A divina paciência: quando a força de Deus se faz doçura
- 18 de jul.
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(16o Domingo do Tempo Comum - Ano A)

Leituras da Missa: Sab 12, 13.16-19 ; Salmo 85/86 ; Rm 8, 26-27 ; Mt 13, 24-43
No grande teatro da existência humana, somos constantemente atormentados por uma pergunta lancinante: por que o mal coexiste tão tranquilamente com o bem? Por que a maldade parece, tantas vezes, sufocar a justiça? Diante desse escândalo, o nosso coração impaciente clama por justiça imediata, por fronteiras claras, por separações nítidas; gostaríamos de ser os juízes do campo do mundo. Mas hoje, a liturgia da Palavra vem mexer com as nossas categorias humanas e demasiado humanas, revelando-nos o rosto inesperado da força divina: uma força que escolhe expressar-se sob a forma de uma infinita paciência.
Eis quatro etapas para entrar no segredo desse mistério e compreender como Deus trabalha a nossa massa humana.
1. O paradoxo da potência divina: a força que perdoa
A primeira leitura, tirada do livro da Sabedoria, estabelece um marco exegético de uma profundidade comovente: a dominação de Deus sobre todas as coisas não O leva a esmagar, mas permite-Lhe, pelo contrário, poupar. Para nós, humanos, a força manifesta-se quase sempre pela dominação, pela exclusão ou pelo aniquilamento do adversário. Em Deus, a plenitude da potência é a fonte mesma da sua justiça e da sua clemência.
Porque Ele é o Mestre absoluto, não tem nada a temer do mal, eis por que pode julgar com indulgência e «nos governas com muito comedimento». Esta passagem faz um eco magnífico ao ensinamento dos Padres da Igreja; São Agostinho, por exemplo, lembra-nos que Deus, na sua longanimidade, nos poupa para nos conduzir à penitência: Deus não quer a morte do pecador, mas a sua conversão. Ao mostrar-nos esta paciência, Deus ensina ao seu povo que «o justo deve ser humano» – porque antes mesmo de falar de santidade, é de humanidade que o mundo precisa. A verdadeira grandeza não reside na capacidade de destruir o outro, mas na força interior de lhe deixar tempo para mudar.
2. O trigo e o joio: o drama da coexistência nos nossos corações
No Evangelho deste domingo, segundo São Mateus, Jesus desenvolve a parábola do bom trigo e do joio para ilustrar esta realidade. O campo, diz-nos Ele, é o mundo, mas a um nível mais pessoal e espiritual, esse campo é também o nosso próprio coração. Em cada um de nós coexistem o desejo sincero do bem e os espinhos do pecado, do egoísmo e do medo. O extraordinário da sabedoria bíblica é notar que o erro dos servos desta parábola continua a ser de uma grande atualidade: eles querem arrancar tudo imediatamente.
No entanto, a sabedoria do Mestre é categórica: «Não, para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele». Esta instrução é um ato de confiança inaudito na nossa liberdade: Deus sabe que as raízes das nossas virtudes e das nossas fraquezas estão, às vezes, tão intimamente misturadas que uma purificação brutal nos quebraria. Santa Teresa de Ávila sublinhava com muito realismo que não devemos desanimar se cairmos, pois Deus sabe tirar um bem até das nossas quedas. O tempo da vida humana é o tempo da maturação, um espaço sagrado onde o joio de hoje pode, pela graça de Cristo, dar lugar ao trigo maduro. Querer antecipar o julgamento é recusar o trabalho da graça que transforma o coração do homem a partir de dentro, é ignorar o poder da Cruz, ignorar a sua vitória sobre o mal.
3. O segredo da crescimento invisível: a mostarda e o fermento
Para iluminar ainda mais o funcionamento do Reino, Jesus propõe duas outras parábolas: o grão de mostarda e o fermento. Ambas descrevem uma força ativa mas escondida, quase irrisória no início. O grão de mostarda é minúsculo, mas torna-se uma árvore capaz de abrigar as aves; o fermento fica escondido em três medidas de farinha até que toda a massa tenha levedado.
Poder-se-ia dizer que há neste Evangelho uma verdadeira lição de ecologia espiritual, porque, através desta comparação com o grão de mostarda e o fermento, Jesus nos faz compreender que o Reino de Deus não se impõe por golpes de efeito ou por demonstrações de força espetaculares, mas trabalha na humildade do quotidiano, à maneira de um divino contágio. São Ambrósio via no fermento a imagem da doutrina da fé e da caridade que a Igreja esconde no mundo para lhe restaurar a massa pura; e para colaborar nesta obra, devemos aceitar perder a ilusão do sucesso imediato. São João da Cruz lembra-nos que a união verdadeira com Deus não se adquire à força de braços ou por sentimentos sensíveis superficiais, mas no silêncio, na humildade e no despojamento da nossa vontade própria. O Evangelho quer fazer-nos compreender que é neste vazio oferecido que o fermento do Espírito pode trabalhar a nossa alma para a transformar num pão agradável para o Senhor.
4. O Espírito Santo ao socorro da nossa incapacidade de rezar
Mas como aguentar esta espera paciente quando sentimos tão vivamente a nossa própria fraqueza? É aqui que a segunda leitura de São Paulo aos Romanos vem iluminar a nossa noite. O Apóstolo confessa uma verdade libertadora: «não sabemos o que pedir como convém». Diante do mistério do mal e da lentidão da nossa conversão, as nossas palavras esgotam-se.
É então que o próprio Espírito Santo vem em socorro da nossa fraqueza, intercedendo por nós com «gemidos inefáveis». Quando estamos cansados de lutar contra o joio que nos cerca ou que habita em nós, São Paulo faz-nos compreender que a oração já não é um esforço intelectual, mas um abandono: o Espírito Santo reza em nós, traduzindo os nossos suspiros e as nossas impotências num diálogo de amor com o Pai que sonda os corações. São Agostinho explica que este «gemido» do Espírito é o dom pelo qual podemos clamar para Deus com um coração sincero, certos de ser ouvidos porque a nossa oração é moldada segundo a vontade divina. Não estamos sozinhos no campo; o Espírito é o divino jardineiro que irriga as nossas terras ressecadas para nelas fazer amadurecer o trigo da santidade.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
A liturgia deste domingo convida-nos a converter o nosso olhar. Diante dos nossos próprios limites e das imperfeições do mundo que nos rodeia, cessemos de adotar a postura do juiz impaciente, porque, na verdade, acabamos de aprender que Deus não nos pede para erradicar o mal pela violência, mas para cultivar o bem com perseverança. Para esta nova semana que se abre, decidamos realizar pelo menos estes três atos concretos:
A paciência para conosco mesmos: não esperemos ser perfeitos para nos oferecermos a Deus. Aceitemos que o trigo e o joio coexistam em nós, nos nossos campos, e confiemos as nossas zonas de sombra a Deus pelo sacramento da Confissão, confiemo-nos à Misericórdia divina sem desanimar.
A benevolência para com os outros: renunciemos aos julgamentos apressados. Deixemos ao nosso próximo o benefício do tempo e da conversão, assim como o Senhor faz conosco todos os dias.
A escolha da pequenez: semeemos hoje uma pequenina semente de bem — um sorriso, uma palavra de encorajamento, um gesto de perdão… Deixemos a Deus o cuidado de a fazer crescer no momento querido.
Oração
Senhor, meu Deus, Tu que és bom e perdoas, lento para a ira e cheio de amor, olha com ternura para a pobreza do meu coração. Confesso-Te a minha impaciência crônica: gostaria tanto que tudo fosse puro, limpo e imediato em mim e ao meu redor. E, no entanto, Tu me mostras que a tua força suprema se desdobra numa infinita doçura.
Senhor, vem habitar o campo da minha vida. Arranca em mim, por tua graça doce e paciente, as ervas daninhas do orgulho e do julgamento. Quando já não souber como Te falar, quando o desânimo me invadir diante das minhas próprias fraquezas, que o Teu Espírito Santo venha gemer em mim e ensinar-me o abandono. Entrego-me nas Tuas mãos, ó divino Semeador. Faz de mim um grão de trigo bom e humilde, capaz de amadurecer sob o sol do Teu Amor, para o Teu celeiro eterno. Amém.





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