A medida da graça e a ilusão das nossas dívidas
- 12 de ago.
- 4 min de leitura
(Quinta-feira, 13 de agosto, 19ª Semana do Tempo Comum)
Leituras da Missa: Ez 12, 1-12 ; Sl 77 (78) ; Mt 18, 21 – 19, 1
O fio condutor do domingo anterior nos chamava a fixar os nossos olhos em Cristo no meio das tempestades da vida para encontrar a verdadeira paz. Hoje, a Palavra de Deus vem tocar o lugar mais íntimo e, às vezes, mais ferido da nossa existência: a dinâmica do perdão e a verdade das nossas relações.
1. O sinal do exílio e a cegueira do coração
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel recebe uma ordem singular: fazer a sua bagagem, abrir um buraco na parede da sua casa e sair na escuridão como um exilado, diante dos olhos de um povo rebelde. Deus não pede apenas que Ezequiel fale, pede-lhe que se torne ele próprio uma parábola viva. Por que essa encenação profética? Porque o povo é rebelde: «Eles têm olhos para ver e não vêem, ouvidos para ouvir e não ouvem».
No plano espiritual, a rebelião começa sempre por uma cegueira interior. A história do povo de Israel mostra-nos que o exílio material é apenas a consequência exterior de um exílio mais profundo: o fato de ter-se afastado da Aliança e da presença de Deus. Quando o homem se recusa a reconhecer a bondade de Deus, fecha-se na sua própria escuridão e torna-se incapaz de ler os sinais da Graça. Podemos facilmente habitar a nossa própria casa, as nossas certezas e as nossas práticas religiosas — como o povo de Israel que habitava a terra prometida e frequentava regularmente o Templo —, sendo ao mesmo tempo verdadeiros exilados espirituais se o nosso coração permanecer fechado à verdade do Amor: a desestabilização exterior é apenas uma questão de tempo...
2. O cálculo humano diante da lógica da graça
É sobre este fundo de cegueira que se abre o Evangelho de hoje. Pedro aproxima-se de Jesus com uma pergunta muito prática e aparentemente generosa: «Senhor, quantas vezes devo perdoar ao meu irmão? Até sete vezes?» (Mt 18, 21). Na cultura bíblica, o número sete simboliza já a plenitude; Pedro pensa atingir o cume da perfeição espiritual ao propor um perdão repetitivo e amplo.
Mas a resposta de Jesus faz inverter toda a lógica contábil: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes» (Mt 18, 22). Em hebraico, a expressão setenta vezes sete vezes evoca o infinito, a ausência total de limites. Jesus não pede para somar os perdões, pede para mudar de lógica: passar do cálculo da justiça humana para a infinitude da Graça divina. O perdão cristão não é uma contabilidade de esforços, é o reflexo de um estado de coração que se recusa a medir a caridade.
3. A dívida incomensurável e o esquecimento da misericórdia
Para nos fazer compreender esta exigência, Cristo conta a parábola dos dois servos. O primeiro deve uma soma astronômica: dez mil talentos, o equivalente a sessenta milhões de moedas de prata. É uma dívida humanamente impossível de pagar, representando o orçamento de toda uma província durante vários anos. Diante da súplica do servo, o senhor não se limita a conceder um prazo: «Comovido de compaixão, o senhor daquele servo deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida».
É aqui que intervém a tragédia do texto. Ao sair, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe deve cem moedas de prata — uma quantia real, mas irrisória em comparação. Agarra-o, sufoca-o e manda-o lançar na prisão. Como pode um homem que recebeu uma graça tão imensa mostrar-se tão implacável? O drama do servo é que recebeu o perdão da sua dívida como uma simples sorte ou um direito, sem deixar que a compaixão do senhor transformasse o seu próprio coração. Saiu da presença do rei sem ter mudado de olhar.
Santa Teresinha do Menino Jesus escrevia na sua profunda intuição espiritual que tudo é graça e que, diante da justiça divina, devemos apresentar-nos de mãos vazias, confiantes unicamente na misericórdia prometida. Quando esquecemos a imensidão daquilo de que Deus nos libertou, tornamo-nos exigentes e duros para com os nossos irmãos. A falta de perdão é o sinal de um coração que ainda não mediu a realidade da sua própria salvação.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A Palavra de Deus nos coloca hoje diante de uma escolha fundamental para a nossa vida cotidiana. Cada ofensa recebida, cada rancor acumulado coloca-nos novamente na posição do servo que sufoca o seu companheiro por cem moedas de prata. Não se trata de negar a dor das feridas ou a injustiça das ofensas sofridas, pois cem moedas de prata continuam a ser uma quantia real. Mas Cristo convida-nos a colocar as nossas feridas sob a luz de uma realidade maior: a misericórdia infinita de que somos diariamente beneficiários.
Hoje mesmo, podemos dar um passo concreto:
Identificar os rancores acumulados: Dediquemos um momento de silêncio para examinar se guardamos na memória uma dívida que um parente, um colega ou um membro da nossa família tem para conosco.
Fazer memória do perdão recebido: Recordemos com humildade de que dívida imensa o Senhor nos ergueu no sacramento da reconciliação ou na nossa história pessoal.
Escolher libertar o outro: O perdão não é um sentimento afetivo automático, é uma decisão da vontade. Perdoar é decidir não reter mais o irmão prisioneiro da sua falta, para vivermos nós mesmos na liberdade dos filhos de Deus.
Oração
Senhor Jesus, Tu conheces a rigidez do meu coração e a facilidade com que conto as ofensas dos outros, enquanto esqueço tão depressa a grandeza da Tua Misericórdia para comigo.
Liberta-me da ilusão de me julgar justo pelas minhas próprias forças. Dá-me a graça de nunca olhar para as faltas dos meus irmãos sem me recordar primeiro do preço pelo qual pagaste a minha própria liberdade.
Cura as minhas feridas secretas e faz correr na minha alma esse perdão que não calcula, para que a minha vida cotidiana seja o reflexo transparente da Tua compaixão infinita. Amém.
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