A glória do santuário e a ilusão das aparências
- 21 de ago.
- 5 min de leitura
(Sábado, 22 de agosto, 20ª Semana do Tempo Comum ; A Virgem Maria, Rainha – Memória)
Leituras da Missa: Ez 43, 1-7a ; Sl 84 (85) ; Mt 23, 1-12
No último domingo, o Evangelho da Cananeia abria-nos os olhos para o poder de uma fé humilde, capaz de ir além das aparências e de tocar o Coração de Cristo pela simples verdade de um grito. Ao longo de toda esta semana, essa mesma luz dominical guiou-nos: Deus não se detém nos nossos méritos, nas nossas etiquetas religiosas ou nos nossos edifícios exteriores; Ele procura uma fé nua, um coração capaz de Lhe dar espaço.
Hoje, ao celebrarmos a memória da Virgem Maria Rainha, a liturgia apresenta diante de nós um contraste impressionante entre duas maneiras de habitar o mundo e a fé. De um lado, o profeta Ezequiel contempla o regresso resplandecente da glória de Deus ao Templo restaurado. Do outro, Jesus expõe no Evangelho a tentação permanente dos crentes: utilizar as coisas santas para construir uma glória humana, correndo o risco de esvaziar o santuário da Sua Presença.
1. A glória não se fabrica: acolhe-se no rebaixamento
O livro de Ezequiel oferece-nos uma visão grandiosa. O profeta vê a glória do Senhor regressar pela porta do oriente. O ruído da Sua vinda assemelha-se ao grande rugido das águas, a terra resplandece, e a única reação possível diante de tal majestade é cair de bruços em adoração. O Espírito eleva Ezequiel e transporta-o para o átrio interior, e «eis que a glória do Senhor enchia a Casa».
Este trecho revela-nos uma lei fundamental da vida espiritual: a glória de Deus não é uma conquista humana. Não se instala onde os homens fazem barulho ou erguem monumentos à sua própria potência. Desce onde o homem aceita, antes de tudo, ajoelhar-se, calar-se, reconhecer que não é o centro do mundo. A voz divina confirma-o: «Este é o lugar do meu trono, o lugar para a planta dos meus pés, e aqui habitarei...».
O drama ocorre quando queremos transformar essa morada de Deus numa vitrine para nós mesmos. É exatamente essa inclinação que Jesus denúncia nos escribas e fariseus.
2. A comédia do religioso: quando a aparência sufoca o santuário
No Evangelho de hoje, Cristo lança um olhar lúcido e sem concessões sobre a atitude dos mestres da Lei. Não contesta a verdade do que ensinam a partir da cátedra de Moisés, mas previne contra a fratura mortal entre as suas palavras e a sua vida: «Dizem e não fazem».
Jesus detalha os sintomas desta doença espiritual que nos ameaça a todos. Os fariseus atam fardos pesados sobre os ombros das pessoas sem moverem um único dedo para as ajudar. Alargam os seus filactérios — esses pequenos estojos que contêm versículos da Torá, usados na testa e nos braços — e alongam as franjas dos seus mantos. Tudo se torna espetáculo: procuram a visibilidade, os primeiros lugares nos jantares, o reconhecimento social e a veneração dos títulos de "Rabi", "Pai", "Mestre".
Por que razão esta atitude é tão grave? Porque desvia o olhar do único Mestre e do único Pai. Quando os nossos atos de devoção se tornam um teatro onde se procura o aplauso dos homens, deixam de ser o lugar do encontro com o Deus vivo. Decora-se o exterior da casa, mas a glória interior afastou-se. Como escrevia o doutor místico, São João da Cruz, Deus olha mais para a pureza da consciência e para a nudez do amor do que para as grandes demonstrações exteriores que os homens fazem (Ditos de Luz e Amor, 34).
3. A exaltação dos humildes e a realeza da Serva
Para cortar cerce essa busca de prestígio, o Senhor inverte as nossas hierarquias: «O maior entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado». Não é uma punição arbitrária, mas uma realidade espiritual. Aquele que se enche de orgulho condena-se à pequenez diante de Deus, ao passo que aquele que se humilha cria em si o vazio necessário para receber a grandeza divina.
É aqui que resplandece o mistério da Virgem Maria, que festejamos sob o título de Rainha. A realeza de Maria nada tem a ver com os aparatos ou a dominação deste mundo: se Maria é coroada Rainha do céu e da terra, é precisamente porque nunca atribuiu a si mesma qualquer título, nunca procurou o primeiro lugar e nunca se colocou em cena.
No dia da Anunciação, definiu-se por uma única palavra: a serva. Ao proclamar-se a serva do Senhor, abriu todo o seu ser para que a glória divina nele habitasse. Como afirmava Santo Agostinho nos seus sermões sobre a graça, Maria trouxe o Criador no seu ventre porque O tinha acolhido primeiro pela humildade da sua fé (cf. Sermo 215, 4). Nela, a profecia de Ezequiel encontra o seu cumprimento mais puro: ela é a verdadeira Casa que a glória do Senhor encheu para sempre.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
O ensinamento desta liturgia impele-nos a fazer a verdade na nossa vida cotidiana. Todos levamos em nós um pequeno fariseu que gosta de se fazer notar, de ter a última palavra ou de se gloriar do que realiza de bom.
Para viver na liberdade dos filhos de Deus, podemos praticar gestos muito simples:
Recusar a necessidade de expor os nossos méritos: Realizemos hoje uma tarefa humilde, um serviço em casa ou no trabalho, no segredo absoluto, sem procurar que ninguém o note ou nos agradeça.
Simplificar a nossa linguagem e as nossas atitudes: Evitemos colocar-nos como mestres ou juízes no meio dos nossos próximos. Recordemo-nos de que temos um único Mestre e que somos todos irmãos.
Olhar para Maria: Quando a tentação do orgulho ou da vaidade nos tocar, voltemos os nossos olhos para a Virgem Rainha. Peçamos-lhe que nos ensine a alegria da pequenez que permite a Deus realizar em nós maravilhas.
Oração
Senhor Jesus, Tu és o único Mestre, o único Manso e Humilde de coração. Liberta-me da necessidade de aparecer, da busca de honras e dessa tentação sutil de impor aos outros fardos que eu próprio não carrego.
Purifica a minha intenção. Faz que a minha fé não seja uma comédia representada diante dos homens, mas um santuário silencioso onde habita a Tua glória. A exemplo da Santíssima Virgem Maria, Tua mãe e nossa Rainha, dá-me um coração de servo.
Ensina-me a rebaixar-me com alegria, para que Tu possas crescer em mim e para que toda a minha vida dê glória ao nosso Pai que está nos céus. Amém.
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