O repouso do coração no meio dos nossos combates
- 28 de jul.
- 4 min de leitura
(Quarta-feira, 29 de julho, 16a Semana do Tempo Comum, Santa Marta, Maria e S. Lázaro - Memória)

Leituras da Missa: Jr 15, 10.16-21 ; Sl 58(59) ; Lc 10, 38-42
1. A ilusão da agitação e o grito do profeta
No domingo passado, fomos convidados a procurar o Tesouro escondido e a Pérola de grande valor, compreendendo que o Reino de Deus não é uma teoria, mas uma escolha radical que exige renunciar ao supérfluo para abraçar o Essencial. Neste meio de semana, a Liturgia vem testar a qualidade da nossa busca: onde procuramos realmente esse Tesouro? Na febrilidade das nossas ações ou na profundidade de uma Presença?
A primeira leitura nos mergulha na oração comovente do profeta Jeremias, que se encontra exausto, contestado de todos os lados e vítima de um sofrimento que lhe parece sem fim. O profeta abre o seu coração ao Senhor dizendo: «Quando encontrava as tuas palavras, eu as devorava; elas eram a minha alegria, a delícia do meu coração...», e, no entanto, a provação o cerca. Sua dor é tão intensa que ele chega a duvidar, perguntando ao Senhor se Ele será para ele como uma água incerta, uma ilusão enganosa. A resposta de Deus é de uma grande sobriedade: «Se voltares, se eu te fizer voltar, retomarás o teu serviço diante de mim. Se separares o que é precioso do que é desprezível, serás como a minha própria boca.»
Deus não retira o seu profeta da realidade do seu sofrimento. Ele lhe pede um discernimento interior, uma purificação do coração que consiste precisamente em separar o precioso do desprezível – como meditamos no último domingo. É voltando ao centro, parando de se dispersar na lamentação ou no medo dos homens, que o profeta reencontra a sua força e Deus faz dele «uma muralha de bronze inexpugnável».
2. Acolher o Senhor: da preocupação à presença
Este combate espiritual de Jeremias encontra o seu cumprimento mais íntimo e cotidiano na cena do Evangelho, texto escolhido para a celebração da memória dos amigos de Jesus em Betânia: Lázaro, Marta e Maria. No texto, Jesus entra em um povoado e se hospeda na casa dos seus amigos. Marta se esforça sem hesitar para bem acolher o Mestre; ela está tomada pela preocupação do serviço, uma generosidade indiscutível, mas que gira no vazio. Seu coração se cansa e se amargura, a ponto de censurar sua irmã por sua imobilidade e o Senhor por sua aparente indiferença: «Senhor, não te importas que minha irmã me tenha deixado sozinha com o serviço?»
Quantas vezes essa frase não passou pelo nosso pensamento? Quando carregamos o peso do cotidiano, corremos o risco de nos esgotar porque fazemos as coisas para Deus, mas sem Deus. A agitação exterior é quase sempre o sintoma de um barulho interior não apaziguado: Marta não é repreendida porque serve, mas porque se agita e se preocupa com muitas coisas.
Em contrapartida, Maria se senta aos pés de Jesus e escuta a sua palavra. Em grego, o verbo utilizado para descrever a atitude de Marta é περιεσπᾶτο (periespato), que evoca o fato de ser puxado, despedaçado em todas as direções, ser literalmente arrastado de todos os lados. Maria, por sua vez, unificou o seu ser; ela compreendeu que a maior homenagem que se pode prestar a um hóspede não é preparar-lhe uma grande refeição, mas oferecer-lhe uma atenção indivisa.
3. Discernimento e purificação do coração
Ao dizer que Maria escolheu a melhor parte, Jesus não condena a ação de Marta, mas estabelece uma hierarquia fundamental, que faz um eco perfeito à palavra dirigida a Jeremias: é preciso separar o que é precioso do que é desprezível. O mais precioso, o Tesouro, é a própria presença de Cristo. Se o nosso serviço nos afasta da paz do Senhor, se nos leva a julgar nossos irmãos e a reprovar a Deus pelo seu silêncio, então esse serviço, por mais bom que pareça, tornou-se uma armadilha.
Jesus não quer opor a atitude de Maria à de sua irmã Marta. Como ensinava Santa Teresa de Ávila, para oferecer uma morada ao Senhor, a ação e a contemplação devem caminhar de mãos dadas, pois «Marta e Maria devem andar juntas para hospedar o Senhor e tê-lo sempre consigo» (S. Teresa de Jesús, Las Moradas, VII, c. 4, n. 12). A escuta aos pés de Cristo é a fonte viva de toda ação fecunda. Sem essa escuta, a ação se degrada em ativismo e o serviço se transforma em amargor. Portanto, a contemplação não é uma fuga do dever, mas o lugar onde as nossas ações recebem a sua orientação justa, tornando-se simples canais do amor recebido.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Hoje, somos convidados a olhar com honestidade para a nossa própria casa interior. As urgências não faltarão, as tarefas se acumularão e a tentação da agitação será bem real. Mas, no meio dessas exigências, lembremo-nos da resposta tão suave e firme de Jesus: «Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas com muitas coisas. Uma só é necessária.» Seguindo o exemplo dos santos de Betânia e o ensinamento do nosso Mestre e Senhor Jesus Cristo, eis algumas ideias para colocar em prática a Palavra da Liturgia de hoje:
Identifiquemos as nossas agitações: Dediquemos um instante para reconhecer o que gera em nós tensão, ressentimento ou impaciência.
Façamos uma pausa: Decidamos tirar, mesmo que por alguns minutos, um tempo de silêncio aos pés do Senhor; e, se houver oportunidade, entremos em uma igreja ou capela para permanecer ali por alguns instantes. Fechemos a porta ao barulho do mundo para deixar que a Sua Palavra reordene as nossas prioridades.
Transformemos o nosso serviço: Retomemos as nossas atividades não mais como um fardo que carregamos sozinhos, mas como uma oferenda pacífica realizada na presença de Deus.
Oração
Senhor Jesus, Tu conheces a inconstância do meu coração e a minha facilidade para me dispersar em mil urgências secundárias. Perdoa-me quando me esgoto tentando agir sem Te escutar, e quando o cansaço me leva a julgar meus irmãos ou a duvidar da Tua bondade. Concede-me a graça, no dia de hoje, de saber separar o que é precioso do que é desprezível. Dá-me a coragem de parar, me calar e me sentar aos Teus pés para receber a única coisa necessária. Que o Teu Amor acalme as minhas inquietudes e que o Teu Espírito transforme cada uma das minhas ações em uma humilde oferenda de louvor. Amém.





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