O escândalo da graça e o olhar de bondade
- 18 de ago.
- 5 min de leitura
(Quarta-feira, 19 de agosto, 20ª Semana do Tempo Comum)
Leituras da Missa: Ez 34, 1-11 ; Sl 22 (23) ; Mt 20, 1-16
No último domingo, a liturgia convidava-nos a escrutinar a fé da mulher cananeia, essa estrangeira que soube tocar o Coração de Cristo por uma confiança absoluta, rompendo as fronteiras de uma lógica puramente legalista para entrar no espaço da graça. Hoje, a Palavra de Deus prolonga e aprofunda este aspecto da vida espiritual: Deus não se deixa encerrar nem pelos nossos méritos, nem pelas nossas categorias religiosas, nem pelos nossos cálculos de antiguidade.
No Evangelho deste dia, Jesus faz-nos entrar na lógica desconcertante do Reino através da parábola dos trabalhadores da vinha. Diante desta generosidade divina que desorienta os nossos critérios de equidade humana, a primeira leitura de Ezequiel apresenta um diagnóstico sem concessões sobre os falsos pastores que se servem a si mesmos em vez de servir. Observando estes dois textos, descobrimos que o coração do drama humano reside frequentemente na deformação do nosso olhar: um olhar que acusa, que calcula e que inveja, diante do olhar de um Deus que procura, que chama e que dá sem medida.
1. A falência dos mercenários e o cuidado do Bom Pastor
O profeta Ezequiel estabelece um diagnóstico de uma severidade temível sobre os líderes de Israel. Os pastores, estabelecidos para cuidar do povo, transformaram a sua missão num instrumento de exploração pessoal. Bebiam o leite, vestiam-se de lã, mas abandonavam a ovelha fraca, doente ou ferida. O falso pastor é aquele que vive da graça sem a transmitir, aquele que transforma uma vocação de serviço numa posição de privilégio. Quando o coração do homem se fecha à misericórdia, o povo dispersa-se e torna-se presa das trevas.
Diante desta carência trágica, Deus não renuncia. Por uma declaração solene, anuncia que tomará Ele próprio em mãos o destino do seu rebanho: «Eis que Eu próprio me ocuparei das minhas ovelhas e velarei por elas.» O Senhor compromete-se pessoalmente a ir procurar o que estava perdido, revelando assim a natureza última da sua autoridade: não uma dominação que esmaga, mas um amor que procura e que cura. Esta promessa encontra o seu cumprimento perfeito em Cristo, o verdadeiro Pastor que não perde nenhuma das suas ovelhas e que sai a todas as horas para nos convidar para a sua vinha.
2. O chamamento a todas as horas e a lógica do dom
A parábola do Evangelho mostra-nos o proprietário da vinha a sair ao romper do dia, depois às nove horas, ao meio-dia, às três horas e até às cinco horas da tarde. Em cada etapa do dia, a sua constatação permanece a mesma diante daqueles que esperam na praça: a dor de ver homens permanecerem ali "sem fazer nada", inutilizados, esquecidos, sem dignidade. Para o Senhor, ninguém é demais, ninguém é irrecuperável e nenhuma existência deve permanecer estéril.
Este proprietário não procura em primeiro lugar braços para maximizar um rendimento econômico; procura corações para salvar da inutilidade e do vazio existencial, oferece trabalho para oferecer dignidade. Mesmo no fim do dia, quando resta apenas uma hora de trabalho, envia ainda estes últimos a chegar. Deus não espera que sejamos perfeitos ou que tenhamos chegado desde a alvorada para nos chamar: alcança cada um onde ele se encontra, na hora exata da sua tomada de consciência. A sua justiça não consiste em dar a cada um segundo as suas obras, mas em dar a cada um o de que necessita para viver plenamente uma vida filial.
3. A cura do olhar e a purificação do coração
O conflito explode no momento do pagamento. Os trabalhadores da primeira hora, tendo suportado o peso do dia e do calor, esperam receber mais. Ao receberem o mesmo denário que os últimos, murmuram contra o proprietário. A resposta do senhor põe a nu o mal profundo que corrói a sua alma: «Ou o teu olhar é mau porque eu sou bom?» O drama dos primeiros a chegar é terem transformado uma relação de amor e de graça num contrato de interesse e de reivindicação: não trabalharam pela alegria de estar na vinha do Senhor, mas pelo salário que contavam retirar daí.
A inveja e o julgamento alteram a nossa percepção da bondade de Deus; com efeito, quando comparamos o nosso caminho espiritual com o dos outros, arriscamo-nos a olhar para a graça concedida ao próximo como uma injustiça feita a nós mesmos. Ora, o denário que o senhor distribui não é uma simples moeda de prata: é a vida eterna, é o Espírito Santo, é o próprio Cristo dado como alimento. Não se pode cortar o Amor em pedaços: o Senhor dá-se por inteiro tanto ao primeiro como ao último. É neste despojamento das nossas pretensões legalistas que aprendemos a alegrar o nosso coração com a misericórdia desdobrada para com os nossos irmãos.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A liturgia deste dia vem reverter as nossas falsas seguranças religiosas e as nossas ambições de superioridade. Somos todos, em diferentes graus, trabalhadores da última hora que foram tirados da vaidade pela pura bondade do Pai.
Tendo em conta o que a Palavra da Liturgia de hoje nos diz, analisemos atentamente a qualidade do nosso olhar sobre os outros:
Abandonemos a comparação e a murmuração: Não meçamos o amor de Deus em função dos nossos supostos méritos ou dos nossos anos de prática religiosa.
Acolhamos a alegria do irmão: Saibamos alegrar-nos sinceramente quando um ser distante de Deus reencontra o caminho da graça, mesmo no fim da sua vida ou após um longo desvio.
Consideremos o trabalho na vinha como um privilégio: Servir o Senhor não é um fardo penoso, mas a mais alta das dignidades que nos é oferecida desde hoje.
Vivendo este dia na gratidão, deixaremos a bondade de Deus transformar o nosso olhar para que se torne, ele também, um reflexo da Sua luz e da Sua paz.
Oração
Senhor Jesus, Bom Pastor e Senhor da vinha, Tu nunca Te cansas de sair ao nosso encontro para nos arrancar à vaidade e à solidão. Perdoa os momentos em que o meu olhar se tornou invejoso ou calculista, quando meci os Teus dons pela medida dos meus pequenos méritos.
Purifica o meu coração de toda a pretensão e de toda a murmuração. Dá-me a compreender que trabalhar ao Teu serviço já é a minha maior recompensa, e que a Tua graça basta para a minha felicidade. Ensina-me a alegrar a minha alma com a bondade que manifestas aos meus irmãos, para que, libertado da inveja, possa louvar-Te de coração simples e entrar plenamente na alegria do Teu Reino. Amém.
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