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Segunda-feira, 11a Semana do Tempo Comum

  • 14 de jun.
  • 5 min de leitura
Giotto: O Cristo diante do sumo sacerdote Caifás (entre 1304 e 1306)
Giotto: O Cristo diante do sumo sacerdote Caifás (entre 1304 e 1306)

A força do despojamento: romper a corrente do mal

Leituras da Missa: 1 Rs 21, 1-16 ; Sl 5 ; Mt 5, 38-42


Quando lemos as Escrituras com um coração sincero, somos frequentemente tomados pelo contraste violento entre a lógica do mundo (a nossa) e a de Deus. O texto da primeira leitura, do primeiro livro dos Reis, mergulha-nos numa narrativa de corrupção, capricho e homicídio. É a história do rei Acabe que quer possuir o que não lhe pertence, e de Jezabel, sua mulher, que se utiliza do poder e também da religião, da lei, para destruir um inocente. Portanto, o texto evoca o tema da injustiça gratuita, porque no fim Nabote está morto! Diante desta escuridão, o Salmo de hoje é um clamor para Deus, enquanto Jesus, no Evangelho, traz-nos uma resposta avassaladora para este problema; num primeiro impacto, poderíamos até julgá-la injusta. Com efeito, se ontem meditámos sobre o olhar de compaixão de Cristo para com a multidão cansada e sem pastor, é esse mesmo olhar hoje — que está repleto da memória da aliança gratuita de Deus — que nos permite compreender a radicalidade do Sermão da Montanha. Para viver segundo a justiça no mundo, Jesus não nos pede um esforço moral sobre-humano; Ele nos convida a viver a partir de uma outra fonte.


1. O capricho do possuir e a fidelidade à herança

O rei Acabe tem tudo, mas falta-lhe a vinha de Nabote. A primeira leitura evoca o drama permanente do coração humano, o de esquecer muito facilmente tudo o que recebemos para nos focalizarmos naquilo que nos falta. Na verdade, o capricho de Acabe o adoece, ele vira-se para a parede e recusa-se a comer. E se vemos que a sua tristeza não é um luto legítimo, mas a mera frustração do ego que não pode possuir. À inversa, Nabote encarna a fidelidade à aliança, isto é, o reconhecimento de que a terra é um dom de Deus, uma herança de seus pais, e por isso não a vende, pois não se comercializa com os dons do Senhor.

É então que entra a terceira personagem, Jezabel, que, na sua reação, introduz a lógica da mentira e da manipulação. Ela organiza um jejum religioso para mascarar um assassinato: e aqui temos o ápice da perversão, porque ela utiliza o nome de Deus para legitimar a violência e o roubo. A consequência é que Nabote morre, porque disse não à mundanidade. Este relato mostra-nos onde leva o desejo de posse quando se abandona a Aliança com Deus: ele destrói o outro. É a lógica do mundo desde sempre, de relações pela força subtis ou brutais, onde o fraco é sacrificado no altar do interesse dos poderosos.


2. Para além da justiça humana: a revolução da outra face

No Evangelho de hoje, Jesus dá-nos uma solução: «Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. Eu, porém, digo-vos: não respondais ao mau. Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.». Mas para compreender esta frase, é preciso ultrapassar uma leitura superficial que veria nela cobardia ou resignação. Com efeito, a lei do talião — «olho por olho, dente por dente» — já era um progresso histórico para limitar a vingança ilimitada, mas Jesus pretende curar a raiz do mal, não apenas canalizar os seus efeitos.

Oferecer a outra face não é um ato de submissão, muito pelo contrário: é um ato de soberania espiritual. Concretamente, aquele que te bate quer dominar-te, quer constranger-te a entrar na sua lógica de ódio ou de medo. Ao ofereceres a outra face, recusas que o mau dite o teu comportamento, quebras o espelho da violência, dizes-lhe, pela tua atitude: o teu golpe não tem poder sobre a minha identidade de filho de Deus. É a liberdade dos mártires, a dos Padres da Igreja que afirmavam que o cristão não combate o perseguidor, mas o pecado que destrói o perseguidor… Por esta atitude, desarma-se o adversário mostrando-lhe um espaço que ele não pode alcançar.


3. A lógica da surabondância: o manto e os dois mil passos

Jesus prossegue com exemplos muito concretos da vida quotidiana da época. A túnica, na verdade, era a roupa de corpo, e o manto, a proteção indispensável para a noite, que a lei judaica proibia de guardar em penhor. Jesus diz: «A quem quiser demandar contigo para te tirar a túnica, deixa-lhe também o manto». Do mesmo modo para a questão dos passos, uma requisição feita pelos soldados romanos: «E se alguém te obrigar a caminhar mil passos, caminha com ele dois mil.»

O segredo desta atitude reside na passagem da coação para o dom. Com efeito, a violência trata-te como um objeto, mas pela graça, tu reaproprias-te da situação tornando-te um sujeito que dá. Forçam-te a caminhar mil passos? Caminha dois mil por amor, e o soldado já não é um carrasco, torna-se o beneficiário de uma caridade que ele não compreende. São João da Cruz escrevia que «onde não há amor, coloca amor e colherás amor»; é a aplicação direta desta intuição: saturar a injustiça por uma superabundância de bem. Não se vence o mal pelo mal, afoga-se o mal no bem (cf. Rm 12, 21).


Conclusão e aplicação para o nosso dia

A Palavra de Deus hoje convida-nos a examinar as nossas reações diante das contrariedades, das injustiças quotidianas ou das agressões verbais que sofremos. O nosso primeiro reflexo é frequentemente replicar com a mesma moeda, defender ferozmente os nossos direitos ou queixarmo-nos como o rei Acabe quando as coisas não vão como desejávamos.

Hoje, tentemos viver a lógica do Reino numa situação concreta. Se alguém nos agredir com uma palavra dura, pensemos em Jesus Cristo, que é o nosso modelo, e respondamos pelo silêncio ou por uma palavra de paz, não violenta e de bênção. E se exigirem de nós um serviço fastidioso, façamo-lo com uma generosidade que ultrapassa a simples obrigação. Não deixemos que o comportamento dos outros destrua a paz interior que o Cristo nos deu; é assim que preservaremos a vinha do nosso coração, a nossa verdadeira herança espiritual.


Oração

Senhor Jesus,

Livra-me do desejo de querer sempre responder à violência com a violência, ao desprezo com o desprezo. Tu conheces a minha fragilidade e o quanto o meu ego se revolta rapidamente diante da injustiça ou da crítica. Ensina-me essa liberdade real que te caracteriza, tu que, diante dos teus carrascos, escolheste o perdão e o dom total da tua vida.

Dá-me a força de oferecer a outra face espiritual, não por fraqueza, mas por amor, para a salvação daquele que me fere. Enche o meu coração com a tua superabundância para que eu saiba dar mais do que aquilo que me pedem, e caminhar uma milha a mais com aqueles que me cansam. Que a minha única riqueza seja o teu amor, a fim de que nada deste mundo possa despojar-me da minha paz. Amém.


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Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

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