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A perfeição do Pai: o salto da graça diante do abismo do ódio

  • 15 de jun.
  • 6 min de leitura

(Terça-feira, 11a Semana do Tempo Comum)


Ahab se arrepende após a maldição de Elias. Origem: Haarlem. Data: por volta de 1561. Philips Galle, impressor, Zuid-Nederlands (1537-1612)
Ahab se arrepende após a maldição de Elias. Origem: Haarlem. Data: por volta de 1561. Philips Galle, impressor, Zuid-Nederlands (1537-1612)


Leituras da Missa: 1 Rs 21, 17-29 ; Salmo 50/51 ; Mt 5, 43-48


A experiência humana é frequentemente marcada pela busca de uma justiça aritmética e proporcional. Gostamos do que nos é familiar, defendemos o nosso território e respondemos intuitivamente à agressão com uma atitude de legítima defesa ou de retaliação. No entanto, a Palavra de Deus, na liturgia de hoje, mergulha-nos no coração de uma ruptura total com essa lógica de reciprocidade. No último domingo, a Palavra lembrava-nos a imensidão da compaixão divina, esse olhar de Cristo que vê os nossos cansaços e nos reúne: é precisamente sob a luz dessa mesma gratuidade divina que devemos acolher os textos de hoje. A história trágica de Acabe – da primeira leitura – encontra o mandamento mais paradoxal e mais exigente de Jesus: amar os nossos inimigos. Esta exigência não é um moralismo a mais, mas um convite urgente a entrar na própria lógica do Reino, lá onde a justiça humana se deixa superar e transfigurar pela perfeição do Pai.


1. A ruptura do pecado e a reviravolta da consciência

O relato do primeiro livro dos Reis mostra o desfecho de um drama espiritual profundo. O rei Acabe cedeu ao capricho, à concupiscência e ao homicídio para se apoderar da vinha de Nabote. O mal cometido não ficou escondido, e a Palavra de Deus, que parecia ausente ontem, agora se revela. De fato, quando o profeta Elias surge, ele age como a voz da consciência adormecida. As palavras que profere são de uma violência aparente terrível, mas carregam em si a verdade nua do ato praticado: «tu cometeste um homicídio e agora tomas posse».

A reação de Acabe é surpreendente e ensina-nos algo essencial sobre a natureza humana. Diante do julgamento de Deus, o rei não se endurece: rasga as suas vestes, cobre-se de saco, jejua e caminha lentamente. Este comportamento expressa um desmoronamento do orgulho, uma tomada de consciência da gravidade da sua falta, e Deus, que sonda os corações, percebe imediatamente a verdade dessa humilhação. A misericórdia divina agarra a menor fissura na carapaça do nosso pecado para aí infundir o perdão. O Salmo de hoje ecoa esta atitude pedindo uma purificação total: «lavai-me por inteiro da minha culpa». A justiça divina não é uma vingança, ela busca sempre suscitar um caminho de vida lá onde o homem tinha semeado a morte. Mas digamos tudo sem nada esconder: porque ainda estamos no Antigo Testamento – a Páscoa, a Paixão de Jesus Cristo ainda não aconteceu –, o mal cometido exige o seu salário, e é por isso que o texto termina dizendo: «não trarei a catástrofe durante a sua vida; será durante o reinado do seu filho que trarei a catástrofe sobre a sua casa.»


2. Superar a lógica da reciprocidade humana

Passando agora para o Novo Testamento, para o Enviado do Pai para vencer o mal e manifestar a totalidade do Amor de Deus, temos Jesus que toma conhecimento da sabedoria antiga, que consistia em amar o próximo e odiar o inimigo. Esta visão não era necessariamente perversa, porque, na verdade, refletia simplesmente o funcionamento natural das relações humanas e das solidariedades tribais: protege-se os seus, desconfia-se dos outros; é a justiça do "toma lá, dá cá". Mas Jesus faz uma declaração solene: «Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos».

Ao proferir estas palavras, o Cristo quebra a circularidade do coração humano: se amamos apenas aqueles que nos amam, se saudamos apenas os nossos irmãos, permanecemos numa forma de egoísmo partilhado, e aí Jesus faz-nos uma provocação notável: «...que fazeis de extraordinário?». Até os pecadores e os pagãos funcionam dessa maneira. A vida cristã começa precisamente onde a natureza termina e dá espaço para que a graça assuma o controle. O inimigo não é apenas aquele que nos persegue fisicamente; é também aquele que nos incomoda, aquele que quebra o nosso conforto espiritual ou que nos fere com as suas atitudes. Amar o inimigo não significa nutrir por ele um sentimento de simpatia natural, o que seria impossível, mas querer o seu bem, rezar pela sua salvação e recusar reduzi-lo à falta que cometeu em relação a nós.


3. Tornar-se filhos pela imitação do sol de Deus

O fundamento teológico desta exigência radical encontra-se no próprio ser de Deus e, de fato, Jesus convida-nos ao amor dos inimigos para sermos verdadeiramente os filhos do nosso Pai que está nos céus. A filiação divina não se decreta de maneira abstrata, mas verifica-se por uma semelhança no comportamento quotidiano. Deus «faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos.»

A própria natureza carrega a marca desta generosidade universal não merecida. O sol não escolhe os rostos que ilumina, a chuva não seleciona os campos que rega… Deus não condiciona o seu amor à nossa fidelidade, Ele ama! E é essa superabundância original que deve tornar-se a medida do nosso próprio agir; o cristão (outro Cristo) é chamado a tornar-se um canal dessa ternura universal. Quando rezamos por aqueles que nos perseguem, deixamos de ser as vítimas do seu ódio para nos tornarmos os instrumentos da sua redenção; é dessa forma que introduzimos num mundo ferido pela vingança uma lógica totalmente nova, a da gratuidade absoluta.


4. A perfeição evangélica como plenitude do amor

A conclusão desta passagem é frequentemente mal compreendida e suscita temor: «Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito». Se compreendermos a perfeição no sentido moralizador ou técnico de uma ausência total de defeitos, estaremos condenados ao desânimo. Mas, na linguagem de São Mateus, a perfeição designa a plenitude de um coração que não se divide, um coração que ama sem impor condições nem fronteiras.

A perfeição do Pai é a universalidade da sua misericórdia. Ser perfeito como o Pai é amar com a mesma largura, a mesma altura e a mesma profundidade que Ele. São João da Cruz – e já tivemos a oportunidade de o citar outras vezes –, lembra-nos com profundidade que «onde não há amor, coloca amor e colherás amor». É exatamente o salto da fé ao qual Jesus nos convida. Trata-se de não mais esperar que o outro mude para começar a amá-lo, mas de saturar o espaço do nosso quotidiano com esta caridade divina que foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo. É o único caminho para que a nossa vida quotidiana se torne verdadeiramente teologal.


Conclusão e aplicação para o nosso dia

A liturgia de hoje impele-nos a examinar a qualidade das nossas relações quotidianas: é fácil ser cortês com aqueles que nos apreciam, mas como reagimos diante da contradição, da crítica ou da indiferença? O perigo seria querer cumprir este mandamento pelas nossas próprias forças, o que nos conduziria à hipocrisia ou ao esgotamento.

Hoje, escolhamos deliberadamente uma pessoa com quem a relação seja difícil, ou alguém que nos tenha ferido recentemente. Não procuremos sentir grandes sentimentos, mas façamos um ato concreto: rezemos sinceramente por ela no segredo do nosso coração, confiemos a sua vida ao Senhor e, se surgir a oportunidade, dirijamos-lhe uma saudação ou um gesto de benevolência desarmante: se ela o acolher, o mal será quebrado para ambos; se não o acolher, pelo menos você tomou a iniciativa e em você o mal será quebrado, e você continuará a rezar por essa pessoa. Deixemos que a graça quebre as nossas lógicas de fechamento para permitir que o sol do Pai brilhe através dos nossos atos.


Oração

Senhor Jesus,

Olha para a pobreza do meu coração e para a facilidade com que me recolho nas minhas certezas e nas minhas simpatias naturais. A Tua palavra de hoje abala-me e mostra-me como ainda estou longe da liberdade dos filhos de Deus. Peço-Te a graça de me dares um coração largo, capaz de superar as ofensas e as mesquinhices da vida quotidiana.

Ensina-me a rezar por aqueles que não me amam, por aqueles que me criticam ou que me rejeitam. Não permitas que o mal dos outros dite a minha conduta ou apague a alegria do teu Espírito em mim. Que o teu amor gratuito, que me procurou quando eu era ainda pecador, se torne a única medida das minhas relações. Torna o meu coração semelhante ao teu, para que a minha vida testemunhe, ainda que um pouco, a perfeição e a ternura do Pai celeste. Amém.

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Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

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