O drama de um coração atulhado: do sinal de Ezequiel à liberdade do discípulo
- 16 de ago.
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de ago.
(Segunda-feira, 17 de agosto, 20ª Semana do Tempo Comum)
Leituras da Missa: Ez 24, 15-24 ; Cântico (Dt 32, 18-19, 20, 21) ; Mt 19, 16-22
As leituras deste dia colocam-nos diante de uma questão fundamental, aquela que atravessa toda a existência humana e que estruturava já a pregação do domingo passado: onde colocamos o centro da nossa segurança e da nossa alegria? Ontem, a liturgia lembrava-nos que a salvação de Deus se dirige a todos, mas exige um coração amplamente aberto, capaz de superar os seus próprios limites para acolher a graça universal. Hoje, a Palavra de Deus vem verificar essa abertura no concreto dos nossos apegos cotidianos.
I. O sinal de Ezequiel: o despojamento como revelação
Na primeira leitura, assistimos a uma cena desconcertante. Deus anuncia ao profeta Ezequiel a morte súbita da sua esposa, «o encanto dos seus olhos», proibindo-lhe contudo o luto exterior, as lágrimas e as refeições fúnebres. Este gesto, de uma dureza aparente, não é uma punição sádica, mas um verdadeiro sinal profético. Com efeito, Israel fez do Templo de Jerusalém e das suas próprias certezas um ídolo, esquecendo o Deus vivo. Quando o Templo for destruído e o povo for atingido pelo desastre, ficará tão atônito com a perda das suas falsas seguranças que nem sequer conseguirá chorar.
Ezequiel torna-se assim o espelho de uma tragédia espiritual: o drama de um povo que se apegou aos dons de Deus em vez de se apegar ao Deus dos dons. O cântico do Deuteronômio de hoje (que substitui o Salmo responsorial) repete-o com gravidade: «Esqueceste o Deus que te gerou». Quando transformamos as nossas bênçãos em ídolos, a sua perda torna-se uma ruína total. É precisamente sobre este fundo de apego destrutivo que se ilumina o encontro do Evangelho.
II. A pergunta do homem cumpridor: «Que me falta ainda?»
No Evangelho segundo São Mateus, um jovem aproxima-se de Jesus com uma preocupação nobre: «Mestre, que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna?». Este homem não é um hipócrita nem um rebelde. Observou fielmente os mandamentos desde a sua juventude: não mata, não rouba, não pratica a falsidade e honra os seus pais. É um homem religioso, moralmente irrepreensível.
Contudo, no fundo de si mesmo, subsiste uma inquietação fecunda, um vazio que a simples observância da lei não conseguiu preencher. Ele intui que a vida eterna não é o salário de uma contabilidade moral perfeita, e é por isso que pergunta: «Que me falta ainda?». Por esta pergunta, confessa implicitamente que se pode fazer tudo corretamente segundo a regra e, no entanto, passar ao lado do essencial. A moral não basta se não se tornar uma porta aberta para um encontro.
III. Do preceito ao encontro: a armadilha dos grandes bens
É aqui que Jesus faz inverter a lógica do jovem: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres... Depois vem e segue-me». Cristo não lhe impõe um mandamento suplementar; propõe-lhe uma libertação. A perfeição de que fala o Evangelho não é uma performance heróica, mas um coração sem divisórias, uma disponibilidade total para o seguimento do Mestre. Jesus põe o dedo no verdadeiro laço que sufoca este homem: a segurança material, a necessidade de tudo controlar.
O drama adensa-se no último versículo: «Ouvindo estas palavras, o jovem retirou-se muito triste, porque possuía muitos bens». A sua tristeza é o revelador da sua escravidão: queria a vida eterna, mas sem renunciar àquilo que o tranquilizava por si mesmo. As suas riquezas impedem-no de estender as mãos para receber o tesouro dos Cèus. Como Israel no tempo de Ezequiel, este jovem fez dos seus bens o santuário do seu coração, tornando-se incapaz de seguir o caminho da verdadeira alegria.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
O Evangelho de hoje não se dirige apenas aos afortunados deste mundo; fala a cada um de nós. Os nossos "grandes bens" nem sempre são bancários ou materiais: podem ser as nossas certezas espirituais, as nossas ideias sobre os outros, a nossa necessidade de ter razão, a nossa reputação ou mesmo os nossos pretensos méritos morais. Tudo aquilo em que apoiamos a nossa segurança fora de Deus torna-se um obstáculo à nossa liberdade interior.
Hoje, dediquemos um momento de silêncio para olhar para as nossas mãos e para os nossos corações:
O que me torna pesado, inquieto ou triste assim que Jesus me pede para o largar?
Estou a praticar a minha fé como uma série de regras a cumprir, ou como uma aventura de abandono confiante no seguimento de Cristo?
O Senhor não nos pede para nos despojarmos para nos deixar vazios, mas para nos encher com a sua presença. A ascese cristã nunca é uma mutilação, é um desimpedimento amoroso. Como escrevia o doutor místico, São João da Cruz, na Subida do Monte Carmelo (I, 11), aquele que ama verdadeiramente a Deus compreende depressa que, quando se abandonam as falsas seguranças da terra, não se acumulam perdas, mas ganha-se o Tudo.
Oração
Senhor Jesus, Tu conheces o meu coração, os meus desejos de bem e os meus secretos apegos. Tu sabes como busco frequentemente a minha segurança no que possuo, no que realizo ou no que controlo.
Dá-me a coragem de me manter diante de Ti de mãos abertas. Liberta-me dessa falsa sabedoria que me impele a entesourar as minhas pequenas certezas em vez de me arriscar no Teu seguimento.
Quando me pedires para abandonar um ídolo ou uma falsa segurança, lembra-me de que não me vens tirar nada, mas queres dar-me tudo. Concede-me a graça de um coração pobre e disponível, capaz de preferir o Teu amor a todos os tesouros do mundo. Amém.
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