Lenta-te e caminha: o poder que recria o coração
- 1 de jul.
- 5 min de leitura
(Quinta-feira, XIII Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: Am 7, 10-17 ; Salmo 18b/19 ; Mt 9, 1-8
No caminhamento da nossa fé, chegamos frequentemente diante de Deus com as nossas urgências visíveis, apresentamos-Lhe os nossos sofrimentos materiais, os nossos corpos cansados, os nossos projetos quebrantados. Somos frequentemente como os amigos desse paralítico no Evangelho de Mateus: queremos uma solução imediata para aquilo que nos impede de caminhar. E, no entanto, a liturgia desta quinta-feira da 13ª semana do Tempo Comum convida-nos a operar um deslocamento interior radical. Para compreender plenamente o que Jesus realiza em Cafarnaum, precisamos fazer memória do domingo anterior, onde o Cristo nos chamava a segui-Lo sem reserva, a deixar as nossas seguranças e os nossos apegos. Seguir a Cristo exige ser livre, flexível, vivo. Mas como caminhar no seguimento de Jesus, como ser digno d’Ele quando se está paralisado por dentro? É para esta cura fundamental que o Senhor nos convoca hoje.
1. A liberdade do profeta diante do conforto do santuário
A primeira leitura de hoje mostra-nos uma outra forma de rigidez e de paralisia, a das estruturas religiosas desconectadas da vida divina. Amós encontra-se diante de Amasias, o sacerdote de Betel. Amasias gere a religião como uma carreira e uma ferramenta política. Para o sacerdote Amasias, a palavra de Deus deve ser rentável e confortável, eis por que diz ao profeta Amós: «Vai-te daqui, foge para a terra de Judá; é lá que poderás ganhar a tua vida fazendo o teu ofício de profeta.» Além de ser contra o conteúdo da pregação de Amos, aqui vemos que o sacerdote Amasias vê o profetismo como um ofício, um ganha-pão.
Mas a palavra de Deus não se comercializa e não se domestica. A resposta de Amós é admirável, cheia de liberdade e de humildade: «Eu não era profeta nem filho de profeta; eu era pastor e cultivava sicômoros. Mas o Senhor me tirou…» Amós não tem interesse pessoal a defender, não tem status a proteger; ele foi abordado, apreendido por uma Presença: é a sua docilidade ao Senhor que o torna capaz de se manter de pé diante dos poderosos. Para usar a linguagem do episódio do Evangelho de hoje, podemos dizer que a paralisia de Amasias é a sua instalação, o seu apego no conforto religioso da coorte de Israel, enquanto a liberdade de Amós é a do homem de pé, cuja vida está escorada na verdade da Palavra. São João da Cruz lembra-nos frequentemente que, para possuir o Tudo, é preciso aceitar não querer ser nada por si mesmo. Amós encarna essa pobreza que conhecemos como “evangélica”, que se torna potência espiritual.
2. O diagnóstico do Cristo: ir à raiz do mal
Façamos agora a ligação com o Evangelho. Jesus está de volta à sua cidade, isto é, Cafarnaum, e trazem-lhe um paralítico numa maca. O texto nota um detalhe crucial: «Vendo a fé deles, Jesus disse ao paralítico: Coragem, meu filho, os teus pecados estão perdoados.» Coloquemo-nos bem na pele deste paralítico e dos seus amigos que fizeram um grande esforço para chegar até Jesus: esta frase de Jesus ao paralítico é um choque! Um choque porque este homem precisa recuperar o uso das suas pernas, e Jesus fala-lhe do perdão dos pecados… Mas, então, por que esse descompasso “aparente”?
É que Jesus não cura na superfície, ele vai imediatamente à raiz do nosso bloqueio mais íntimo. O Cristo sabe que a pior das paralisias não é a do corpo, mas a da alma. Com efeito, o pecado, na sua essência profunda, é uma ruptura de relação com Deus e, por consequência, com o próximo. O pecado é o fechamento em si mesmo, a desconfiança em relação a Deus, a incapacidade de amar e de se deixar amar. O pecado fixa-nos, torna-nos imóveis, prisioneiros das nossas culpabilidades e dos nossos fracassos. Jesus, ao dizer-lhe «os teus pecados estão perdoados», opera uma recriação. Ele não faz uma simples anistia jurídica, ele devolve a vida! É belo como Jesus se dirige ao paralítico: «Coragem, meu filho…», restaurando assim a sua identidade de filho de Deus. O perdão é o primeiro passo do homem de pé: sem esta cura do coração, caminhar fisicamente só serviria para errar sem rumo.
3. O poder de reconciliar e o escândalo da graça
Esta palavra de libertação desperta imediatamente a resistência dos escribas. «Este homem blasfema», dizem eles. Para eles, Deus é distante, encerrado em categorias teológicas estritas. Não podem compreender, não podem suportar que a misericórdia divina se manifeste de maneira tão direta, tão humana através de Jesus.
Jesus lê nos seus pensamentos e faz a pergunta central: «O que é mais fácil? Dizer: Os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te e caminha?» Do ponto de vista humano, dizer que os pecados estão perdoados é mais fácil, porque isso não se vê. Mas, para manifestar que a Sua Palavra tem uma eficácia real, divina, Jesus realiza o milagre visível. «Levanta-te, pega a tua maca e vai para a tua casa.»
Este milagre é o sinal exterior de uma realidade invisível bem mais imensa. Com efeito, a verdadeira novidade cristã é este poder de reconciliação dado aos homens. A multidão não se engana, ficaram «possuídos de temor e glorificaram a Deus por ter dado tal poder aos homens.» Este poder continua a desenvolver-se hoje na Igreja, nomeadamente através do sacramento da reconciliação; é aí que o Cristo continua a dizer-nos individualmente: «Coragem, levanta-te.»
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A liturgia deste dia coloca-nos diante das nossas próprias macas. Qual é a paralisia que me impede hoje de avançar, de amar, de seguir o Cristo com a liberdade de Amós? Será um velho rancor? Uma culpabilidade que não consigo abandonar? Uma instalação confortável, mas estéril como a de Amasias?
A Palavra de Deus convida-nos hoje à audácia: somos chamados a aceitar que Jesus pouse o seu olhar sobre aquilo que está ferido em nós, aquilo que frequentemente escondemos, porque muito frequentemente trata-se de um caso, uma situação onde precisamos ser perdoados… A aplicação concreta para o nosso dia, então, é dupla:
Primeiro, cessar de ocultar as nossas paralisias interiores sob externalidades, sob a estética de uma falsa saúde espiritual: vir ao Cristo com a nossa verdade, a nossa pobreza, conscientes do pecado que nos paralisia.
Em seguida, ou por consequência, confiar na potência do perdão: se carregamos um fardo, o sacramento da confissão é o lugar por excelência onde o Cristo nos coloca novamente de pé. Hoje, não fiquemos deitados nas nossas macas do hábito ou do desânimo. O Senhor repete-nos: «Coragem, levanta-te e caminha.»
Oração
Senhor Jesus, apresento-me diante de Ti hoje com as minhas pobrezas e as minhas imobilidades secretas. Tu conheces as zonas do meu coração que estão paralisadas pelo medo, pelo dúvida ou pelo pecado. Peço-Te a graça de não me esconder atrás de falsas seguranças.
Dá-me a fé desses homens que carregaram o paralítico até Ti. Vem dizer-me ao ouvido do coração esta palavra que ressuscita: «Coragem, meu filho.» Purifica o meu olhar pelos Teus julgamentos que são retos e que alegram o coração. Devolve-me a liberdade do profeta Amós para que eu possa caminhar no Teu seguimento, leve, curado, e testemunhar a Tua misericórdia junto dos meus irmãos. Amém.





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