A lógica da Cruz: Perder a sua vida para verdadeiramente a encontrar
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(22º Domingo do Tempo Comum — Ano A)
Leituras da Missa: Jr 20, 7-9 ; Sl 62 (63), 2, 3-4, 5-6, 8-9 ; Rm 12, 1-2 ; Mt 16, 21-27
Na nossa caminhada no seguimento do Senhor, somos frequentemente confrontados com a ilusão de uma fé que deveria poupar-nos ao sofrimento e garantir-nos um conforto humano. Contudo, a liturgia deste domingo coloca-nos brutalmente diante do mistério essencial do cristianismo. Após a alta confissão de fé de Pedro que meditávamos no domingo passado, o Evangelho deste dia mostra-nos o mesmo Pedro a tropeçar assim que Jesus anuncia a sua paixão e a sua morte. É a eterna tentação de um Messias sem sofrimento, de um cristianismo sem Cruz.
I. A sedução de Deus e o combate interior
A primeira leitura, extraída do livro de Jeremias, encontra um eco imediato nesta dinâmica. O profeta exclama: «Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir». É a experiência íntima daquele que provou a Verdade divina, mas descobre que levar a palavra de Deus acarreta a incompreensão e a provação. Jeremias quer calar-se, mas a Palavra torna-se nele «como um fogo devorador», impossível de reter.
Esta experiência de Jeremias prefigura a atitude de Jesus e a nossa. O compromisso no seguimento de Deus não é um seguro contra as dificuldades cotidianas. Quando o sofrimento ou a rejeição surgem, a primeira tentação é pensar que Deus nos abandona ou que há ali uma contradição com o seu amor. Ora, o amor autêntico não se esquiva diante do sacrifício; nele se verifica e se purifica.
II. A incompreensão de Pedro e a repreensão de Jesus
No Evangelho segundo São Mateus, assim que Jesus revela que deve sofrer, ser morto e ressuscitar, Pedro toma-O de parte e começa a repreendê-Lo: «Deus te livre, Senhor! Isso não te há de acontecer!». A resposta de Jesus é fulminante: «Vai-te daqui, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço».
É impressionante ver que o mesmo Pedro, louvado momentos antes por ter recebido a revelação do Pai, se torna aqui um obstáculo. Por quê? Porque Pedro não pensa segundo Deus, mas segundo os homens. O termo grego utilizado para obstáculo é skandalon, a pedra contra a qual se tropeça. Ao querer afastar Jesus da Cruz, Pedro coloca-se no meio do caminho da salvação. O Senhor ordena-lhe que se coloque "atrás", isto é, que retome o seu verdadeiro lugar de discípulo: caminhar no seguimento do Mestre e não pretender ditar-Lhe o caminho.
III. Tomar a sua cruz: Uma missão e não uma fatalidade
Jesus dirige-se em seguida a todos os seus discípulos: «Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». Carregar a sua cruz não significa procurar o sofrimento de maneira mórbida nem sofrer passivamente um destino doloroso. Para Cristo, a Cruz é o cume da sua missão, o ato supremo pelo qual dá a sua vida por amor.
Tomar a sua cruz é abraçar a nossa própria vocação com todas as exigências e desapegos que ela implica. É aceitar abandonar os nossos pequenos projetos estreitos e os nossos cálculos egoístas para entrar no desígnio maior de Deus. São João da Cruz recordava esta atitude de abandono total necessária para avançar até ao cume do Carmelo, escrevendo que «para vir a possuir tudo, não queiras possuir nada em nada» (Subida do Monte Carmelo). É nessa renúncia às nossas falsas seguranças que o nosso coração se alarga às dimensões da graça.
IV. Perder a sua vida para a ganhar
«Pois quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la». É o paradoxo divino que inverte as nossas lógicas mundanas. Querer reter ciumentamente a sua vida, os seus bens, a sua reputação, é condenar-se a uma existência reduzida e estéril. Ao contrário, entregar a sua vida por amor a Cristo e aos nossos irmãos é aceder à vida verdadeira, a vida da Ressurreição.
Como ensinava também Santa Teresa de Ávila, o Senhor não nos pede para nos perdermos para a nossa ruína, mas para nos desapegarmos do que nos apequena a fim de que encontremos a nossa morada verdadeira N'Ele (O Castelo Interior, IV Moradas). Trata-se de trocar uma vida minúscula pela plenitude da glória. A Cruz não é a última palavra; ela é a passagem estreita que conduz à luz da Ressurreição.
V. A oferenda dos nossos corpos em sacrifício vivo
O apóstolo Paulo, na segunda leitura aos Romanos, vem selar esta meditação exortando-nos a oferecer as nossas pessoas «como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». Este culto espiritual consiste em não nos conformarmos com o mundo presente, mas em nos deixarmos transformar pela renovação do nosso entendimento.
Não se conformar com o mundo é precisamente recusar essa lógica do menor esforço e da busca do prazer imediato. É discernir a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada, o que é perfeito, e cumpri-lo com coragem no concreto de cada dia.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Hoje, o Senhor convida-nos a fazer a verdade na nossa vida espiritual. Viemos à Igreja para que Deus cumpra as nossas vontades ou para aprender a cumprir a Sua?
Para concretizar esta palavra no nosso dia:
Identificar a nossa pedra de tropeço: Qual é a situação, a contrariedade ou o dever que recusamos abraçar porque nos custa?
Aceitar retomar o nosso lugar de discípulo: Em vez de murmurar diante das provações, digamos ao Senhor: «Jesus, não compreendo tudo, mas escolho seguir-Te e abraçar esta realidade por amor a Ti».
Fazer um ato concreto de renúncia: Cedamos do nosso direito ou do nosso conforto em favor de um familiar ou de um colega, transformando essa contrariedade num dom alegre.
Oração
Senhor Jesus,
Tu conheces a fragilidade do meu coração
e a minha lentidão em compreender os Teus caminhos.
Muitas vezes, como Pedro, quero impor-Te as minhas vistas,
fujo da dificuldade e reclamo uma fé sem exigências.
Perdoa as minhas murmurações e os meus medos.
Ensina-me a colocar-me atrás de Ti,
a deixar-me conduzir sem pretender adiantar-me aos Teus passos.
Guarda o meu coração a arder no fogo da Tua Palavra,
para que eu não me esquive diante dos desapegos necessários.
Dá-me a graça de tomar a minha cruz diária,
não como um fardo cego,
mas como o instrumento bendito da minha transformação.
Ensina-me a perder a minha vida com alegria no Teu seguimento,
a fim de a reencontrar, plena e luminosa,
no amor eterno do Teu Pai.
Amém.
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