O Vinho Novo exige Corações Novos
- 3 de jul.
- 5 min de leitura
(Sábado, 13ª Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: Am 9, 11-15 ; Salmo 84/85 ; Mt 9, 14-17
A existência humana balança frequentemente entre a nostalgia do passado e o medo da mudança. Instalamo-nos em ritos, em hábitos, às vezes até nas nossas próprias feridas, porque nos são familiares. No entanto, a liturgia deste sábado da 13ª semana do Tempo Comum vem quebrar esse torpor. Com efeito, a Palavra de Deus hoje coloca-nos diante de uma alternativa radical: continuar a remendar o antigo ou aceitar renovar tudo sob o impulso da graça. O Evangelho deste dia mostra-nos que Deus não faz compromissos com a novidade que Ele traz; Ele não vem tapar brechas, Ele vem fazer novas todas as coisas.
1. A promessa de uma reconstrução total
Para compreender a força das palavras de Jesus sobre o vinho novo, é preciso primeiro escutar a promessa do profeta Amós na primeira leitura. Já no primeiro versículo vemos Deus declarar: «reerguerei a cabana de Davi, que está caindo». Este texto bíblico, com efeito, utiliza verbos duma potência extraordinária: reerguer, reparar, reconstruir. No tempo do profeta Amós, o povo vivia em paz, em prosperidade; as cerimônias religiosas eram muito frequentadas, mas essa opulência caminhava lado a lado com um declínio moral e religioso que corroía os fundamentos da sociedade. O texto de hoje fala de uma Promessa que não consiste numa vaga consolação espiritual, mas numa verdadeira restauração da vida. O texto de hoje descreve uma surabundância magnífica onde «as montanhas deixarão correr vinho novo».
Esta imagem de fertilidade inédita, onde o camponês segue de perto o ceifador, mostra-nos que a ação de Deus antecipa as nossas capacidades humanas; no entanto, esta reconstrução exige uma ruptura com aquilo que nos mantinha cativos. O Salmo 84 faz eco a isso, sendo o exemplo daquele que escuta a Palavra de Deus, dizendo: «Quero ouvir o que diz o Senhor Deus: ele promete a paz para o seu povo e para os seus fiéis, desde que não voltem à sua loucura!». A Promessa divina, portanto, está condicionada ao nosso consentimento em deixar as ruínas das nossas antigas maneiras de viver, as nossas loucuras, para entrar nesta terra prometida onde o Senhor nos planta definitivamente.
2. A presença do Esposo e o sentido da falta
No Evangelho, vemos os discípulos de João Batista interrogarem Jesus sobre uma prática religiosa fundamental: o jejum. Mas por trás da pergunta deles há uma incompreensão diante da alegria e da liberdade dos discípulos de Jesus. A resposta de Cristo desloca imediatamente o debate do terreno jurídico ou ritual para o terreno relacional, fazendo-nos compreender que o jejum só tem sentido se estiver orientado para a expectativa de uma Presença. Ora, a presença está ali, e Jesus aqui se define como o Esposo.
Na tradição bíblica, e em seguida os Padres da Igreja utilizam frequentemente esta imagem para a vida espiritual, a figura do Esposo é a de Deus que se une à humanidade. São João da Cruz lembra-nos frequentemente que o fim último de toda alma é esta união esponsal com o Verbo. E neste Evangelho, Jesus diz uma coisa comovente: «Podem os convidados do casamento estar de luto enquanto o Esposo está com eles?». A vida cristã não é primeiramente uma ética do esforço ou uma ascese da tristeza, mas uma experiência de núpcias, uma alegria fundamental ligada à presença do Ressuscitado. Podemos dizer que o cristão é aquele que acorda e descobre que o Reino de Deus está entre nós, o Cristo está ali! O jejum voltará, diz Jesus, quando o Esposo lhes for tirado. É o jejum da Igreja que espera o retorno do seu Senhor, um jejum que nasce não do dever, mas do desejo ardente de O reencontrar; o jejum é uma preparação para receber o Senhor, eis por que jejuamos antes de ir à Missa, antes da Comunhão; faz-se o jejum quando, no meio duma situação específica, se busca o Senhor.
3. A armadilha do remendo espiritual
É então que Jesus utiliza as duas célebres parábolas da roupa e dos odres, que contêm uma verdade psicológica e espiritual de uma profundidade imensa. «Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda.» Espiritualmente, isso significa que não podemos utilizar o Evangelho simplesmente para corrigir alguns defeitos da nossa vida enquanto mantemos, por exemplo, a nossa mentalidade egoísta ou legalista, enquanto mantemos uma mentalidade que não é a de Cristo.
Ou seja, a graça não é um verniz superficial. Se tentarmos ajustar a mensagem de Cristo aos nossos velhos esquemas de pensamento, aos nossos rancores ou às nossas lógicas mundanas, acabamos por quebrar tudo. Quantas vezes tentamos viver uma vida de oração enquanto recusamos perdoar? Quantas vezes queremos a paz de Deus sem abandonar os nossos ídolos? Esse é o grande perigo do compromisso espiritual: querer o vinho da alegria cristã sem aceitar mudar de mentalidade.
4. Os odres novos: a conversão da estrutura interior
«Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizerem, os odres arrebentam, o vinho derrama-se e os odres perdem-se.» O odre novo é o homem interior transformado pelo Espírito Santo. O vinho novo é a vida divina, o fogo do amor, o Espírito de liberdade que o Cristo veio derramar. Se as nossas estruturas interiores – a nossa maneira de julgar, de reagir, de amar – permanecerem rígidas, ressecadas pelo orgulho ou pela rotina, elas arrebentarão sob a pressão da novidade de Deus.
Aqui vemos que a verdadeira conversão consiste precisamente em aceitar que Deus mude o nosso recipiente, e não apenas o nosso conteúdo. Ser um odre novo significa aceitar uma flexibilidade interior, uma docilidade ao Espírito. São João da Cruz explicava que, para receber a luz divina, a alma deve esvaziar-se das suas próprias fixações. O vinho novo da graça precisa dum espaço livre, de um coração disponível que não pretenda ditar a Deus como Ele deve agir.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Esta página do Evangelho convida-nos a fazer uma verdade profunda em nós mesmos hoje. Neste sábado, olhemos para a nossa vida e permitamo-nos interrogar: como estamos com os nossos «odres velhos»? Estamos a remendar penosamente situações, relações ou uma prática religiosa rotineira, ou aceitamos deixar-nos renovar por Cristo?
Para a nossa vida espiritual, podemos propor aplicações muito concretas:
Cessemos de gerir a nossa vida espiritual como uma lista de deveres a cumprir e redescubramos a presença do Esposo ao nosso lado.
Diante duma dificuldade ou duma tensão hoje, não apliquemos a nossa velha solução automática (a cólera, a fuga, o controle), mas peçamos ao Senhor que Ele mesmo nos inspire uma atitude nova, nascida do seu Evangelho.
E, finalmente, ofereçamos ao Cristo as nossas rigidezes para que Ele as torne flexíveis pelo óleo da sua misericórdia.
Oração
Senhor Jesus, Tu que és o Esposo da minha alma e a fonte de toda verdadeira alegria, apresento-me diante de Ti neste dia com as minhas pobrezas e os meus velhos hábitos. Tu conheces as minhas rigidezes, as minhas resistências à mudança e a minha infeliz tendência de querer remendar a minha vida em vez de Te a dar inteiramente.
Peço-Te, faz do meu coração um odre novo. Torna-me flexível, disponível e dócil à ação do teu Espírito Santo. Vem derramar em mim o vinho novo da tua caridade, da tua paciência e da tua alegria, a fim de que a minha vida quotidiana se torne um reflexo do teu Reino. Não permitas que eu me agarre às minhas ruínas, mas ajuda-me a entrar plenamente na novidade da tua Ressurreição. Amém.





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