elas e nos encontrarmos na condição de exilados. Eis por que Ele clama pelo profeta: «Semeai justiça, colhei bondade, lavrai as vossas terras incultas. É tempo de buscar o Senhor, até que ele venha e derrame sobre vós a chuva da justiça.» 2. Jesus chama e nomeia a nossa realidade Diante desta humanidade com o coração dividido, desta colheita abundante mas onde os trabalhadores são poucos (cf. final do Evangelho de ontem), o texto do Evangelho abre-se com um gesto forte da parte de Jesus, de uma força inaudita: «Jesus chamou os seus doze discípulos…» Lá onde o pecado dispersa, o Cristo reúne. Interessante que Ele não começa por lhes dar uma doutrina ou uma lista de regras, mas Ele cria uma relação para depois os enviar. O que é fascinante nesta narrativa é a enumeração meticulosa dos nomes dos doze Apóstolos, o que nos revela que, de fato, Deus nos conhece na nossa singularidade mais íntima, e esta lista é a prova concreta disso. Olhemos mais de perto para esta lista: ela associa opostos que, humanamente, deveriam ter se matado. Encontra-se ali, por exemplo, Mateus, «o publicano», que colaborava com o ocupante romano, e Simão, «o Zelote», que pertencia a um movimento de resistência armada contra Roma. Há Pedro, o generoso mas frágil, e Judas Iscariotes, aquele mesmo que o entregou. Isso nos revela que o Senhor não escolhe homens perfeitos ou uniformes, Ele escolhe histórias concretas, feridas, contradições vivas. Ao inscrever o nome de Judas desde o início da missão, o Evangelho mostra-nos que Jesus não exclui ninguém da sua intimidade, mesmo sabendo até onde a nossa liberdade pode escorregar. Portanto, ser chamado pelo nosso nome é aceitar que o Cristo entre na nossa própria realidade, com as nossas sombras e as nossas luzes, para nela trazer a unidade. E nunca nos esqueçamos de que a esses homens Ele «deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar toda a espécie de doenças e enfermidades». 3. A missão começa pelas ovelhas perdidas As instruções de Jesus aos seus Apóstolos podem surpreender-nos: «Não tomeis o caminho que leva às nações pagãs... Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.» Esta escolha não é uma recusa dos outros povos, mas é uma prioridade teológica e pastoral de grande profundidade. As ovelhas perdidas de Israel são precisamente aquelas que deveriam conhecer a Aliança mas se extraviaram, aquelas cujo coração se tornou semelhante à videira de Oseias: estéril de tanto buscar falsos pastores. Na nossa vida espiritual, esta instrução ecoa de maneira muito pessoal. Antes de querermos evangelizar o mundo inteiro ou resolver os problemas dos outros, devemos deixar o Cristo evangelizar as nossas próprias zonas que se tornaram pagãs. As ovelhas perdidas estão dentro de nós: são os nossos desânimos, as nossas dúvidas, as nossas iras contidas, os nossos momentos em que funcionamos como se Deus não existisse. O Reino dos Céus está muito próximo, não como uma conquista exterior, mas como uma presença que vem habitar as nossas pobrezas. A missão cristã não consiste em trazer uma verdade do alto de um púpito, mas em testemunhar, como um mendigo que encontrou pão, que a ternura do Pai está acessível aqui e agora. Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra de Deus hoje convida-nos a uma clarificação interior. Tiremos um instante para olhar para a nossa vida com lucidez e benevolência: onde se situam as minhas divisões neste momento? Em que certezas humanas busquei uma segurança ilusória que me afasta do verdadeiro repouso da alma? A aplicação concreta para o nosso dia é descer novamente ao nosso coração para escutar o Cristo pronunciar o nosso nome. Não fujamos das nossas fragilidades ou das nossas contradições e não as escondamos do Senhor. Como os Doze, deixemos o Senhor associar as nossas pobrezas ao seu poder de cura. Hoje, diante duma situação difícil ou duma relação tensa, não semeemos o vento da crítica ou da inquietação. Proclamemos antes, pela nossa paciência, pela nossa escuta e pelo nosso sorriso, que o Reino está próximo, transformando assim o nosso pequeno pedaço de mundo numa terra pronta para a colheita. Oração Senhor Jesus, Tu conheces os recônditos do meu coração e os momentos em que a minha vida se dispersa longe de Ti. Vem curar o meu coração dividido que busca tantas falsas seguranças em vez de, antes de tudo, se abandonar à Tua graça. Obrigado porque não me chamas porque sou digno, mas porque me amas gratuitamente. Tu conheces o meu nome, os meus limites e as minhas dúvidas e, no entanto, confias em mim. Confio-Te hoje as ovelhas perdidas da minha alma, os meus medos e as minhas feridas. Toma-os entre as Teu mãos, derrama sobre eles a Tua chuva de justiça e de cura. Faz de mim um instrumento da Tua paz, capaz de testemunhar ao meu redor, pelos meus atos mais do que pelas minhas palavras, que o Teu Reino está muito próximo e que o Teu amor é o único necessário. Amém.
- Sair do mutismo espiritual para entrar na colheita da graça
(Terça-feira, XIV Semana do Tempo Comum) Jesus curando um surdo-mudo, sobre fundo composto de ruínas romanas antigas, Bartholomeus Breenbergh 1625 / 1650 Leituras da Missa: Os 8, 4-7.11-13 ; Salmo 113b/115 ; Mt 9, 32-38 No domingo passado, o Senhor Jesus dirigia-nos um dos convites mais comoventes de todo o Evangelho: «Vinde a mi, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso.» Ele chamava-nos a depositar os nossos fardos, a colocar-nos à sua escola, a de um coração manso e humilde, para encontrar o verdadeiro alívio das nossas almas. Nesta terça-feira da décima quarta semana, a liturgia vem aprofundar essa promessa, mostrando-nos o que nos impede, concretamente, de saborear esse repouso divino. Os nossos fardos mais pesados nem sempre vêm do exterior; com efeito, nascem frequentemente da nossa incapacidade de escutar a Deus e da nossa tendência tenaz de fabricar ídolos para preencher o nosso vazio interior. Jesus vem hoje quebrar este círculo vicioso para nos introduzir na verdadeira liberdade dos filhos de Deus. 1. A armadilha dos ídolos e a tempestade das nossas vidas O profeta Oseias, na primeira leitura, apresenta um diagnóstico de uma impressionante atualidade sobre o coração humano. Ele descreve um povo que se agita, que toma decisões políticas e espirituais sem consultar a Deus, e que utiliza as suas riquezas para fabricar ídolos para si. A sentença espiritual é imediata: «Eles semeiam ventos e colherão tempestades». Não é uma punição arbitrária que Deus envia do alto do céu, é o mecanismo mesmo do pecado, consequência das suas escolhas: quando colocamos a nossa confiança naquilo que sai das nossas próprias mãos, nas nossas performances, nos nossos diplomas ou nas nossas seguranças materiais, edificamos a nossa existência sobre o nada. O vento que semeamos é essa ilusão de autossuficiência, e a tempestade que dela resulta é a angústia profunda que nos submerge quando essas falsas seguranças desabam. O salmista prolonga esta reflexão com uma ironia que nos deveria fazer pensar: os ídolos «têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem...» E acrescenta esta verdade antropológica maior: «Tornem-se como eles os que os fazem». São João da Cruz dizia que é próprio do amor semelhar o amante ao amado: acabamos sempre por nos parecer com aquilo que adoramos; se você adora o dinheiro ou o poder, o seu coração torna-se duro, frio e calculista. A idolatria corta-nos da relação viva, fixa-nos, torna-nos insensíveis e encerra-nos num mutismo profundo, onde nos tornamos incapazes de ouvir a voz do Amor e de falar a linguagem da gratuidade. 2. O mutismo quebrado e a recusa da novidade É precisamente essa condição humana que Jesus encontra no Evangelho, onde Lhe apresentam um homem que está sob o domínio de um demônio que o torna surdo e mudo: o demônio colocou-o na incapacidade de se comunicar. No plano bíblico e teológico, existe uma ligação indissociável entre a escuta e a palavra, ou seja, para poder falar uma palavra verdadeira, é preciso primeiro ter escutado, porque sem a escuta, a palavra pode não corresponder à realidade. O adversário das nossas almas começa sempre por cortar a nossa escuta da Palavra de Deus, torna-nos surdos à Sua bondade, para nos impedir de ler, ver e compreender a realidade e a verdade; e uma vez que estamos surdos à promessa do Amor revelada no domingo passado, tornamo-nos incapazes de uma verdadeira comunicação, e então a nossa boca já não sabe senão queixar-se de tudo e contra todos, julgar ou encerrar-se num silêncio de morte. No relato do Evangelho de hoje, assim que o demônio é expulso, o homem começa a falar e a multidão fica admirada. Mas os fariseus, encerrados nas suas certezas rígidas, recusam ver a novidade de Deus e afirmam: «É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios». Esta atitude dos fariseus revela o ápice do mutismo e da surdez espiritual, pois diante da Vida que irrompe e que liberta, eles preferem encerrar-se na suspeita e na teoria. Esse mesmo perigo dos fariseus nos espreita cada vez que preferimos os nossos sistemas de pensamento rígidos e os nossos hábitos confortáveis ao inesperado da graça… Eles recusam o repouso que Jesus oferece porque querem continuar senhores da sua própria salvação e, como bem ouvimos no domingo passado, a eles o Pai esconde os Seus segredos. 3. As entranhas de compaixão e o apelo da colheita O texto do Evangelho continua: «Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas deles, proclamando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade.» Diante desta humanidade ferida, cansada e dividida, o olhar de Jesus muda tudo. Mateus nota com grande profundidade exegética: «Vendo as multidões, Jesus compadeceu-se delas». O termo grego utilizado aqui é σπλαγχνίζομαι (splagchnizomai), frequentemente traduzido por "movido de compaixão", mas que na verdade evoca uma reviravolta nas entranhas (pois as entranhas são consideradas o lugar do amor e da piedade na cultura bíblica); este termo indica também o amor materno mais visceral. Jesus não olha para as multidões com o desprezo os fariseus, nem com o oportunismo dos reis de Israel denunciados por Oseias. Jesus vê a nossa aflição profunda, as nossas vidas abatidas como ovelhas sem pastor, errando de ídolo em ídolo sem encontrar repouso. Diante deste espetáculo, a reação de Jesus não é a de condenar, mas Ele volta-se para os discípulos para mudar a perspectiva deles. Com efeito, lá onde nós frequentemente só vemos um deserto espiritual, uma multidão hostil ou problemas insolúveis, Ele vê uma promessa: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos». O bem já está ali, escondido sob o sofrimento, pronto para ser colhido pelo amor. Um detalhe muito interessante deste relato é que, diante desta realidade, o primeiro ato que Jesus pede não é um ativismo frenético, mas um ato de fé e de abandono: «Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita». Rezar pela colheita é recusar dar-se por vencido pelo mal, é conformar o nosso coração à compaixão de Jesus para nos tornarmos, por nossa vez, servos capazes de aliviar e erguer os nossos irmãos; atitude possível unicamente se tivermos um coração como o de Jesus: capaz de uma verdadeira compaixão. Conclusão e aplicação para o nosso dia Para avançar hoje neste caminho de cura, tiremos um instante para fazer um balanço no segredo do nosso coração: quais são os ídolos sutis que tenho tendência a fabricar para me tranquilizar, correndo o risco de semear o vento da agitação? Haverá áreas da minha vida onde me tornei surdo à voz do Senhor e mudo diante das necessidades do meu próximo? Jesus chama-nos hoje a deixar o cinismo dos fariseus para entrar na Sua própria compaixão. Olhemos para a nossa família, o nosso lugar de trabalho e o nosso mundo não com amargura, mas com os olhos de Cristo, que sabe ver a colheita lá onde os outros só veem espinhos. Deixemos que Ele abra os nossos ouvidos à Sua Palavra para que a nossa boca possa anunciar a Sua bondade ao longo de todo este dia. Oração Senhor Jesus, Tu que abres os ouvidos dos surdos e desatas a língua dos mudos, vem visitar hoje as minhas próprias paralisias interiores. Tu conheces os fardos sob os quais me canso e as falsas seguranças nas quais procuro, demasiadas vezes, um repouso ilusório. Purifica o meu coração de todos os seus ídolos mudos que me tornam insensível à Tua presença. Abre a minha escuta à suavidade da Tua voz, a fim de que a minha palavra seja libertada para Te louvar e para dizer palavras de consolação ao meu redor. Dá-me, Senhor, o Teu olhar de compaixão sobre as multidões do nosso tempo. Não me permitas julgar ou desanimar, mas faz de mim um humilde e alegre trabalhador da Tua colheita, queimando no desejo de fazer conhecer o Teu amor. Amém.
- Do medo à intimidade: o toque que devolve a vida
(Segunda-feira, 14a Semana do Tempo Comum) A Ressurreição da filha de Jaira, 1871, por Ilya Efimovich Repin Leituras da Missa: Os 2, 16.17b-18.21-22 ; Salmo 144/145 ; Mt 9, 18-26 Todos nós carregamos em nós o eco da liturgia deste domingo que acaba de passar; este convite de Cristo para encontrar o repouso, para tomar sobre nós este jugo tão suave e tão leve do Seu amor, ressoa ainda nos nossos corações. E eis que os textos desta segunda-feira vêm explicar-nos concretamente como entrar neste repouso interior. De fato, os textos falam-nos de uma passagem indispensável para a nossa saúde espiritual: passar de uma religião do temor para uma relação de intimidade, deixar a agitação da multidão pelo silêncio que cura. 1. O deserto, lugar dos noivados divinos O profeta Oseias, na primeira leitura, oferece-nos hoje uma das páginas mais comoventes do Antigo Testamento: Deus olha para o seu povo (a sua esposa) infiel. Numa lógica puramente humana, desta terra, Ele deveria puni-lo, abandoná-lo, rejeitá-lo. Mas o que faz o Senhor? Ele decide seduzi-lo, levando-o de volta ao deserto. Este detalhe é capital, porque o deserto não é aqui o lugar da aridez ou da morte, mas é o lugar onde não há mais distrações, não há mais ídolos tranquilizadores, não há mais ilusões de potência. É o lugar de um face a face autêntico. Mas o deserto é também o lugar onde o povo conheceu o Senhor após a libertação do Egito: Deus quer lembrar-lhe o primeiro amor, o amor do início, a condição do povo quando Deus o desposou e o amor incondicional que Deus lhe revelou. E ali, no coração dessa nudez, Deus faz uma declaração surpreendente: «Tu me chamarás: Meu esposo, e não mais: Meu mestre» (em hebraico, o termo utilizado para mestre é Baal, que era o deus da fertilidade, e que aqui designa o proprietário). Eis o coração do problema da nossa vida espiritual! Muito frequentemente, tratamos Deus como um outro deus e, portanto, como um mestre exigente, um patrão com quem teríamos um contrato de boa conduta, enquanto Ele se apresenta a nós como um esposo louco de amor. O Esposo não busca escravos eficientes ou empregados irrepreensíveis, mas Ele mendiga corações abertos. Aceitar que Deus seja o nosso esposo é precisamente aceitar carregar esse famoso "jugo leve" do Evangelho de ontem: o jugo de uma relação baseada na misericórdia e não na contabilidade dos nossos méritos. 2. A hemorragia da alma e a coragem da fragilidade É exatamente esta dinâmica de um Esposo que cuida e que salva que vemos em ação no Evangelho de Mateus. O Evangelho fala-nos de uma mulher que se aproxima de Jesus, e ela sofre de hemorragias há doze anos. Podemos imaginar, por um instante, qual deveria ser o seu estado físico e psicológico. O sangue, na mentalidade bíblica, é a vida, e esta mulher perde literalmente a vida aos poucos, gota após gota. E justamente porque o sangue é a vida – portanto sagrado –, a lei religiosa da sua época tornava-a ritualmente impura; ela não podia, por isso, tocar em ninguém sob pena de transmitir a sua impureza. Esta mulher, portanto, é a imagem perfeita das nossas próprias fugas de energia vital: as nossas angústias constantes, os nossos pecados repetidos, os nossos compromissos e esse sentimento permanente de nunca estar à altura. Mas reparem bem na sua atitude: ela não para diante de Jesus para lhe fazer um grande discurso justificativo; mas ela desliza por trás, no anonimato de uma multidão que a pressiona, e toca na franja do seu manto. É um ato de uma audácia inaudita; a verdadeira fé não é uma fortaleza de certezas intelectuais inabaláveis, mas a capacidade de estender a nossa miséria em direção à santidade de Deus sem ter medo de ser rejeitado. E Jesus não se zanga, Ele não a repreende pela sua impureza, mas Ele volta-se, cruza o seu olhar e dá-lhe o mais belo dos títulos: «Minha filha». Ao chamá-la assim, Ele a reintegra na sua dignidade de filho de Deus; e o simples contato com o Esposo bastou para estancar a hemorragia. 3. Fazer calar o barulho para deixar a Graça nos erguer Contudo, a trama do Evangelho não para por aí. Este milagre produz-se no caminho de um outro drama: a filha de um chefe da sinagoga que acaba de morrer. Uma pequena nota de exegese bíblica impõe-se aqui para captar a profundidade do texto. O evangelista Marcos, na sua narrativa paralela, precisa que esta jovem tinha doze anos, exatamente o número de anos de agonia da mulher que sofria de hemorragias: quando a menina nasceu, a mulher começou a morrer. O evangelista, unificando as duas histórias, quer dizer-nos que o Cristo veio abraçar toda a nossa história humana, desde os seus nascimentos até às suas agonias, unindo todas as nossas pobrezas. Quando Jesus chega à casa da jovem morta, ele depara-se com o barulho: os tocadores de flauta, a multidão que se agita, o ritual do desespero. Jesus diz-lhes: «Retirai-vos. A menina não está morta, mas dorme». Mas zombavam dele. Para que a vida volte, Jesus toma um gesto forte: ele coloca toda a gente para fora. Aqui estamos diante de uma lei espiritual decisiva para nós hoje: enquanto deixarmos o barulho do mundo, o cinismo, a agitação estéril e as zombarias dominarem o nosso panorama interior, não poderemos ouvir a voz d'Aquele que desperta. «Quando a multidão foi colocada fora, ele entrou, segurou-lhe a mão e a menina levantou-se.» Jesus pega a jovem pela mão na intimidade de um silêncio sagrado. Como dizia tão magnificamente São João da Cruz: «O Pai não disse senão uma palavra, que é o seu Filho, e diz a sempre num eterno silêncio, e é no silêncio que a alma a ouve». O Cristo não se assusta com as nossas mortes interiores, com os nossos bloqueios paralisantes; para Ele, a nossa morte não é senão um sono… Basta, então, fazer silêncio e deixá-Lo pegar-nos pela mão para que nos levantemos. Conclusão e aplicação para o nosso dia Como podemos viver esta imensa luz desde hoje? Comecemos por olhar com honestidade para o que "foge" na nossa vida, as nossas hemorragias… Quais são essas hemorragias de paciência, de esperança, de alegria ou de amor puro que nos esgotam no quotidiano? Não procuremos ser subitamente fortes, eficientes ou "apresentáveis" antes de nos voltarmos para Deus, mas aproximemo-nos d'Ele com a nossa realidade, mesmo que desajeitadamente. Toquemos a borda do Seu manto hoje por um gesto simples: uma oração curta no meio do nosso trabalho, um olhar silencioso para uma cruz, a leitura lenta de um salmo… E, sobretudo, deixemos de lado a imagem de um Deus "Mestre" que julgaria as nossas incapacidades. Acolhamos o Esposo que nos convida ao deserto interior, longe do barulho, para nos pegar pela mão e nos colocar novamente de pé. Oração Senhor Jesus, Tu, o Esposo fiel e bom, confio-Te hoje as minhas aridezes e as minhas hemorragias interiores. Tu conheces os meus cansaços, esses momentos em que a vida parece escapar de mim e onde já não me sinto capaz de amar nem de avançar. Perdoa-me por olhar para Ti tantas vezes como um juiz severo, quando Tu não és senão ternura. Faz calar em mim o clamor dos meus medos e a agitação do mundo que me rodeia. Dá-me a audácia desta mulher enferma: que eu possa, nem que seja de leve, tocar a borda do Teu manto para nele colher a Tua graça salvadora. Pega-me pela mão, Senhor, lá onde me sinto morto, ergue-me docemente e conduz-me ao deserto do Teu amor. Amém.
- O repouso dos pequeninos e a Vida segundo o Espírito Santo
(14o Domingo do Tempo Comum - Ano A) O Cristo consolador por Carl Bloch (século XIX) Leituras da Missa: Zc 9, 9-10 ; Salmo 144/145 ; Rm 8, 9.11-13 ; Mt 11, 25-30 A vida moderna assemelha-se frequentemente a uma corrida de fundo onde os vencedores são os fortes, são os mais rápidos, os eficientes. Atravessamos os nossos dias esgotados pelo dever de triunfar, de trazer resultados, de manter ao máximo o controle sobre todas as situações e, porque estamos tão cansados, exaustos, sentimos a necessidade de ser reconhecidos, de aparecer, visto todo o esforço que fazemos. O Evangelho (a boa nova) é que é justamente a esta humanidade cansada que a liturgia do décimo quarto domingo do Tempo Comum se dirige com uma delicadeza comovente. Os textos deste dia não vêm acrescentar uma exigência moral ou mais uma lei às nossas agendas já sobrecarregadas, mas, pelo contrário, abrem uma brecha de liberdade. De fato, o Senhor convida-nos a um deslocamento interior radical: abandonar a lógica do rendimento para entrar na lógica do abandono, o único espaço onde a alma encontra finalmente o seu verdadeiro repouso. 1. O Rei que desarma as nossas guerras interiores Para entrar no Evangelho deste dia, precisamos primeiro escutar o profeta Zacarias na primeira leitura. A sua profecia é um choque para a nossa imaginação, porque, na verdade, quando pensamos num rei capaz de resolver as crises e de trazer a paz, visualizamos a potência, alguém que é forte, carros de guerra, cavalos de combate, estratégias políticas implacáveis, cheio de recursos… Mas Zacarias anuncia um rei que vem pobre e montado num jumentinho, a cria de uma jumenta. Para a exegese bíblica, o jumento não é o símbolo da estupidez, mas a montaria dos tempos de paz, ao contrário do cavalo, que é o animal da conquista militar. Este rei não se impõe pela força, mas desarma. O texto diz-nos que ele fará desaparecer as armas de guerra de Efraim e de Jerusalém (reino do Norte e reino do Sul de Israel). Espiritualmente, esta primeira leitura mostra-nos que Deus não vem salvar a nossa vida utilizando as armas deste mundo; da mesma forma que Ele não vem responder à nossa violência com uma violência sagrada, nem ao nosso orgulho com uma potência esmagadora. Mas este Rei pacífico vem ao nosso encontro na nossa pobreza para “quebrar o arco de guerra” que apontamos frequentemente contra nós mesmos, contra os outros e contra Deus. Este texto anuncia-nos que a paz profunda começa quando aceitamos que o Senhor entre na nossa vida sem as nossas armaduras, sem artifícios, e quando aceitamos depor as nossas próprias armas de defesa e de justificação. 2. O paradoxo do conhecimento divino No Evangelho de hoje, Jesus irrompe num louvor que é uma verdadeira revelação sobre o funcionamento do Reino. Ele agradece ao Pai por ter escondido os segredos do céu aos sábios e aos entendidos para os revelar aos pequeninos. A primeira pergunta a fazer é: quem são estes sábios e entendidos? Não são as pessoas inteligentes ou instruídas no sentido humano, mas os que estão cheios de si mesmos, os que pensam saber tudo sobre Deus, sobre a vida e sobre os outros; são os espíritos autossuficientes, bloqueados nas suas certezas intelectuais ou religiosas, fechados à surpresa da graça. Por outro lado, os pequeninos, em grego os νήπιος (népios), designam literalmente os lactentes, aqueles que ainda não falam, aqueles que dependem totalmente do outro para viver. Ser um pequenino segundo o Evangelho é adotar uma atitude de abertura, de recetividade. São João da Cruz explica magnificamente que, para entrar na sabedoria divina, a alma deve despojar-se das suas próprias luzes humanas e consentir numa forma de ignorância sagrada, pois Deus supera infinitamente os nossos conceitos: aceitar e querer ir além. A verdade de Deus não se conquista pelo esforço da mente, ela é recebida pela pobreza do coração. Os mistérios do Pai não são enigmas a resolver, mas uma relação a viver, uma intimidade que o Filho único quer partilhar com aqueles que aceitam ter necessidade d’Ele. 3. O jugo que liberta e o segredo da doçura É então que Jesus profere este convite tão caloroso: «Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo». Ele propõe uma troca surpreendente: «Tomai sobre vós o meu jugo». À primeira vista, a palavra jugo evoca submissão, escravidão, o instrumento de madeira que une os bois para lavrar a terra. Mas, no contexto do judaísmo da época, o jugo designava a Lei de Moisés, que os escribas e os fariseus tinham tornado pesada, meticulosa, culpabilizante, impossível de carregar para o povo simples. Jesus diz: mudai de jugo, «Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve». Por que o jugo de Jesus é leve? Porque o d’Ele é o jugo do amor, e o amor não pesa. Além disso, na tradição agrícola, o jugo era frequentemente duplo: unia um animal jovem e inexperiente a um animal mais forte e experiente que puxava o essencial da carga. Tomar o jugo de Jesus não é caminhar sozinho com novas regras, é estar ligado a Ele. É avançar ao Seu ritmo, consciente dos seus limites, da sua realidade, sabendo que é Ele quem carrega o mais pesado dos nossos fardos, das nossas faltas e das nossas angústias. «…porque sou manso e humilde de coração»: a Sua doçura não é uma fraqueza, mas, muito pelo contrário, é uma força imensa que nunca esmaga a mecha que ainda fumega, uma humildade que se baixa para nos erguer. 4. Viver segundo o Espírito para superar o esgotamento da carne São Paulo, na segunda leitura, dá uma chave teológica essencial para compreender como carregar este jugo leve no quotidiano: de fato, ele opõe a carne e o Espírito. A carne, na linguagem paulina, não é simplesmente o nosso corpo físico ou os nossos impulsos instintivos; é o homem concentrado nas suas próprias forças, o homem que tenta salvar-se a si mesmo, construir a sua felicidade e a sua justiça sem Deus. Viver segundo a carne conduz inevitavelmente ao cansaço, à morte espiritual, pois os nossos recursos humanos são limitados e acabam por se esgotar. Viver segundo o Espírito é deixar o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habitar em nós. É aceitar que a vida cristã não seja uma performance da nossa vontade, mas o desenvolvimento de uma vida divina em nós. E como é que isso se faz? Deixando-se amar por Jesus; ou seja, aceitar, crer que a Sua Palavra é para mim, deixar que a Sua Palavra ganhe espaço na nossa vida, permitindo-se ser interrogado, interpelado por Jesus, e permitir que a Sua palavra produza em nós o seu efeito. Um pouco antes, neste mesmo capítulo da carta de São Paulo, no versículo 16, ele diz: «O próprio Espírito Santo testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus». Se, portanto, no teu coração, tu crês, tu aceitas, tu tens a certeza de ser filho de Deus, é porque o Espírito Santo habita plenamente em ti. E é esta certeza que vai permitir que a Sua Palavra produza em ti os seus efeitos. E, para voltar aos textos de hoje, o Espírito Santo é o motor interior que torna o jugo de Jesus suave. O que a lei humana exige sem dar a força para cumprir, o Espírito oferece-o gratuitamente por amor. É este Espírito que nos permite clamar para o Pai com a confiança de uma criança e matar «as obras do homem pecador», isto é, essa tendência permanente de querer gerir tudo pelas nossas próprias forças carnais, esse delírio de autossuficiência que nos conduz sempre ao erro e ao esgotamento. Precisamos sempre uns dos outros, precisamos sempre de um Pai, de Deus: permitamos que o seu Espírito aja em nós. «Pai, Senhor do céu e da terra, eu proclamo o teu louvor: o que escondeste aos sábios e aos entendidos, revelaste-o aos pequeninos» Conclusão e aplicação para o nosso dia O Evangelho deste domingo é um imenso alívio para a nossa vida. O Senhor vê os nossos cansaços, as nossas decepções, o peso das nossas responsabilidades familiares, profissionais ou espirituais. Ele não nos pede para fazer mais, Ele pede-nos para ir a Ele. Para aplicar esta Palavra concretamente na nossa semana: Identifiquemos claramente o nosso fardo atual: será uma inquietação com o futuro, uma ferida do passado, o medo de não estar à altura? Depositemo-lo explicitamente na oração entre as mãos do Cristo manso e humilde. Renunciemos à tentação da autossuficiência. Diante das situações que não compreendemos, aceitemos ser pequeninos, aceitemos não saber nem compreender todas as coisas, e que há mais além; aceitemos aprender, aceitemos ser ajudados, dizendo simplesmente: Pai, não sei como fazer, mas confio em Ti. Verifiquemos se a nossa maneira de viver a fé é um peso ou uma libertação. Se a nossa vida cristã se torna uma fonte de ansiedade e de cansaço, é porque carregamos o nosso próprio jugo e não o de Jesus. Repeçamos o Espírito Santo para reencontrar a frescura do dom gratuito. Oração Senhor Jesus, Tu, o Rei manso e humilde, venho a Ti hoje com todo o meu cansaço e os fardos que pesam sobre os meus ombros. Tu conheces os meus combates interiores, os meus esforços contínuos para parecer forte, sábio e capaz de resolver tudo por mim mesmo. Reconheço que este caminho da carne me esgota e me afasta da Tua alegria. Peço-Te, Senhor, faz de mim um pequenino. Despoja-me do meu orgulho, das minhas falsas seguranças e das minhas certezas rígidas. Quero colocar-me sob o Teu jugo tão suave de carregar, ligar-me a Ti para caminhar ao Teu passo. Que o Teu Espírito Santo, o Espírito da ressurreição, penetre no meu coração para purificar os meus pensamentos e devolver a vida ao meu corpo mortal. Concede à minha alma esse repouso profundo que só Tu podes dar, a fim de que a minha vida proclame o louvor do Pai, na paz e na confiança absoluta. Amém.
- O Vinho Novo exige Corações Novos
(Sábado, 13ª Semana do Tempo Comum) As Bodas de Caná por Paulo Verônese, 1563 Leituras da Missa: Am 9, 11-15 ; Salmo 84/85 ; Mt 9, 14-17 A existência humana balança frequentemente entre a nostalgia do passado e o medo da mudança. Instalamo-nos em ritos, em hábitos, às vezes até nas nossas próprias feridas, porque nos são familiares. No entanto, a liturgia deste sábado da 13ª semana do Tempo Comum vem quebrar esse torpor. Com efeito, a Palavra de Deus hoje coloca-nos diante de uma alternativa radical: continuar a remendar o antigo ou aceitar renovar tudo sob o impulso da graça. O Evangelho deste dia mostra-nos que Deus não faz compromissos com a novidade que Ele traz; Ele não vem tapar brechas, Ele vem fazer novas todas as coisas. 1. A promessa de uma reconstrução total Para compreender a força das palavras de Jesus sobre o vinho novo, é preciso primeiro escutar a promessa do profeta Amós na primeira leitura. Já no primeiro versículo vemos Deus declarar: «reerguerei a cabana de Davi, que está caindo». Este texto bíblico, com efeito, utiliza verbos duma potência extraordinária: reerguer, reparar, reconstruir. No tempo do profeta Amós, o povo vivia em paz, em prosperidade; as cerimônias religiosas eram muito frequentadas, mas essa opulência caminhava lado a lado com um declínio moral e religioso que corroía os fundamentos da sociedade. O texto de hoje fala de uma Promessa que não consiste numa vaga consolação espiritual, mas numa verdadeira restauração da vida. O texto de hoje descreve uma surabundância magnífica onde «as montanhas deixarão correr vinho novo». Esta imagem de fertilidade inédita, onde o camponês segue de perto o ceifador, mostra-nos que a ação de Deus antecipa as nossas capacidades humanas; no entanto, esta reconstrução exige uma ruptura com aquilo que nos mantinha cativos. O Salmo 84 faz eco a isso, sendo o exemplo daquele que escuta a Palavra de Deus, dizendo: «Quero ouvir o que diz o Senhor Deus: ele promete a paz para o seu povo e para os seus fiéis, desde que não voltem à sua loucura!». A Promessa divina, portanto, está condicionada ao nosso consentimento em deixar as ruínas das nossas antigas maneiras de viver, as nossas loucuras, para entrar nesta terra prometida onde o Senhor nos planta definitivamente. 2. A presença do Esposo e o sentido da falta No Evangelho, vemos os discípulos de João Batista interrogarem Jesus sobre uma prática religiosa fundamental: o jejum. Mas por trás da pergunta deles há uma incompreensão diante da alegria e da liberdade dos discípulos de Jesus. A resposta de Cristo desloca imediatamente o debate do terreno jurídico ou ritual para o terreno relacional, fazendo-nos compreender que o jejum só tem sentido se estiver orientado para a expectativa de uma Presença. Ora, a presença está ali, e Jesus aqui se define como o Esposo. Na tradição bíblica, e em seguida os Padres da Igreja utilizam frequentemente esta imagem para a vida espiritual, a figura do Esposo é a de Deus que se une à humanidade. São João da Cruz lembra-nos frequentemente que o fim último de toda alma é esta união esponsal com o Verbo. E neste Evangelho, Jesus diz uma coisa comovente: «Podem os convidados do casamento estar de luto enquanto o Esposo está com eles?». A vida cristã não é primeiramente uma ética do esforço ou uma ascese da tristeza, mas uma experiência de núpcias, uma alegria fundamental ligada à presença do Ressuscitado. Podemos dizer que o cristão é aquele que acorda e descobre que o Reino de Deus está entre nós, o Cristo está ali! O jejum voltará, diz Jesus, quando o Esposo lhes for tirado. É o jejum da Igreja que espera o retorno do seu Senhor, um jejum que nasce não do dever, mas do desejo ardente de O reencontrar; o jejum é uma preparação para receber o Senhor, eis por que jejuamos antes de ir à Missa, antes da Comunhão; faz-se o jejum quando, no meio duma situação específica, se busca o Senhor. 3. A armadilha do remendo espiritual É então que Jesus utiliza as duas célebres parábolas da roupa e dos odres, que contêm uma verdade psicológica e espiritual de uma profundidade imensa. «Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda.» Espiritualmente, isso significa que não podemos utilizar o Evangelho simplesmente para corrigir alguns defeitos da nossa vida enquanto mantemos, por exemplo, a nossa mentalidade egoísta ou legalista, enquanto mantemos uma mentalidade que não é a de Cristo. Ou seja, a graça não é um verniz superficial. Se tentarmos ajustar a mensagem de Cristo aos nossos velhos esquemas de pensamento, aos nossos rancores ou às nossas lógicas mundanas, acabamos por quebrar tudo. Quantas vezes tentamos viver uma vida de oração enquanto recusamos perdoar? Quantas vezes queremos a paz de Deus sem abandonar os nossos ídolos? Esse é o grande perigo do compromisso espiritual: querer o vinho da alegria cristã sem aceitar mudar de mentalidade. 4. Os odres novos: a conversão da estrutura interior «Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizerem, os odres arrebentam, o vinho derrama-se e os odres perdem-se.» O odre novo é o homem interior transformado pelo Espírito Santo. O vinho novo é a vida divina, o fogo do amor, o Espírito de liberdade que o Cristo veio derramar. Se as nossas estruturas interiores – a nossa maneira de julgar, de reagir, de amar – permanecerem rígidas, ressecadas pelo orgulho ou pela rotina, elas arrebentarão sob a pressão da novidade de Deus. Aqui vemos que a verdadeira conversão consiste precisamente em aceitar que Deus mude o nosso recipiente, e não apenas o nosso conteúdo. Ser um odre novo significa aceitar uma flexibilidade interior, uma docilidade ao Espírito. São João da Cruz explicava que, para receber a luz divina, a alma deve esvaziar-se das suas próprias fixações. O vinho novo da graça precisa dum espaço livre, de um coração disponível que não pretenda ditar a Deus como Ele deve agir. Conclusão e aplicação para o nosso dia Esta página do Evangelho convida-nos a fazer uma verdade profunda em nós mesmos hoje. Neste sábado, olhemos para a nossa vida e permitamo-nos interrogar: como estamos com os nossos «odres velhos»? Estamos a remendar penosamente situações, relações ou uma prática religiosa rotineira, ou aceitamos deixar-nos renovar por Cristo? Para a nossa vida espiritual, podemos propor aplicações muito concretas: Cessemos de gerir a nossa vida espiritual como uma lista de deveres a cumprir e redescubramos a presença do Esposo ao nosso lado. Diante duma dificuldade ou duma tensão hoje, não apliquemos a nossa velha solução automática (a cólera, a fuga, o controle), mas peçamos ao Senhor que Ele mesmo nos inspire uma atitude nova, nascida do seu Evangelho. E, finalmente, ofereçamos ao Cristo as nossas rigidezes para que Ele as torne flexíveis pelo óleo da sua misericórdia. Oração Senhor Jesus, Tu que és o Esposo da minha alma e a fonte de toda verdadeira alegria, apresento-me diante de Ti neste dia com as minhas pobrezas e os meus velhos hábitos. Tu conheces as minhas rigidezes, as minhas resistências à mudança e a minha infeliz tendência de querer remendar a minha vida em vez de Te a dar inteiramente. Peço-Te, faz do meu coração um odre novo. Torna-me flexível, disponível e dócil à ação do teu Espírito Santo. Vem derramar em mim o vinho novo da tua caridade, da tua paciência e da tua alegria, a fim de que a minha vida quotidiana se torne um reflexo do teu Reino. Não permitas que eu me agarre às minhas ruínas, mas ajuda-me a entrar plenamente na novidade da tua Ressurreição. Amém.
- A ferida aberta: onde começa a morada da fé
(Sexta-feira, São Tomás, apóstolo - Festa) A incredulidade de São Tomás, de Caravaggio (c. 1601-1602) Leituras da Missa: Ef 2, 19-22 ; Salmo 116 ; Jo 20, 24-29 Há uma tentação sutil que atravessa frequentemente a nossa vida espiritual: a de acreditar que, para ir a Deus, devemos ser perfeitos, impecáveis, sem a sombra de uma hesitação. Pensamos que a dúvida é uma anomalia, uma falta grave a ser escondida de todo o mundo. E, no entanto, a festa de São Tomé que celebramos hoje vem quebrar essa ilusão. Ao lembrarmo-nos do fio condutor do domingo anterior — onde o Evangelho nos chamava à radicalidade do seguimento de Cristo, a amá-Lo sobre todas as pessoas e coisas —, compreendemos que esse seguimento exige uma verdade total: não se pode seguir Jesus com uma máscara. Tomé, com a sua resistência tenaz, representa a todos nós na nossa recusa de respostas pré-fabricadas; ele mostra-nos que a fé não é uma ideia abstrata à qual se adere intelectualmente, mas um encontro carnal, concreto, uma experiência de pobreza que se deixa abraçar pela misericórdia. 1. Quebrar a solidão para entrar no edifício A primeira leitura, tirada da carta de São Paulo aos Efésios, estabelece um quadro magnífico para compreender a aventura espiritual de Tomé. Paulo diz-nos: «Já não sois estrangeiros nem hóspedes de passagem, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus.» É uma palavra de pura consolação, mas contém uma exigência: para ser integrado numa construção, é preciso aceitar fazer corpo com as outras pedras. Ora, o que faz Tomé no início do texto do Evangelho de hoje? Ele não está lá! Isolou-se. O sofrimento, o luto da morte de Jesus e, talvez, a decepção levaram-no a fechar-se na sua própria solidão, longe da comunidade…; e quando os outros lhe dizem «Vimos o Senhor», ele recusa o testemunho deles. O drama da dúvida de Tomé começa pela sua ausência da comunidade, estar fora do corpo dos apóstolos torna-o vulnerável ao isolamento. São Paulo lembra-nos que somos elementos duma mesma construção para nos tornarmos uma morada de Deus por meio do Espírito Santo. A fé cresce e fortalece-se unida, na partilha da pobreza dos irmãos, e não no isolamento de uma busca puramente individual. 2. O direito de tocar: a pedagogia divina da vulnerabilidade Mas o que é extraordinário neste episódio, e que coloca em crise o nosso perfeccionismo religioso imaginário, é que o Cristo não rejeita Tomé por causa das suas condições estritas. «Oito dias depois», diz o texto, «estando as portas fechadas», Jesus volta. Ele atravessa as paredes dos nossos medos, das nossas exclusões, e coloca-se «no meio deles». A sua primeira palavra é um dom: «A paz esteja convosco!» Depois, imediatamente, Jesus volta-se para aquele que duvida: não há nenhuma condenação no seu olhar, apenas uma condescendência infinita. E ainda mais impressionante é que Jesus aceita as exigências de Tomé, aquele que duvidava! Jesus satisfaz a exigência de Tomé e diz-lhe: «Aproxima o teu dedo daqui... aproxima a tua mão». E aqui estamos diante de outro mistério igualmente comovente: o Ressuscitado guarda as suas feridas abertas. E o questionamento é legítimo: por que a glória da ressurreição não apagou as marcas da crucificação? Porque são precisamente essas feridas que nos curam… O Cristo mostra a Tomé que a Sua glória não é uma anulação do sofrimento, mas a sua transfiguração. Ao convidar Tomé a tocar as suas feridas, Jesus mostra-lhe que a fé não nasce de uma teoria, mas de um contato com a sua vulnerabilidade. Entrar em relação com Deus é aceitar tocar e ser tocado pela carne sofredora do Cristo, que continua frequentemente a gemer nos membros dos nossos irmãos mais necessitados: a ferida deles revela a nossa, e esse contato faz-nos reconhecer que Ele realmente ressuscitou. 3. Do desabamento da dúvida à teologia do coração Quando Tomé toca a ferida, algo desaba nele: não são apenas as suas dúvidas que voam, é o seu orgulho, a sua pretensão de querer tudo controlar, tudo verificar por si mesmo… A sua resposta é a mais alta confissão de fé de todo o Novo Testamento: «Meu Senhor e meu Deus!» Ele não diz apenas «Tu estás vivo», ele diz «Tu és meu»: é a linguagem da aliança, a expressão de uma intimidade recuperada. Os Padres da Igreja, como por exemplo São Gregório Magno (século VI), gostam de sublinhar que a dúvida de Tomé foi mais útil para a nossa fé do que a crença imediata dos outros discípulos: portanto, ao tocar o Cristo, Tomé curou a nossa própria incredulidade. E, finalmente, a bem-aventurança final de Jesus, «Felizes os que creem sem terem visto», ao contrário do que se poderia pensar, não diminui Tomé, mas abre a porta para todos nós: a verdadeira fé começa onde terminam as nossas evidências sensíveis; é o ato de confiança absoluta duma alma que se sabe amada através das suas próprias falhas. São João da Cruz escrevia que, para chegar ao que não se sabe, é preciso passar por um caminho onde não se sabe: Tomé aceitou perder as suas certezas lógicas para receber a certeza do coração. Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia deste dia convida-nos a olhar para as nossas próprias dúvidas e para as nossas próprias feridas não como obstáculos, mas como o lugar potencial do nosso encontro mais profundo com Deus. Enquanto apresentarmos ao Senhor uma vida lisa, ideal — o que não é verdade —, não poderemos experimentar verdadeiramente a Sua ressurreição. Para que estes ensinamentos bíblicos possam realizar estes efeitos em nós, primeiro, cessemos de fugir da comunidade quando atravessamos momentos de escuridão ou de secura espiritual; é precisamente no meio dos nossos irmãos que o Cristo se faz presente. E segundo, não tenhamos medo de apresentar as nossas próprias feridas interiores ao Cristo na oração, dizendo-Lhe com simplicidade a nossa incapacidade de crer ou de amar pelas nossas próprias forças: rezar desta forma é abrir-Lhe um espaço e permitir-Lhe que nos toque. Sigamos o exemplo de São Tomé e deixemos Jesus colocar a sua paz sobre os nossos ferrolhos para viver na liberdade do Ressuscitado, em comunhão com os nossos irmãos. Oração Meu Senhor e meu Deus, peço-Te perdão por todas as vezes em que, por medo ou por orgulho, me fechei na minha solidão, recusando crer na alegria que os meus irmãos partilhavam comigo. Tu conheces as minhas exigências, as minhas lentidões e as minhas dúvidas. Hoje, atravessa as minhas portas fechadas. Não retires de mim as Tuas feridas, mas permite-me esconder-me nelas. Vem tocar a minha incredulidade e transfigurar as minhas próprias feridas em lugares de luz e de testemunho. Faz de mim uma pedra viva, solidamente ajustada aos meus irmãos, para que as nossas vidas reunidas se tornem uma morada acolhedora para o Teu Espírito. Eu creio, Senhor, mas vem socorrer a minha falta de fé. Amém.












