A mão estendida de Cristo: Da parentesco carnal à família do Pai
- 20 de jul.
- 4 min de leitura
(Terça-feira, XVI Semana do Tempo Comum)

Leituras da Missa: Mi 7, 14-15.18-20 ; Salmo 84/85 ; Mt 12, 46-50
A liturgia deste dia faz-nos atravessar uma tensão profunda, um verdadeiro êxodo interior que nos conduz das margens das nossas misérias humanas até ao coração da vida trinitária. O profeta Miqueias volta-nos para um Deus que perdoa, que esquece a revolta e lança os nossos pecados no fundo do mar. É sobre este fundo de uma misericórdia inaudita que se ilumina a palavra radical de Jesus no Evangelho: o Senhor não renega a sua mãe, mas alarga as fronteiras do amor; Ele convida-nos a compreender que a verdadeira intimidade com ele não nasce da carne, mas da obediência filial ao Pai, que, como ouvimos no domingo passado, é paciente, justo e indulgente para com todos, cuidando de todas as coisas.
1. O mar do esquecimento e o Deus pastor
Para compreender a novidade do Evangelho, precisamos primeiro escutar o clamor do profeta Miqueias, que suplica ao Senhor para ser o pastor do seu povo com o seu cajado, para fazer ver maravilhas como outrora na saída do Egito. A grande maravilha que Deus realiza hoje já não é a separação das águas do mar Vermelho, mas um milagre muito maior: «De novo terás compaixão de nós, pisarás as nossas iniquidades e lançarás no fundo do mar todos os nossos pecados!»
Esta “mar do esquecimento” não é um lugar de destruição, mas o túmulo da nossa vida passada, uma prefiguração do batismo: Deus não se obstina na sua ira, Ele compraz-se em manifestar a sua favor, e é esse olhar amoroso do Pai que nos recria. Como lembrava a grande tradição dos Padres da Igreja, a misericórdia divina antecipa sempre os nossos méritos, isto é, antes mesmo que saibamos voltar, o Senhor já preparou a pastagem da graça. Mas esta libertação é apenas o primeiro passo: Deus arranca-nos do Egito dos nossos pecados para nos introduzir numa intimidade nova, a da Sua própria casa.
2. O choque do de fora e do de dentro
É então que o Evangelho de Mateus se abre com uma cena paradoxal. Enquanto Jesus fala às multidões, a sua mãe e os seus irmãos estão de fora e procuram falar-lhe. Alguém o avisa, e a resposta de Cristo ressoa como um choque: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?». Não nos enganemos, não há aqui nenhum desprezo por Maria; pelo contrário, Maria é a primeira a ter realizado perfeitamente o que Jesus vai enunciar.
Mas o Cristo opera uma ruptura necessária; de fato, o texto faz-nos ver que há um de fora e um de dentro. Ficar de fora é apoiar-se em privilégios humanos, em estruturas puramente carnais, numa religião da estrita pertença biológica ou legal. O Cristo veio derrubar essas barreiras. A Sinagoga, os laços de sangue, tudo isso é ultrapassado pela novidade do Reino. Neste Evangelho, Jesus ensina no interior e, para o escutar, é preciso aceitar entrar, cruzar o limiar da fé, deixar as seguranças do mundo para se sentar aos seus pés.
3. A mão estendida e a fraternidade do Espírito
O cume do texto reside neste gesto magnífico: «E, estendendo a mão para os seus discípulos, disse…». Este gesto da mão estendida é o gesto do Criador, o gesto do Salvador que ergue. E Ele pronuncia esta frase que muda o curso da história humana: «Eis a minha mãe e os meus irmãos. Porque aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe».
Aqui se desvela o coração da vida cristã contemplativa: já a primeira leitura nos convidava à intimidade, e o Evangelho leva este convite a um nível superior. Agora podemos compreender que a vontade do Pai não é uma lei exterior ou esmagadora, ela é o desejo de nos ver viver como seus filhos. Fazer a vontade do Pai, então, é unir-se tão intimamente ao Filho que nos tornamos, pelo Espírito, a sua própria família. Teresa de Ávila gostava de dizer que a alma unida a Deus já não faz senão uma só coisa com a Sua vontade, ao ponto de os seus desejos se confundirem com os D’Ele. Ao escutar a Palavra, ao deixá-la germinar em nós, tornamo-nos misticamente a mãe de Cristo, pois o geramos no mundo pelas nossas obras de caridade. Tornamo-nos seus irmãos e suas irmãs, porque tal intimidade nos torna coerdeiros da promessa celeste.
Conclusão e aplicação para a vida
Esta Palavra vem mexer com o nosso quotidiano. Demasiadas vezes, vivemos a nossa fé “de fora”, de maneira superficial ou por simples hábito cultural. Jesus chama-nos hoje a entrar “dentro”, lá onde a Palavra é escutada e vivida.
A aplicação concreta para o nosso dia é simples, mas exigente: procurar em todas as coisas a vontade do Pai. Isso joga-se nos detalhes, no acolhimento de um irmão, no perdão concedido, no silêncio da oração onde cessamos de dizer as nossas próprias vontades para escutar a de Deus. Não temamos perder os nossos pontos de referência humanos. Ao aceitar largar os nossos apegos possessivos, descobrimos que já nunca mais estamos isolados, mas integrados na grande família dos santos, envolvidos pelo amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Oração
Senhor Jesus, estende a Tua mão para mim hoje, como fizeste com os Teus discípulos, a mim que agora escuto a Tua Palavra. Arranca-me das tibiezas do de fora, dos apegos que me impedem de Te seguir livremente. Confio-Te o meu coração, a minha vontade e todo o meu ser. Que as Tuas Palavras de vida eterna purifiquem os meus pensamentos e os meus desejos.
Pai dos céus, o Teu amor lançou os meus pecados no fundo do mar, devolveste-me a minha dignidade de filho de Deus. Faz com que eu não procure hoje outra coisa senão cumprir a Tua santa vontade, com alegria e confiança. Vem habitar em mim, faz da minha alma a Tua humilde morada, para que a minha vida testemunhe a Tua presença e eu seja, para o meu próximo, um verdadeiro reflexo da Tua misericórdia. Amém.





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