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O trigo, o joio e a paciência do Semeador

  • 27 de jul.
  • 5 min de leitura

(Terça-feira, 28 de julho, XVII semana do Tempo Comum)

A Parábola da grama e do bom trigo, 1540, Lucas van Gassel
A Parábola da grama e do bom trigo, 1540, Lucas van Gassel

Leituras da Missa: Jr 14, 17-22 ; Sl 78(79) ; Mt 13, 36-43


A Palavra de Deus continua a desdobrar diante de nós o imenso mistério do seu Reino. No domingo passado, o Evangelho nos convidava a descobrir o valor inestimável do tesouro escondido e da pérola preciosa, e esse chamado a tudo vender para adquirir o essencial ainda brilha como um farol sobre toda a nossa semana. No entanto, a realidade cotidiana nos alcança rapidamente: no meio dos nossos desejos de santidade, surgem o cansaço, os nossos limites e a presença perturbadora do mal, tanto ao nosso redor quanto dentro do nosso próprio coração.

É precisamente neste combate diário que a Liturgia de hoje vem ao nosso encontro. A piedade do profeta Jeremias, na primeira leitura, faz eco às perguntas que os discípulos fazem a Jesus a sós, longe da multidão. Todos nós somos confrontados com o mistério do mal e do tempo: por que Deus deixa o joio crescer com o bom trigo? Como manter a esperança quando as nossas feridas parecem profundas e sem remédio?


1. A lamentação humana diante do mistério do mal

Na primeira leitura, ouvimos o grito comovente do profeta Jeremias: «Que meus olhos derramem lágrimas noite e dia... A virgem, filha do meu povo, está profundamente ferida.» O profeta torna-se o porta-voz de uma humanidade ferida pelo sofrimento, desorientada pela aparente ausência de socorro. «Até o profeta, até o padre percorrem o país sem compreender.» É o desânimo do homem que esperava a paz e só encontra o terror.

Contudo, nesta escuridão, Jeremias não se afasta de Deus, não desliza para o amargor ou o cinismo, mas suplica: «Lembra-te: não rompas a tua aliança conosco!» Este é o ponto de partida de toda vida espiritual autêntica: reconhecer a nossa aflição e as nossas revoltas, não para nos fecharmos nelas, mas para depositá-las no coração da Aliança. O salmista se une a essa mesma atitude ao exclamar: «Pela glória do teu nome, Senhor, liberta-nos!» Não se pode compreender o Evangelho e a mensagem de Jesus sem antes aceitar e tomar consciência da nossa necessidade radical de sermos salvos.


2. O recolhimento na casa: entrar na intimidade do Mestre

O Evangelho se abre com um detalhe espiritual fundamental: «Deixando as multidões, Jesus entrou em casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: ‘‘Explica-nos claramente a parábola...’’» Para compreender os mistérios do Reino, é preciso deixar o barulho da multidão e entrar na casa com Cristo, porque é no silêncio da oração pessoal, na intimidade do coração a coração, que o Senhor nos explica o que o mundo não pode compreender.

Os discípulos não pedem uma nova parábola, pedem a explicação: eles têm necessidade de luz. E Jesus lhes explica, não os recusa, mas revela a realidade do mundo: o Semeador do bom trigo é o Filho do Homem; o campo é o mundo; o bom trigo são os filhos do Reino. Mas o inimigo vem de noite para semear a confusão; ao nos revelar isso, Cristo desarma em nós a tentação do julgamento apressado. Isso significa que o mundo e até mesmo a Igreja não são lugares de "pureza ideal" feitos de um único bloco, mas campos onde coexistem o trigo e o joio.

No plano exegético, o joio (zizania em grego, derivado do talmúdico zunin) assemelha-se de maneira impressionante ao trigo durante toda a fase de crescimento. É somente no momento em que a espiga se forma que se distingue a diferença: a espiga é dourada e a haste se curva sob o peso dos grãos — resultado do sadio cansaço do amor —, enquanto o joio permanece verde, ereto e não se curva. Querer arrancar o joio cedo demais é correr o risco de arrancar o trigo junto, pois suas raízes estão entrelaçadas sob a terra: Deus recusa a precipitação humana porque conhece a fragilidade das raízes...


3. A pedagogia da paciência divina

A tentação do homem é frequentemente o purismo e a imediatismo: separar imediatamente os bons dos maus, dividir o mundo em branco e preto; mas Deus é paciente porque é eterno, Ele dá tempo para a conversão. O que é joio hoje pode, pela graça de Deus e pelo mistério da liberdade, produzir bons frutos amanhã. O diabo busca nos precipitar na condenação ou no desânimo; Cristo nos convida à confiança e à vigilância.

Como ensinava Santo Agostinho ao comentar os Salmos, os defeitos e fraquezas que subsistem em nós são a oportunidade de trabalhar a humildade e nos refugiar sob a proteção divina, sabendo que a graça cura e transforma o coração do homem com doçura (cf. Agostinho, Enarrationes in Psalmos, Sl 102, 10-11). O inimigo sema o mal na sombra, mas o Filho do Homem prepara uma colheita de luz. O julgamento não pertence à nossa impaciência, pertence à misericórdia do Pai no fim dos tempos.


Conclusão e aplicação para o nosso dia

Esta Palavra de Deus vem iluminar concretamente os nossos dias. Devemos ser sinceros e reconhecer que todos carregamos em nós uma parte de bom trigo e uma parte de joio. Nossas incoerências, nossas quedas diárias e nossos julgamentos impacientes em relação aos outros podem às vezes nos mergulhar na tristeza e nos desanimar em nosso caminho de santidade. Mas a Liturgia de hoje nos lembra que o Senhor é o Senhor da colheita: Ele não destrói o campo por causa do joio, mas continua a alimentar a terra com a Sua Graça. Para o nosso dia de hoje, aqui estão algumas pistas:

  • Paremos de julgar apressadamente aqueles que nos cercam ou as situações difíceis. Deixemos a Deus o cuidado de discernir os corações.

  • Não desesperemos de nossas próprias fraquezas. Quando descobrirmos joio em nós, não cedamos ao desânimo. Entremos, antes, "na casa" com Jesus, no sacramento do perdão ou no silêncio da oração, para lhe confiar as nossas fragilidades.

  • Mantenhamos os olhos fixos na promessa final: «Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai.»


Oração

Senhor Jesus, Tu és o bom Semeador que depositou no meu coração a semente do Teu Reino. Perdoa as minhas impaciências quando quero me antecipar ao Teu julgamento e quando me desespero ao ver o mal crescer ao meu redor ou em mim.

Concede-me a Graça de entrar todos os dias na casa Contigo, no silêncio da oração, para escutar a Tua Palavra que purifica e reassegura. Ensina-me a olhar para os outros com a mesma paciência que Tu tens para comigo. Não permitas que o inimigo enraíze o amargor na minha alma, mas faz amadurecer em mim o bom trigo da fé, da esperança e da caridade, até o dia em que me reunirá na luz do Teu Pai. Amém.

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Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

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