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A medida sem medida: da armadilha das contas ao abismo do perdão

10 de set.
6 min de leitura

24º Domingo do Tempo Comum — Ano A

Leituras da Missa: Sir 27, 30 – 28, 7 ; Sl 102 (103), 1-2, 3-4, 9-10, 11-12 ; Rm 14, 7-9 ; Mt 18, 21-35


Muito frequentemente o Evangelho apresenta-nos realidades, perguntas que traem imediatamente os nossos esgotamentos espirituais. Quando Pedro se aproxima de Jesus e Lhe pergunta até quantas vezes deve perdoar ao seu irmão, não faz uma pergunta teórica, mas expressa o cansaço do homem que tenta fazer o bem, mas sente o limite das suas próprias forças. Avançar até sete vezes já era dar prova de uma generosidade heróica para a casuística do seu tempo. Mas Jesus não vem adaptar os nossos heroísmos humanos; Ele vem desfazer as nossas contabilidades para instaurar o mundo da graça.

Ao orientar-nos para o vertigem das setenta vezes sete vezes, Cristo não nos impõe um número gigantesco: Ele destrói a lógica do contador. Para nos fazer compreender esta viragem, o Evangelho mergulha-nos no coração de uma parábola magistral. Já a primeira leitura deste dia, do livro de Ben Sirá, o Sábio, estabelece a equação essencial: «Se um homem guarda rancor contra outro homem, como pode pedir a Deus a cura?». O Evangelho de Mateus vem revelar a raiz teológica deste mistério: o perdão não é em primeiro lugar um dever ascético que devemos cumprir para estar à altura, mas é a consequência inevitável de um dom imenso que já recebemos.


1. A desproporção infinita da nossa dívida perdoada

Para captar o drama que se joga nesta parábola, é preciso lançar um olhar atento sobre os números, pois a Bíblia utiliza a exegese das grandezas para falar à nossa alma. O primeiro servo deve ao seu rei a soma astronômica de dez mil talentos. No mundo antigo, um talento representava cerca de seis mil denários, isto é, o salário de seis mil dias de trabalho de um operário. Dez mil talentos equivalem, portanto, a sessenta milhões de moedas de prata, o orçamento de um império, uma dívida que nenhuma vida humana, nem mesmo dez gerações, poderiam pagar.

É aqui que reside a primeira tomada de consciência espiritual: somos todos devedores insolventes diante de Deus. A nossa existência, a nossa respiração, a nossa capacidade de amar, e mais ainda o nosso resgate após o pecado, são de um valor infinitamente superior às nossas capacidades de pagamento. Diante desta imensidão, o servo desmorona e formula uma oração absurda: «Tem paciência comigo e eu te pagarei tudo.» Que ilusão! Acreditamos frequentemente, por um orgulho mal colocado, que poderemos saldar as nossas contas com o Céu pelos nossos próprios méritos, as nossas próprias forças ou os nossos exercícios espirituais.

Mas o senhor da parábola não tem paciência: faz algo infinitamente maior. Mover de compaixão, cancela a dívida. Não reescalona o crédito; suprime o abismo. É o próprio coração do mistério pascal: Deus não negocia com as nossas falências, Ele liberta-nos delas gratuitamente.


2. O drama da incapacidade de metabolizar a graça

Contudo, a história toma um rumo assustador. Apenas saído da sala do trono onde a sua vida acaba de ser salva, esse mesmo servo cruza-se com um dos seus companheiros que lhe deve a modesta quantia de cem moedas de prata — o equivalente a cem dias de trabalho. Uma quantia real, sem dúvida, mas irrisória comparada com os sessenta milhões que lhe acabavam de ser perdoados. E eis que se lança sobre ele, o sufoca e exige o pagamento imediato.

Como pode um homem que acaba de experimentar um tal milagre de misericórdia agir com tamanha crueldade? É o drama da vida espiritual não assimilada. Este homem recebeu o perdão da sua dívida, mas não o deixou descer ao seu coração. Saiu da presença do rei julgando-se simplesmente libertado de uma carga, sem compreender que era chamado a mudar de natureza. Permaneceu no sistema do mérito e da justiça contábil. Como ensinam a tradição espiritual e os grandes doutores da Igreja, a graça recebida que não se transforma em caridade para com o irmão torna-se a nossa própria condenação (São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, 61, 3).

A incapacidade de perdoar ao nosso irmão não vem do fato de a ofensa ser leve, mas do fato de esquecermos o preço pelo qual fomos resgatados. Quando guardamos rancor, afirmamos no fundo de nós que a justiça dos cem denários é mais importante do que a graça dos dez mil talentos.


3. O segredo da pertença ao Senhor

Na segunda leitura, São Paulo escrevia aos Romanos estas palavras de uma profundidade insondável: «Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo [...], pertencemos ao Senhor.» Esta pertença muda radicalmente o nosso olhar sobre as nossas ofensas mútuas. Se já não pertenço a mim mesmo, as minhas ofensas, as minhas feridas e os meus direitos já não são o centro do mundo.

Guardar rancor é querer fazer justiça por si mesmo, é fechar-se na prisão do seu próprio eu ferido. O servo implacável acaba lançado na prisão «até que pagasse tudo o que devia». O rancor é uma auto-encarceramento; ao recusarmos libertar o nosso irmão, selamos a porta do nosso próprio coração. Evidentemente que o perdão não é um sentimento caloroso que apaga magicamente a dor da ferida, mas é uma decisão da vontade que entrega o ofensor nas mãos de Deus e recusa que o mal tenha a última palavra.

Como recordava com tanta lucidez a grande tradição mística, o verdadeiro desapego não consiste apenas em abandonar os bens exteriores, mas em renunciar à nossa vontade própria e a esse direito à vingança que envenena a alma (Santa Teresa de Ávila, O Caminho da Perfeição, cap. 36). Perdoar é abdicar do poder de destruir o outro.


4. O perdão do fundo do coração como participação na vida divina

Jesus conclui com uma palavra que pode parecer severa: «Assim vos tratará também o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar do fundo do coração ao seu irmão.» Não se trata de uma ameaça de um Deus vingativo, mas da constatação de uma lei espiritual incontornável. O coração humano é como um recipiente: se estiver cheio de amargura, de rancor e de julgamento, está hermeticamente fechado à Misericórdia Divina. Deus não pode derramar o seu amor num coração que se encolhe ao ponto de recusar a vida ao seu irmão.

Perdoar do fundo do coração significa aceitar que a lógica de Cristo prevaleça sobre a nossa psicologia ferida. Não é esquecer a história, não é negar o mal cometido, mas é decidir que o mal sofrido já não nos definirá. É deixar a vida do Senhor correr através das nossas feridas para que se tornem, como as chagas do Ressuscitado, fontes de graça.

Quando perdoamos, não fazemos uma obra puramente humana: deixamos Deus ser Deus em nós, porque o próprio Deus já está disponível para o perdão daquele que nos feriu. Ao perdoar, tornamo-nos as testemunhas vivas de um mundo novo onde a lógica da graça derrotou a tirania do mérito.


Conclusão e aplicação para a nossa semana

Caros amigos, o Evangelho de hoje não nos pede para sufocar os nossos sofrimentos ou ignorar as injustiças que sofremos, não! Ele propõe-nos um caminho de libertação radical! Hoje mesmo, somos convidados a fazer o "inventário dos nossos corações". Há um rosto que surge na nossa memória e que provoca imediatamente uma crispação, um desejo de justificação ou uma amargura estagnada? Há um "companheiro" a quem ainda reclamamos as suas cem moedas de prata? A aplicação concreta que podemos propor para a nossa semana, para a nossa vida espiritual, consiste em três passos simples:

  • Fazer memória da nossa própria dívida: Dediquemos um tempo de silêncio para olhar para Cristo na cruz e recordar-nos de que abismo a sua ternura nos tirou. Na verdade, a Santa Missa — a Eucaristia, que significa ação de graças — tem esta finalidade: fazer memória de quanto Deus nos amou e nos ama.

  • Renunciar à contabilidade: Depositemos ao pé do altar o registro das nossas queixas e a lista dos desagravos que consideramos ter sofrido.

  • Fazer um ato de bênção: Oremos nominalmente pela pessoa que nos feriu. Podemos não controlar a nossa sensibilidade imediata, mas podemos oferecer a Deus a nossa vontade de lhe querer o bem. É aí que começa o perdão do fundo do coração.


Oração

Senhor Jesus, apresento-me diante de Ti com a minha pobreza e as minhas feridas. Tu conheces as pessoas que tenho dificuldade em perdoar, as ofensas que guardo na memória e estes "cem denários" que ainda reclamo cegamente aos meus irmãos.

Lembra-me hoje a medida sem medida da Tua compaixão. Perdoaste a infinita dívida dos meus pecados sem que eu jamais a pudesse pagar. Perdoa-me a minha dureza de coração e as minhas impaciências.

Dá-me a graça de não me colocar como juiz dos meus irmãos. Liberta a minha alma do veneno do rancor e da amargura. Hoje, Senhor, escolho entregar nas Tuas mãos toda a ferida e todo o desejo de vingança.

Faz descer a Tua paz ao meu coração, para que eu me torne, no meio deste mundo quebrado, um humilde canal da Tua Misericórdia infinita. Amém.

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Padre Saulo de Tarso

Sou Saulo de Tarso. Através deste blog pessoal, desejo compartilhar com vocês minha paixão pelas Escrituras, teologia e filosofia. Entre meus estudos e meu trabalho, este site é um espaço para aprofundar meu conhecimento de Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui vocês encontrarão meditações e reflexões diárias para nutrir sua vida espiritual.

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