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A arte de chorar e a graça de ser chamado: o segredo de Maria Madalena

  • 21 de jul.
  • 5 min de leitura

(Quarta-feira, 16a Semana do Tempo Comum; Santa Maria Madalena - Festa)

Noli me tangere, Fra Angelico (entre 1439 e 1443)
Noli me tangere, Fra Angelico (entre 1439 e 1443)

Leituras da Missa: Ct 3, 1-4a ; Salmo 62/63 ; Jo 20, 1.11-18


Há uma santa audácia nas leituras que a Igreja nos dá para meditar neste dia. Hoje celebramos a festa de Santa Maria Madalena, aquela que a tradição frequentemente qualificou como a apóstola dos apóstolos. Os textos sagrados mergulham-nos no coração de um drama que não é apenas histórico, mas intensamente interior: é o itinerário de uma alma que passa das trevas da perda ao deslumbre do encontro. O Evangelho de João não nos fala de uma doutrina abstrata, ele coloca em cena um rosto, lágrimas e uma voz. Para compreender o que se joga na manhã da Ressurreição, precisamos entrar na espiritualidade da noite do Cântico dos Cânticos trazida na primeira leitura, pois a história de Maria Madalena é a realização concreta da grande profecia do amor humano que busca o amor divino.


1. A santa inquietação do coração que busca

A primeira leitura mostra-nos essa mulher do Cântico que, no seu leito, à noite, busca aquele a quem a sua alma ama; essa mulher levanta-se, percorre as ruas, interroga os guardas. É o retrato exato de Maria Madalena na manhã de Páscoa: «ainda estava escuro», diz-nos São João, e ela corre para o túmulo.

Há aí uma chave essencial para a nossa vida espiritual. O contrário da fé não é a dúvida ou a dor, é a indiferença, a instalação confortável. Maria Madalena sofre, chora, mas não se resigna, ela busca! As suas lágrimas não são um recolhimento desesperado sobre si mesma, são o sinal de uma fome: a sua carne desfalece por ele, como uma «terra árida, sequiosa, sem água», para retomar as palavras do salmista. Se já não sentimos a falta de Deus, se já não temos essa santa inquietação que nos impele a sair das nossas seguranças para buscar o Cristo, a nossa fé corre o perigo de se apagar. As lágrimas de Maria Madalena são fecundas porque mantêm o coração acordado na noite.


2. O risco de buscar o vivente entre os mortos

Quando Maria chega ao túmulo, vê a pedra retirada. Ela chora fora, inclina-se, vê anjos, mas nada disso a consola. Os anjos perguntam-lhe: «Mulher, por que choras?». A sua resposta é dilacerante: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram».

No plano da exegese bíblica, o texto grego utiliza aqui a palavra Kyrios (κύριος, «Senhor»), um título divino; portanto, Maria expressa um apego de uma profundidade absoluta. Contudo, há um equívoco na sua busca, porque ela busca um corpo para embalsamar, um passado para conservar, uma recordação para acarinhar; na verdade, ela busca Jesus onde ele já não está, busca-O nas categorias da morte e da corrupção. É a armadilha que nos espreita a todos quando atravessamos crises ou secas espirituais: queremos reencontrar o Deus de outrora, as emoções de outrora, as estruturas de outrora. Acontece-nos chorar sobre o que mudou ou desapareceu, sem perceber que o Cristo está a atrair-nos para uma Presença muito mais alta, muito mais interior.


3. O momento do jardineiro e a revelação do Nome

É então que Jesus está ali de pé, mas ela não sabe que é ele; confunde-o com o jardineiro, de tão cega que estava pela sua dor. Esta confusão aparente esconde uma verdade teológica extraordinária: no Evangelho de João, o Cristo é o novo Cristo-Jardineiro do novo Éden, aquele que vem restaurar a criação lá onde Adão tinha falhado, e o Cristo está ali para a resgatar.

Jesus faz-lhe a mesma pergunta que os anjos, acrescentando uma nuance crucial: «Mulher, por que choras? Quem procuras?». Ele desloca o olhar dela do objeto do seu luto para a identidade do seu desejo. Mas a reviravolta absoluta produz-se quando ele pronuncia uma única palavra: «Maria!», já não o termo genérico «Mulher», mas o seu nome próprio. Nesse instante, os olhos da sua alma abrem-se. Ela volta-se e exclama: «Rabbouni!».

Isso revela-nos que não são os grandes discursos teológicos que convertem o coração, mas a experiência íntima de ser conhecido e chamado pessoalmente por Deus. Teresa do Menino Jesus compreendia isso tão bem, ela que via nas atenções divinas mais simples a prova de que o Criador do universo se abaixa para amar cada alma como se ela fosse única no mundo. Maria Madalena reconhece o Bom Pastor pela maneira como ele pronuncia o seu nome.


4. O desapego necessário para uma missão universal

Após O ter reconhecido, a reação imediata de Maria é querer reter Jesus, reencontrar a proximidade física de antes da Paixão. Mas a resposta do Ressuscitado parece dura: «Não me retenhas, porque ainda não subi para o Pai». Em realidade, não é uma recusa de amor, mas uma iniciação a uma comunhão espiritual muito mais íntima. Santo Agostinho explicava que o Cristo pede a Maria para não o tocar com as mãos do corpo, mas com as mãos da fé.

Reter Jesus na sua carne seria limitá-lo; Ele deve subir para o Pai para poder, pelo Espírito Santo, habitar o coração de todos os crentes, em todo o lado e sempre. Maria é então enviada: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes...». A pesquisadora em lágrimas torna-se a mensageira da alegria. A primeira leitura terminava com esta palavra da esposa: «agarrei-o e não o largarei»; na Nova Aliança, a posse já não se faz pelo agarro físico, mas pela obediência à missão. Maria Madalena não possui o Cristo para si mesma, ela possui-O anunciando-O.


Conclusão e aplicação para o nosso dia

O itinerário espiritual de Santa Maria Madalena coloca-nos diante de uma verdade muito simples: a nossa vida cristã não é uma adesão a um sistema de ideias, mas uma relação viva com uma Pessoa. Às vezes, atravessamos dias de nevoeiro em que temos a impressão de que Deus está ausente, de que o mundo é um túmulo vazio onde a violência e o nonsense têm a última palavra.

A aplicação concreta para a nossa vida espiritual é aprender a escutar, no meio dos nossos barulhos exteriores e dos nossos diálogos interiores, a voz do Senhor que nos chama pelo nosso nome. Hoje, cessemos de buscar respostas mágicas ou consolações puramente sensíveis, mas meçamos a nossa confiança na Palavra ouvida. O Cristo espera-nos no quotidiano do nosso trabalho, nas relações humanas ordinárias – lá onde ele se apresenta frequentemente sob os traços discretos de um jardineiro, de um transeunte, de um ente próximo. A nossa missão, no seguimento de Maria, é passar da queixa ao anúncio, testemunhando com a nossa vida: «Vi o Senhor!».


Oração

Senhor Jesus, como Maria Madalena na manhã de Páscoa, o meu coração está às vezes pesado, cansado pelas trevas e cego pelas minhas próprias lágrimas. Procuro-Te frequentemente nas minhas recordações, nos meus sucessos passados ou em expectativas humanas, e esgoto-me por não Te encontrar.

Peço-Te hoje: faz-me a graça de ouvir a Tua voz. Pronuncia o meu nome no silêncio da minha alma com essa doçura divina que dissipa todo o medo e toda a dúvida. Ensina-me a não Te reter para as minhas próprias satisfações espirituais, mas a receber-Te tal como és: o Vivente, o Ressuscitado que caminha ao meu lado. Concede-me essa santa audácia de sair dos meus túmulos interiores para correr ao encontro dos meus irmãos e anunciar-lhes, pela paz do meu rosto e pela caridade dos meus atos, que Tu estás verdadeiramente vivo e que a Tua misericórdia transforma o mundo. Amém.

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Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

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