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- A perfeição do Pai: o salto da graça diante do abismo do ódio
(Terça-feira, 11a Semana do Tempo Comum) Ahab se arrepende após a maldição de Elias. Origem: Haarlem. Data: por volta de 1561. Philips Galle, impressor, Zuid-Nederlands (1537-1612) Leituras da Missa: 1 Rs 21, 17-29 ; Salmo 50/51 ; Mt 5, 43-48 A experiência humana é frequentemente marcada pela busca de uma justiça aritmética e proporcional. Gostamos do que nos é familiar, defendemos o nosso território e respondemos intuitivamente à agressão com uma atitude de legítima defesa ou de retaliação. No entanto, a Palavra de Deus, na liturgia de hoje, mergulha-nos no coração de uma ruptura total com essa lógica de reciprocidade. No último domingo, a Palavra lembrava-nos a imensidão da compaixão divina, esse olhar de Cristo que vê os nossos cansaços e nos reúne: é precisamente sob a luz dessa mesma gratuidade divina que devemos acolher os textos de hoje. A história trágica de Acabe – da primeira leitura – encontra o mandamento mais paradoxal e mais exigente de Jesus: amar os nossos inimigos. Esta exigência não é um moralismo a mais, mas um convite urgente a entrar na própria lógica do Reino, lá onde a justiça humana se deixa superar e transfigurar pela perfeição do Pai. 1. A ruptura do pecado e a reviravolta da consciência O relato do primeiro livro dos Reis mostra o desfecho de um drama espiritual profundo. O rei Acabe cedeu ao capricho, à concupiscência e ao homicídio para se apoderar da vinha de Nabote. O mal cometido não ficou escondido, e a Palavra de Deus, que parecia ausente ontem, agora se revela. De fato, quando o profeta Elias surge, ele age como a voz da consciência adormecida. As palavras que profere são de uma violência aparente terrível, mas carregam em si a verdade nua do ato praticado: «tu cometeste um homicídio e agora tomas posse». A reação de Acabe é surpreendente e ensina-nos algo essencial sobre a natureza humana. Diante do julgamento de Deus, o rei não se endurece: rasga as suas vestes, cobre-se de saco, jejua e caminha lentamente. Este comportamento expressa um desmoronamento do orgulho, uma tomada de consciência da gravidade da sua falta, e Deus, que sonda os corações, percebe imediatamente a verdade dessa humilhação. A misericórdia divina agarra a menor fissura na carapaça do nosso pecado para aí infundir o perdão. O Salmo de hoje ecoa esta atitude pedindo uma purificação total: «lavai-me por inteiro da minha culpa». A justiça divina não é uma vingança, ela busca sempre suscitar um caminho de vida lá onde o homem tinha semeado a morte. Mas digamos tudo sem nada esconder: porque ainda estamos no Antigo Testamento – a Páscoa, a Paixão de Jesus Cristo ainda não aconteceu –, o mal cometido exige o seu salário, e é por isso que o texto termina dizendo: «não trarei a catástrofe durante a sua vida; será durante o reinado do seu filho que trarei a catástrofe sobre a sua casa.» 2. Superar a lógica da reciprocidade humana Passando agora para o Novo Testamento, para o Enviado do Pai para vencer o mal e manifestar a totalidade do Amor de Deus, temos Jesus que toma conhecimento da sabedoria antiga, que consistia em amar o próximo e odiar o inimigo. Esta visão não era necessariamente perversa, porque, na verdade, refletia simplesmente o funcionamento natural das relações humanas e das solidariedades tribais: protege-se os seus, desconfia-se dos outros; é a justiça do "toma lá, dá cá". Mas Jesus faz uma declaração solene: «Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos». Ao proferir estas palavras, o Cristo quebra a circularidade do coração humano: se amamos apenas aqueles que nos amam, se saudamos apenas os nossos irmãos, permanecemos numa forma de egoísmo partilhado, e aí Jesus faz-nos uma provocação notável: «...que fazeis de extraordinário?». Até os pecadores e os pagãos funcionam dessa maneira. A vida cristã começa precisamente onde a natureza termina e dá espaço para que a graça assuma o controle. O inimigo não é apenas aquele que nos persegue fisicamente; é também aquele que nos incomoda, aquele que quebra o nosso conforto espiritual ou que nos fere com as suas atitudes. Amar o inimigo não significa nutrir por ele um sentimento de simpatia natural, o que seria impossível, mas querer o seu bem, rezar pela sua salvação e recusar reduzi-lo à falta que cometeu em relação a nós. 3. Tornar-se filhos pela imitação do sol de Deus O fundamento teológico desta exigência radical encontra-se no próprio ser de Deus e, de fato, Jesus convida-nos ao amor dos inimigos para sermos verdadeiramente os filhos do nosso Pai que está nos céus. A filiação divina não se decreta de maneira abstrata, mas verifica-se por uma semelhança no comportamento quotidiano. Deus «faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos.» A própria natureza carrega a marca desta generosidade universal não merecida. O sol não escolhe os rostos que ilumina, a chuva não seleciona os campos que rega… Deus não condiciona o seu amor à nossa fidelidade, Ele ama! E é essa superabundância original que deve tornar-se a medida do nosso próprio agir; o cristão (outro Cristo) é chamado a tornar-se um canal dessa ternura universal. Quando rezamos por aqueles que nos perseguem, deixamos de ser as vítimas do seu ódio para nos tornarmos os instrumentos da sua redenção; é dessa forma que introduzimos num mundo ferido pela vingança uma lógica totalmente nova, a da gratuidade absoluta. 4. A perfeição evangélica como plenitude do amor A conclusão desta passagem é frequentemente mal compreendida e suscita temor: «Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito». Se compreendermos a perfeição no sentido moralizador ou técnico de uma ausência total de defeitos, estaremos condenados ao desânimo. Mas, na linguagem de São Mateus, a perfeição designa a plenitude de um coração que não se divide, um coração que ama sem impor condições nem fronteiras. A perfeição do Pai é a universalidade da sua misericórdia. Ser perfeito como o Pai é amar com a mesma largura, a mesma altura e a mesma profundidade que Ele. São João da Cruz – e já tivemos a oportunidade de o citar outras vezes –, lembra-nos com profundidade que «onde não há amor, coloca amor e colherás amor». É exatamente o salto da fé ao qual Jesus nos convida. Trata-se de não mais esperar que o outro mude para começar a amá-lo, mas de saturar o espaço do nosso quotidiano com esta caridade divina que foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo. É o único caminho para que a nossa vida quotidiana se torne verdadeiramente teologal. Conclusão e aplicação para o nosso dia A liturgia de hoje impele-nos a examinar a qualidade das nossas relações quotidianas: é fácil ser cortês com aqueles que nos apreciam, mas como reagimos diante da contradição, da crítica ou da indiferença? O perigo seria querer cumprir este mandamento pelas nossas próprias forças, o que nos conduziria à hipocrisia ou ao esgotamento. Hoje, escolhamos deliberadamente uma pessoa com quem a relação seja difícil, ou alguém que nos tenha ferido recentemente. Não procuremos sentir grandes sentimentos, mas façamos um ato concreto: rezemos sinceramente por ela no segredo do nosso coração, confiemos a sua vida ao Senhor e, se surgir a oportunidade, dirijamos-lhe uma saudação ou um gesto de benevolência desarmante: se ela o acolher, o mal será quebrado para ambos; se não o acolher, pelo menos você tomou a iniciativa e em você o mal será quebrado, e você continuará a rezar por essa pessoa. Deixemos que a graça quebre as nossas lógicas de fechamento para permitir que o sol do Pai brilhe através dos nossos atos. Oração Senhor Jesus, Olha para a pobreza do meu coração e para a facilidade com que me recolho nas minhas certezas e nas minhas simpatias naturais. A Tua palavra de hoje abala-me e mostra-me como ainda estou longe da liberdade dos filhos de Deus. Peço-Te a graça de me dares um coração largo, capaz de superar as ofensas e as mesquinhices da vida quotidiana. Ensina-me a rezar por aqueles que não me amam, por aqueles que me criticam ou que me rejeitam. Não permitas que o mal dos outros dite a minha conduta ou apague a alegria do teu Espírito em mim. Que o teu amor gratuito, que me procurou quando eu era ainda pecador, se torne a única medida das minhas relações. Torna o meu coração semelhante ao teu, para que a minha vida testemunhe, ainda que um pouco, a perfeição e a ternura do Pai celeste. Amém.
- Segunda-feira, 11a Semana do Tempo Comum
Giotto: O Cristo diante do sumo sacerdote Caifás (entre 1304 e 1306) A força do despojamento: romper a corrente do mal Leituras da Missa: 1 Rs 21, 1-16 ; Sl 5 ; Mt 5, 38-42 Quando lemos as Escrituras com um coração sincero, somos frequentemente tomados pelo contraste violento entre a lógica do mundo (a nossa) e a de Deus. O texto da primeira leitura, do primeiro livro dos Reis, mergulha-nos numa narrativa de corrupção, capricho e homicídio. É a história do rei Acabe que quer possuir o que não lhe pertence, e de Jezabel, sua mulher, que se utiliza do poder e também da religião, da lei, para destruir um inocente. Portanto, o texto evoca o tema da injustiça gratuita, porque no fim Nabote está morto! Diante desta escuridão, o Salmo de hoje é um clamor para Deus, enquanto Jesus, no Evangelho, traz-nos uma resposta avassaladora para este problema; num primeiro impacto, poderíamos até julgá-la injusta. Com efeito, se ontem meditámos sobre o olhar de compaixão de Cristo para com a multidão cansada e sem pastor, é esse mesmo olhar hoje — que está repleto da memória da aliança gratuita de Deus — que nos permite compreender a radicalidade do Sermão da Montanha. Para viver segundo a justiça no mundo, Jesus não nos pede um esforço moral sobre-humano; Ele nos convida a viver a partir de uma outra fonte. 1. O capricho do possuir e a fidelidade à herança O rei Acabe tem tudo, mas falta-lhe a vinha de Nabote. A primeira leitura evoca o drama permanente do coração humano, o de esquecer muito facilmente tudo o que recebemos para nos focalizarmos naquilo que nos falta. Na verdade, o capricho de Acabe o adoece, ele vira-se para a parede e recusa-se a comer. E se vemos que a sua tristeza não é um luto legítimo, mas a mera frustração do ego que não pode possuir. À inversa, Nabote encarna a fidelidade à aliança, isto é, o reconhecimento de que a terra é um dom de Deus, uma herança de seus pais, e por isso não a vende, pois não se comercializa com os dons do Senhor. É então que entra a terceira personagem, Jezabel, que, na sua reação, introduz a lógica da mentira e da manipulação. Ela organiza um jejum religioso para mascarar um assassinato: e aqui temos o ápice da perversão, porque ela utiliza o nome de Deus para legitimar a violência e o roubo. A consequência é que Nabote morre, porque disse não à mundanidade. Este relato mostra-nos onde leva o desejo de posse quando se abandona a Aliança com Deus: ele destrói o outro. É a lógica do mundo desde sempre, de relações pela força subtis ou brutais, onde o fraco é sacrificado no altar do interesse dos poderosos. 2. Para além da justiça humana: a revolução da outra face No Evangelho de hoje, Jesus dá-nos uma solução: «Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. Eu, porém, digo-vos: não respondais ao mau. Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.». Mas para compreender esta frase, é preciso ultrapassar uma leitura superficial que veria nela cobardia ou resignação. Com efeito, a lei do talião — «olho por olho, dente por dente» — já era um progresso histórico para limitar a vingança ilimitada, mas Jesus pretende curar a raiz do mal, não apenas canalizar os seus efeitos. Oferecer a outra face não é um ato de submissão, muito pelo contrário: é um ato de soberania espiritual. Concretamente, aquele que te bate quer dominar-te, quer constranger-te a entrar na sua lógica de ódio ou de medo. Ao ofereceres a outra face, recusas que o mau dite o teu comportamento, quebras o espelho da violência, dizes-lhe, pela tua atitude: o teu golpe não tem poder sobre a minha identidade de filho de Deus. É a liberdade dos mártires, a dos Padres da Igreja que afirmavam que o cristão não combate o perseguidor, mas o pecado que destrói o perseguidor… Por esta atitude, desarma-se o adversário mostrando-lhe um espaço que ele não pode alcançar. 3. A lógica da surabondância: o manto e os dois mil passos Jesus prossegue com exemplos muito concretos da vida quotidiana da época. A túnica, na verdade, era a roupa de corpo, e o manto, a proteção indispensável para a noite, que a lei judaica proibia de guardar em penhor. Jesus diz: «A quem quiser demandar contigo para te tirar a túnica, deixa-lhe também o manto». Do mesmo modo para a questão dos passos, uma requisição feita pelos soldados romanos: «E se alguém te obrigar a caminhar mil passos, caminha com ele dois mil.» O segredo desta atitude reside na passagem da coação para o dom. Com efeito, a violência trata-te como um objeto, mas pela graça, tu reaproprias-te da situação tornando-te um sujeito que dá. Forçam-te a caminhar mil passos? Caminha dois mil por amor, e o soldado já não é um carrasco, torna-se o beneficiário de uma caridade que ele não compreende. São João da Cruz escrevia que «onde não há amor, coloca amor e colherás amor»; é a aplicação direta desta intuição: saturar a injustiça por uma superabundância de bem. Não se vence o mal pelo mal, afoga-se o mal no bem (cf. Rm 12, 21). Conclusão e aplicação para o nosso dia A Palavra de Deus hoje convida-nos a examinar as nossas reações diante das contrariedades, das injustiças quotidianas ou das agressões verbais que sofremos. O nosso primeiro reflexo é frequentemente replicar com a mesma moeda, defender ferozmente os nossos direitos ou queixarmo-nos como o rei Acabe quando as coisas não vão como desejávamos. Hoje, tentemos viver a lógica do Reino numa situação concreta. Se alguém nos agredir com uma palavra dura, pensemos em Jesus Cristo, que é o nosso modelo, e respondamos pelo silêncio ou por uma palavra de paz, não violenta e de bênção. E se exigirem de nós um serviço fastidioso, façamo-lo com uma generosidade que ultrapassa a simples obrigação. Não deixemos que o comportamento dos outros destrua a paz interior que o Cristo nos deu; é assim que preservaremos a vinha do nosso coração, a nossa verdadeira herança espiritual. Oração Senhor Jesus, Livra-me do desejo de querer sempre responder à violência com a violência, ao desprezo com o desprezo. Tu conheces a minha fragilidade e o quanto o meu ego se revolta rapidamente diante da injustiça ou da crítica. Ensina-me essa liberdade real que te caracteriza, tu que, diante dos teus carrascos, escolheste o perdão e o dom total da tua vida. Dá-me a força de oferecer a outra face espiritual, não por fraqueza, mas por amor, para a salvação daquele que me fere. Enche o meu coração com a tua superabundância para que eu saiba dar mais do que aquilo que me pedem, e caminhar uma milha a mais com aqueles que me cansam. Que a minha única riqueza seja o teu amor, a fim de que nada deste mundo possa despojar-me da minha paz. Amém.
- Décimo Primeiro Domingo do Tempo Comum - Ano A
Domenico Ghirlandaio: A vocação dos primeiros apóstolos Pedro e André (1481) O olhar de compaixão: da ferida da ovelha ao dom da missão Leituras da Missa: Ex 19, 2-6a ; Sl 99/100 ; Rm 5, 6-11 ; Mt 9, 36 – 10, 8 Il y a des jours où la Parole de Dieu nous rejoint au cœur de notre réalité la plus brute, celle qu’on fait le plus grand effort pour la cacher de tout le monde, l’Évangile la révèle parce que Dieu veut bien y travailler. Le texte de l’Évangile d’aujourd’hui, selon saint Matthieu, s'ouvre sur un constat d'une profonde honnêteté humaine : « … voyant les foules, Jésus fut saisi de compassion envers elles parce qu’elles étaient désemparées et abattues comme des brebis sans berger. » Nous savons bien que ce regard du Christ n'est pas une simple observation extérieure, superficielle ou lointaine. Le terme grec original c’est εσπλαγχνισθη (esplagknisthê), du verbe σπλαγχνίζομαι (splagknizomai), évoque un bouleversement des entrailles, remué dans ces intestins, une douleur physique ressentie face à la détresse de l'autre, du vient l’être ému, compassion. Donc, ce verset de l’Évangile veut nous dire que Dieu se laisse toucher par notre fatigue intérieure. En effet, c'est à partir de cette blessure humaine que naît l'histoire du salut, une histoire qui se déploie depuis le Sinaï jusqu'au cœur de notre vie quotidienne. 1. Portés sur les ailes de l'aigle : la mémoire de l'alliance Pour comprendre la profondeur de l'Évangile d'aujourd'hui, nous devons remonter à la première lecture, dans le désert du Sinaï. Le peuple d'Israël vient de vivre la libération d'Égypte, mais il est fatigué, fragile, installé face à la montagne… C'est à ce moment précis que Dieu parle à Moïse. C’est intéressant noter que Dieu ne lui donne pas immédiatement des lois ou des obligations, mais Il lui rappelle d'abord une expérience vécue : « … Je vous ai portés comme sur les ailes d'un aigle et vous ai amenés jusqu'à moi. » C'est une image d'une tendresse infinie ! L'aigle ne pousse pas ses petits, elle les soutient sous ses propres ailes lorsqu'ils tombent. À partir de cette image, nous pouvons comprendre qu’avant d'exiger quoi que ce soit, Dieu donne. En effet, la vie spirituelle commence toujours par une mémoire, celle d'avoir été aimé et sauvé gratuitement quand nous étions incapables de nous libérer nous-mêmes. L'alliance que Dieu propose n'est pas un contrat commercial entre partenaires égaux, mais l'accueil d'un domaine particulier, d'une intimité où l'homme devient un prêtre, c'est-à-dire un pont entre le ciel et la terre. C'est celui-là le fondement de l'Ancien Testament qui trouve son plein accomplissement dans le Nouveau, lorsque le Christ regarde la foule fatiguée. 2. Le réalisme des noms : appeler notre pauvreté Face à la moisson abondante et aux ouvriers peu nombreux, la réponse de Jésus est déconcertante de simplicité. En fait, Jésus n'élabore pas une stratégie de communication, pas une structure de pouvoir… rien de cela. Mais Il appelle ses douze disciples et le texte prend le temps d'énumérer leurs noms. Ce détail est crucial : le Christ n'appelle pas des profils anonymes, il appelle des personnes réelles avec leur histoire, leur caractère et leurs blessures. Regardons quelques noms de cette liste : il y a Pierre, qui le reniera ; Jacques et Jean, les fils du tonnerre aux ambitions trop humaines ; Matthieu le publicain, perçu comme un traître à sa patrie ; et même Judas l'Iscariote, celui-là même qui le livra… Quelle audace de la part de Dieu ! Jésus fonde son Église non pas sur un comité d'hommes parfaits ou d'intellectuels irréprochables, mais sur des êtres fragiles et souvent même contradictoires. Saint Paul le confirme admirablement dans sa lettre aux Romains, la deuxième lecture d’aujourd’hui : « le Christ est mort pour nous alors que nous étions encore pécheurs ». La confiance que Dieu place dans l'homme précède sa conversion : c'est en faisant l'expérience de leur propre faiblesse pardonnée que ces hommes seront capables de comprendre et de soigner les brebis perdues. 3. Les instructions du chemin : la logique de la confiance Voyons encore un autre aspect intéressant de l’Évangile d’aujourd’hui : une fois les douze sont appelés, Jésus les envoie en mission mais avec des consignes très strictes et bien précises. Ils doivent aller en priorité vers les brebis perdues de la maison d'Israël, et leur message se résume dans une seule phrase : « … proclamez que le royaume des Cieux est tout proche ». Le Royaume des Cieux n'est pas une théorie philosophique, mais une Présence accessible, un Dieu qui s'est fait le prochain de l'homme blessé. Mais l’autre aspect intéressant et souvent malentendu ce sont les gestes qu'ils doivent accomplir : « Guérissez les malades, ressuscitez les morts, purifiez les lépreux, expulsez les démons ». Ce sont exactement les actions de Jésus ! L'envoyé, donc, ne doit pas prêcher ses propres idées, il doit prolonger les gestes de tendresse du Maître. Mais pour agir de cette façon il leur faut une liberté totale : on ne peut pas annoncer un Royaume gratuit si l'on est encombré par le désir de posséder ou de réussir selon les critères du monde. Les disciples sont invités à marcher avec légèreté, sans s'installer dans le confort, en comptant uniquement sur la providence de Celui qui les envoie ; cette attitude donne efficacité et fécondité de la mission, qui dépend donc directement de leur capacité à rester de simples instruments de la grâce divine. 4. Le secret de la gratuité : donner ce qui a été reçu Mais la clé de toute cette page évangélique réside dans la dernière recommandation du Christ : « Vous avez reçu gratuitement : donnez gratuitement ». Et c'est ici que se rejoignent toutes les lectures de ce dimanche, et éclairer des questions fondamentales : Pourquoi l'Église existe-t-elle ? et pourquoi sommes-nous envoyés dans le monde, dans nos familles, sur nos lieux de travail ? Ce n’est pas pour imposer une doctrine, mais pour faire circuler un don reçu. Comme le disaient souvent les Pères de l'Église, l'homme ne possède rien qu'il n'ait reçu de Dieu. Si nous oublions la gratuité de notre salut, nous transformons notre foi en une quête de mérites ou en un moralisme rigide ! C'est la tentation constante de l'homme que de vouloir payer sa dette envers Dieu, de vouloir mériter son amour. Or, l'amour de Dieu ne se mérite pas, il s'accueille ! Jean de la Croix nous rappelle que l'âme se purifie pour laisser passer la lumière divine, comme une vitre laisse passer le soleil. Plus nous acceptons notre pauvreté spirituelle, plus nous devenons capables de donner sans rien attendre en retour, devenant ainsi de véritables reflets de la compassion du Christ pour le monde. Conclusion et application pour notre journée Le message de ce dimanche nous bouscule dans nos manières de voir l'efficacité et la réussite. En effet, nous vivons souvent dans la peur de ne pas être à la hauteur, d'être trop fragiles ou trop peu nombreux face aux défis de l'existence. Jésus alors change notre regard : notre fatigue et nos limites ne sont pas des obstacles à Son action, elles sont le lieu même où Sa compassion peut se manifester. Aujourd'hui, prenons le temps de faire mémoire des moments où le Seigneur nous a portés sur les ailes de l'aigle, ces moments où sa grâce nous a relevés sans que nous l'ayons mérité. Et dans nos rencontres quotidiennes, face aux personnes désemparées ou abattues que nous croiserons, ne répondons pas par des conseils froids ou des jugements, mais offrons-leur ce que nous avons de plus précieux : une écoute gratuite, un regard de bonté, un geste de paix. C'est par cette humble gratuité que le Royaume des Cieux devient visible au milieu de nous. Prière Seigneur Jésus, Pose ton regard de compassion sur mes propres fatigues et sur les moments où je me sens abattu ou désemparé comme une brebis sans berger. Tu connais mon nom, Tu connais toute mon histoire, mes pauvretés et mes limites, et pourtant, Tu continues à m'appeler et à me faire confiance. Apprends-moi à me souvenir chaque jour que Tu m'as porté et sauvé gratuitement, alors que je n'avais rien à t'offrir. Délivre-moi de la tentation de vouloir mériter Ton amour ou de mesurer ma valeur à mes réussites humaines. Donne-moi un cœur léger, libre de tout désir de possession, pour que je sache transmettre Ta paix et Ta guérison autour de moi. Que ma vie quotidienne devienne un reflet de Ta gratuité, afin que ceux qui souffrent découvrent, à travers mes humbles gestes, que Ton Royaume est tout proche. Amen.
- Sábado, X Semana do Tempo Comum - Coração Imaculado da Bem-aventurada Virgem Maria, Memória
William Holman Hunt: A Descoberta do Salvador no Templo (1854/1855) O coração de Maria: da Dor de perder ao Bem-estar de acolher Leituras da Missa: 1 Rs 19, 19-21 ; Salmo 15/16 ; Lc 2, 41-51 A liturgia faz-nos viver um deslocamento interior impressionante: ontem, contemplávamos o Coração transpassado do Filho, fonte jorrante de todo amor gratuito; hoje, voltamo-nos para o Coração Imaculado de sua Mãe. Se o Coração de Jesus é o dom, o Coração de Maria é o lugar por excelência do acolhimento. Mas este acolhimento não tem nada de uma passividade tranquila ou de uma evidência romântica. De fato, o texto de São Lucas mergulha-nos no realismo de uma crise familiar, de um evento doloroso onde a fé é colocada à prova do silêncio e da incompreensão. 1. A ruptura de Eliseu e o eco do Sagrado Coração A primeira leitura, do primeiro livro dos Reis, mostra-nos Eliseu em pleno trabalho: um homem laborioso, instalado na sua vida quotidiana com as suas doze juntas de bois; mas a passagem de Elias, que «passou perto dele e lançou o seu manto sobre ele», vira a sua rotina ao avesso. A resposta de Eliseu é imediata, mas ele não se contenta em simplesmente partir: «matou os bois e, com a madeira do arado, cozinhou a carne e deu-a a comer àquela gente». É a imagem de uma escolha irreversível! Não se pode seguir o profeta guardando uma saída de emergência, deixando os arados intactos caso a aventura termine mal. Esta radicalidade de Eliseu ecoa poderosamente com a festa do Sagrado Coração que acabamos de celebrar: o Amor absoluto de Deus exige uma resposta absoluta, uma liberdade que aceita queimar tudo para se apegar ao único necessário. No Salmo de hoje, temos o salmista que canta magnificamente: «Ó Senhor, sois vós a minha parte e o meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino». O nosso coração refugia-se onde colocamos as nossas seguranças e os nossos afetos. Eliseu faz da sua ruptura uma festa para os seus, transformando o desapego num ato de pura generosidade. 2. A angústia da perda: quando Jesus nos escapa No Evangelho de hoje, encontramos uma atmosfera totalmente diferente, a da peregrinação a Jerusalém. Jesus tem doze anos, a idade da maturidade religiosa, e o evento começa com um drama estritamente humano: a perda de um filho. Maria e José caminham um dia inteiro pensando que Jesus está na caravana. E este fato, por si só, já deveria nos fazer refletir: quantas vezes avançamos na nossa vida espiritual pensando que Jesus está connosco, por hábito, quando na verdade nos afastamos da sua presença real? A angústia de Maria e de José dura três dias. Estes três dias de busca dolorosa pelas ruas de Jerusalém antecipam, de maneira evidente, os três dias de trevas entre a Cruz e a Ressurreição. Portanto, o que temos aqui é que Deus às vezes se faz ausente dos nossos sentimentos. Ele permite que experimentemos a falta, não para nos punir, mas para despertar e dilatar o nosso desejo. Procurar Jesus chorando, como fazem os seus pais, é aceitar que a nossa relação com Ele não seja uma posse tranquila, mas uma busca sempre renovada, visto que o amor é dinamismo e não uma rotina. 3. O Templo e a palavra que desconcerta Quando finalmente O encontram no Templo, a reação de Maria é de uma sinceridade avassaladora: «Filho, por que nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» É o clamor do amor materno ferido pela incompreensão. E a resposta de Jesus, longe de a tranquilizar, parece quase dura: «Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar na casa de meu Pai?» Aqui joga-se uma ruptura muito mais profunda do que a dos arados de Eliseu. Jesus redefine os laços de sangue à luz da sua missão divina; Ele lembra a Maria e a José que não lhes pertence, mas pertence ao seu Pai dos céus. O texto nota com muito recato que eles «não compreenderam as palavras que ele lhes disse»: a fé começa frequentemente onde as nossas lógicas humanas desmoronam. Amar a Deus, a relação com Deus, é aceitar não compreender tudo imediatamente, e por isso aceitar que o Cristo quebre as nossas projeções e as nossas expectativas imediatas para nos conduzir a horizontes maiores, e nesse momento dizer com o Salmo de hoje: «também o meu corpo repousará seguro. Porque vós não abandonareis a minha alma na morte, nem deixareis o vosso santo ver a corrupção.» 4. O santuário do coração: o lugar da maturação O Evangelho conclui com o regresso a Nazaré na submissão ordinária — «Desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso» —, mas São Lucas acrescenta esta nota preciosa: «Sua mãe guardava no coração todas estas recordações.» A palavra grega utilizada para guardava (διετήρει) sugere a ação de reter cuidadosamente, reunir peças dispersas, unir aquilo que parece contraditório. O coração de Maria é o verdadeiro laboratório da fé. Efetivamente, Maria não apaga a sua dor, não rejeita a palavra misteriosa de seu Filho; ela deposita-a no mais profundo de si mesma, esperando que a luz do Espírito venha revelar o seu sentido. Como dizia belamente Santa Teresa de Ávila, a alma assemelha-se a um castelo interior onde Deus habita, mas é preciso tempo para lhe explorar as moradas. Maria, por sua vez, habita o seu próprio coração com paciência; ela aceita viver com o incompreensível. O seu coração é imaculado precisamente porque é puro de todo o egoísmo, livre do desejo de possuir o seu filho. Ao tornar-se o cofre-forte dos mistérios de Deus, o coração de Maria mostra-nos o caminho de toda a vida cristã: transformar as nossas crises e as nossas noites de fé em espaços de contemplação silenciosa. Conclusão e aplicação para o nosso dia O Coração Imaculado de Maria não é um modelo acessível apenas aos privilegiados da santidade, mas, pelo contrário, é uma escola para o nosso quotidiano. Hoje, todos encontramos situações que nos escapam: um projeto que falha, um ente querido que já não compreendemos, uma oração que parece ficar sem resposta, ou essa sensação dolorosa de que Deus se afastou da nossa vida, etc. A atitude de Maria convida-nos a não reagir na revolta ou no imediatismo. Em vez de procurar resolver tudo ou tudo controlar através dos nossos próprios raciocínios, tiremos tempo para descer a nós mesmos; aprendamos a guardar esses acontecimentos no nosso coração, a apresentá-los a Deus no silêncio, sem exigir respostas imediatas. Peçamos a graça de desapegar as nossas mãos daquilo que queremos possuir a todo o custo, para deixar a Deus a liberdade de agir à Sua maneira e no Seu tempo. Oração Senhor Jesus, Confio-Te hoje as zonas de sombra da minha vida, esses acontecimentos que não compreendo e que provocam em mim inquietação ou sofrimento. Ensina-me, a exemplo da tua santíssima Mãe, a não fugir do mistério do teu silêncio, mas a procurar a tua presença no coração mesmo das minhas noites. Dá-me a força para queimar os meus próprios arados, essas falsas seguranças e esses desejos de controle que me impedem de te seguir livremente. Livra-me da necessidade de ter certezas imediatas e da tentação de querer moldar-Te às minhas próprias expectativas. Maria, Mãe atenta e silenciosa, empresta-me o teu coração para que eu saiba acolher a Palavra de teu Filho, mesmo quando ela me abala ou me desconconcerta. Ensina-me a guardar e a meditar todas as coisas na paciência e na confiança, para que a minha vida se torne, também ela, um santuário onde o teu amor possa crescer e dar fruto. Amém.
- Sexta-feira, Sagrado Coração de Jesus - Ano A, Solenidade
Pompeo Batoni, Sagrado Coração de Jesus (1767) Le secret des tout-petits : habiter le repos du Cœur de Dieu Lectures de la Messe : Dt 7, 6-11 ; Psaume 102/103 ; 1 Jn 4, 7-16 ; Mt 11, 25-30 Nous vivons dans un monde épuisé, tout le monde est épuisé. En fait, nous vivons dans un monde où tous courent auprès de la reconnaissance, et tous s'essoufflent à force de vouloir prouver sa valeur et mesurent l'existence à la quantité de ses performances. Cette fatigue que beaucoup d’entre nous la sentent ne touche pas seulement nos corps, mais elle ronge aussi nos âmes : c’est l’épuisement de celui qui croit qu'il doit sans cesse mériter le droit d'être aimé. Dans cette Solennité du Sacré-Cœur, la liturgie vient briser cette logique infernale. En fait, on célèbre un quelque chose qui nous détache de nos performances pour nous installer dans une évidence bouleversante : avant que nous fassions quoi que ce soit pour Dieu, nous sommes le fruit d'un choix d'amour absolument gratuit ! Célébrer le Cœur de Jésus, ce n'est pas honorer une dévotion lointaine ou sentimentale, c'est toucher la source incandescente de notre identité la plus profonde. 1. La logique du choix divin : la force de la petitesse La page du Deutéronome que nous lisons aujourd'hui, dans la première lecture, pose les fondements de toute l'histoire du salut. Moïse rappelle au peuple une vérité déconcertante : si Dieu s'est attaché à vous, ce n'est pas parce que vous étiez grands ou nombreux, c'est précisément parce que vous étiez le plus petit de tous les peuples. Il y a ici une véritable révolution exégétique de la part de Dieu, c’est-à-dire, comment Il nous voit, comment Il interprète les choses. En fait, l'amour humain s'attache souvent à ce qui est beau, fort, performant ou gratifiant, tandis que l'amour de Dieu, lui, ne cherche pas des qualités préalables pour aimer ; c'est son amour même qui crée la beauté et la valeur de celui qu'il choisit. Ce choix gratuit de la part de Dieu est le fondement de l'Alliance : Dieu ne s'intéresse pas si nous sommes forts, grands ou autre ; Il s’intéresse à notre capacité d'accueil. En nous révélant que nous sommes son domaine particulier, Il nous libère de l'angoisse de devoir faire des efforts pour attirer son regard. Et rappelons-nous que le peuple d’Israël vient de sortir d’une condition d’esclavage, et donc il n’y avait aucune richesse, rien qui pouvait attirer le regard, rien qui pourrait plaire... Et c'est exactement là que Dieu pose son cœur : le Cœur de Dieu bat d'abord pour ce qui est petit, démuni et fragile. 2. L'accès au mystère : la louange du Fils Cette logique de l'Ancien Testament trouve plein accomplissement dans le cri de joie de Jésus de l'Évangile d’aujourd’hui. Jésus tressaille de joie sous l'action de l'Esprit et Il loue son Père : « Père, Seigneur du ciel et de la terre, je proclame ta louange : ce que tu as caché aux sages et aux savants, tu l’as révélé aux tout-petits. » Et nous savons bien qui sont ces savants : sont ceux qui comptent sur leurs propres forces, sur leur érudition, sur leur justice personnelle ou leur rectitude morale pour leur propre gloire ; sont ceux qui pensent n'avoir besoin de rien ni de personne. Le tout-petit, en grec le νηπίοις (nèpios), c'est celui qui ne parle pas encore, c’est l'enfant qui dépend totalement de ses parents. Le tout-petit selon l'Évangile n'est pas celui qui manque d'intelligence, mais celui qui a l'intelligence de savoir qu'il ne s'auto-suffit pas. Le tout-petit est simple et il traite la vie avec les mains ouvertes, il prêt à recevoir. Saint Jean de la Croix disait que pour posséder le tout, il faut ne vouloir rien posséder. En traduisant : cette louange de Jésus nous apprend que ‘‘le secret de Dieu’’ on ne l’apprend pas dans les manuels de théologie, mais dans la posture de l'enfant qui se laisse instruire et aimer. Le père François-Marie Léthel dans sa thèse sur la théologie des saints dit que « tous les saints sont théologiens et seuls les saints sont théologiens », car la véritable théologie n'est pas une simple spéculation intellectuelle, mais une connaissance amoureuse et vécue du Christ, incarnée dans l'expérience mystique. 3. La révélation réciproque : l'intimité du Père et du Fils Jésus, dans cette Évangile, affirme que « personne ne connaît le Fils, sinon le Père, et personne ne connaît le Père, sinon le Fils, et celui à qui le Fils veut le révéler ». Le mot connaître ici, dans la tradition biblique, dépasse largement l'exercice intellectuel, mais il fait plutôt référence à communion de vie, à une intimité profonde, à un amour partagé. Jésus alors qui se révèle et qui nous révèle le Père, nous introduit dans sa propre relation filiale. Cette Évangile, la célébration d’aujourd’hui veut nous rappeler que le Cœur de Jésus est la seule porte d'entrée authentique pour découvrir le vrai visage du Père. Une autre révélation que nous avons dans la Liturgie d’aujourd’hui nous vient de la deuxième lecture, où Saint Jean nous affirme que « Dieu est amour ». Cette affirmation est très importante parce qu’un peu trop souvent nous culpabilisons, nous projetons sur Dieu nos propres blessures, nos peurs de ne pas être à la hauteur, l'image d'un juge sévère qui comptabilise nos fautes. Mais Saint Jean, dans ce texte, ne nous parle pas d’une simple caractéristique de Dieu mais de sa définition même : « Dieu est amour » ! En découvrant, alors, le Cœur du Christ, nous pouvons comprendre que le Père ne nous regarde pas à travers le prisme de nos échecs, mais à travers les yeux de son Fils unique. En fait, le Christ désire ardemment nous faire entrer dans cette connaissance amoureuse qui guérit les fausses images que nous avons dans notre cœur de la paternité divine. 4. Le vrai repos : l'invitation du Cœur doux et humble C'est alors que résonne l'invitation la plus consolante de toute l'Écriture : « Venez à moi, vous tous qui peinez sous le poids du fardeau, et moi, je vous procurerai le repos ». Jésus, clairement, ne s'adresse pas à des hommes parfaits, mais à des hommes fatigués. Le fardeau dont Jésus parle ici, il est double : c'est d'une part le poids d'une existence souvent lourde et blessée, mais c'est aussi le poids d'une religion légaliste et formaliste, celle des scribes qui imposaient des fardeaux insupportables sans remuer le petit doigt pour les aider. Jésus alors propose un échange, Il nous demande de prendre Son joug. Le joug, à l'époque, était la pièce de bois qui liait deux bœufs ensemble pour tirer la charrue. Prendre le joug de Jésus, ce n'est pas recevoir une charge supplémentaire, c'est accepter de ne plus avancer seul. Le joug du Christ est léger parce que c'est Lui qui tire le plus gros de la charge ; et marcher avec Lui sous son joug signifie entrer dans le rythme de sa douceur et de son humilité. Le repos de notre âme ne vient pas de l'absence de difficultés : nôtre repos vient de la certitude que nous traversons les épreuves attachés au Cœur de Celui qui a vaincu le monde. 5. La source de la mission : l'amour en actes Saint Jean, dans la deuxième lecture, nous rappelle une règle absolue de la vie chrétienne : « Bien-aimés, puisque Dieu nous a tellement aimés, nous devons, nous aussi, nous aimer les uns les autres ». L'expérience du Cœur de Jésus ne peut pas être une fuite mystique hors du monde ou un repli individualiste sur mon petit bien-être spirituel. Si nous disons que nous demeurons en Dieu alors que nous fermons notre cœur à notre frère, nous nous trompons nous-mêmes. « Dieu, personne ne l'a jamais vu », continue Jean dans sa lettre. Alors, comment le rendre visible dans un monde qui ne croit plus ? La seule façon pour le monde de voir le Cœur de Dieu aujourd'hui, c'est de le voir battre à travers nos propres relations humaines. Lorsque nous pardonnons, lorsque nous accueillons le plus fragile, lorsque nous cessons de juger, c’est-à-dire « si nous nous aimons les uns les autres, Dieu demeure en nous, et, en nous, son amour atteint la perfection ». Le Cœur ouvert du Christ à la Croix devient la source jaillissante d'où nous puisons la force d'aimer au-delà de nos sympathies naturelles. Conclusion et application pour notre journée La Solennité du Sacré-Cœur nous place devant une décision fondamentale pour notre vie quotidienne : allons-nous continuer à porter seuls nos fardeaux, nos inquiétudes pour l'avenir, nos culpabilités mal digérées ? Ou allons-nous enfin accepter de devenir des tout-petits qui déposent tout dans le Cœur du Christ ? Aujourd'hui, l'invitation est concrète. Prenons un moment de silence, descendons dans notre cœur et identifions ce qui nous fatigue le plus en ce moment : une relation difficile, une peur de l'échec, une blessure du passé… Prenons ce fardeau précis et, par un acte de foi tout simple, confions-le au Cœur doux et humble de Jésus. Cessons de vouloir tout contrôler par nos propres forces, et choisissons aujourd'hui de conformer nos paroles et nos regards à la douceur du Christ, en offrant une parole d'encouragement ou un geste de paix à quelqu'un qui, autour de nous, courbe la tête sous le poids de sa propre fatigue. Prière Seigneur Jésus, Je viens à Toi aujourd'hui avec ma fatigue, mes limites et tout le poids de mes fardeaux intérieurs. Tu connais mon désir de bien faire, mais Tu vois aussi combien je m'épuise parfois à vouloir mériter Ton amour et celui des autres, en oubliant que Ta grâce est un don totalement gratuit. Merci pour Ton Cœur grand ouvert, qui ne rejette personne et qui reste ma seule patrie véritable. Apprends-moi le secret des tout-petits. Délivre-moi de l'orgueil de vouloir tout comprendre et tout maîtriser par mes propres forces. Donne-moi l'humilité de m'asseoir à Tes pieds et de recevoir Ta vie sans rien avoir à prouver. Je dépose sous Ton joug mes inquiétudes, mes blessures et mes faiblesses. Que Ta douceur vienne apaiser mes révoltes secrètes et que Ton humilité guérisse mon besoin d'apparaître fort ou supérieur. Puisque Tu m'as aimé le premier, alors que j'étais si petit et fragile, donne-moi un cœur capable de refléter Ta tendresse. Que ma vie devienne, à mon humble mesure, un espace de repos pour ceux que Tu mettras sur mon chemin aujourd'hui. Amen.
- Quinta-feira, X Semana do Tempo Comum, São Barnabé - Memória
Ícone moderno, às vezes chamado de Virgem da Contemplação ou Nossa Senhora do Monte Carmelo de estilo bizantino, foi concebido e codificado por mosteiros carmelitas de rito bizantino A justiça do coração: da chuva de Elias ao perdão que liberta Leituras da Missa: 1 Rs 18, 41-46 ; Salmo 64/65 ; Mt 5, 20-26 Se ontem falámos do problema de ter uma fé fragmentada, devemos estar conscientes também de um outro perigo que espreita a nossa vida espiritual: o do minimalismo. E aqui refiro-me à tendência natural do nosso ego de querer cumprir os seus deveres ao menor custo, contentando-se em obedecer às regras exteriores para manter a boa consciência. Isto significa que fixamos limites ao nosso amor, fronteiras à nossa paciência, e declaramo-nos quites com Deus e com os outros sob o pretexto de que não fizemos nada de manifestamente condenável. Nesta quinta-feira da décima semana do tempo comum, a Palavra de Deus vem quebrar essa ilusão confortável para nos convidar a entrar na lógica da superabundância. Para bem compreender o apelo deste dia, não esqueçamos o contexto litúrgico em que pela Providência nos encontramos: a Solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo que celebrámos no último domingo. Na Eucaristia, Jesus não nos dá uma sobra, Ele não calcula a Sua oferenda; Ele dá tudo, o Seu corpo entregue e o Seu sangue derramado, até à última gota. É este rio de generosidade divina que serve de pano de fundo para a nossa meditação de hoje. Não se pode receber um Deus que se dá sem medida e continuar a viver uma fé mesquinha, calculista ou puramente formal. 1. A obstinação da oração diante do céu fechado O texto do primeiro livro dos Reis mostra-nos o profeta Elias no topo do Carmelo, após a grande vitória contra os profetas de Baal. A seca espiritual e material ainda pesa sobre o país, mas Elias já ouve o ruído da chuva. O que é fascinante aqui é a atitude do profeta: ele não atribui a si mesmo nenhum poder, curva-se em direção à terra, com o rosto entre os joelhos, numa postura de total ocultamento e de pura intercessão: ele sabe que a chuva é um dom gratuito do céu, e não o resultado de uma técnica humana ou porque ele fez algo bem feito e, portanto, merece ser atendido. A lição mais avassaladora desta passagem reside na insistência de Elias: por sete vezes, ele envia o seu servo a olhar em direção ao mar. Isto significa que por seis vezes consecutivas, recebeu a resposta fria: «não há nada». Quantos de nós teríamos abandonado logo à segunda ou terceira tentativa, concluindo que, se Deus existe, Ele se faz de surdo? A oração autêntica não é uma fórmula mágica de efeito imediato, mas um aprendizado da espera e da confiança absoluta. À sétima vez, surge uma pequena nuvem, do tamanho do punho de um homem: é o início da efusão. Deus responde sempre, mas espera que o nosso desejo seja purificado pela perseverança. Essa pequena nuvem prefigura a graça que em breve vai submergir a terra e a história. 2. Para além da fachada: a revolução da justiça cristã No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia uma frase que deve ter lançado o pânico entre os seus ouvintes: «se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus». Devemos lembrar-nos de que, para os judeus da época, os fariseus eram os campeões incontestáveis da moralidade; de facto, passavam a vida a escrutinar e a aplicar a Lei nos seus mínimos detalhes. A pergunta que se impõe é justamente: ‘‘como fazer melhor do que eles’’? Então, claramente, o Cristo não fala de quantidade, mas de qualidade. A justiça dos fariseus é uma justiça de fachada, que se detém no ato exterior. A Lei diz ‘‘Não matarás’’, e isso é perfeito, mas Jesus desce mais fundo, lá onde o homicídio tem a sua origem, ou seja, o coração humano. Para o Cristo, a ira guardada, o desprezo expresso pelo insulto ou o julgamento destrutivo são já homicídios em gérmen. Tuer alguém não é apenas fazer o seu coração parar de bater, mas é destruí-lo pela nossa indiferença, crucificá-lo pelas nossas murmurações ou excluí-lo da nossa estima. Ao dizer isto, Jesus opera uma revolução interior: a santidade não se mede pela ausência de escândalo exterior, mas pela pureza das nossas intenções mais secretas. 3. A urgência do irmão: o verdadeiro culto que Deus aceita Esta mesma lógica da nova justiça, Jesus leva-a ao ponto de abalar o aspeto mais sagrado da vida humana: o culto. Ele apresenta a cena de um homem que se aproxima do altar para apresentar a sua oferta; é o momento mais solene da vida religiosa e, no entanto, o Cristo ordena: «se fores apresentar a tua oferta ao altar, e ali te lembrares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta». Notemos a precisão do texto: Jesus não diz se tu tens alguma coisa contra o teu irmão, mas se «o teu irmão tem alguma coisa contra ti». Mesmo que te julgues no teu direito, que tenhas agido corretamente, a dor ou a ferida do outro deve tornar-se a tua prioridade absoluta. Deus recusa que utilizemos o culto como uma ‘‘cortina de fumaça’’ para mascarar as nossas ruturas fraternas; Ele não quer as nossas ofertas se elas estiverem manchadas por uma guerra fria com o nosso próximo. A maior parte dos Padres da Igreja lembrava que não se pode amar a Cabeça, que é o Cristo, enquanto se rasga o Seu corpo, que é o nosso irmão. O Cristo diz-nos, portanto, que o caminho da reconciliação é um caminho de urgência: «Reconcilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho…». Cada minuto passado no rancor ou na recusa do perdão é uma prisão psicológica e espiritual que construímos para nós mesmos, e da qual não sairemos antes de pagar até ao último centavo. O perdão não é um sentimento opcional, mas uma decisão vital. Conclusão e aplicação para o nosso dia O desafio que a Palavra de Deus nos lança hoje é o da honestidade para connosco mesmos. É fácil julgarmo-nos em regra com Deus porque não cometemos nenhum crime grave, mas o que dizer dos pequenos homicídios quotidianos que cometemos com a nossa língua, os nossos julgamentos precipitados, as nossas exclusões ou as nossas amarguras obstinadas? Hoje, tiremos tempo para olhar para o nosso coração: haverá um altar interior ocupado por um rancor? Haverá um irmão ou uma irmã com quem o diálogo está interrompido, em relação a quem alimentamos uma ira surda, silenciosa? Não esperemos por condições perfeitas para dar o primeiro passo. À imagem de Elias que perseverou sete vezes diante do vazio, purifiquemos a nossa oração incluindo nela aqueles que nos feriram ou a quem nós ferimos; faça o exercício de rezar por esses irmãos e irmãs. Escolhamos deliberadamente a reconciliação e o desarmamento do coração, pois é por isso que se reconhecem os verdadeiros cidadãos do Reino. Oração Senhor Jesus, Venho diante de Ti com a verdade do meu coração, que tantas vezes é tentado pela lógica do menor esforço e das aparências elogiosas. Tu conheces as minhas iras secretas, as minhas impaciências e esses julgamentos severos que lanço sobre os meus irmãos, enquanto exijo para mim mesmo a Tua misericórdia infinita. Já que Te dás a mim sem reserva e sem cálculo em cada celebração da Eucaristia, dá-me a força de entrar, por minha vez, nessa justiça superior que recusa o minimalismo. Livra-me da hipocrisia dos fariseus, que limpam o exterior do copo, mas deixam o interior cheio de rancor. Se hoje um dos meus irmãos tem alguma coisa contra mim, ou se o meu coração está ferido pela ofensa, dá-me tudo o que é necessário para deixar as minhas certezas e os meus orgulhos ao pé do Teu altar para ir buscar a paz. Faz de mim um artesão de reconciliação, rápido a perdoar e pronto a pedir perdão. Como o profeta Elias, ensina-me a santa obstinação da oração, para que das minhas secas interiores brote, pela Tua graça, uma chuva de amor e de bênção sobre o mundo. Amém.






