A armadilha da familiaridade: quando o olhar humano sufoca a graça
- 30 de jul.
- 5 min de leitura
(Sexta-feira, 17a Semana do Tempo Comum)
Leituras da Missa: Jr 26, 1-9 ; Sl 68(69) ; Mt 13, 54-58
No Evangelho deste domingo que abria a nossa semana, contemplamos a lógica do Reino de Deus, esse tesouro escondido e essa pérola de grande valor pelos quais o homem está disposto a tudo vender. E hoje, ao término desta semana, o Evangelho nos coloca diante de um drama trágico e silencioso: o drama da graça rejeitada pela cegueira cotidiana.
Na primeira leitura, o profeta Jeremias é enviado por Deus ao próprio coração da Casa do Senhor, e a ordem é clara: «Apresenta-te no átrio da casa do Senhor [...] dirás todas as palavras que te ordenei que lhes dissesses; não omitas nem uma só palavra». Por que essa exigência? Porque os sacerdotes e o povo tinham se tornado tão acostumados ao Templo, tão certos dos seus privilégios, que já não escutavam a Deus. O Templo havia se tornado para eles uma garantia exterior, uma concha vazia onde a Palavra já não penetrava... E quando um profeta vem despertar a sua consciência, eles gritam: «Vais morrer!».
Esta cena prefigura exatamente o Evangelho. Jesus volta para a sua terra, Nazaré, e vai ensinar na sinagoga. Mas, em vez de se deixarem transformar pela sua sabedoria e pela autoridade da sua Palavra, os habitantes do seu povoado bloqueiam a graça. O profeta é desprezado na sua própria casa, e o Evangelho registra esta frase terrível: Jesus «não fez ali muitos milagres, por causa da falta de fé deles.»
1. A tentação da falsa proximidade: conhecer o rótulo sem conhecer o mistério
Os habitantes de Nazaré pensavam conhecer Jesus; afinal, eles tinham dados de registro civil impecáveis sobre Ele: «Não é este o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas?». Conheciam a sua profissão, a sua família, o seu passado. Contudo, esse conhecimento puramente carnal e exterior tornou-se o maior obstáculo ao verdadeiro encontro espiritual. A esse respeito, Santo Agostinho comentava: «As pessoas de Nazaré detêm-se na casca exterior da carne e não penetram até ao núcleo da divindade escondida sob a humanidade.» (cf. Explicações sobre os Salmos, Salmo 68/69).
Esta é a grande tentação dos cristãos assíduos, dos habituados aos sacramentos e à vida paroquial. Podemos conhecer os dogmas, a liturgia, a vida da Igreja e, no entanto, permanecer totalmente impermeáveis à novidade da graça. Quando reduzimos Jesus às nossas categorias humanas, quando O fazemos entrar nos nossos hábitos confortáveis, deixamos de O escutar como Senhor. Vemos Nele apenas o "filho do carpinteiro".
2. A exegese do desprezo: a impossibilidade do milagre sem a fé
O Evangelho emprega uma palavra muito forte para descrever a reação do povo de Nazaré: «ficaram profundamente escandalizados por causa dele». Em grego, o texto utiliza o verbo eskandalizonto (ἐσκανδαλίζοντο), que significa literalmente que eles tropeçavam numa pedra de tropeço. Jesus tornou-se para eles um escândalo, não porque fizesse o mal, mas porque ultrapassava a ideia que eles tinham feito Dele.
Há aqui um mistério muito profundo sobre a liberdade humana e o respeito que Deus tem por ela. A onipotência de Deus detém-se diante da porta fechada da liberdade humana. Jesus não pode realizar milagres onde não há fé, não porque o Seu poder seja limitado, mas porque o milagre não é um espetáculo de mágica: é um encontro de aliança! Sem a abertura do coração, a Graça não pode produzir os seus frutos.
O Salmo 68, que a liturgia nos faz rezar hoje, é o grito desse profeta rejeitado: «Tornei-me um estranho para os meus irmãos, um desconhecido para os filhos da minha mãe. O zelo pela tua casa me devora; os insultos dos que te insultam caíram sobre mim» (Sl 68, 9-10). É a própria sofrimento de Cristo, que veio para o que era seu, e os seus não O receberam.
3. A voz dos profetas e a armadilha do conforto enganoso
À imagem dos ouvintes de Jeremias, que não suportavam ser questionados no átrio do Templo, frequentemente preferimos os discursos que nos tranquilizam à Palavra que nos converte. O doutor místico, São João da Cruz, nos advertia: «É de grande temeridade querer medir a profundidade dos caminhos de Deus pela pequena dimensão do nosso espírito humano, e acostumar-se a escutar a verdade apenas quando ela se ajusta aos nossos desejos.» (Subida do Monte Carmelo, Livro II, capítulo 19).
Quando reduzimos o Evangelho às nossas conveniências, fazemos exatamente o mesmo que as pessoas de Nazaré: recusamos deixar que Cristo seja o Profeta que perturba as nossas vidas. Cristo não vem para validar as nossas rotinas nem as nossas tranquilidades burguesas; Ele vem para introduzir o fogo do Seu amor e renovar os nossos corações. Se a nossa fé já não nos surpreende, se a Palavra de Deus nunca questiona os nossos julgamentos ou hábitos, é porque substituímos o Deus vivo por uma "lembrança tranquilizadora".
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Não permitamos que a nossa familiaridade com as coisas de Deus se transforme em insensibilidade. Hoje mesmo, Cristo quer fazer maravilhas na nossa vida, na nossa família, no nosso trabalho... Mas pede-nos uma única coisa: a fé, isto é, um coração pobre, disponível, capaz de se deixar surpreender pela Sua Graça. Para que o nosso dia seja iluminado por esta Palavra, proponho:
Olhar para os nossos próximos com um olhar novo: Não reduzamos aqueles que nos cercam aos seus defeitos ou ao seu passado. Cristo fala-nos frequentemente através das pessoas mais simples do nosso cotidiano.
Rezar antes de ler a Bíblia ou de receber a Eucaristia: Peçamos ao Senhor que afaste a rotina. Não nos aproximemos dos sacramentos por hábito, mas com a fervor de um coração que espera um novo encontro.
Aceitar a contradição profética: Quando uma palavra do Evangelho ou um ensinamento da Igreja nos incomodar, não nos fechemos; deixemo-nos questionar e peçamos a Graça de compreender o que o Senhor quer curar em nós.
Oração
Senhor Jesus, perdoai-me por todas as vezes em que Vos encerrei nas minhas ideias estreitas e nos meus hábitos sem vida. Perdoai-me por me ter aproximado de Vós com a autossuficiência daqueles que pensam já saber tudo, fechando o meu coração à novidade da Vossa graça.
Dai-me hoje a fé simples e pura dos pobres. Libertai-me da cegueira espiritual que me impede de Vos reconhecer no cotidiano da minha vida e no rosto dos meus irmãos. Vinde realizar no meu coração os milagres que não pudestes realizar em Nazaré, para que toda a minha vida seja o reflexo da Vossa vitória e da Vossa luz. Amém.






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