A potência na argila e o segredo da verdadeira grandeza
- 24 de jul.
- 5 min de leitura
(Sábado, XVI Semana do Tempo Comum; São Tiago, apóstolo - Festa)

Leituras da Missa: 2 Cor 4, 7-15 ; Salmo 125/126 ; Mt 20, 20-28
A liturgia convida-nos hoje a celebrar a festa de São Tiago, esse apóstolo impetuoso, filho de Zebedeu, que tudo deixou para seguir o Mestre. No domingo passado, a Palavra lembrava-nos que o Reino de Deus se assemelha a um campo onde o bom trigo e o joio crescem juntos, sob o olhar paciente do Pai que espera o tempo da colheita. Durante toda esta semana, o Senhor continuou a moldar o nosso olhar, fazendo-nos compreender que o terreno onde o bom trigo deve germinar não é um solo perfeito ou invulnerável, mas precisamente a nossa humanidade frágil, marcada pela fraqueza e pelas provações.
Observando a vida, o percurso de São Tiago, descobrimos o caminho de transformação que a Graça opera no coração do homem: vemos a passagem da busca de glória terrestre ao dom total de si no martírio.
1. A fragilidade santificada: um tesouro em vasos de argila
São Paulo, na primeira leitura, oferece-nos uma chave de leitura fundamental para toda a vida espiritual: as nossas fragilidades não são um obstáculo à ação de Deus, mas o lugar mesmo onde a sua potência se manifesta. O Apóstolo utiliza a imagem marcante do vaso de argila: «trazemos este tesouro em vasos de argila». A argila é pobre, friável, sem valor intrínseco esplêndido… e, no entanto, é ali que Deus escolhe depositar o tesouro inestimável da Sua Graça.
Na tradição patrística, São João Crisóstomo sublinhava já esta maravilha divina: se o recipiente fosse de ouro ou de pedra preciosa, poderíamos atribuir a beleza do tesouro ao próprio recipiente (cf. Homilias sobre as Estátuas V, Homilias sobre 2 Cor 4,7 e Tratado sobre o Sacerdócio). Mas porque o vaso é vulnerável, torna-se evidente para todos que «este poder extraordinário pertence a Deus e não vem de nós». Paulo, então, mostra os paradoxos do discípulo: pressionados por todos os lados, mas não esmagados; desconcertados, mas não desanimados; perseguidos, mas não abandonados… Carregar no nosso corpo a morte de Jesus é aceitar os nossos limites e os nossos sofrimentos quotidianos sem desesperar, a fim de que a vida do Ressuscitado se torne visível em nós; dito de outro modo, é graças às nossas fraquezas, graças aos nossos limites que os sinais do Ressuscitado podem ser visíveis ao mundo!
2. O mal-entendido da glória e a pedagogia do cálice
O Evangelho mostra-nos com grande honestidade a condição humana dos primeiros discípulos – e de fato, este é justamente um dos importantes critérios de autenticidade dos textos evangélicos; eles não escondem os defeitos dos discípulos, aqueles que primeiro difundiram que Jesus está Ressuscitado. A mãe de Tiago e de João aproxima-se de Jesus para pedir os dois melhores lugares no seu Reino. E o texto deixa-nos muito claro que por trás dessa atitude maternal se esconde a ambição fraterna, essa tentação tão sutil de transformar o seguimento de Cristo numa carreira ou numa busca de poder. Assemelhamo-nos tão frequentemente a estes apóstolos: queremos a glória, o sucesso espiritual, a consolação, mas esquivamo-nos da exigência do dom.
Jesus não rejeita o seu desejo de grandeza, mas inverte totalmente o seu sentido; de fato, pergunta-lhes: «Podeis beber o cálice que eu vou beber?». No Antigo Testamento, o cálice evoca frequentemente o destino atribuído por Deus, a paixão a atravessar, a provação do sofrimento aceita por amor. Tiago e João respondem imediatamente, com a segurança ingênua daqueles que ainda não conhecem os seus próprios limites: «Podemos». Jesus acolhe a sua resposta com misericórdia e profetiza que eles beberão, de fato, esse cálice. Tiago será, aliás, o primeiro dos doze apóstolos a dar a sua vida pelo martírio em Jerusalém. O Senhor não nos promete privilégios humanos, mas plenitude existencial pelo dom da vida, isto é, amor; a Graça de estarmos unidos à Sua Paixão para participarmos, um dia, da Sua glória.
3. O serviço como única verdadeira grandeza
A agitação e a indignação dos outros dez discípulos revelam que a ambição era partilhada por todos. É então que Jesus reúne a comunidade para fixar a lei fundamental da Igreja e de toda a vida cristã, opondo a lógica dos poderosos deste mundo à do Reino. «Sabeis que os chefes das nações as dominam como senhores e os grandes fazem sentir o seu poder. Entre vós não deverá ser assim». No seio da comunidade dos discípulos, a grandeza não se mede pelo número de servos que se possui, mas pelo número de pessoas que se serve.
«Quem quiser tornar-se grande entre vós será vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso escravo». A exegese do texto grego utiliza aqui a palavra diakonos ($\delta\iota\acute{\alpha}\kappa\omicron\nu\omicron\varsigma$, servidor) e depois doulos ($\delta\omicron\tilde{\upsilon}\lambda\omicron\varsigma$, escravo): o Cristo convida a um despojamento radical de si mesmo. E Jesus dá a motivação: «Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.» Jesus é Ele próprio o exemplo a imitar. Portanto, servir não é uma simples obrigação moral ou uma regra de cortesia, é a encarnação mais pura da caridade divina em nós. Sobre esta total entrega de si à vontade divina para se apagar no serviço, Teresa de Ávila lembrava muito bem a disposição fundamental do coração crente: «Seja feita a vossa vontade, Senhor, de todos os modos e de todas as maneiras que Vós quiserdes» (Caminho de Perfeição, cap. 32, 10).
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Hoje, a Escritura estende-nos um espelho; estamos todos, portanto, convidados a examinar as nossas motivações profundas. Nas nossas famílias, nos nossos locais de trabalho, nas nossas comunidades ou nos nossos compromissos, procuramos o reconhecimento, o primeiro lugar, o controle sobre os outros, ou aceitamos o humilde avental do serviço? Para concretizar esta Palavra na nossa vida, propomo-nos a:
Acolher as nossas fraquezas sem amargura. Quando fazemos a experiência dos nossos limites, físicos ou espirituais, lembremo-nos de que somos vasos de argila: entreguemos essa fragilidade ao Senhor para que Ele nela desdobre a sua força.
Escolher o último lugar e o silêncio. Façamos hoje uma ação concreta de serviço gratuito para com alguém do nosso convívio, sem procurar obter vaidade ou elogios; e alegremo-nos com os sucessos alheios.
Rezar por aqueles que governam e servem. Peçamos a graça da humildade para os pastores e responsáveis da Igreja e das nossas atividades pastorais, a fim de que nunca exerçam a sua autoridade como uma dominação, mas como uma oblação.
Oração
Senhor Jesus, manso e humilde de coração, vieste entre nós não para ser servido, mas para servir e dar a tua vida. Olha para a pobreza do meu coração e a fragilidade do meu ser, este vaso de argila tão frequentemente tentado pelo orgulho e pela busca dos primeiros lugares.
Ensina-me a beber o cálice da fidelidade quotidiana. Livra-me da necessidade de parecer, do desejo de dominar ou de me justificar. Concede-me a graça de um serviço silencioso, alegre e desinteressado para com os meus irmãos. Que a Tua potência se manifeste na minha fraqueza, a fim de que toda a glória Te seja dada, hoje e pelos séculos dos séculos. Amém.





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