O Espírito que reergue e a medida do Amor
- 20 de ago.
- 5 min de leitura
(Sexta-feira, 21 de agosto, 20ª Semana do Tempo Comum ; São Pio X, papa – Memória)
Leituras da Missa: Ez 37, 1-14 ; Sl 106 (107) ; Mt 22, 34-40
A liturgia desta semana, aberta pelo vigésimo domingo do Tempo Comum, lembra-nos sem cessar que a salvação de Deus não conhece fronteiras e vem ao encontro do homem no mais profundo da sua aflição. É sob esta luz dominical que se iluminam os textos desta sexta-feira. Somos colocados diante do coração da fé cristã: um encontro transformador entre a potência ressurreicional de Deus e a nudez essencial do coração humano.
I. O vale das promessas quebradas
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel é transportado pelo Espírito para o meio de um vale coberto de ossos totalmente secos. Esta visão não é uma simples alegoria poética; descreve com precisão cirúrgica o estado real de Israel no exílio, mas também o de toda a alma separada da sua fonte. Estes ossos representam os nossos esgotamentos, as nossas decepções acumuladas, as nossas incapacidades estruturais de amar. A exegese bíblica ensina-nos que o termo hebraico utilizado para "secos" (yabesh) evoca a perda absoluta de toda a umidade vital, a ausência total de seiva. É a experiência da noite em que a memória da graça parece definitivamente apagada.
Diante deste afável espetáculo, o Senhor põe a pergunta decisiva: «Filho do homem, poderão estes ossos voltar à vida?». Ezequiel não responde nem por presunção nem por desespero, mas pelo abandono: «Senhor Deus, Tu o sabes!». É nesta fissura da nossa impotência reconhecida que Deus começa a sua obra. Este texto mostra-nos que a reconstrução do homem não é o fruto de uma ginástica voluntarista ou de uma disciplina estoica, mas o acolhimento puro de um dom que vem do alto.
II. O Espírito que coloca de pé
À palavra do profeta, produz-se um movimento. Os nervos reconstituem-se, a carne cresce, a pele cobre os corpos. Contudo, o texto nota uma nuance capital: a estrutura está reconstituída, mas «não havia espírito neles». Pode-se reconstruir uma vida exterior, restaurar aparências morais perfeitas, reencontrar uma regularidade institucional ou cerimonial, e permanecer, no entanto, um cadáver espiritual. É o drama da religião reduzida a um formalismo sem vida.
É necessária a invocação ao Sopro, ao Ruah, vindo dos quatro ventos, para que estes mortos voltem à vida e se ponham de pé sobre os seus pés. O Espírito Santo não é um suplemento de alma ou uma decoração piedosa: é o princípio constitutivo da vida nova. Reorganiza o ser íntimo, cura as memórias feridas e infunde a força de esperar onde a razão humana só via o fim. Este reerguimento não é uma simples reanimação biológica, mas o nascimento de um povo capaz de se manter de pé diante de Deus e do mundo.
III. A pergunta-armadilha e o risco do legalismo
É armados com este olhar regenerado pela visão de Ezequiel que devemos abordar o Evangelho de hoje. Os fariseus aproximam-se de Jesus para O colocar à prova. Assim, após a derrota dos saduceus, enviam um doutor da Lei para fazer uma pergunta clássica nas escolas rabínicas: «Mestre, qual é o grande mandamento da Lei?». Na época, a tradição catalogava 613 preceitos (365 proibições e 248 obrigações). Buscar o grande mandamento era tentar isolar uma pedra angular com o risco de depreciar o resto da Torá.
Os fariseus procuram encerrar Jesus numa disputa de escolas, numa casuística estéril. Possuem a estrutura — os nervos, a carne e a pele —, mas arriscam-se a passar ao lado do Espírito. O legalismo consiste em multiplicar as regras esquecendo a intenção do Legislador. É precisamente o estado destes ossos que têm a aparência da piedade, mas permanecem incapazes do menor movimento de amor verdadeiro.
IV. A unidade indissociável do duplo mandamento
A resposta de Cristo é de uma simplicidade soberana que subverte a arquitetura religiosa do seu tempo. Cita primeiro o Shema Israel extraído do Deuteronômio: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento». Depois, sem que lho tenham pedido, junta-lhe imediatamente um segundo mandamento, extraído do Levítico: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». E conclui com esta afirmação magistral: «Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas».
Quando Jesus diz «E o segundo é semelhante a este...», em grego, o termo empregado para "semelhante", homoia (ὁμοία), significa uma equivalência de natureza e de dignidade. Jesus não cria duas obrigações paralelas que seria preciso equilibrar mal ou bem; revela um único mistério de duas faces. O amor a Deus é a raiz; o amor ao próximo é o seu fruto indispensável. Não se pode pretender tocar a raiz se a árvore não produz nenhum fruto, tal como não se saberia colher fruto duradouro se a árvore estiver cortada da sua raiz. O amor ao próximo torna-se assim o critério de autenticidade do nosso amor a Deus, ao passo que o amor de Deus é a fonte inesgotável que impede o amor ao próximo de se degradar em simples filantropia ou em posse egoísta.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Descobrimos hoje a síntese magnífica da vida cristã. Por um lado, a profecia de Ezequiel adverte-nos: sem o Sopro de Deus, os nossos esforços para cumprir a Lei só produzem obras mortas e ossos secos. Por outro, o Evangelho indica-nos a direção única para a qual esse Sopro nos quer conduzir: o Amor.
Como viver isto concretamente na nossa vida cotidiana?
Reconhecer as nossas zonas de aridez: Identifiquemos sem medo a relação, o compromisso ou o domínio da nossa vida onde nos sentimos desgastados, secos ou ressentidos. Não pretendamos ter força onde só temos ossos.
Unificar os nossos atos de amor: Olhemos para a pessoa com quem nos cruzarmos hoje — particularmente aquela que nos custa ou nos irrita — não como um obstáculo, mas como o lugar concreto onde o nosso amor a Deus se deve encarnar. Amar a Deus de todo o coração traduz-se num gesto de atenção, de escuta ou de perdão para com o irmão que está ao nosso lado.
É assim que a profecia se cumpre em nós: o Espírito coloca-nos de pé para fazer das nossas vidas um templo onde se cumpre o grande e primeiro mandamento.
Oração
Senhor meu Deus, diante de Ti encontram-se frequentemente os ossos secos do meu coração, as minhas incapacidades de amar, os meus cansaços e os meus desvios egoístas. Reconheço que me é impossível cumprir a Tua Lei pelas minhas sós forças, e que sem o Teu Amor, as minhas mais belas obras permanecem sem vida.
Envia sobre mim o Teu Espírito Santo, esse Sopro consolador e criador. Vem visitar os vales da minha existência onde reinam o desânimo ou a aridez. Coloca-me de pé, reveste-me da Tua Graça e infunde em mim a vida verdadeira.
Ensina-me a Amar-te de todo o meu coração, de toda a minha alma e de todo o meu entendimento, não por temor do castigo, mas por pura gratidão pela Tua imensa bondade. Abre os meus olhos e o meu coração à presença do meu próximo; dá-me a graça de o amar, de o suportar e de o servir com a mesma ternura que Tens por mim.
Faz que todo o meu dia seja iluminado pelo Sopro da Tua Ressurreição, a fim de que, amando os meus irmãos, dê glória ao Teu Santo Nome. Amém.
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